Quando temos uma intoxicação alimentar, temos vómitos incontroláveis, e muitas vezes o único objectivo é conseguir chegar a tempo à casa-de-banho, a dois metros do nosso quarto. Declaro, assim, perante as evidências, que sofro de uma intoxicação emocional. O meu corpo expele o veneno que me consome o espírito com explosões de água. E o único objectivo é o mesmo, aquele instante fugidio em que te apercebes do que vai acontecer e sais porta fora para chegar a um WC metafórico e não vomitares as lágrimas em público, no colo do desgraçado mais próximo.
Assim foi hoje. Senti uns ameaços no decorrer da última reunião. Para dizer a verdade, os sintomas de ter as emoções intoxicadas começaram ténues antes da hora de almoço, mas eu fiz o costume, ignorei e não fui ao médico. Resultado: estava a cruzar o portão da escola e as lágrimas corriam-me cara abaixo. Quando me sentei no carro já soluçava.
Em casa, disse à Mzinha que tenho medo que Deus me castigue com um problema realmente grave que justifique as lágrimas que choro agora em vão. Quando dizia no interregno que me sinto inútil, tentava explicar que a minha auto-indulgência me deita para o centro de ciclos viciosos dos quais me é muito difícil sair. É preciso muita força de vontade, e o que é tão fácil pregar aos alunos, organização, disciplina, regras, prioridades, é impossível cumprir longe de alicerces fundamentais que nos acertam o passo quando saímos do caminho e nos deixamos abandalhar. A primeira vez que isso me aconteceu foi quando me faltou o avô. É óbvio, e é aceitável. Coincidiu com a altura em que me foi diagnosticada a condição crónica, com a altura em que entrei para estágio, enfim, todo o universo conspirou, então, para um processo de auto-comiseração.
Numa cama de hospital, e em vias de ficar sem dedos na mão direita, levei o tal coice que me fez andar para a frente. E andei. Durante anos as coisas estabilizaram e saí de casa da minha mãe sem grandes danos colaterais, sem me ir abaixo, sem vacilar. O mundo voltou a desabar há uns anos atrás, tal e qual como agora, sem razão aparente. Num sítio perdido deste distrito, na altura já a morar com a Mzinha, mas sem ainda realmente a conhecer, ela com um horário incompleto que lhe permitia semanas de três dias, eu, com um completo. Passava muito tempo sozinha, sei lá, e fui novamente abaixo. Estatelada no chão (Teia, adorei esta imagem), valeram-me então as amigas da altura e os braços fortes de um homem que amava. Valeu-me, ainda, ter vindo para a Cidade-de-Deus, para junto de alguns, poucos mas muito bons, entes queridos.
E agora, isto. A Mzinha definiu magistralmente a forma como me sinto, ao dizer, sabes aquele stress que se apodera de nós quando já concorremos e não fazemos a mínima ideia do que nos vai acontecer? Assim ando eu. Em permanente stress, ansiedade, impaciência, carência. Só me apetece gritar “Abracem-me e digam-me que vai ficar tudo bem, que eu não estou a aguentar-me à bronca”. Só que é daqueles gritos que não saem, como nos pesadelos. E, então, choro. Choro e entro em ciclos viciosos, abandalho horas de refeição, adio compromissos, ignoro assuntos prementes. Quando me sinto a enlouquecer com falta de afecto, adormeço a mexer no cabelo, como se fosse mãe de mim própria. Mas sou uma mãe descuidada e negligente. Sou a que compra a playstation e não impõe regras. E adormeço a mexer no cabelo para, no fundo, dormir com o inimigo. Para entrar numa esquizofrenia de sentimentos de auto-indulgência e culpabilização atroz.
Estou com uma intoxicação emocional e, desta vez, não tenho quem me valha. Tenho amigos, tenho, poucos e óptimos. Mas, desta vez, tenho também a noção muito clara de que tenho que sair desta sozinha. Talvez porque, de há um ano e tal para cá, me falta o mais importante, algo que não me faltava desde os dezoito anos, falta-me uma figura masculina que me ampare. E sei que é muito possível que esta falta inédita me esteja a mexer com tudo o resto, me esteja a mudar o ser e o sentir, o agir, o querer, o decidir. Esta falta inédita tira-me duma rota, afasta-me dos restantes objectivos, deixa-me à deriva: concorrer para onde, se não tenho amarras? Perseguir que sonhos, sem incentivo, sem feedback, sem alguém que se orgulhe dos meus êxitos ou me abrace quando fracasso? Sim, eu sei, há que procurar tudo isso em nós mesmos.
Mas começo a convencer-me, a sério que começo, que dentro de mim não há nada disso. E que cumprir obrigações e satisfazer necessidades fisiológicas não é definição de existir. Não me lembro de outra fase em que a consciência da minha não-existência fosse tão forte. O que fazemos, Teia, quando para além de estateladas no chão não nos conseguimos mexer? Nem para pegar na porra de um telemóvel? O que acontece Teia, quando a opção de lutarmos por nós próprios nos parece infinitamente inútil? O que fazemos, Teia, quando estateladas no chão, a única coisa que nos ocorre é que antes assim, mesmo estateladas num chão real, que a andar por aí com a ilusão de que existimos?
Assim foi hoje. Senti uns ameaços no decorrer da última reunião. Para dizer a verdade, os sintomas de ter as emoções intoxicadas começaram ténues antes da hora de almoço, mas eu fiz o costume, ignorei e não fui ao médico. Resultado: estava a cruzar o portão da escola e as lágrimas corriam-me cara abaixo. Quando me sentei no carro já soluçava.
Em casa, disse à Mzinha que tenho medo que Deus me castigue com um problema realmente grave que justifique as lágrimas que choro agora em vão. Quando dizia no interregno que me sinto inútil, tentava explicar que a minha auto-indulgência me deita para o centro de ciclos viciosos dos quais me é muito difícil sair. É preciso muita força de vontade, e o que é tão fácil pregar aos alunos, organização, disciplina, regras, prioridades, é impossível cumprir longe de alicerces fundamentais que nos acertam o passo quando saímos do caminho e nos deixamos abandalhar. A primeira vez que isso me aconteceu foi quando me faltou o avô. É óbvio, e é aceitável. Coincidiu com a altura em que me foi diagnosticada a condição crónica, com a altura em que entrei para estágio, enfim, todo o universo conspirou, então, para um processo de auto-comiseração.
Numa cama de hospital, e em vias de ficar sem dedos na mão direita, levei o tal coice que me fez andar para a frente. E andei. Durante anos as coisas estabilizaram e saí de casa da minha mãe sem grandes danos colaterais, sem me ir abaixo, sem vacilar. O mundo voltou a desabar há uns anos atrás, tal e qual como agora, sem razão aparente. Num sítio perdido deste distrito, na altura já a morar com a Mzinha, mas sem ainda realmente a conhecer, ela com um horário incompleto que lhe permitia semanas de três dias, eu, com um completo. Passava muito tempo sozinha, sei lá, e fui novamente abaixo. Estatelada no chão (Teia, adorei esta imagem), valeram-me então as amigas da altura e os braços fortes de um homem que amava. Valeu-me, ainda, ter vindo para a Cidade-de-Deus, para junto de alguns, poucos mas muito bons, entes queridos.
E agora, isto. A Mzinha definiu magistralmente a forma como me sinto, ao dizer, sabes aquele stress que se apodera de nós quando já concorremos e não fazemos a mínima ideia do que nos vai acontecer? Assim ando eu. Em permanente stress, ansiedade, impaciência, carência. Só me apetece gritar “Abracem-me e digam-me que vai ficar tudo bem, que eu não estou a aguentar-me à bronca”. Só que é daqueles gritos que não saem, como nos pesadelos. E, então, choro. Choro e entro em ciclos viciosos, abandalho horas de refeição, adio compromissos, ignoro assuntos prementes. Quando me sinto a enlouquecer com falta de afecto, adormeço a mexer no cabelo, como se fosse mãe de mim própria. Mas sou uma mãe descuidada e negligente. Sou a que compra a playstation e não impõe regras. E adormeço a mexer no cabelo para, no fundo, dormir com o inimigo. Para entrar numa esquizofrenia de sentimentos de auto-indulgência e culpabilização atroz.
Estou com uma intoxicação emocional e, desta vez, não tenho quem me valha. Tenho amigos, tenho, poucos e óptimos. Mas, desta vez, tenho também a noção muito clara de que tenho que sair desta sozinha. Talvez porque, de há um ano e tal para cá, me falta o mais importante, algo que não me faltava desde os dezoito anos, falta-me uma figura masculina que me ampare. E sei que é muito possível que esta falta inédita me esteja a mexer com tudo o resto, me esteja a mudar o ser e o sentir, o agir, o querer, o decidir. Esta falta inédita tira-me duma rota, afasta-me dos restantes objectivos, deixa-me à deriva: concorrer para onde, se não tenho amarras? Perseguir que sonhos, sem incentivo, sem feedback, sem alguém que se orgulhe dos meus êxitos ou me abrace quando fracasso? Sim, eu sei, há que procurar tudo isso em nós mesmos.
Mas começo a convencer-me, a sério que começo, que dentro de mim não há nada disso. E que cumprir obrigações e satisfazer necessidades fisiológicas não é definição de existir. Não me lembro de outra fase em que a consciência da minha não-existência fosse tão forte. O que fazemos, Teia, quando para além de estateladas no chão não nos conseguimos mexer? Nem para pegar na porra de um telemóvel? O que acontece Teia, quando a opção de lutarmos por nós próprios nos parece infinitamente inútil? O que fazemos, Teia, quando estateladas no chão, a única coisa que nos ocorre é que antes assim, mesmo estateladas num chão real, que a andar por aí com a ilusão de que existimos?