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terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Que treta,

O S. Valentim.
Não chegavam já os últimos dias, tinhamos que estar em vésperas do Dia dos Namorados. Alunos todos contentes, colegas de Línguas a querer fazer projectos e eu, negra como a noite. Sombria. Tudo a vermelho e cor-de-rosa e eu... cinza-pêlo-de-rato. Sim, estou ressabiada. Sim, só me apetece gritar. Um aluno meu dizia-me hoje, ó stôrinha, deixe lá, o S. Valentim é quando um homem quiser. E outro, ó stôrinha, eu escrevo-lhe uma carta, que também ando de coração partido... e também estou encalhado. (Isto depois de eu dizer que considerava um insulto que uma turma de nono ano sem idade para essas "infantilidades" me viesse perguntar a mim, cota e encalhada, o que íamos fazer para comemorar o Dia dos Namorados.). Tive que me rir, embora a cena da carta me tenha atingido como um estalo. A carta. A carta que esperei tanto tempo, via mail ou papel, manuscrita ou em formato digital, uma espécie de postal ou de notícia, reportagem fotográfica ou poema, banda desenhada ou ilustração, A carta.
Até tratei melhor o puto, depois de ele me dizer aquilo.
Combinei com eles assim: a comemoração será a seguinte, eu publico uma lista de presentes que quero pelo S. Valentim e vocês oferecem-mos. Coro de protestos. E eu lá fui obrigada a desistir da ideia, não antes de perguntar, há aqui alguém apaixonado? Levantou-se um dedo. E está feliz? Muito. Muito bem, senhor fulano de tal, para si o TPC é a dobrar, e está neste momento com nível um a Inglês. A recuperação é muuuito difícil. Ao que o pestinha responde, ó stôrinha, eu estou apaixonado é por si... e toma lá mais um estalo, por ouvires a tal frase dita por um fedelho a gozar com a tua cara e a fazer-te estremecer novamente na base.
Claro que me passou o mau humor, mas não a irritação com as ironias.
Andarão os fulanitos a ler a porra deste blogue ou, pior, lêem os meus pensamentos?
Nunca liguei puto a este dia. Nunca fui de presentinhos idiotas, nem de lamechices com data marcada. Mas, este ano, está a custar-me. Não por causa da treta do consumismo ou dos ursos de peluche agarrados a corações kitsch. Está a custar-me porque, ao contrário do costume, está a mexer com a minha sensibilidade ver casais felizes e apaixonados. Um par de mãos dadas. O enlace de dois corpos num abraço. Um beijo suave e rotineiro nos lábios numa despedida breve de quem se vai ver logo à noite. Sou uma pessoa que se alegra verdadeiramente com a felicidade alheia e não estou a gostar mesmo nada deste ser triste e desamparado em que me estou a transformar. Hoje dizia à S, com quem fui tomar um cafézinho, que tenho um medo de morte da amargura e da inveja. Desses venenos que correm nas veias das pessoas solitárias e sem amor. Que tenho medo que agora, convencida finalmente de que andei um ano e muito presa a um fio de esperança numa migalha de retribuição sentimental, convencida de que, de verdade, nada existe "do outro lado do muro", nada mais tenha a que me agarrar que a uma raiva imensa a quem tem o que me falta.
Porque eu não sou mais nem melhor que simplesmente humana, e o nosso sentir molda as nossas atitudes. Tenho muito medo de, devagar e sem dar conta, a começar com este sinal ténue de angústia perante uma data idiota que se aproxima, me transformar enfim no derradeiro lugar-comum que é uma mulher sem amor. Seca. Triste. Má.


(A propósito deste post, quis publicar "A Carta", dos Toranja. Mas na pesquisa que fiz no YouTube dei com este senhor, que adoro, e com esta música, de letra cuja simplicidade perfeita me faz chorar, na sua verdade nua-e-crua, a preto-e-branco, "Quando a gente gosta, é claro que a gente cuida". Simple Things are the Easiest to Miss.)