Esta tem sido uma fase má e longa. Já dura há um ano, e durante este ano houve, primeiramente, uns meses de reabilitação lenta mas constante. Depois, de repente, novo afundanço. Muito diferente do primeiro, a começar pelos motivos mas, uma vez mais, a vida puxou-me o tapete numa altura muito agreste de trabalho e mudanças súbitas e inevitáveis. Posso dizer que estou no fim de três semanas infernais, paralelamente ao trabalho que, se fosse uma pessoa normal, que não sou, daria para três. Com a minha inépcia para produzir quando estou preocupada, triste ou adoentada, mais a exigência das minhas chefias, tenho sarna para me coçar que daria para dez iguais a mim.
Há, contudo, alguns factos que me fazem sorrir, ou dar uma grande gargalhada. E todos se prendem com os meus alunos.
O diabo russo do quinto ano é um fedelho vivaço que só pensa em namoradas, gajas giras e bikinis. Não mede mais de meio metro e não se podia estar a marimbar mais para os estudos. Passo a vida a tentar convencer aquela cabeça loura que tem que decorar palavras durante dois anos para, no terceiro, as poder usar como deve ser. Passei horas da minha vida a explicar aos fulaninhos os numerais cardinais e ordinais, e que nas datas se usava o ordinal. Ensinei-os a abreviar, em Inglês, primeiro, segundo e terceiro, mas aquelas almas de nabo todos os santos dias me perguntam "é com th, nd, st???" com o ar mais inocente do Mundo de quem nunca ouviu falar em números, que dirá em abreviaturas, e fazem tudo em regime-totoloto. O diabo russo aprendeu, por martelanço, que a abreviatura de primeiro é st. E escreveu-me esta pérola no teste: 1st, por extenso, "umst"... e eu ia morrendo. Gozei-o tanto que os colegas de turma agora repetem, para o chatear: umst, umst, umst: IBIZA!!!
Por outro lado, a minha direção de turma está cheia de rapazes. Todos, mas todos, parvos e preguiçosos que dá dó. Sempre achei que o mais fraco, além de sorna e com semelhanças incríveis com o Joker do Batman, porque está sempre com o sorriso Nickolson na cara, que só dá vontade de lhe encher as fuças de estalos, era mesmo de curto entendimento. Hoje, virei-me para outro e disse-lhe, ironicamente e furibunda "Não ouças, Gonçalo, que não vale a pena: logo tu que não pescas nada disto!!!" Resposta imediata do Joker, a quem nunca tinha ouvido uma piada, quanto mais inteligente, "Gonçalo, pá, tens que mudar de barragem!"... e tive um ataque de riso.
Outra das que me aquece o coração, mas agora de orgulho, foi a resposta que me deram a uma pergunta minha. Quis eu saber como estava a ser o percurso escolar de determinada miúda transferida da escola. E a resposta, de alguém que nem vai muito com a minha cara, foi "um caos. Só teve excelente a Inglês. Podem dizer o que quiserem de ti, mas há que reconhecer que és uma professora das boas."
E pronto, a minha vida é decadente, mas ainda vou animando, aqui e ali. Ainda bem que, da minha vida, continuam a constar esses seres insuportáveis que eu aturo, aos grupos barulhentos, todos os santos dias.
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