Estou capaz de accionar o alarme de incêndio: assim como assim houve simulacro há uma semana, o pânico não deve matar ninguém... pelo menos, não mata ninguém que não esteja já morto de tédio.
quarta-feira, 3 de março de 2010
Ridículo
O Conselho Pedagógico está reunido na sala ao lado daquela em que aguardo a hora de ir ter com os meus formandos dos cursos de adultos. Estão dez ou doze pessoas reunidas à porta fechada há mais de quatro horas. Às vezes, ouvem-se vozes exaltadas; outras, gargalhadas; com mais frequência, algo de monocórdico com um silêncio sepulcral por trás. Ainda não ouvi foi nada de interessante. E penso na senhora seca que dois ou três amigos meus estão a apanhar. Nada me tira da ideia que nesta escola se faz de propósito. Só para se poder dizer que se trabalha muito seriamente e que, por isso, as reuniões nunca se fazem em menos de três horas.
Deve ser por isso que temos cem por cento de sucesso. Sim, é das reuniões.
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
Febre
Ninguém me vicia num jogo em que os animais da quinta incluem pinguins e renas com luzinhas de Natal nas hastes, Santa Paciência...
Cúmulo da inércia
Fiz a viagem escola-casa de coração nas mãos, com o ponteiro da reserva quase a bater no fundo, e quando cheguei não me apeteceu fazer mais duzentos metros até à bomba da gasolina.
Alberto João
Gosto de um gajo que vai à televisão e diz à Judite de Sousa "Não me interrompa e deixe-me terminar: só lhe respondo a essa pergunta quando me apetecer!". Desconcertante mas hilariante.
BEP vs Amélia
Cheguei à conclusão que não nos podemos queixar do país nem das novas gerações, quando uma publicidade recente apresenta o Nuno Gomes a cantar I gotta feeling. É normal que andem os adultos deprimidos e se multipliquem os casos de violência escolar.
No ponto
Sei que os meus bicharocos estão amestrados quando não resmungam à palavra homework e me dão uma valente salva de palmas quando digo: Hoje não há TPC!
Porque os professores também precisam (cada vez mais) de reforços positivos.
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
Entre amigos
Graças a um ser raro, que todas as semanas tem a paciência, e os conhecimentos, para me presentear com os episódios da Anatomia de Grey que vão saindo nos States, tenho seguido a sexta temporada como se fosse americana, enquanto por cá se vê a quinta, ou o início da sexta se se tem a sorte de ter TV Cabo, o que não é o meu caso.
Recebo cada episódio com a maior gratidão do Mundo, porque embora isto esteja lentamente a melhorar, desde que deixei a anterior escola, os momentos em que me sinto entre muitos amigos são raros, e reduzem-se às festas de anos de cada um, ou às passagens efémeras de um ou outro cá por casa, ao fim do dia ou para um café depois de jantar. Fora isso, sou eu e a Mzinha quando, no ano passado, éramos muitos, todos os dias.
E isto não é difícil de compreender, mas só é apreendido em toda a sua dimensão quando se passa pelo mesmo. A verdade é que, por muito idiota que possa parecer, cada episódio da Grey é uma hora de sala de estar entre amigos. Porque, como já afirmei em tantas outras vezes, estas personagens encarnam de forma aterradoramente verosímil características muito comuns entre as pessoas de quem gosto e com quem me relaciono. São dark and twisty. Têm medos, inseguranças. Alguns passaram por doenças graves. A maior parte, por relações falhadas. Casaram, descasaram, foram deixados no altar, traídos, trocados pelos melhores amigos, ofendidos, humilhados. Apanharam bebedeiras juntos. Deitaram-se debaixo da árvore de Natal a ver as luzinhas a piscar, ou no chão da casa de banho em luto. Já os vimos rir, chorar, dançar, discutir, andar ao murro, competir, beber copos, acordar em camas estranhas. Já os vimos reprovar em exames, falhar, ter sucesso, ser os maiores, celebrar o Natal, o Ano Novo, o Dia de Acção de Graças. Acompanhamos as suas vidas e já vimos, até, alguns morrer. Não são os meus amigos, mas lembram-me muitos deles que não vejo ou com quem não estou tão frequentemente como gostaria.
Quem me envia os episódios tem, em comum comigo, uma preferência muito forte pela Bailey, a nossa sweet nazi. Acompanhamos o seu modo frontal de dizer as coisas certas nos momentos adequados. Eu, pela parte que me toca, invejo-lhe essa faceta porque, apesar de termos em comum uma agressividade sempre latente, ao contrário de mim nunca a vi perder a razão. Os comentários depois dos episódios, com a pessoa que mos envia religiosamente, estão geralmente relacionados com a nossa vontade comum de que esta personagem seja feliz e encontre um novo amor, como meninas lamechas que no fundo somos.
Mas hoje, o que me marcou num episódio que não vou contar, foi um discurso da Christina, de quem também sempre me senti muito próxima, não na obsessão pelo trabalho, mas na cara sempre séria, na expressão antipática e trocista, na forma arrogante com que olha o Mundo, e na sensibilidade que mostra raras vezes. Talvez por serem tão raras, para mim são muito marcantes. Choro sempre, e hoje não foi excepção. Quando a sensibilidade a invade, quando lhe tocam no ponto certo, a Christina dá os maiores shows de representação que tenho visto nesta série.
Hoje o namorado perguntava-lhe porque não se deixava amar.
Ao que ela respondeu: o Burke foi tirando aos poucos, e sem que eu desse conta, bocadinhos de mim. Até eu deixar de ser a Christina Yang e me transformar na pessoa que ele queria que eu fosse. Perdi-me e passei muito, muito, tempo a recuperar-me, a voltar a ser a Christina. Amo-te. Amo-te mais a ti que o amei a ele. E isso assusta-me horrivelmente. Porque hoje tu tiraste um pedaço de mim. E eu deixei que o fizesses. Mais uma vez. E isso não se vai voltar a repetir. Nunca mais.
Como eu a entendo. E como gostaria de um dia poder afirmar, convictamente, esse nunca mais para mim própria.
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
Par Perfeito
Este ano juntam-se as duas festividades mais parvas da história da humanidade num único dia: Domingo de Carnaval é dia de S. Valentim. É o par perfeito: só estragam uma casa, neste caso, 24 horas.
domingo, 7 de fevereiro de 2010
Eu devia ter previsto...
... que este fim-de-semana ia correr mal quando, na sexta-feira à noite, o mesmo caramelo que apresentou, a nove pessoas sem sobremesa, meio, sim, metade, pois, cinquenta por cento, de um bolo de aniversário, resolveu pedir-me em casamento.
Como já era a segunda vez, e da primeira vez tinha levado uma nega redonda, desta vez aceitei. E foi aí que o pobre teve um ataque de soluços daqueles impressionante, que não passava com nada. Ora eu sou fã da Anatomia de Grey, e a madrasta da Meredith morreu assim, logo apressei-me a desfazer o noivado (verdade seja dita, só volto a aceitar um pedido de casamento com um anel de diamante solitário à vista). Mal o desfiz, passaram-lhe os soluços. Acreditem, que há sete testemunhas.
Pronto, está tudo dito. Eu, que sou uma ave rara, vou inscrever-me no Guiness com o noivado mais breve de todos os tempos. Ainda assim, nessa noite, para comemorar, deitei-me às seis da manhã. O fim-de-semana está a ser surrealista, but again, eu devia ter calculado que aquilo não augurava nada de bom.
Perfeita Dona-de-Casa...
... desesperada.
Como se já não tivesse bastado espetar com um copo de vinho tinto na coberta do sofá, que tal como o dito, é beige muito clarinho, e ter tentado tirar a nódoa com uma parafernália de detergentes que a puseram esverdeada, quando a tirei hoje da máquina, além de se estar a desfazer... tinha a minha roupa toda coberta de algodão ou veludo ou sintético ou o raio que o parta. Incluindo as minhas calças de ganga escuras, que parece que saíram de uma máquina de algodão doce de qualidade duvidosa.
Vou ali já venho, cortar os pulsos... e a p*ta da coberta às tiras muito fininhas, para me fazer de garrote, se me arrepender.
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
Isto, às vezes, até compensa
Oito e dez da manhã.
"Daqui a pouco, Nuno Markl e a caderneta de cromos, mas agora, notícias do trânsito: acidente na avenida da ponte. A fila no eixo Norte-Sul chega já a Telheiras..."
O JadeMobile avança a velocidade de cruzeiro numa estrada deserta, com a pick-up de uma colega atrás, a pouca distância. Jade vai-se metendo com ela, diz-lhe adeus, faz quatro piscas, ri-se. O nevoeiro parece não durar muito e adivinha-se sol. Até prefere a Antena 3, mas não resiste ao Markl e à equipa da manhã. Não há dia que não a façam rir.
Uma da tarde e está de fim de semana. Ele há grandes vidas...
Já não deve haver trânsito em Lisboa. Mas a Jade, novamente no seu carro infernal, olha os campos verdes já cobertos de azedas amarelinhas. Num determinado ponto, uma conferência de vacas deitadas no pasto. Mais à frente, ovelhitas brancas e pretas saltam atrás das mães. Bela paisagem, excelente humor. De vez em quando, apetece mesmo dizer, que bem se está no campo...
"Daqui a pouco, Nuno Markl e a caderneta de cromos, mas agora, notícias do trânsito: acidente na avenida da ponte. A fila no eixo Norte-Sul chega já a Telheiras..."
O JadeMobile avança a velocidade de cruzeiro numa estrada deserta, com a pick-up de uma colega atrás, a pouca distância. Jade vai-se metendo com ela, diz-lhe adeus, faz quatro piscas, ri-se. O nevoeiro parece não durar muito e adivinha-se sol. Até prefere a Antena 3, mas não resiste ao Markl e à equipa da manhã. Não há dia que não a façam rir.
Uma da tarde e está de fim de semana. Ele há grandes vidas...
Já não deve haver trânsito em Lisboa. Mas a Jade, novamente no seu carro infernal, olha os campos verdes já cobertos de azedas amarelinhas. Num determinado ponto, uma conferência de vacas deitadas no pasto. Mais à frente, ovelhitas brancas e pretas saltam atrás das mães. Bela paisagem, excelente humor. De vez em quando, apetece mesmo dizer, que bem se está no campo...
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
Go ahead and kill me
Ontem foi o Hedgehog Day nos States. Parece que o bicho vaticinou mais seis semanas de Inverno. Se o Pan me tivesse visto hoje, teria certamente elogiado o meu mundialmente conhecido "Caniche Look" próprio dos dias de chuva miudinha a bater no cabelo de uma cabecinha de vento avessa a guarda-chuvas.
Com todo o mundo blogger a barafustar contra o tempo e o S. Pedro, até me fica mal dizer que adoro estes dias, certo? Mas é verdade. Adoro. Pronto, já disse.
terça-feira, 26 de janeiro de 2010
Desta vez tive sorte...
À saída do hipermercado hoje, o meu telemóvel começou a tocar. Claro que quando lhe peguei, depois de alguns palavrões que metiam malas de gajas à mistura, a Mzinha já tinha desligado. Não retribuí a chamada, que tinha falado com ela uns minutos antes, a desafiá-la para um café numa esplanada, e ela não estava ainda despachada. Pensei "já chegou a casa e quer saber onde ando".
Quando cheguei, nada. Chegou uns momentos depois:"dei-te um toque", e eu, "pois, eu vi". E ela "quando saíste do Modelo eu estava numa das caixas a pagar. Mas olhaste para mim, com aquele ar de "não te estou a ver, que não quero ver ninguém e detesto esta cidade onde toda a gente se conhece"... e foste-te embora.
Claro que não a vi. E desta vez tive sorte, ou seria mais uma a chamar-me mal-educada por tudo o que é tasca ou cabeleireiro desta Cidade de Deus.
domingo, 24 de janeiro de 2010
Duques e cenas tristes
Depois de um fim-de-semana em que pouco me mexi, se não considerarmos os passos que vão da sala à cozinha, tinha que haver uma epifania qualquer, visto que, além de mover o dedo para mudar de canais ou clicar no mahjong, também mexi neurónios. E demais, que quando estou com a neura a minha cabeça é tipo whirlpool: quanto mais quieta estou, mais viajo dentro do poço.
Já fiz muitas cenas tristes justificadas por aquilo a que pomposamente um dia chamei amor: cenas embaraçosas, deprimentes e decadentes, género novela venezuelana do piorzinho. Já fiz e claro que hoje me arrependo. Às vezes, até me rio de mim própria, "onde é que estavas com a cabeça, were you out of your mind???", ao mesmo tempo que me benzo agradecida por muito poucos terem testemunhado os meus momentos de desvario, que os meus amores são raros e, dadas as minhas tristes figuras, valha-nos isso.
Só que fiquei a pensar: será isto uma total falta de auto-estima? Ou será auto-estima a mais? Veio-me assim, esta pergunta, tipo Carrie Bradshaw ao computador. Se não, vejamos. Humilhei-me, pois foi. Implorei, argumentei, chorei. Acho que num dos casos, até solucei. (!!!) Fiz, portanto, de tudo um pouco. Mas será que foi por querer alguém que já não me queria, por achá-lo tão melhor que eu, que só me minimizando ao infinitamente pequeno teria uma hipótese? Será que foi rastejar, perder o limite do digno? Ou será que foi por achar que sou tão boa, mas tão boa, que uma rejeição não só era incompreensível como fazia do meu príncipe encantado o maior sapo do Mundo?
Ainda hoje acredito que as pessoas que me rejeitaram estariam bem melhor comigo. Só que hoje já acredito que estou eu bem melhor sem elas. E muito sinceramente... acho que isto responde à minha própria pergunta.
Got a Life... and now what?
Quando ter uma vida é ter uma vida completamente estúpida, olha, mais vale ser acusada de não ter nenhuma e ir gozando. Estou farta do casa-trabalho. Estou tão fartinha que, em casa, pouco mais faço que dormir. E até podia achar que o sono é indício de depressão, mas não é aquele sono de "levantar-me para quê?", não. É o sono de andar todo o dia a abrir a boca, deitar-me e adormecer instantaneamente e dormir horas a fio seguidas. E depois, levantar-me, e passada uma horita estar outra vez a bocejar.
Não é depressão. Deve ser tédio.
Ando entediada e preciso de mudar de vida, já que só ter uma não chega.
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