Ao som de corazon partío pela voz da Maria João, as minhas lembranças chegam em catadupa. Dizia hoje a uma amiga, e a propósito, mais uma vez, de um post da Susana no blogue dela, que onde há uma gaja nos trintas e sozinha, há intermináveis conversas sobre esse tópico inesgotável que é o amor. Essa incógnita suprema, esse mistério indecifrável. Sobre se existe, se é sempre ilusório, se é continuamente efémero, se existirá, de facto, em permanência para alguns e se, a existir, será de facto amor ou tomará outras formas. Parece que estou a ver o Pan, de sorriso amarelo, a contar que fica para morrer quando alguém diz, sobre um qualquer casal junto há muito tempo “são muito amigos”. Se o amor degenerará, ou melhorará, ao transformar-se em amizade, ou se haverá, de facto, gente unida há muitos anos por um amor que se cola mais à paixão que à amizade.
Há estudos científicos sobre o caso. Eu não sou grande exemplo ou grande sumidade, quando se trata de dissertar sobre o amor. A relação mais próxima disso que tive acabou por não se transformar em amizade. Talvez até tenha começado por aí, mas acho que de facto nunca o foi. A amizade é um sentimento generoso e desinteressado que não se compadece com a existência de desejo físico, de posse emocional, de sintonia ou osmose perfeita de almas. E o amor é tudo isso. Quem diz que o amor é desinteressado, provavelmente não sabe o que diz. O amor é exigente e obsessivo, embora tenha que ser simultaneamente generoso o suficiente para se compadecer das necessidades do outro. O amor põe o outro num plano acima do nosso, o que não faz mal, porque o outro faz o mesmo connosco.
O amor traduz-se em atitudes que, muitas vezes, passam-nos de estranhas a naturais. Aquilo que fiz, enamorada, parece-me agora excessivo e absurdo. Pequenas delicadezas e grandes demonstrações, todas são agora metidas no saco do inconcebível. Estaria eu louca? Não, muito melhor, estava apaixonada. E, ao contrário do que se assume por aí, essa paixão durou bem mais que a meia-dúzia de meses que referem os cientistas. Evoluiu para algo mais calmo, sim, mas não para aquela calma acomodada que mata o desejo e culmina na amizade pura e simples, nada disso. O maior cansaço, que chega quando uma relação acaba, advém do facto do amor nos mudar os valores, as crenças e a essência, transformando-nos em pessoas altruístas, que vivem para agradar os outros, sem que isso seja voluntário ou consciente. Pelo menos comigo, assim foi sempre.
Eu, que gosto de acordar tarde, acordava cedo e cheia de energia. Eu, que gosto de estar sossegada e de que ninguém me chateie, andava sempre de um lado para outro, de uma casa para outra, carregada de sacos com roupa e livros. Eu, que detesto que mandem em mim, andava a toque de caixa, agora vais ao supermercado, depois carregas-me o telemóvel, levas-me o lixo em caminho, sim? E lá andava eu, toda contente, a percorrer a feira do livro para trás e para a frente, à procura de um livro que nunca iria ler, mas de que alguém precisava. Enfim. O amor tem uma linguagem muito própria, e não deve haver silêncio mais opressor que a ausência desta linguagem numa vida.
Isto tudo por causa da Maria João e do bendito CD da sorte. Sabem o que é uma sorte? É estar sem dinheiro no telemóvel e o Multibanco ter colapsado. Porque já me apeteceu, confesso, muitas vezes hoje, mandar uma mensagem ao meu amor perdido. Só para recordar os tempos em que mandava essas mensagens de forma natural e elas tinham respostas igualmente naturais. Só para reviver outros Sábados, em que a escolha do jantar era a meias, e as conversas eram fáceis, fluentes e se arrastavam até de madrugada, ao ritmo dos dados do póker ou de um qualquer CD a tocar baixinho numa sala, tão parecida com esta, mas a anos-luz de distância.
… tendré que ocultárme ou huir. (Borges)
Há estudos científicos sobre o caso. Eu não sou grande exemplo ou grande sumidade, quando se trata de dissertar sobre o amor. A relação mais próxima disso que tive acabou por não se transformar em amizade. Talvez até tenha começado por aí, mas acho que de facto nunca o foi. A amizade é um sentimento generoso e desinteressado que não se compadece com a existência de desejo físico, de posse emocional, de sintonia ou osmose perfeita de almas. E o amor é tudo isso. Quem diz que o amor é desinteressado, provavelmente não sabe o que diz. O amor é exigente e obsessivo, embora tenha que ser simultaneamente generoso o suficiente para se compadecer das necessidades do outro. O amor põe o outro num plano acima do nosso, o que não faz mal, porque o outro faz o mesmo connosco.
O amor traduz-se em atitudes que, muitas vezes, passam-nos de estranhas a naturais. Aquilo que fiz, enamorada, parece-me agora excessivo e absurdo. Pequenas delicadezas e grandes demonstrações, todas são agora metidas no saco do inconcebível. Estaria eu louca? Não, muito melhor, estava apaixonada. E, ao contrário do que se assume por aí, essa paixão durou bem mais que a meia-dúzia de meses que referem os cientistas. Evoluiu para algo mais calmo, sim, mas não para aquela calma acomodada que mata o desejo e culmina na amizade pura e simples, nada disso. O maior cansaço, que chega quando uma relação acaba, advém do facto do amor nos mudar os valores, as crenças e a essência, transformando-nos em pessoas altruístas, que vivem para agradar os outros, sem que isso seja voluntário ou consciente. Pelo menos comigo, assim foi sempre.
Eu, que gosto de acordar tarde, acordava cedo e cheia de energia. Eu, que gosto de estar sossegada e de que ninguém me chateie, andava sempre de um lado para outro, de uma casa para outra, carregada de sacos com roupa e livros. Eu, que detesto que mandem em mim, andava a toque de caixa, agora vais ao supermercado, depois carregas-me o telemóvel, levas-me o lixo em caminho, sim? E lá andava eu, toda contente, a percorrer a feira do livro para trás e para a frente, à procura de um livro que nunca iria ler, mas de que alguém precisava. Enfim. O amor tem uma linguagem muito própria, e não deve haver silêncio mais opressor que a ausência desta linguagem numa vida.
Isto tudo por causa da Maria João e do bendito CD da sorte. Sabem o que é uma sorte? É estar sem dinheiro no telemóvel e o Multibanco ter colapsado. Porque já me apeteceu, confesso, muitas vezes hoje, mandar uma mensagem ao meu amor perdido. Só para recordar os tempos em que mandava essas mensagens de forma natural e elas tinham respostas igualmente naturais. Só para reviver outros Sábados, em que a escolha do jantar era a meias, e as conversas eram fáceis, fluentes e se arrastavam até de madrugada, ao ritmo dos dados do póker ou de um qualquer CD a tocar baixinho numa sala, tão parecida com esta, mas a anos-luz de distância.
… tendré que ocultárme ou huir. (Borges)
7 comentários:
Fantástico este seu post de hoje. Acho que, dos que já escreveu, e dos que li, este foi o desabafar de um sentimento puro, nobre, e sensível, como o da paixão, do amor.
Jade, eu também já senti isso tudo. Tudo o que fiz foi por paixão. Mais tarde também senti que foi um absurdo os "sacrificios" que passei. Mas foram bons. Deram-me experiência, momentos inesquecíveis, sensações maravilhosas.
Também acabou, não por falta de amor, mas por outros motivos... Quando se percebe que a nossa felicidade não está nessa pessoa, sai-se.
Mas também é verdade, que por vezes, dá vontade de voltar... Nesse tempo em que vivi meu grande amor não havia telemóvel.Mas eram belos esses tempos.
Se tem vontade de enviar uma mensagem, porque não?
Que poderá acontecer? Não obter resposta ou, se obtiver, reavivar dentro de si novas "ilusões"...
Mas vale sempre a pena arriscar.
Lembre-se, ainda é jovem, não perca a esperança. Eu sou livre, mais velha, e ainda a tenho. Mas agora, que sou madura, acredito que de uma amizade pode nascer algo muito bom. A maturidade faz-nos entender isso.
Mais uma vez, adorei este texto.
Um abraço
Maria
Mira Jade ¿sabes lo que te digo? Todo es perfecto cuando lo miramos lejos... Mientras estabas enamorada, cerca del final, seguro que ya no todo te parecía tan perfecto, tan increíble...
Y de verdad creo que tu móvil, hoy, te ha ayudado.
Mejor que no se haga nada cuando todavía no hay seguridad para hacerlo.
No sé quien te va a llenar de primaveras este Enero, tampoco sé quien te va a tapar cuando haga frió. Pero una cosa te digo. ¡Tú puedes hacerlo todo! No dudes de ti.
Es verdad que el hombre no fue hecho para quedarse solo, pero también es verdad que hay muchas cosas que solo nosotros podemos hacer por nosotros mismos.
No me gusta Alejandro, tampoco cuando la cantante es Maria Joao. Pero yo también tengo el corazón partió…
Besito
(Que bueno escribir en Español... No lo haría si no fuera el nombre del "post"...)
=)
E foi esse transformar da minha pessoa e da minha essência em alguém puramente altruísta que ia dando cabo de mim.
Jurei a mim mesma, não no dia em que bati com a porta, mas uns meses mais tarde que altruísmos...apenas com retorno. Eu sei, não faz sentido, mas que se lixe.
Foi uma longa caminhada até chegar aqui, não o nego. Há quem diga que foi rápida a minha recuperação mas para mim não. Não gosto de estar no chão por muito tempo. O chão é frio e desconfortável. Noites sem dormir, ausente do mundo e principalmente de mim própria não é propriamente o meu ideal de vida.
Certo dia, ao ouvir uma qualquer música, fez-se magia. Consegui ouvi-la dentro de mim. Unicamente dentro de mim, sem os ouvidos de outros ou opiniões e principalmente sem me remeter a lembranças boas ou más. Era música, apenas isso, uma simples música. E foi aí que me apercebi da simplicidade das coisas.
Perdoei o meu ex, precisamente nesta fase em que comecei a ver tudo com imensa clareza. Somos amigos actualmente. Fiz questão disso mesmo pois ele continua a ser uma peça chave na minha vida. É bom rir à gargalhada com ele das mesmas parvoíces com que nos ríamos quando viviamos juntos.
Se o coração não balança de vez em quando? Balança sim senhor. Mas é um balançar calmo e cheio de paz.
Pois acima de tudo é assim que me sinto hoje em dia com tudo o que me envolve.
Encontra-a dentro de ti...
Bj da Gaja!
(este é de longe o maior comentário alguma vez escrito por mim num blog...agora vou só ali ver qual a razão que levou a gata a subir à tábua de engomar e já venho...)
Bravo, May
Beijo
Pan
http://www.youtube.com/watch?v=QS0FudINNEg
Nunca pensei
Que fosse assim
Novamente o amor
Tomar conta de mim
Com a força dum vento
Como um furacão
Me pega e arranca
Meus pés do chão
Nunca pensei
Que fosse você
Que dia após dia
Me faz entender
Que a vida é real
E com todo o esplendor
Me faz tão feliz
Quando traz de volta o amor
Refrão:
Te quero, te adoro
Vem perto de mim
Você me abraça no meio da rua
E me faz tão bem
Obrigada, Maria. Ao longo dos seus comments já deu para perceber que este é um dos seus temas de eleição. Infelizmente, este tema a mim é-me simultâneamente estranho e doloroso, por isso não conte com muitas dissertações sobre o assunto. Beijinhos
Sol, minha linda, que bem falas (escreves) castelhano, chica. Eu adoro, adoro essa língua, desde os tempos do Verão Azul, mas não sei falar. Só leio, sobretudo poesia, e gosto imenso. Que inveja, ver-te escrever assim... e eu gosto desta música, pelo Alejandro ou pelos covers da Maria João. É tão lamechas que me enternece. às vezes, no meio do desespero e da solidão, dizemos para nós próprias coisas tragicamente bem mais lamechas, e não nos sentimos envergonhadas... enfim, concordo contigo, e não com a Maria, quando dizes que a falta de saldo no telefone foi uma boa coisa. Hoje acordei como o tempo mas teria acordado muito pior se tivesse mandado a bendita mensagem.
Gaja... LOL. Estava eu a ler com tanta atenção o teu post, e a concordar, a acenar com a cabeça, muito séria, a pensar, esta rapariga é admirável, é assim mesmo, quando... a tua gata e o eterno anti-clímax, explosão de gargalhadas e esquece lá a seriedade do assunto, que eu... vou ali já venho! Demais. Obrigada.
Beijinhos a todas
Pan... esse "bravo" tem muito que se lhe diga. Continuamos a ser os "Bravos do Pelotão", no eterno Vietname que fazemos do dia-a-dia.
Thanks
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