Adoro Sábados, e se alguém me dissesse, como canta o Abrunhosa, "Gosto de ti como quem gosta de Sábados", sentiria estar a ser muitíssimo apreciada e valorizada.
Este fim-de-semana não fui a Lisboa, não achasse a minha mãe que eu fazia um maior esforço económico e físico para estar com o Chico que com ela. Verdade seja dita, precisava de estar em minha casa uns dias, entregar-me, devagarinho, às tarefas domésticas que detesto, mas que começo a entrar em stress quando passa demasiado tempo sem que as cumpra e, claro, ter disponibilidade para resolver uns quantos itens profissionais da lista do a-fazer.
Nos Sábados há tempo para tudo: para levantar cedo (o que para mim são as dez da manhã), para sair e ir tomar café, para matar o vício no facebook, e para ir pensando na vida, enquanto maquinalmente se cumprem lavagens de roupa na máquina, e coisas que metem aspiradores e esfregonas.
Não me sinto só. Não me sinto só e não percebo por que é que não estou alegre. Por que é que não me consigo livrar desta tristeza latente, quando tudo corre nos eixos e nem sequer lamento o que não tenho. Enquanto esfregava o lavatório, pensava (que eu sou muito erudita) no último episódio que vi da Grey, e no Dr Webber a dizer ao Karev: "tem cuidado, porque amanhã posso querer ensinar-te outra coisa nova". Para quem sabe do que estou a falar, é fácil perceber que tenha associado isto a uma frase que o meu orientador me disse há muitos anos, e que é uma citação não sei de quem: "quando o aluno está preparado, o professor aparece". Relacionando isto com o amor, por não me sentir sozinha nem carente, pode até ser que enquanto aluna esteja preparada para um novo mestre; acontece que não me apetece, mesmo nada, ser ensinada à maneira Webber. Not again, right?
E depois penso que, como sempre cresci em contato com pessoas self-centered, sempre fui um bocado o satélite dessas pessoas, adequando o meu humor ao seu humor e tentando passar despercebida sempre que sabia estar de trovoada. Pessoas que me perguntavam se estava bem e nem sempre esperavam pela resposta. Pessoas que prometiam mundos e fundos e dececionavam sempre. Pessoas que diziam, em tal dia, fazemos isto, e depois, quando chegava o dia tão aguardado, esqueciam-se ou tinham mais do que fazer.
Por isso cresci e desenvolvi-me a não ter grandes expetativas em relação a ninguém, mas também a fazer o resto do Mundo não as ter em relação a mim. A gente acaba por transformar-se um bocadinho nos exemplos que tem, certo?
Mas ainda dou comigo a sorrir, com ternura, da minha própria ingenuidade, quando acompanho com atenção alguém que, em troca, me pergunta se estou bem e não espera pela resposta. Ou que está tão habituado a ser sempre quem desabafa e quem tem ombro para chorar, que nem pergunta. Sorrio sem tristeza, porque considero positivo que parte do que fui em criança teime em não morrer, apesar da violência diária por que todos nós passamos.
3 comentários:
Gosto de ti como quem gosta de sábados... E sabe que existem domingos pesados para o coração e corpo.
Tão bom, Shadow... thanks.
Tb eu cá fiquei de fim de semana. Apesar das obrigações e precisamente por causa de outras obrigações. Mas a propósito dos sábados como o de hoje..
Quando vier a Primavera...
...Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma
Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.
Alberto Caeiro
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