Há coisas que de tão simples nos passam despercebidas porque as complicamos, muitas vezes porque a sua simplicidade óbvia não nos agrada. Este foi um fim-de-semana dedicado ao tema do amor. Inusitadamente, na fase da vida em que me encontro. Não poderia ser mais surreal, mas assim foi, ditado pelos acasos. Tudo começou com a tal proposta indecente, galhofeira e divertida, uma sms recebida na manhã de 6ª feira. Um flirtzinho inocente, inconsequente e recorrente, de tempos a tempos, a lembrar-me de que sou uma mulher.
As sms prolongaram-se ao longo do fim-de-semana, mudando de tom, para coisas mais sérias, dado que somos amigos e entre amigos a brincadeira é deixada para trás quando valores mais altos se levantam. E quando o meu interlocutor se apercebeu do meu real estado de espírito em relação à minha vida emocional, depressa se deixou de parvoeiras e me ligou. Estivémos algum tempo ao telefone, a pôr a conversa em dia. Num dia em que eu vira dois filmes bastante marcantes e, claro, sobre o amor. Vicky Cristina Barcelona e o Estranho Caso de Benjamin Button. Não vou falar da profundidade em que foram cair aquelas duas fitas numa tarde dedicada ao cinema. Quando uma pessoa se sente vazia, qualquer coisinha lhe bate no fundo, e arriscar-me-ia a fazer a elegia de duas películas que, analisadas de forma racional, poderiam nada mais ser que banais. Por isso, passo. Ao telefone, contudo, acabada de chegar do cinema, trazia a cabeça cheia de palavras e emoções, que despejei no tal amigo.
Ele ouviu-me, em silêncio, e disse-me que me ia escrever um mail. Que achava que tinha chegado a hora de me dizer exactamente o que pensava sobre o assunto, mas que teria que ser por escrito, para organizar melhor o discurso, e para não se deixar levar pelas minhas fragilidades, pela minha sensibilidade. Disse-me, apenas, estás a falhar a informação essencial. Não te livras disso, porque estás a fechar os olhos ao óbvio. E hoje, ao abrir o mail dele, respirei fundo e fui confrontada com a minha verdade. Lembrei-me de um livro apadrinhado pela Oprah Winfrey “He’s just not into you”, e sorri, ao verificar que caí, realmente, no verdadeiro lugar-comum.
Dizia ele, a certa altura de um texto brilhante “Esse senhor, minha amiga, está-se nas tintas para ti. Está-se nas tintas para a tua existência, não quer saber dos teus sentimentos. Já lhe deve ter caído a ficha, conhece-te, sabe que, dadas as circunstâncias, o mais provável é aproveitares os concursos para te pores a andar daí. E o que faz ele? Gere o silêncio. Ignora-te quando tu o interrompes, nas tuas subtilezas costumeiras de menina que não quer impor a sua presença mas que sente uma necessidade atroz de presença, de aproximação. Essa necessidade é natural, minha querida, assim é o amor. O que não é natural são as coisas que inventas, as interpretações que fazes de um silêncio que, da parte dele, não tem qualquer interpretação que não a literal: ele não gosta de ti, mulher. Todas as desculpas que dás para o defender são fruto do teu amor, do teu desejo, da tua saudade. Não os projectes nele, porque eu digo-te: nós, os homens, damo-nos ao luxo de ignorar uma pessoa de quem gostamos muito quando ela está perto de nós, é um dado adquirido, uma presença constante. Quando desce a sombra da ausência, minha linda, tudo muda de figura. Perante um countdown, fala muito mais alto o que é verdadeiro, o desejo, a vontade de ter essa pessoa junto de nós o mais possível, seja para a convencer a ficar, seja para aproveitar o que resta. Se o silêncio continua, é porque nada existe: não se verbalizam emoções inexistentes. Ama-o se não tens outro remédio, mas ama-o consciente de que amas alguém que não nutre por ti qualquer tipo de sentimento, nem o de uma leve amizade. Porque tu és uma miúda incomparável. Alguém de quem gostes mesmo pode contar com uma lealdade rara da tua parte, pode dizer-te tudo, pode despir-se de tudo o que não interessa à tua frente. Ele sabe onde encontrar-te, ele sabe como te agradar, como te apaziguar, é tão fácil fazer-te sorrir. E, se não o faz, se não te procura, se não te escreve, não é para te proteger, princesa. Pensa: achas que há alguém no Mundo, para além de ti mesma, que acredite nisso? Pensas que algum homem recusa tocar numa mulher, sentir-lhe o cheiro, dar-lhe um grande beijo, escrever-lhe um texto, responder-lhe a uma carta, se gostar dela, se precisar dela, com uma intenção altruísta? Não. Não. Ninguém o faz, até porque pessoas inteligentes sabem que nenhum sofrimento por amor é maior que o sofrimento de não se ser amado. Desculpa, minha linda, mas a mim, um comum mortal, faz-me muita espécie que uma mulher bonita e inteligente, como tu, se prenda a mentiras mal-enjorcadas e perca a perspectiva das coisas como elas são. Porque às vezes, elas são mesmo a preto e branco.”
Obrigada, P. Um aplauso de pé, para ti.
Os nossos melhores amigos são aqueles que vêem aquilo que nós não queremos ver, e nos apagam as luzes ao fundo do túnel. Mas caminham ao nosso lado, com uma lanterna na mão.