terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Once Upon a Time

Fui uma criança muito precoce em muita coisa: em deixar fraldas, em falar, em ler. Em contrapartida, o reverso da medalha é que sou uma adulta muito infantil também, em muita coisa, sobretudo a nível emocional. Deixei de acreditar no Pai Natal e no Coelho da Páscoa já tarde na vida. No Príncipe Encantado, então,  deixei de acreditar há bem pouco tempo, menos de um ano. O meu mundo é muito mais triste desde que caíram os meus heróis, uns atrás dos outros, dos pedestais onde os tinha firmes e hirtos, desde sempre.
Durante muitos anos da minha vida, quando tudo o resto ruía, consolava-me com certa relação antiga, onde podia sempre regressar porque tudo tinha sido perfeito e as recordações eram doces. Perguntava-me muitas vezes o que faria se essa pessoa me batesse certo dia à porta, para me vir buscar (qualquer semelhança com o príncipe encantado que chega montado num cavalo branco e salva a princesa enclausurada numa torre alta e solitária não é pura coincidência...) e tremia por saber que o mais provável seria largar tudo e não olhar para trás. Sim, também tenho uma faceta imprevisível e impulsiva que segue sempre o coração, e é o meu lado mais meigo e carente (e também, inevitavelmente, o mais estúpido).
Depois, um dia, a cena deu-se. Ou melhor, aconteceu meio ao lado, de viés, como não podia deixar de ser, que a vida é irónica e muito cabra, pelo menos comigo. E eu, tal como na história imaginada, estive verdadeiramente pronta para largar tudo e ir. E ele, calmex, travão e marcha atrás no cavalo branco, e vamos antes deixar a vida como está que, mal por mal, a mudança dá trabalho e chatices, e é muito melhor ter paz e sossego que amor e uma cabana. Não vale a pena, não compensa, é complicado, é tudo muito complicado, duro e difícil.
Jamais as histórias de fadas terminam com "e viveram a sua vidinha sem complicações para sempre". Mas deviam. Talvez então eu conseguisse ainda acreditar em Príncipes Encantados e houvesse assim alguma cor no espírito esvoaçante que baila à minha volta, e a quem os comuns mortais chamam alma.

4 comentários:

Shadow disse...

"Depois um dia, a cena aconteceu. Aconteceu meio ao lado, como não podia deixar de ser, que a vida é irónica e muito cabra, pelo menos comigo. E eu, tudo como na história imaginada, pronta para largar tudo e ir. E ele, marcha atrás no cavalo branco e vamos antes deixar a vida como está, que mal por mal a mudança dá trabalho e chatices, e e muito melhor ter paz e sossego que amor e uma cabana." "Não vale a pena, não compensa, é complicado, é muito complicado."

Yup. disse-te isto mesmo, sobre mim e o outro, certa noite: "Não vale a pena, não compensa, é complicado, é muito complicado." Não quero, mais.

Jade disse...

É muito triste ser quem ouve, e não quem diz. E deixar de acreditar em fadas e duendes. Mas pronto, acontece. É a vida.

An...ónima disse...

Não há limites no reino da imaginação. Já no mundo real, não há é outra coisa... Existir entre os dois seria o ideal, mas transitar entre eles já não é mau - e é possível, embora nem sempre esteja ao nosso alcance. Acreditar, que sim ou que não, é que nunca pode deixar de acontecer.

Jade disse...

Podes crer... acreditar que não, como é o meu caso, tira o stress, aumentando o desencanto. Mas a saúde está primeiro e é melhor assim.