Parece que, afinal de contas, não morreu.
Bateu-me à porta. A coxear, de fuças partidas. Diz que foi do embate, a grande velocidade, contra uma parede, a mesma de sempre. Diz que não sabe como a tal parede continua incólume, apesar de tantas vezes levar com ela. Continua branca e altiva, a parede, a lembrar-lhe que ela, Jade, se pode atirar de cabeça contra ela, parede, as vezes que quiser e que a sua estupidez achar necessárias.
Bateu-me à porta a coxear e de fuças partidas, mas com o mesmo sorriso ácido e acidificante, a dizer, achaste que ias ter uma folguinha? Pede-a a Deus... ah, espera, não acreditas n'Ele... azarinho, minha amiga, acreditasses n'Ele como acreditas em tantas outras fraudes.
Bateu-me à porta a coxear, de fuças partidas, sorriso ácido e acidificante e de cigarro entre os dedos. Poupa-me os moralismos, disse-me. Poupa-te a ti a culpa de não resistires à nicotina que te mata lentamente. Já agora, poupa-te todas as outras culpas que te matam mais rápido que a nicotina. Queres fazer algo pela tua saúde? Cresce. Cresce, que é um bom começo. Pés na terra e cabeça na lua é meio caminho andado para o suicídio em vida. Deixa lá os cigarros quando tiveres competência suficiente para ajuizar que te fazem realmente mal. Para adquirires essa competência, tens que adquirir muitas outras que te faltam e são pré-requisitos.
Bateu-me à porta assim. Ontem, pela hora de almoço. Olhou para mim com a cara de quem está a olhar um destroço louro que finge ter-se de pé. E a coxear, com as fuças partidas, de sorriso ácido e acidificante, e um cigarro entre os dedos, disse-me "tenho mil vezes melhor aspecto que tu: dá-te ao respeito!"
E hoje não me largou enquanto não me tirou da cama, "cedo, que é cedo que se abre a pestana e tens trabalho para fazer". E não me largou enquanto não me agarrei ao computador a trabalhar, depois de me ter obrigado a alimentar-me como deve ser. E não me largou enquanto não executei dolorosamente parte das tarefas domésticas da praxe. E ainda está agarrada a mim, a beliscar-me com força de cada vez que um suspiro me trai o fingimento de que não estou a pensar em mais nada senão no que estou a fazer.
E eu agradeço a sua presença, ainda que coxa, de fuças partidas e sorriso ácido e acidificante, a acompanhar com o seu o meu cigarro e a ensinar-me que saúde débil, família desequilibrada, coração partido, impotência emocional, inércia física, descontentamento profissional, amarguras íntimas e pouco dinheiro não são desculpas para ficar na cama a deixar ruir o resto. Mesmo que não se saiba bem identificar que resto é esse.