quarta-feira, 18 de maio de 2011

Singularidades...

... de uma rapariga com madeixas.
Não estou loura nem morena, estou assim como a entremeada, mas com menos gordura. Ultimamente sou tão assim-assim que nem a cor de cabelo escapa ao morno e ao indefinido. Logo eu, pois. Tenho andado a pairar num tanto-faz, não me chateiem, não fervo, nem em muita, nem em pouca água, e os dias arrastam-se iguais e pesados, como anda o tempo antes da trovoada.
Simplesmente hoje, depois de exactamente três meses disto, D. Jade trovejou. Costumava chamar a estas trovoadas o momento em que "via tudo preto" mas, na verdade, conviver com uma depressão como esta que tenho agora, mostrou-me que não, que afinal o que vejo nestes momentos é a luz. Vejo tudo preto quando não vivo, quando sobrevivo indiferente. Costumava dizer que "me passava". Quando realmente "me passei", as coisas foram muito diferentes. Hoje trovejei e senti-me viva, ou melhor, reconheci-me por uns breves instantes. Pisaram-me os calos e eu, finalmente, senti. E aquilo que eu achava antes ser sintoma de desequilíbrio (as explosões, a minha intempestividade, a minha agressividade) é uma singularidade minha, e sintoma de que tudo está exactamente onde deveria estar.
Não quero dizer com isto que esteja curada. Nada disso. Muito, muito longe disso. Dependo de comprimidos para funcionar e funciono nos mínimos e mal. Não há dia nenhum que não me lembre de tudo o que me faz infeliz. Não há dia nenhum em que não lute para mudar o que depende de mim. Não há dia nenhum em que ganhe essa batalha. Como disse ontem, sinto que os progressos são insuficientes, lentos e pouco dignos de orgulho. Na maior parte do tempo, sinto-me frustrada, fraca, estúpida e muito infeliz. Embora esses sentimentos sejam, como tudo o resto, mornos e indiferentes. Mas hoje, pela primeira vez, senti o morno afastar-se por breves instantes. Preferiria que tivesse sido por um bom motivo. Preferiria ter tremido por uma enorme alegria ou um nobre sentimento. Preferia que tivesse sido um sorriso, ou uma gargalhada, ou um corar de orgulho. Mas a fúria fez o mesmo servicinho e para quem é, bacalhau basta. A Jade deu um ar da sua graça, apareceu e desapareceu, mas trouxe a confiança de que nada é definitivo.

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