Já consegui ir à farmácia buscar os comprimidos. Não foi fácil: ainda andei um bom bocado à procura do carro, antes de me lembrar que hoje vim de boleia. Entretanto, lá enfiei uma pastilha. À espera do efeito, estou aqui na sala de professores, muito sossegadinha, a rezar para passar despercebida e não me incluirem nas conversas parvas que por aqui vão acontecendo. Só por causa das tosses, já enfiei os fones nos ouvidos, com a Pink a lamentar-se "I don't believe you", que sempre está mais de acordo com o meu tom de pele.
Há dias em que custa um bocadinho mais do que o costume, acordar na mesma vidinha de sempre, enfiados na mesma cara, no mesmo corpo e nos mesmos raciocínios. Hoje estou desconfortável: meti a pata na poça e, embora esteja habituada a fazê-lo, ou exatamente por isso, fiquei especialmente "fragilizada", como diz uma amiga minha. Começam a enervar-me determinadas caraterísticas da minha personalidade que, por mais que tente, não consigo corrigir. Quando dou conta, já está: ou falei demais, ou perdi as estribeiras e gritei com a pessoa errada, ou cometi uma gaffe, ou fui desagradável sem intenção, ou abri a boca para falar Português claramente e as pessoas ouviram o meu discurso em Chinês.
Hoje a conversa ao almoço andou à volta de casamentos e relações, com o Russo a repetir a-praga-da-cigana de que este ano é a minha vez de aparecer na escola grávida, and so on, and so on. E, depois, pergunta-me: por que é que és tão contra isso? não queres ter filhos? Epá, não. A maternidade não é uma das minhas vocações, nem uma das minhas prioridades. Muitas amigas minhas tinham esse objetivo de vida, e se não tivessem arranjado um companheiro partiriam para uma produção independente. Not I. Para mim, muito mais importante que o filho que vou ter é o pai que lhe vou escolher. Sem um pai à altura, não há filho meu que nasça.
Fez-se silêncio à mesa do restaurante. Já me estava a sentir idiota o suficiente antes disso, depois então... completamente alien. Acho que devo ter sido criada por lobos, (raised by wolves, like Meredith) mas hoje sinto-me deficiente em feminilidade. Para além de falar como um carroceiro e de ter a sensibilidade de um calhau, não tenho instinto maternal. Queimem-me na fogueira, thank you very much.
Para evitar mais merdas, fones nos ouvidos, não me vá alguém perguntar se tenho namorado e por que não.
14 comentários:
Ter uma melhor amiga grávida, e fazer lanches na rua e jantares cá em casa faz com que nas ultimas semanas tenha ouvido umas quantas vezes: "então e tu? quando é que ficas grávida?" esta semana em jantar cá em casa ouviram esta:
- Com o trabalho que vocês que sabem que tenho, grávida só se for de ar e vento ou o bebe um mestrado! Porque com esta vida que levo e sobretudo com a falta dela, só é possível que o pai seja o Doutoramento. Ou que seja sonambular e me tenha que preocupar com os vizinhos ;-)
pois.
Tu pelo menos ainda és mãe de um cão... eu a ser mãe, vou ser mãe de uma resma de papel*!!!
*tese
Dores de parto dessas também já tive, obrigadinha, mas o post não é bem sobre isso... adiante, hoje estou alien(ada)
eu sei sobre o que é. Mas a respeito de sobre o que é, estou de fones.
Ora ainda bem que nos entendemos. agora estou na formação no moodle, mas a vontade de um par de fones... é muita!
Não te sintas só. Eu não acho a mínima piada a grávidas, a bebes todos fofinhos, a famílias a passear os pirralhos. Lamento, tenho sensibilidade de elefante em alguns assuntos é verdade, mas a maternidade realmente não me desperta a mínima atenção, não me deixa a sonhar, nem sequer fico emocionada com os risinhos de bebes. É provável que isto mude com o tempo, mas de momento ter filhos não me diz nada. Aliás, seria muito estúpido da minha parte ter um filho agora. E sem um pai à altura, tal como tu não teria filho nenhum. Nada contra quem tem filhos, com ou sem pais presentes, mas eu não nasci já com o instinto maternal apurado...
Thanks, Sílvia. Hoje estou em dia não. Normalmente passa-me tudo ao lado.
and... dear Meredith, in this subject and as always i'm Yang.
That's always warming and rewarding.
Lembras-te ou estavas lá quando o Altino largou à mesa do restaurante aquele comentário brilhante sobre o sonho de todas as mulheres ser casar vestida de branco na igreja e ser mãe? Éramos todas solteironas ou amantizadas, e nem sei como é que ele saiu de lá vivo. Ainda assim, muitas vezes penso que eles é que sonham que o nosso sonho seja esse, ser-lhes-ia muito mais fácil fazê-lo acontecer do que tentarem entender-nos ou fazer-nos felizes. Um vestido branco é um momento, a felicidade constrói-se ou destrói-se todos os dias, e esse sim é um compromisso verdadeiramente assustador por ser infindável.
Eheheheheh: não estava lá, não, senão tinha-o trucidado! Mas tens toda a razão. E é como disse à Sílvia: normalmente estou-me nas tintas para tudo, mas hoje estou de rastos.
Não tem nada a ver, mas fizeste-me lembrar um encontro imediato de 7º (20º?) grau que tive no final do último ano. Encontro com ex-colega no meio da cidade, conversa puxa conversa, trabalho, novidades... e no meio do nada:
- E tu, estás de quantos meses?
A minha cara deve ter sido imperdível... só me lembro de pensar repetidamente, ele não está a perguntar o que eu acho que ele está a perguntar, pois não?!?
Enfim...
Fónix... sem comentários! Esse, em gaffes, dá-me de dez a zero! Ainda é vivo? Espero SINCERAMENTE que não...
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