Acabou-se. São seis da tarde e já tanto fazia que fossem oito da manhã de amanhã e tivesse eu que me fazer à estrada, as férias acabaram, não há remédio. Já tudo me sabe mal, os jogos de computador, as séries de televisão, os cafézinhos no bairro, as visitas preguiçosas ao supermercado, já tudo tem um travozinho amargo de despedida.
Estou sentada na mesa da cozinha, e só de olhar para o lado e ver a tralha que tenho que arrumar para levar, dá-me um aperto no coração. A picadora, os chás que trouxe da Croácia, um pacote das minhas batatas fritas favoritas, sim, Li, são dessas, e mais trezentas coisas que a minha mãe decidiu à última hora que não queria ou não precisava de ter cá em casa, que isto a casa da filha é o depósito nacional de guloseimas e objectos que a mãe rejeita ou resolve, em acessos de generosidade pura e desinteressada, oferecer: olha, este amaciador é fa-bu-lo-so, leva-o lá que deve resultar mesmo bem no teu cabelo; e este molho para massas? Comprei-o a pensar em ti...; divide lá os pacotes de Cappucino, e leva uma embalagem de Nestum. Ah, e não te esqueças do secador de cabelo novo, e de deitares o teu para o lixo mal lá chegues, era só o que me faltava, uma filha de permanente por causa de um secador em curto-circuito! Em curto-circuito tenho eu os neurónios, desde que acordei hoje, Domingo, que eu já detesto por si só, último dia de férias, apre, que pesadelo... ainda ontem fui para a Croácia...
Tenho tantas saudades da minha mãe e da minha gata... sempre que se aproxima a altura de me ir embora, elas ainda estão aqui à mão de semear e dá-me umas saudades infinitas.
(...)
Entretanto já são oito da noite. Fui interrompida pelo telefonema -longo- da minha linda Mary, a inteirar-se das últimas, e a dar as suas boas novidades. Como de costume, conversas são como as cerejas e lá lhe fui dando pormenores infindáveis do ano que passou, das pessoas que conhecemos em comum, dos nossos alunos, que sentem tanto a falta dela, das contrariedades, das particularidades da cidade. Ficou super feliz por saber que, se a sorte ajudar, é possível que me mude para o Algarve. Diz que não guarda boas recordações da Cidade de Deus, embora lá tenha feito amigos, e que no Algarve é que está o futuro. Falar com ela relativizou a minha neura. Para já porque nem a pior das neuras lhe resiste e, claro, chorei a rir ao telefone, com as descrições das férias dela em Amesterdão no ano passado. Depois porque, verdade seja dita, entre votos de boa sorte e bom início de ano lectivo, ela disse, passa num instante, chegas lá, fazes o teu trabalho e vens-te embora para casa onde te espera toda a calma do Mundo. E tem razão. Embora não pareça, tudo é relativo. E nos finalmentes, até os maus momentos foram apenas isso, maus, mas momentos. Coisas pequenas e efémeras que acabam por se dissolver na espuma dos dias.
6 comentários:
Pedindo antecipadas desculpas pela “invasão” e alguma usurpação de espaço, gostaríamos de deixar o convite para uma visita a este Espaço que irá agitar as águas da Passividade Portuguesa...
Ok, convite feito
pois
mas de bom ar
só na Covilhã
e é respirar
futuro
assim assim
somos poucos
mas sem fim
dos calhaus da Covilhã
xinho
e é mesmo à maneira a minha Covilhã
Eu sei. Tenho uma amiga que é de lá. Beijinhos
e posso saber quem ?
o meu mail é jablp@sapo.pt
e nunca conheci uma bloguista pessoalmente
xinho
É minha amiga, mas não é bloguista, é professora aqui comigo na Cidade de Deus
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