Para além das montras e da publicidade, dos outdoors e das referências radiofónicas, das conversas entre amigos e dos projectos com os alunos, as vésperas de S. Valentim são profícuas em referências ao amor... na blogosfera. Tal é evidente neste cantinho, e em muitos outros que consulto e leio habitualmente. É um pouco como o Natal, ou se adora ou se detesta, mas ninguém lhe fica indiferente.
Uns resmungam contra o consumismo (como eu que, hipócrita e dissimulada, resmungo, resmungo, mas dava um ano da minha vida para receber o swatch alusivo, ou o optimus Hello-Kitty, ou um perfume que ando farta do meu, ou uma lingerie preta que vi em Lisboa no último fim-de-semana...), outros contra datas marcadas para expressar sentimentos (como eu que, hipócrita e dissimulada, resmungo, resmungo, mas dava dois anos da minha vida para receber amanhã uma carta de amor manuscrita e perfumada, ou um ano se fosse um postaleco foleiro ou um e-mail...), outros ainda resmungam contra o romantismo demodé em geral, (e eu, ainda assim, dava quatro, não, cinco anos da minha vida por um girassol solitário, um jantar à luz da lareira no chão da sala ou um cesto de piquenique só com dois copos de pé alto e uma garrafa de vinho tinto). Há muita gente a resmungar, e isso faz-me sentir normal.
Ontem lia um comentário a um post de uma blogger de quem gosto muito. Determinado rapaz dizia que, depois de um desgosto de amor (um verdadeiro desgosto, uma coisa marcante, daquelas situações que marcam um "antes" e um "depois" e te acompanham no resto dos teus dias, mudam o teu modo de pensar, sentir e agir e fazem de ti uma pessoa diferente), o tempo pára. Entendo-o. Ele pretendia dizer, suponho eu, que, quando estás em sofrimento, sentes a ausência de movimento, cria-se uma pausa interior, como se fosses um electrodoméstico permanentemente em stand-by a dispender um mínimo energético para estares simplesmente ligado, mas sem grande função ou utilidade.
Ontem, concordei com ele. Hoje, já não me parece exactamente assim. No meu caso, é ao lado: o tempo não pára, o tempo repete-se. Durante uma pausa, há forçosamente um descanso, um relaxamento, uma quietude que permite acumulação de forças. Durante uma pausa, existe espaço à regeneração. Comigo, o tempo repete-se. Os dias surgem todos iguais, a papel químico, e tu estás permanentemente expectante. Esperas pelo ponto de viragem, pelo instante que foge ao banal, pelo grão de areia na engrenagem. E ele não surge. E tu, em vez de descansares, exasperas-te a cada dia perdido. Todos os dias acordas para o mesmo pesadelo, tens as mesmas conversas, fazes as mesmas coisas, vês as mesmas pessoas, e a repetição milimétrica do tempo não te permite saltar para fora da esfera que te envolve, dos círculos concêntricos que a pedra desenhou quando caiu a pique dentro do teu lago.
O que é realmente muito doloroso nas datas festivas, por mais comerciais ou idiotas que pareçam ser, ou que de facto sejam, é que, queiramos ou não, mesmo que tudo aconteça num breve instante, acabamos por pensar sobre assuntos que passamos os restantes dias - iguais e repetitivos como o tic-tac de um relógio de corda - disciplinadamente a evitar.