Este é um assunto que me é muito caro. Tanto que até decidi, ainda muito nova, integrar as fileiras do Ministério da dita Educação. Como subalterna de terceira categoria, mas isso ainda não sabia quando tinha seis anos e dizia "quando crescer quero ser Professora de Português" e o meu avô cientista suspirava e abanava a cabeça em desaprovação.
Lá levei a minha em frente, numa idade já boa para ter juízo, mas pronto, tudo em favor da dita educação.
E agora, depois de um fim-de-semana a que não vou tecer comentários, chego à conclusão que isto da educação tem muito mais que se lhe diga que a instrução de crianças e adolescentes. Passei a sexta à noite à conversa com um amigo meu, também professor, e dizia-lhe que a minha mania para inventar trocadilhos ordinários anda em alta. Que cada vez me saem mais palavrões boca fora. Que sou, de facto, progressivamente mais mal-criada a cada dia que passa. E que me sento em cima das mesas, parece que é crime, entre gente bem nascida. E perdi o respeito que me ensinaram a ter às pessoas mais velhas. E viro costas e bato portas, o que também é coisa de gente possidónia e mal-formada. E não faço sorrisinhos e contumélias a pessoas que estão muito bem cotadas na escala do lambe-botismo.
A minha mãe ensinou-me a ser uma senhora. A distinguir todos os tipos de talheres e copos. A sorrir e cumprimentar toda a gente. A tratar os mais velhos com a maior delicadeza possível. A responder gentilmente a todos os superiores hierárquicos. A jamais desrespeitar os meus professores. A nunca falar alto. A nunca bater em ninguém. A nunca fazer queixinhas. A minha mãe ensinou-me a ajudar sempre os meus colegas, a nunca os ridicularizar nas suas falhas e erros, a nunca passar por cima de ninguém para atingir os meus objectivos e a sair do meu percurso, por muito que me custasse, para dar uma mão amiga a quem dela precisasse.
A minha mãe, vejo agora, educou-me muito mal. Educou-me para ser uma perdedora e levar no focinho até ser velhinha. Ensinou-me, através do seu próprio exemplo, o altruísmo, e essa sim, é uma qualidade de gente pobre e pouco instruída, que não leva ninguém a lado nenhum, e vale, apenas e no final, aquela medalha de cortiça que, escarninhamente, me andam sempre a prometer.
Há coisas que se aprendem em tenra idade e que jamais se esquecem, feliz ou infelizmente. Esta minha mania irritante de me desdobrar para dar uma mãozinha a quem precisa, sem que ninguém me peça, faz parte de mim, e eu detesto-a. Detesto-a porque me prejudica, porque me empata a vida, e porque me faz sentir imensamente idiota, uma alien nos dias de hoje, e muitas vezes acaba por se virar completamente contra mim. O que a minha mãe me devia ter dito é que, antes de dar uma mão aos outros, devo usar as duas para fazer algo por mim.
Por isso, quando as pessoas que me chamam mal-educada, porque estou sentada em cima de uma mesa ou me sai um palavrão daqueles cabeludos boca fora, concordo. Porque fui de facto muito mal educada. Se tivesse sido bem educada, era com certeza, uma pessoa de muito sucesso. Como há tantas por aí, que se sentam, sempre e só, nas cadeiras e jamais dizem um palavrão. Da mesma forma que não sabem o que é ajudar alguém quando se tem mil e uma coisas privadas por fazer. Da mesma forma que jamais saberão o que é cumprir um objectivo sem ser à custa de, ou passando por cima de, toda a gente que seja preciso.
Fui muito mal-educada. Por isso digo palavrões feios, de cada vez que o resto do mundo me choca com a sua boa-educação.
10 comentários:
ola boa tarde
tenho lido este blog desde ha algum tempo, gosto bastante da forma como se transpõe a barreira do sentir para o escrever.
Acho-a no entanto e já de algum tempo para cá a dar demasiada importância a coisas que só têm a importância que lhes damos. Não se aborreça demasiado, porque a srª sua mãe não a andou a criar com tão BOA educação para a ver agora a sofrer por meia duzia de pessoas mal formadas. Já pensou que a querem aborrecer propositadamente por sentirem inveja da pessoa que é?
beijocas e boa continuação.
luzia
Claro que sim, Luzia. Este texto é profundamente irónico. E a minha mãe é a mulher mais espectacular do Mundo, e as lições que me deu foram, acima de tudo, pelo exemplo que sempre transmitiu. Mas que não é fácil, não é. A vida é mais fácil, e mais bem sucedida, quando não se têm grandes escrúpulos.Beijinhos, volte sempre
Eu faço parte do clube 'T Tansa' & 'Boa Educação'
Jade, este foi dos posts mais inteligentes e verdadeiros que li até hoje.
Não podia transmitir melhor a realidade dos dias de hoje. Eu também tinha a mania de ser a "bem educada", a madre Teresa de Calcutá cá do sítio, sempre com sorrisinhos e boa disposição. Até ao dia ... em que percebi que estava a ser a tansa cá do sítio, e que o sucesso se alcança também com punhos cerrados e por vezes gritos em vez de falinhas mansas.
PS: Cadê as tuas propostas ao meu desafio?
Pois, é, Mzinha. Tu fazes parte dos bem-educados, que de facto não dizem palavrões... mas também dos mal-educados, daquela gentinha possidónia e sem instrução que está sempre a postos para ajudar os outros, seja a emprestar o carro, quando as melgas perdem a chave pela décima milionésima vez a cinco minutos de começar uma aula, seja a partilhar o jantar, porque a mesma melga nem vê bem a sala quanto mais o fogão, seja a desencravar a impressora, que tem um feitiozinho do camandro... (os dois últimos só hoje, convenhamos... é melhor usar Xeltox!)
Rosa, pá, esqueci-me! A minha vida tem andado a mil. Esta semana não está fácil, mas... a ber bamos!
Acho que também me incluo no grupo "T", que apesar de grande não é tão grande quanto o grupo "CPSI" (não, não se preocupe, devido à minha inclusão no grupo "T" não escreverei o verdadeiro significado e fico-m por um aproximado
"C=cambada de P=patos S=sem I=inteligencia"...)
Beijinhos
Com Saudade
(: Anaísa
"La Mala Educacion", Almodovar.
Isinha, minha linda, adorei falar contigo pelo telefone há uns dias. Muitas saudades... manda-me o teu mail por msg hi5.
Falando em hi5 e Mala Educacion, V., seleccionas privacidade e deixas apenas amigos acederem à tua página. Já agora, vou ali fazer o mesmo ao meu, e já venho...
LoooL
Eu nunca envernizei as unhas, mas há muitos colegas que o fazem, até gostam de mostrar que vão à manicure.
Confesso-me: Gosto de arranjar e pintar as unhas às meninas com lima de cartão para não magoar.
Isinha, tu que estás aí no norte, minha aluna de sempre, não te esqueças da tal morada de mail. Eu também te hei-de mandar a minha. Para falarmos melhor, ok? Estamos as duas a precisar.
Miro, babe, eu sempre soube que tinhas alma de manicure.
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