Uma das coisas que aqui a ignorante mais inveja são aquilo a que chama idilicamente "as vidas normais". Tenho a mania de me sair com pérolas como ai, quem me dera ser uma pessoa normal, com uma família normal, e ter uma casinha, um carrinho e um cão, e festejar o Natal com muita gente à mesa e ir de férias todos os anos para o mesmo sítio do Algarve, e ter uma série de meses seguidos de monotonia normal. Esta sou eu, e há muita gente com vontade de me bater agora, e se calhar alguns são, exatamente, seres presos no inferno das suas vidinhas normais.
De Sábado para Domingo, decidi que me ia deixar de merdas e que, durante esta pausa letiva, ia fingir que era uma mulher normal. No Domingo, correu relativamente bem. Levantei-me cedo, como as pessoas normais, fiz tarefas domésticas, fui jantar com uma amiga e beber um licor beirão com ela depois disso. Não fossem as pausas para jogar viciadamente Castleville, teria sido perfeito, mas o meu reino não entra no disfarce, nem as plantações deixam de apodrecer, nem as missões se completam sozinhas, convenhamos.
Hoje a coisa correu muito pior, mas ainda assim, considero que o esforço que fiz valeu a pena. Levantei-me às duas da tarde porque me esqueci de pôr despertador. Logo aí, tudo estragado, ninguém normal se levanta da parte da tarde, não toma pequeno-almoço nem almoça, enfia um galão boca abaixo e sai de casa. Shame on you, Jade-Marie! Mas durante a tarde fui resolver montes de coisas que tinha adiadas, desde ir falar com as moças do ginásio a ir à farmácia, ao supermercado e ao banco, enfim... coisas normais. E, por enquanto, estas preocupações normais estão a ganhar aos pontos a todos os males do Mundo que carrego, invariavelmente, às costas desde o dia em que nasci.
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