sábado, 12 de fevereiro de 2011

Jade's Back

Parece que, afinal de contas, não morreu.
Bateu-me à porta. A coxear, de fuças partidas. Diz que foi do embate, a grande velocidade, contra uma parede, a mesma de sempre. Diz que não sabe como a tal parede continua incólume, apesar de tantas vezes levar com ela. Continua branca e altiva, a parede, a lembrar-lhe que ela, Jade, se pode atirar de cabeça contra ela, parede, as vezes que quiser e que a sua estupidez achar necessárias.
Bateu-me à porta a coxear e de fuças partidas, mas com o mesmo sorriso ácido e acidificante, a dizer, achaste que ias ter uma folguinha? Pede-a a Deus... ah, espera, não acreditas n'Ele... azarinho, minha amiga, acreditasses n'Ele como acreditas em tantas outras fraudes.
Bateu-me à porta a coxear, de fuças partidas, sorriso ácido e acidificante e de cigarro entre os dedos. Poupa-me os moralismos, disse-me. Poupa-te a ti a culpa de não resistires à nicotina que te mata lentamente. Já agora, poupa-te todas as outras culpas que te matam mais rápido que a nicotina. Queres fazer algo pela tua saúde? Cresce. Cresce, que é um bom começo. Pés na terra e cabeça na lua é meio caminho andado para o suicídio em vida. Deixa lá os cigarros quando tiveres competência suficiente para ajuizar que te fazem realmente mal. Para adquirires essa competência, tens que adquirir muitas outras que te faltam e são pré-requisitos.
Bateu-me à porta assim. Ontem, pela hora de almoço. Olhou para mim com a cara de quem está a olhar um destroço louro que finge ter-se de pé. E a coxear, com as fuças partidas, de sorriso ácido e acidificante, e um cigarro entre os dedos, disse-me "tenho mil vezes melhor aspecto que tu: dá-te ao respeito!"
E hoje não me largou enquanto não me tirou da cama, "cedo, que é cedo que se abre a pestana e tens trabalho para fazer". E não me largou enquanto não me agarrei ao computador a trabalhar, depois de me ter obrigado a alimentar-me como deve ser. E não me largou enquanto não executei dolorosamente parte das tarefas domésticas da praxe. E ainda está agarrada a mim, a beliscar-me com força de cada vez que um suspiro me trai o fingimento de que não estou a pensar em mais nada senão no que estou a fazer.
E eu agradeço a sua presença, ainda que coxa, de fuças partidas e sorriso ácido e acidificante, a acompanhar com o seu o meu cigarro e a ensinar-me que saúde débil, família desequilibrada, coração partido, impotência emocional, inércia física, descontentamento profissional, amarguras íntimas e pouco dinheiro não são desculpas para ficar na cama a deixar ruir o resto. Mesmo que não se saiba bem identificar que resto é esse.

11 comentários:

Alexandra disse...

Fiquei triste quando anunciaste que a Jade ia morrer. Fiquei mesmo. Porque apesar de poder muitas vezes não comentar, de me sentir reduzida ao ver a tua capacidade fantástica para a escrita (por oposição à minha que é medíocre), sempre li os escritos da Jade com um enorme prazer e sabes bem que me identifico muito com várias vivências que por aqui descreveste. Isto tudo para além do nome que nos liga de alguma forma.
Fico contente por ela não ter morrido. Bem-vinda de volta, Jade. Não nos deixes de novo, sim?

Beijo enoooooooooorme! *

P.S. O último parágrafo comoveu-me. Expressaste por palavras aquilo que eu sou incapaz de expressar e que já há umas boas semanas me acompanha. E 'ficar na cama a deixar o resto ruir' é a única coisa que me apetece. Precisava de ter também uma Jade que me obrigasse a deixar de o fazer.

Anónimo disse...

Thanks, God/Jade, for big/small green mercies... Welcome back, you've been missed/needed!

Jade disse...

Alexandra, bem-vinda... pensei que tinhas deixado de aqui vir, com toda a azáfama que requer a Universidade. A existência não está para graças, minha linda. Costumo dizer que tenho tido uns dias muito beras, mas se me deter para pensar nisso, já vai em meses.
Agora tu, tu minha linda... tens praticamente metade da minha idade. Não tens autorização para te deixares ir abaixo. Tens tudo por viver, toda a esperança do Mundo a tua frente.
Estou de rastos, é verdade. Ainda assim, hoje fiz planificações, corrigi trabalhos de alunos, esfreguei a minha banheira com uma fúria de lhe arrancar o esmalte, esbocei um teste de oitavo ano, passei roupa a ferro... e a noite ainda e uma criança. Que ganhei eu com isso? Menos gritos das chefias, cinco a dez minutos de manhã (o tempo que passaria a passar a roupa desse dia), uma banheira pronta para um banho de imersão que me apeteça tomar, sei lá. Ganhei minutos preciosos de ausência de desgostos que não posso evitar. Dos problemas que tenho, há muitos que não estão na minha mão resolver. O meu conselho para ti é: concentra-te no que podes fazer e age. Aceita o que não podes controlar e anda para a frente. Muitos beijos (meus, e da Jade)

Jade disse...

Onde se lê "se me deter" deverá ler-se "se me detiver". Para além do resto, estou a emburrecer a olhos vistos, mas para isso há solução, estás a ver? Nem tudo escapa do nosso controlo.

Jade disse...

Anónimo, you are welcome... twice. One for showing up, the other for your thanks.

Shadow disse...

Mesmo que ela continue a fumar. My night became warmer and my day brighter knowing she's back. That she's here, for you.

Shadow disse...

Ah, e querida, deixa-me que te diga. Cada vez que lia o "sorriso ácido e acidificante" só me lembrava de "resiliente" é isso o que a jade é. Resiliente.

Jade disse...

Indeed she is. Warm and resilient in a strange dark and twisty particular kind of way. Thanks, Shadow. Shadow lightening up my evening along with my candles there, in the fireplace, as usual.

Alexandra disse...

A Universidade requer uma azáfama terrível mas nunca deixaria de te ler. Só me falta a inspiração para escrever bons comentários e bons textos no meu blog (se é que alguma vez o fiz). Não posso deixar que a Universidade me roube todo o tempo porque senão, aí sim, darei em maluca mais depressa do que me leva a dizer 'trinta e três'.
A aceitação é terrível. Aliás, if I didn't know better, eu diria mesmo que é impossível. Dói-me tudo, quase cada simples célula e estou perdida totalmente. Não ando, pairo. Não vivo, vou sobrevivendo. E estou a chegar ao fundo do poço.
Tenho metade da tua idade mas sinto-me como se tivesse mais do dobro. E não sei como combatê-lo.

***

Anónimo disse...

Excelente fantástico texto. Eu sempre disse que a Jade não podia morrer e ai está ela de volta e pela qualidade do texto não só Jade´s Back mas tmabém Inspiration is back. Very good.
Já tinha saudades de ler a mestria dos teus textos, de quem sabe escerever como pouca gente.
Ès inspiradora

Beijo

JMP

Jade disse...

Zé... poucos exageros, se não te importas. Obrigada, anyway. Se sou inspiradora, aproveita a inspiração e mestra... sabes que só sossego quando te vir mestre, já que parte do meu grau a ti devo. Beijos