Por um acaso infeliz para um dos meus colegas (o filho está doente), o dia para mim acabou por melhorar muitíssimo, já que a reunião a que ele presidia hoje foi cancelada. Pelos motivos que tenho enumerado nos últimos posts, uma tarde livre num dia em que ia estar quinze horas seguidas na escola (sim, leram bem), é motivo para dar vinte pinotes de felicidade. Ora estava eu, muito contente, no intervalo da manhã, a contar isto a uma colega, quando outra se mete na conversa e diz “Com reuniões amanhã e quarta, não percebo tanto contentamento…” Pois não, não era ELA que hoje ia estar quinze horas na escola, é compreensível…
Nem lhe respondi. Ainda a falar com a OUTRA, dizia eu que amanhã vou passar a manhã a prestar declarações em tribunal por causa de um aluno da minha Direção de Turma, que este ano só me saem duques e cenas tristes, e que não ia dar aulas de manhã, ao que a outra respondeu que, com um bocado de sorte, aquilo ainda se prolongava para a tarde e eu tinha o dia todo justificado. Ia rir-me, quando, nova intromissão: “Então e o que é que vou fazer com os teus alunos de nono ano? É que EU é que vou assegurar a TUA turma…”. Não tivesse sido o tom, completamente idiota, com que ela falou comigo, e a coisa tinha sido resolvida no mesmo instante. Mas como eu estou mais do que farta de gente parva, limitei-me a responder calmamente que era a última aula antes do teste, portanto, “assim só por acaso”, seria normal fazer revisões e tirar dúvidas. De resposta, levei com dois encolher de ombros: um da simpática e outro da amiga, por solidariedade, que é um sentimento muito bonito, não fosse estúpido de todo, desta vez.
Primeiro, detesto que me falem com ar de quem estou a dever uma batelada de dinheiro que insisto em não pagar. Segundo, supostamente estamos todas mais ou menos a par, já que a dita mocinha dá também Inglês aos nonos anos, e vamos fazer testes semelhantes e no mesmo dia, coisa que estamos carecas de saber e de fazer, porque as turmas fazem parte do Projeto Mais Sucesso, ou não estivesse eu numa escola de vanguarda. Terceiro, isto vem de uma pessoa a quem eu andei a chagar para me ensinar as melhores técnicas para dar aulas aos miúdos do quinto ano, porque me disponibilizou os materiais todos esperando que eu me desenrascasse a aplicá-los, como se fosse a mesma coisa que no terceiro ciclo, quando não é, nem de longe, o que ela, que dá aulas a ambos os ciclos há dois anos, já deveria ter percebido. Quando lhe perguntei pela quarta ou quinta vez “como é que vocês ensinam isto?” a amiga ainda me respondeu “não tiveste pedagógicas na Faculdade?”. Ao que eu respondi, mentalmente, que sou muito controlada quando a irritação é séria “Senhor, perdoai-lhes que elas não sabem do que falam… havia de ser bonito aplicar as pedagogias do terceiro ciclo aos putos acabados de sair da primária. Ainda se fosse ao contrário…” adiante. Quarto, esta menina específica anda há semanas de trombas comigo. Já lhe perguntei três vezes o que se passa. Nunca é nada. Santa paciência, mas não lhe pergunto o mesmo uma quarta vez. A partir de agora, faço-me de parva e finjo que não é nada comigo. Está chateadinha, tem dois remédios: ou se trata sozinha ou vem falar comigo de uma vez por todas. Se não, que continue a mostrar má cara, que é para o lado que eu durmo melhor.
Já agora, não? Era só o que me faltava. Quarenta e cinco minutos de aula. Um teste de compreensão de leitura e audição na aula seguinte. Que tal, “abram os livros na página xpto e leiam o texto. Respondam às perguntas. Que tipos de perguntas existem? Quais são os pronomes interrogativos? Que significam? Sabem o vocabulário sobre o tema? Há dúvidas?” Qual é o drama? Enfim, se calhar também queria um plano de aula.
Mas como não sou de deixar ninguém pendurado (e numa aflição, pelos vistos, ‘tadinha), avisei os meus alunos de amanhã que lhes vou mandar por mail uma ficha de trabalho para fazerem nos 45 minutos e ma reenviarem para a corrigir. Também a avisei a ela, que nem se dignou a olhar para mim e virou costas. E aí fui eu que encolhi os ombros. E agora vou fazer a fichinha, para não haver mais stresses… e porque não tenho mais nada para fazer, não senhora. (estaria a treinar para Santa, não fosse a quantidade de vezes que já a mandei para sítios muito, muito, feios… tudo mentalmente, claro).
2 comentários:
Parece-me que terias alvos mais justificados, mas como sou a amiga sou suspeita...
Chega e sobra para todos os alvos. Basta só chatearem-me a cabeça (mais do que ela já anda)
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