quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Sociabilizando...

Tive hoje uma epifania: a decadência na vida de uma pessoa reside nos sítios de que dispõe para sociabilizar. Se eles incluem shoppings, discos, pubs, cafés, casas de amigos, a tua própria casa, esplanadas, centros culturais, parques, jardins ou praias, estás no bom caminho, és uma pessoa de sucesso, estás de bem com a vida e tens a saúde mental em grande forma. É um bom índice de sucesso, e quando te deitas à noite, deves pensar I'm good, I'm happy, I'm lucky!...
Agora, se eles incluem apenas salas de professores e caminhadas pelo bairro, jovem, you're on your way down... and that's my case.
Hoje tive a "tarde livre". Todos os professores sabem que esta expressão é apenas uma miragem que se tem quando se olha para o horário em branco. No fundo, livre é apenas a palavra eufemística que serve para dizer "vais para a escola trabalhar que te lixas, 99.9% das vezes". Assim foi hoje. Tinha 'n' coisas para fazer, para quando?, para ontem, diz a chefe, sempre, para variar, com o sorriso sádico do costume... Depois de atar as pontas soltas, deixei-me estar a confraternizar (que é como quem diz, a resmungar, a falar de escola, de alunos, de avaliação e de parvoíces) com os meus colegas, esses sim, a cumprir horário ou à espera da próxima aula. "Bonito", pensei eu à saída da escola. Realmente, se quando queres ter com quem conversar, te diriges à escola, a vida vai torta.
Quando a Mzinha chegou, calçámos umas sapatilhas e fomos caminhar. Pronto. Sociabilização nº2: numa hora de caminhada a passo estugado, encontrámos quatro colegas, duas funcionárias, um par de alunos e uma resma de outros conhecidos que passavam de carro ou de bicicleta e aproveitavam para dizer adeus... e nós, parvas, a dizer adeus também e depois a perguntar, este era teu ou meu? Sei lá, pá, adiante... fora os amigos camionistas que invariavelmente apitam e nos pregam cagaços de morte vá-se lá perceber porquê... enfim, é só amigos. Se a minha mãe me visse numa altura destas ia ter a mesma sensação que eu, aqui há uns largos anos, quando morava em Lisboa e vim de visita a uma amiga à Cidade de Deus. Lembro-me de, nessa altura, ficar impressionada com a sua popularidade, e de comentar, entredentes, bolas Susi, passear contigo de carro aqui é como andar no Papamóbil, pareces um boneco de corda, a dizer adeus...
Assim estou eu, nesta cidade, quando a única intenção seria desentorpecer as pernas, acelerar o ritmo cardíaco e ganhar uma valente dor nos gémeos de que me pudesse orgulhar amanhã.
Ele há vidas decadentes...

3 comentários:

Anónimo disse...

Jade, Jade, ele há mesmo vidas decadentes.
Deixa lá que eu, embora não vá para o local de trabalho para ter com quem conversar, qualquer dia deixo de ter com quem conversar porque só falo de trabalho.
São vícios, manias, loucuras, fobias, e todos os outros problemas mentais que possam haver.
E qd não estou a trabalhar ou a falar de trabalho eis que ...estou a pensar no trabalho e no que tenho para fazer no dia seguinte.
Aliás, muitas das vezes ainda estou a fechar a porta do gabinete para terminar um dia de trabalho e ja estoua pensar em como vais er o dia seguinte.
Uma miséria. É mesmo de quem não tem mais que fazer.
Tristeza de vida.

Anónimo disse...

Jade, hoje foi o meu dia longo na escola.
Para além, do trabalho que lá se faz, trago muito para casa. PCT,testes dignóstico, resolver casos de alunos perturbadores, mas, por vezes, mando tudo para aquele sítio, e tento abstrair-me da porra da escola.
Se visse a minha mesa, ficava tola. Mas penso, amanã é outro dia. E, caso não consiga fazer hoje, eu arranjo uma noite para o fazer.
Queria que a minha alma estivesse bem. Não está por falta de notícias, somente.
Bom fim de semana.

Jade disse...

LOL,minhas amigas. Antes ter vidas decadentes, que ser decadentes em vida. Haja vidas decadentes como a nossa, cheias de coisas deprimentes e chatas, mas que nos puxam pela criatividade e pelo sentido de humor. Enquanto nos vamos rindo, coitadinhos são SEMPRE os outros. E verdade seja dita, a gente pode chorar q.b., mas também se farta de rir.