sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Dias de Tempestade

Não vou falar do tempo, nem daquele filme antigo com a dupla Cruise / Kidman.
Não sei se é geral, mas por estes tempos, as escolas do meu distrito passam por dias de tempestade. Agora que os ânimos serenaram entre a grande maioria dos professores e o sistema vigente no nosso ministério, parece que são os alunos que resolveram começar a dificultar a vida nas nossas escolas. Andam passadinhos de todo.
A escola em que dou aulas e a escola da Mzinha são escolinhas de vila, pequeninas, com poucos alunos por turma e ambiente familiar. Os miúdos são provincianos, no que isso tem de bom. São miúdos, levam-se quase sempre a bem, sem stress, gritaria, expulsões da sala de aula ou confrontos directos. Um erguer de sobrancelha ou uma resposta mais ríspida mantêm as aulas sob controle, salvo raríssimas excepções que nem conselhos disciplinares justificam. Não será o paraíso, mas quando comparado com outras realidades, para lá caminhará.
Ultimamente, contudo, parece que os adolescentes do distrito endoideceram. Na minha escola, só fazem asneiras. Fora das aulas, é certo, mas às vezes dentro do espaço escolar, e muitas vezes fora deste. Começa a ser preocupante a propensão para a asneira, e alarmante a tendência para a violência, o bullying, a crueldade, a intolerância, o insulto.
Começa a ser demasiado frequente ouvir histórias de outras escolas em que esta violência é exercida pelos mais velhos aos mais novos, ou aos mais fracos. Começa a ser frequente, e grave, ouvir histórias de violência verbal e ataques físicos de alunos a funcionários e professores. E começa a ser demasiado frequente ouvir histórias de impunidade total em relação a alunos que só o são por haver uma inscrição formal na secretaria da escola: seres que são tudo menos alunos, fazem tudo menos estudar, comportam-se de forma selvagem em todas as circunstâncias, faltam às aulas ou lá vão apenas para provocar colegas e professores, não têm um mínimo de respeito pelo próximo e aproveitam o caos a que chegaram as escolas para serem, apenas, uma cambada de marginais à solta no meio de crianças assustadas e continuamente abusadas, violentadas, assaltadas e aterrorizadas.
Pergunto: onde é que nós estamos quando o ensino público se tornou, em muitos casos, um ATL de parasitas? onde é que nós estamos quando uma grande maioria de jovens com valores não quer ir à escola com medo de colegas que lá andam obrigados por um sistema que não os castiga por incumprimentos graves e ainda lhes passa a mão pelo pêlo a bem de uma inclusão absurda? É isto uma política social? É isto dar oportunidades a quem não as tem, ou é, pelo contrário, tirar oportunidades a quem as aproveitaria e teria todo o sucesso do mundo num ambiente são?
Venham medidas disciplinares como deve ser. Abram-se excepções à escolaridade obrigatória, quando esta serve como desculpa para encher salas de aula com seres que, sem exagero, seriam passíveis de procedimento criminal em qualquer parte do mundo civilizado. E, por amor de Deus, dêem-se oportunidades a quem as merece de facto.

5 comentários:

Shadow disse...

Ainda hoje falava disso. Ando eu e muitos que conheço a entrar na fase "se não vem o fim de semana ou as férias rápido, vai sair uma chapada a alguém".

Mas o que vem aí o 12ºano obrigatório... E aí, tenho a certeza que só vou concorrer para "Curral de Moinas" ou arredores. Que seres burros, velhos, feios, porcos e maus, não é para mim.

Mzinha disse...

Deviamos mudar:
pensar primeiro nos que querem aprender, a escola é para esses. Para os outros, deveriam ter outra ocupação (um trabalho duro, para aprenderem a saber o que custa a vida e depois, sim voltava para a escola, se quisessem).

Eu não gostava de dizer isto, mas as vezes mais vale tirar "fora" o que está a estragar a maioria.

Anónimo disse...

Dixit.
E espero que a temnpestade passe ao lado, porque as nuvens são negras como a cor da alma de quem vê isto todos os dias...

Pan

Cris disse...

Tanta coisa que eu tenho para dizer sobre este assunto... :(

Estas últimas semanas na minha escola têm sido uma mar de duques e cenas tristes. Muitas das situações nem me apercebo, por estar semi-refugiada num cantinho, mas tudo o que me chega ao ouvido é verdadeiramente assustador.

E como tenho mesmo muita coisa para contar... o melhor mesmo, é calar-me!

Pode ser que não falte muito para isto descambar na totalidade e tudo se iluminar numa qualquer notícia de abertura do Jornal da Noite da TVI. Se calhar, é só o que está a faltar...

Jade disse...

Obrigada a todos pela vossa participação. Só lamento que sejam precisas as tais notícias de abertura de telejornais para que se faça alguma coisa ou se tome uma atitude mais drástica. O nosso sistema corta as pernas aos professores. As leis fá-lo-ão, em parte, aos nossos directores. Mas é nestes momentos que é preciso fibra. Nestas momentos em que as coisas são graves o suficiente, mas ainda não acabaram em tragédia. Porque basta uma tragédia para já ser tarde demais para muita gente.
Precisamos todos de ter muita coragem, porque ninguém paga a nenhum de nós para isto, nem nunca ninguém nos disse que ser professor era, também, ser polícia sem colete anti-balas ou arma. Metaforicamente falando, ou talvez não, que até armas brancas já alguns alunos trazem consigo, sabe-se lá com que objectivo, mas um bom não será certamente.
bjos

Nunca ouvi falar sobre materialismo dialéctico, mas parece-me nome de uma bela teoria, quando a prática é que nos lixa diariamente...