quinta-feira, 7 de maio de 2009

Pérolas da Sala de Profes

Hoje, pelos vistos, é dia de publicar vídeos.
Lembrei-me que na terça-feira, no meio de um dia do reino do incrível, em que só me apetecia fazer uma fogueira e queimar em auto-de-fé os mini-testes dos alunos juntamente com dois ou três colegas, ou a escola inteira, que eu não sou de fazer as coisas por menos, na terça-feira, dizia eu, antes de me perder em explicações e contextualizações, estava sentada a trabalhar numa das mesas da sala de professores com a Mzinha e o Maçainhas, quando alguém diz, de costas para nós, a ler pela milésima vez a lista de graduação da malta que concorreu aos lugares de escola TEIP: "Ouvi dizer..."
O que a colega ouviu dizer a gente nunca soube, porque eu e o Maçainhas, tipo cão do Pavlov a salivar ao som do sininho, começámos logo a cantar a música que se segue, parando a discutir a letra, quando um ou o outro se enganava ou presumia melhorar a música com palavras que não estão lá.
Já não a ouvia há muito tempo, e é incrível como se mantém sempre actual. Acho que foi a última música portuguesa que ouvi mais de quinhentas vezes (muitas delas umas a seguir às outras). Vício, mesmo. É claro que a teimar na letra com o Maçainhas, ganhei sempre. Só jamais consegui decorar o poema final. Troco sempre a treta da enumeração dos lugares onde o nome aparece escrito...
É divina. Não se admitem comentários em contrário, a chamar-lhe foleira, ou assim, já estou a avisar!!! Ah, e o vídeo foi o único decente que encontrei. E olhem que vi uns três.
Vá, tudo a puxar dos kleenex...
Vá, não mintam... é comovente!


Mundo Inteiro

Têm sido dias difíceis, cheios de trabalho, parcos de paciência. Mas como haverá sempre uma luz ao fundo do túnel, nem que seja uma luz ténue e indistinta, que não sabes bem de onde vem, têm sido também dias de muito consolo, de alguns presentes especiais, deixados no mail ou via telefonema por gente quente e singular, que sai das suas vidas e dos seus problemas para se atravessar na minha e partilhar os meus.
Por isso, de duas fontes distintas, deixo-vos dois presentes oferecidos por duas pessoas diferentes: um discurso que me fizeram ao telefone, e um vídeo que me dedicaram por mail. O único ponto de contacto entre estas duas pessoas, que não se conhecem, sou eu. E, no entanto, não poderiam estar mais em sintonia. E deixo-vos aqui os meus dois presentes porque sei que eles podem ser úteis a muitas outras vidas cansadas, desanimadas, cheias de trabalho ou, simplesmente, cheias de vazio.

"Porque há pessoas para quem tu contas, que te limpam as lágrimas, que te sentem a falta, que te dão um abraço, que lêem fielmente o teu blogue só para estar mais perto, te procuram. És o que os outros acham que tu és, e por isso és banal e dispensável para uns, mas também és especial e o mundo inteiro para outros. Porque a tua ausência, indiferente para alguns, seria dilacerante para outros. Porque és raiz e alicerce de crianças que te amam, de alunos que te admiram, da tua mãe, dos teus amigos, dos que te vêem sem se limitar a olhar-te. E se aceitas a tua inutilidade e banalidade que é o real na vida de muitos, também deves aceitar e assumir a tua importância na vida dos que sobram. És as duas faces da moeda. Somos todos."



E, afinal, a luz ao fundo do túnel não é tão indistinta quanto isso: a luz ao fundo do túnel está firmemente segura na mão dos amigos que caminham ao teu lado, de lanterna em riste.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

In my Place

Também tive a minha fase Coldplay, em que trauteava incansavelmente "The Scientist" e "In my Place". Depois, perdi-me de amores pelo "Fix You", vai bem com o meu tom de pele, com a necessidade atroz que tenho de ser necessária. Este último álbum já me diz pouco, mas relembrei a banda ontem, por causa de uma conversa telefónica, que rezou assim, mais coisa, menos coisa, e com algumas liberdades poéticas à mistura, que é óbvio que não me lembro das palavrinhas exactas...


Eu: Quando aprendi a publicar vídeos no blogue, via-os dezenas de vezes. Agora publiquei aquele do Bono, tão lindo, e nunca mais olhei para ele...
Ela, eloquente, provavelmente às voltas com a internet ou o arroz tufado com leite: Hmmmm...
Eu, ignorando o facto de estar a ser ignorada: ...e eu adoro a música, e este vídeo tem legendas. É tão lindo aquele verso "Home... you don't know what it is, when you never had one".
Ela: Brutal é o "in a little while", conheces?
Eu: Não.
Ela: Mereces morrer.
Eu: Não mereço nada, já sei qual é (e canto um bocadinho).
Ela: Sim, é essa. Sabes, essa história de não saber o que é home porque nunca se teve uma, é bem verdade.
Eu: Eu sinto-me assim.
Ela: Não, muito diferente. Tu tiveste e agora, que já não és de Lisboa nem pertences à Cidade de Deus, sentes falta de um espaço com que te identifiques, que reconheças (reconhecer, voltar a conhecer, distinguir o que já se conhece) como tal.
Eu: De um espaço? Não sei se é bem isso. O espaço é secundário, o lugar é irrelevante. Ser uma nómada, uma wanderer, não ajuda, claro, mas se tivesse um ponto de regresso... quero dizer, não um sítio tangível, mas mais um espaço emocional. Não é a questão do apartamento que fui eu que paguei e onde guardo os meus cacos. É a questão das paredes construídas pelo abraço, o tecto de um sorriso, as janelas para um olhar, o chão de um corpo. A pergunta à chegada, a síntese do dia ou o silêncio partilhado. O sofá confortável de um silêncio partilhado, em que te deitas esticada, e te espreguiças feliz. A lareira acesa pelo toque carinhoso, pelo consolo de um ombro. Uma mesa para dois, que pode ser apenas uma toalha esticada no chão. Não é o lugar, é a companhia. Sou pouco ligada às coisas materiais da vida.
Ela, escarninha: Pois, o material e a organização prática das coisas são mesquinharias a que pessoas como tu são superiores.
(risos. Eu penso: ...e depois lixam-se, com tanta superioridade).
E acrescenta: Toda a gente gosta de lugares, de sítios. Deixamo-nos marcar por determinada luz, por formas, cheiros, temperaturas específicas a que regressamos e que associamos a destinos particulares. Simplesmente...
(pausa)
...simplesmente algumas pessoas, nas nossas vidas, são lugares.
(vêm-me de imediato as lágrimas aos olhos. Penso: que frase maravilhosa. Penso em dizê-lo, assim mesmo, "que frase maravilhosa", mas calo-me, porque ela continua).
E quando as pessoas ganham a dimensão de lugares, a que queres regressar uma e outra vez, pessoas que andam pelo Mundo, que não estão, que não pousam, que não são árvores com raízes ou edifícios alicerçados no solo e, no entanto, é ao lado delas que te sentes em paz, que sorris sempre, mesmo que estejas partida em mil, quando essas pessoas existem, pode ser, pode mesmo ser, que sejam elas a tua casa. E aí não pertences a um sítio, pertences a qualquer sítio onde elas estejam. São a tua casa.
(por esta altura, as lágrimas já me corriam cara abaixo, e mantive-me em silêncio, ou disse um "pois" muitíssimo perspicaz, nem sei, pensando que foi exactamente isso que me prendeu tantos anos à Cidade de Deus, de que só digo mal. Nunca foi o espaço físico que amei aqui. Nem o social. E, no entanto, nunca daqui ponderei sair, nunca, durante sete ou oito anos que me pareceram a minha vida inteira, que poucas memórias tenho de quem fui antes disso. Sim, há pessoas que são a nossa casa.)
Ela: Sabes o que tens a fazer?
Eu, com o feitiozinho de merda anti-climax, de não dar parte fraca nem ser piegas em directo (por escrito é uma coisa, ao vivo, nem que seja por telefone, é outra totalmente diferente): Mudar de casa? Arranjar uma casa de férias?
(risos)
Ela: Não. Seguires os teus instintos. E pensares que em qualquer lugar do país vais viver na mesma, vais sorrir na mesma, dizer os mesmos disparates, tudo igual. Podes não estar em casa, podes viver emigrada o resto da tua vida, mas vais vivê-la na mesma.


Desligámos, entretanto. Não sei se é um consolo por aí além, saber que a vida continua, ainda que incompleta de algum modo. Acho que prefiro pensar que, não tendo dinheiro para o meu T3 de sonho, me vou contentar (sem me acomodar, contentar de ficar contente, mesmo), com um T1 maravilhoso que encontre entretanto pelo caminho. Um T1 que me ofereça, finalmente, as noções de settlement e belonging.
Estou com um medo denso do futuro, essa é que é essa.

domingo, 3 de maio de 2009

Crave, Sarah Kane



"E eu quero brincar às escondidas contigo e dar-te as minhas roupas e dizer que gosto dos teus sapatos e sentar-me nos degraus enquanto tu tomas banho e massajar o teu pescoço e beijar-te os pés e segurar na tua mão e ir comer uma refeição e não me importar se tu comes a minha comida e encontrar-me contigo no Rudy e falar sobre o dia e passar à máquina as tuas cartas e carregar as tuas caixas e rir da tua paranóia e dar-te cassetes que tu não ouves e ver filmes óptimos, ver filmes horríveis e queixar-me da rádio e tirar-te fotografias a dormir e levantar-me para te ir buscar café e brioches e folhados e ir ao Florent beber café à meia-noite e tu a roubares-me os cigarros e a nunca conseguir achar sequer um fósforo e falar-te sobre o programa de televisão que vi na noite anterior e levar-te ao oftalmologista e não rir das tuas piadas e querer-te de manhã mas deixar-te dormir um bocado e beijar-te as costas e tocar na tua pele e dizer quanto gosto do teu cabelo dos teus olhos dos teus lábios do teu pescoço dos teus peitos do teu rabo sentar-me nos degraus a fumar até o teu vizinho chegar a casa e se sentar nos degraus a fumar até tu chegares a casa e preocupar-me quando estás atrasada e ficar surpreendido quando chegas cedo e dar-te girassóis e ir à tua festa e dançar até ficar todo negro e pedir desculpa quando estou errado e ficar feliz quando me desculpas e olhar para as tuas fotografias e desejar ter-te conhecido desde sempre e ouvir a tua voz no meu ouvido e sentir a tua pele na minha pele e ficar assustado quando estás zangada e um dos teus olhos vermelho e o outro azul e o teu cabelo para a esquerda e o teu rosto para oriente e dizer-te que és lindíssima e abraçar-te quando estás ansiosa e amparar-te quando estás magoada e querer-te quando te cheiro e ofender-te quando te toco e choramingar quando estou ao pé de ti e choramingar quando não estou e babar-me para o teu peito e cobrir-te à noite e ficar frio quando me tiras o cobertor e quente quando não o fazes e derreter-me quando sorris e desintegrar-me quando te ris e não compreender por que é que pensas que eu te estou a deixar quando eu não te estou a deixar e pensar como é que tu podes achar que eu alguma vez te podia deixar e pensar em quem tu és mas aceitar-te na mesma e contar-te sobre o rapaz da floresta encantada de árvores anjo que voou por cima do oceano porque te amava e escrever-te poemas e pensar por que é que tu não acreditas em mim e ter um sentimento tão profundo que para ele não existem palavras e querer comprar-te um gatinho do qual teria ciúmes porque teria mais atenção que eu e atrasar-te na cama quando tens de ir e chorar como um bebé quando finalmente vais e ver-me livre das baratas e comprar-te prendas que tu não queres e levá-las de volta outra vez e pedir-te em casamento e tu dizeres não outra vez mas eu continuar a pedir-te porque embora tu penses que eu não estou a falar a sério eu estou mesmo a falar a sério desde a primeira vez que te pedi e vaguear pela cidade pensando que ela está vazia sem ti e querer aquilo que queres e achar que me estou a perder mas saber que estou seguro contigo e contar-te o pior que há em mim e tentar dar-te o meu melhor porque não merece menos e responder às tuas perguntas quando deveria não o fazer e dizer-te a verdade quando na verdade não o quero e tentar ser honesto porque sei que preferes assim e pensar que acabou tudo mas ficar agarrado a apenas mais dez minutos antes de me atirares para fora da tua vida e esquecer-me de quem sou e tentar chegar mais perto de ti porque é maravilhoso aprender a conhecer-te e vale bem o esforço e falar mau alemão contigo e pior ainda em hebreu e fazer amor contigo até às três da manhã e de alguma maneira de alguma maneira de alguma maneira transmitir algum do esmagador, imortal, irresistível, incondicional, abrangente, preenchedor, desafiante, contínuo e infindável amor que tenho por ti."

Sarah Kane



Há um dia em que chego a casa cheia de coisas por e para dizer, e em que não posso fazê-lo, para variar. Não posso, não porque tenha o tal medo das reacções dos leitores, mas porque fazem parte daquele território nebuloso e denso da minha vida a que chamo pomposamente "privacy". Porque todas as palavras que se atam em nó cego na garganta são para um par de orelhas exclusivo e ausente, porque as calo quando me apetece gritá-las, e ainda assim as substituo pelo silêncio triste de quem sabe que não vale sequer a pena proferi-las. Em vez disso, então, opto por escrever o post anterior, a falar do modo como um blogue pode ser opressor, quando nele a frecha que abrimos da nossa alma começa a ser motivo de cobrança, começa a ser usada em função de expectativas que justificam críticas e censura de lapinhos azuis.
E sai-me, de repente, a sorte grande, pela voz desconhecida de alguém que me liga já de madrugada. Alguém com quem trocara sms, mails, comentários, mas com quem nunca falara antes. Alguém que me liga e diz, depois de "ai, a tua voz é estranha, não estava nada à espera de uma voz assim...", "tens os próximos instantes para provares que és uma ordinarona a sério: diz lá dez palavrões dos piores que conheces. " E eu não consegui. "És uma convencida. Um bluff."
E como é certo e sabido que eu tenho tendência para o abismo, claro que fui completamente conquistada por este ser que só me insulta e me goza, mas também me deixa pérolas como a anterior, um monólogo enviado para o meu e-mail.
Sarah Kane foi uma dramaturga que se suicidou depois de ter escrito quatro peças, pelo que me disse um sagitário banana, arraçado de virgem pura.
Deixei-vos aqui as palavras que Sarah põe na boca de uma das suas personagens masculinas, mas que eu duvido que algum homem, alguma vez na vida, sequer pensasse, quanto mais proferi-las ou escrevê-las. São palavras, algumas, que já me ocorreram, ipsis verbis, em sonhos que gostaria de ver realizados por uma voz muito particular. Quase consigo ouvi-las ditas no seu timbre. Mas a certa altura, o suspension of disbelief quebra-se. Porque há sentimentos que, por muito que sejam ficcionados sob uma voz masculina, serão eternamente femininos. Isto é o que eu gostaria de ouvir, as palavras que nunca me dirás. Mas consolo-me sabendo que foi uma mulher que as escreveu. Seria muito duro saber da existência de um homem capaz de escrever assim à sua amada. Seria dilacerante saber dessa existência, ter que a aceitar, ter que aceitar aquilo em que já não acredito. É um consolo, acreditem, este cepticismo em relação a homens e a palavras. Vejam o que uma mulher é capaz de fazer com elas. E depois não me venham dizer -a mim- que sei escrever muito bem. Isto, sim, é força e genialidade. (E declamado com pronúncia do norte... nem queiram saber, só ouvido)
Com o verde escuro tentei evidenciar as partes que me tocaram mais fundo, pela naturalidade de um quotidiano que nunca tive ou se perdeu em memórias a que me dispenso de regressar, e também algumas frases que me soaram a déja-vue, ou déja-entendue, neste caso, não porque mas tenham dito baixinho ao ouvido, como eu queria, ou escrito numa carta de amor, como eu também teria gostado, mas porque eu própria as inventei também, como a Sarah Kane, na boca da minha personagem masculina favorita. Que é baseada em factos e pessoas reais, mas que não deixa de ser menos inventada por mim, por causa disso.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Ao Engano

Casualmente e de forma esporádica, alguns leitores deste blogue dizem-me que o tom mudou. Que os textos mais antigos eram diferentes, superiores em qualidade, mais tocantes, mais filosóficos, mais belos ou pungentes. Que algo se perdeu com o tempo, com a rotina, com a escrita diária. Que mudaram os assuntos. Que se caiu muitas vezes na obsessão pessimista. Que outras vezes os posts descambaram no brejeiro, no reles, no palavrão, na piada fácil.
Não pretendo aqui fazer um mea culpa. Mas também não vou fazer o contrário, desculpar-me ou justificar-me. Quero apenas dissertar um pouco sobre este assunto. Sobre o que me apetece, sempre, responder, nas ocasiões em que sou confrontada com este misto de decepção e crítica (na maior parte das vezes construtiva, que à crítica destrutiva pouca confiança dou).
E o que me apetece dizer é apenas isto: este espaço é meu. Fundamentalmente, é meu, embora opte por partilhá-lo convosco. Mas sempre nos meus parâmetros. E a minha escrita é genuinamente "minha". Espelha o que me vai na alma, seja literalmente, seja de modo metafórico. Seja a cru, seja por artifícios. Seja com a papinha toda feita, seja nas entrelinhas.
Quando criei o blogue, dei a morada aos meus melhores amigos e a algumas outras pessoas cujas opiniões respeito ou respeitava na altura (que isto do respeito também se perde, e quando isso acontece, é irrecuperável). Sempre me elogiaram a escrita e sempre me aconselharam a escrever para um público. Como referi no primeiro texto que publiquei, durante muito tempo achei que não tinha muito a dizer, muito que fosse do interesse de um público anónimo. Sempre escrevi para destinatários específicos, mesmo quando os textos eram pura ficção (lembras-te Pan?) ou poesia. Sempre conheci o meu público. E, no início, o mesmo acontecia com este blogue.
As coisas mudaram. Tenho leitores que nunca vi, que não conheço de lado nenhum. Tenho leitores que, apesar de nunca ter visto ou conhecido pessoalmente, já criaram comigo uma dinâmica mais íntima, que inclui mails e sms, e esses, que não são muitos mas são preciosos, são os presentes que mais prezo de entre todos os que este blogue já me ofereceu. Mas, de facto, a partir de um certo momento, perdi o controle do público a que me dirijo. E isso, obviamente, pesa.
Ou deveria pesar, e se calhar não pesa assim tanto, daí as decepções e as críticas. Não sei se dei, e se o fiz foi uma pena, ideia de ser uma pessoa diferente daquela que de facto sou. Não me parece que alguma vez tenha dado a ideia de ser uma mulher abençoada pela sorte, uma optimista, uma intelectual, uma moralista, uma pessoa extraordinária. Porque eu sou alguém bem diferente dessa em quem tanta gente depositou expectativas tão altas que agora até insultos anónimos recebo por dizer palavrões neste espaço. Santa paciência...
A Jade, para quem não conhece, é uma mulher lunar e atormentada. Quase sempre. Alegre, apesar disso. Cada vez menos. E contraditória. Todos os dias. Sim, leio autores difíceis e gosto de ler livros extensos e sem bonecos. Mas também leio horóscopos e revistas cor-de-rosa. Sim, sei escrever sem erros ortográficos e domino a gramática, e apresento facilmente dois ou três parágrafos de linguagem científica irrepreensível. Mas também digo palavrões, e muitos, e dos mais feios que existem. Sim, sou insegura e complexada e pessimista e obsessiva com as minhas dores. Mas ainda assim, não venho aqui contar a missa nem pela metade, e sou confiante o suficiente para me estar completamente nas tintas com a imagem criada por este espaço a pessoas que não me conhecem, ou que me conhecem e não me apreciam.
Por isso, o que me apetece dizer aos decepcionados de boas intenções, que me acarinham e gostam de mim é, olhem, vão lendo, que pode ser que entre a lama surja de repente uma flor-de-lótus. Aos outros, àqueles que me insultam e aos meus comentadores, e se queixam ainda assim de verem os seus comentários rejeitados, acusando-me de não dar voz ao contraditório, o recado é: quem manda aqui sou eu. Terei o maior prazer que a repulsa que sentem com a leitura dos meus posts vos leve a deixar, definitivamente, de os ler. Porque o palavrão vai continuar a aparecer. Sempre que me apeteça. E se a vós vos enoja a má-educação, a mim enoja-me o falso moralismo e a hipocrisia. Enoja-me, sobretudo a maldade e a cobardia.
Isto tudo porque hoje, o que me apetece mesmo, é vir para aqui GRITAR. Porque estou rodeada de gente cheia de problemas e chatices, para não falar dos meus. Porque as pessoas de quem gosto e que me estão próximas estão metidas em fases de merda, (ai, que vergonha, um palavrão, duas chibatadas) e eu me sinto impotente para ajudar seja quem for, no estado de sítio em que anda a minha própria existência. Porque pessoas que me são muito queridas andam com depressões do arco-da-velha, com os nervos desfeitos, com as lágrimas a saltar dos olhos a um simples “como vai isso?”, e me apetece mandar Abril PÓ CARAL*O!!! (523462 chibatadas).
Mas, sobretudo, porque, para variar, me apetece GRITAR sem ter que depois me sentir desconfortável por estar a decepcionar as expectativas criadas. (Ai, lá vem mais um post a puxar à auto-comiseração e ao pessimismo doentio, lá vem esta tipa a pedir a pena alheia, escrevia tão bem e era tão interessante... STOP! Eu escrevo o que sinto e o que me apetece, a intenção não é nenhuma a não ser a escrita em si mesma, e dou a toda a gente a suprema liberdade, essa sim, de ter a classe de não comentar!)
Não tenho intenção nenhuma de criar expectativas. Voltem sempre que quiserem, serão recebidos com carinho, se vierem por bem. Mas venham sem expectativas. A Jade “douta e sábia, profunda e filosófica” convive de mãos dadas com a Jade “reles, brejeira, ordinária, pessimista e ressabiada”. Esta sou eu. Não me venham depois dizer que vieram para aqui enganados.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Klimt

Há dias que acordam cinzentos, e que te contagiam o espírito de sombra. Há dias que acordam cinzentos depois de uma noite em que não dormiste bem, em que acordaste muitas vezes de sonhos bons, e em que essa sensação de acordar te fere a alma de realidade. Há dias em que acordas triste por teres tido vislumbres oníricos de um qualquer nirvana, por teres tido perto de ti pessoas que estão longe, gente irrecuperável no tempo, no espaço. Há dias cinzentos que se sucedem a noites plenas de momentos tão perfeitos quanto irreais, e em que o sentimento que perdura na vigília é o de vazio. Há dias que acordam cinzentos e põem em causa toda a luta que travas contigo própria, em que te iludes com a pretensão de estares, finalmente, a ganhar. Há dias em que todo o esforço vai por água abaixo, e te arrastas na futilidade de seres quem és e de só precisares, com uma necessidade urgente, dilacerante, ensurdecedora, já na fronteira da loucura, de um grande beijo dado com uma violência arrebatadora pela pessoa que amas. Acima de tudo o resto. Acima de problemas maiores e mais prementes. Acima de tudo o que não é fútil. Acima do trabalho, da carreira, dos amigos, da saúde, da família, tudo o que te faz falta é um beijo, aquele do sonho de que acordaste tão infinitamente só. Há dias em que toda a futilidade do mundo se consubstancia num beijo, no beijo que desesperadamente sabes que não vais ter de presente porque não acreditas já em milagres.
Há dias desses.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Y.

Hoje, entre os famigerados mini-testes que me ocupam agora o tempo e me dão cabo da paciência, me entristecem sobremaneira ou me fazem virar bicho (quando vários alunos de nono ano traduzem médico por "medic" e eu nem posso culpar a professora do ano transacto, já que os acompanho desde o sétimo ano, só que, suponho, devo dar as aulas em chinês ou russo, e só me apetece escrever-lhes nos testes "Medic? Merdic, meu amigo, merdic..."), já sem ponta de pachorra ou réstia de sentido de humor, de repente, e instigada por uma conversa casual com um colega, em que comentávamos o que ainda nos surpreende nas pessoas, chegando à triste conclusão de que, infelizmente, já pouco do que é hipocrisia, arrogância ou bluff nos surpreende, veio-me à mente um velho conhecido meu. Chamemos-lhe Y.
Ocorreu-me Y. por ser uma pessoa que, em tempos, me surpreendia. Achava graça à sua imprevisibilidade, à sua originalidade, aos seus pontos de vista. Achava-lhes graça, sem muitas vezes os partilhar, mas tinha algum respeito pelas suas opiniões e filosofias, inseridas na convencionalidade das coisas por educação, mas constantemente a fugir-lhes por instinto. Um inadaptado a tentar fazer parte, um outsider almejando a normalidade. Colavam-se-me, assim, as suas necessidades, a sua obsessão pelo "belonging", sem nunca o conseguir, o modo como lutava contra o seu eu rebelde tentando, disciplinadamente, enquadrar-se nas convenções e no politicamente correcto. Agradava-me a sua luta interior: por um lado, a busca da segurança no socialmente aceitável, por outro, a sua propensão para a liberdade, a imaginação, o onírico, o impossível. Tínhamos visões diferentes da vida, divagávamos num emaranhado de teorias, mas, no fundo, a nossa verdadeira utopia era a normalidade, o desejo de a atingir e, assim, de conquistar um lugar numa sociedade em que sempre nos sentíramos aliens.
Isto, como já disse, em tempos idos. Porque Y. evoluíu e deixou-me para trás. Vive agora a sua utopia e, na realização das suas necessidades, na prossecussão dos seus objectivos, no enquadramento que gizou e seguiu, algo se perdeu de irrecuperável.
Y. lembra-me, agora, um país estrangeiro que se visitou na primeira infância e ao qual se regressa já no estado adulto. Reconhecem-se imagens, um ou outro cheiro, identifica-se algo de vagamente familiar, mas, de um modo geral, e à parte a sensação global do que ficou, à parte um certo preconceito ou juízo de valor, uma vaga noção de agrado ou desagrado, tudo é desconhecido, tudo parece novidade.
Y. lembra-me agora aquele primo com quem brincámos quando éramos ambos miúdos e que entretanto emigrou para um país longínquo. Telefona-nos sempre nos anos e no Natal e a voz é a mesma, o timbre conhecido, mas se passarmos por ele na rua já não o conhecemos.
Y. lembra-me, agora, uma cidade muito antiga, caótica e típica, depois de um projecto de requalificação de um qualquer arquitecto obcecado pela modernidade, que lhe muda a essência, a transforma no último grito da moda, a prepara para a eficácia, e na qual caminhamos agora pasmados com a sua grandiosidade, mas nostálgicos do que a diferenciava. Uma cidade em que não nos atrevemos sequer a pegar num carro, desorientados com as novidades do trânsito, a sequência de sentidos proibidos onde anteriormente se circulava livremente, a imensidão de semáforos e sinais de obrigação, o convite à contramão e ao acidente.
Talvez por estar agora tão dentro das suas sonhadas convenções e tradições, Y. tenha perdido a capacidade de sonhar. Quando o encontro, de quando em vez, noto-o tranquilo e bem-disposto. Adaptado, organizado, outra peça da engrenagem do status quo. Não o lamento, mas a verdade é que também não me consigo regozijar sinceramente com a mudança. Talvez seja por não lhe encontrar no olhar curiosidade. Por não lhe encontrar no olhar fluência, riso, esperança. Por lhe adivinhar um pouco de sombra, um quê de escuridão. Quando lhe perscruto o olhar, vem-me ao espírito a imagem de uma janela a dar para um muro branco.
Y. já não sonha, agora vive a sua utopia. E, por mais que eu inveje a sua tranquilidade, reconsidero as minhas próprias opções. Não quero que os meus olhos percam a sua centelha de luz, a sua sombra de tristeza ou a vivacidade do sorriso sincero que fazem quando encontro um amigo. Não quero fazer dos meus olhos uma janela que dá para lugar nenhum. Se é para isso, prefiro não me acomodar, não pertencer, não ficar, não me encontrar. Prefiro deambular perdida no âmago das emoções e enfrentar, de cabeça erguida, o olhar exterior de estranheza com que sou brindada tantas vezes. Não é que seja confortável, mas há um quê de consolo na genuinidade. Aliado a um quê de mágoa pelos nossos companheiros outsiders serem cada vez menos, e conseguirem aquilo que nós continuamos sem alcançar.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Direitos de Autor(a)

Esta é uma das minhas últimas pérolas, e já a patenteei. Quem a usar tem que pagar direitos de/à autor(a).
Jade: Qualquer dia, apanha-me de mau humor e leva com um valente “Vai-te f*der" alto e bom som no focinho, à frente de toda a gente, que é para a peixeirada ser em grande estilo.
Amiga: Não, não. Eu gostava era que tu dissesses assim “Ó (nome da pessoa)... VAI P’Ó CARAL*O!!!”
Risos histéricos. Brevíssimo momento de silêncio, Jade pensa um instante.
Jade: Não. Eu digo assim: “Olha (nome da pessoa), eu estou-te com um pó que até tem NOME!...”, e a pessoa em questão, “Ah, sim, então qual é?”
“ É o PÓ CARAL*O!!!”
Dei um nome a um pó. E, passo a imodéstia, é um nome genial.
Hoje lembrei-me disto enquanto pensava nos insultos com que sou presenteada habitualmente, ou não fosse eu professora de profissão e polémica de feitio. (Sou carismática, isto é só para quem pode…) Sou alvo de insultos banais, de uma enorme falta de originalidade. Brilhante é inventar um nome de um pó a aplicar ao primeiro que ouse chatear-nos. Isso é que é de valor.
(Já agora, aproveito para brindar com o "meu pó" todos os sonsos, todos os "incautos", todos os coitadinhos, todos os cobardes, todos os falsos moralistas, todos os que sacodem a água do capote, todos os fingidos, todos os hipócritas e todos, que os há, que conseguem conter sozinhos todas estas maravilhosas qualidades. A todos esses, e por enquanto apenas a esses, o meu grand’a PÓ CARAL*O!... com um “peço desculpa” muito envergonhado por não escrever o palavrão completo, que a solenidade da ocasião assim o exigiria, mas o mais forte que consigo ver escrito com todas as letras neste blogue é um “merda” muito maricas.)
Outro pó, o "PÓ"ST SCRYPTUM:
Vou para o Algarve, apanhar sol. Sentar-me em contemplação do Grande Mar. Levantar e pousar copos noite dentro. Fumar cigarros como se não houvesse amanhã. Comer marisco. Rir-me alarvemente. Ou assim o espero. Estarei alguns dias sem publicar "pó"sts (já sei: uns batem palmas, outros desfazem-se em lágrimas...) Mas volto. (nova salva de palmas de uns, novo ataque de lágrimas, dos outros...) Devo estar de volta ao blogue lá para segunda ou terça.
Portem-se bem. Ou mal.
Tenham juízo. Ou não.
Evitem cascas de banana, ou minas terrestres, essas sacanitas traiçoeiras e ordinárias que parecem inofensivas mas originam grandes tombos ou explosões inesperadas. Protejam-se de acidentes. Para protecção total, não saiam de casa. Ou antes, não saiam da cama... mais vale prevenir que remediar, e à cautela, o melhor é não viver. - É isto que eu respondo à minha mãe, quando ela se preocupa com as minhas viagens longas, que é uma querida como não há outra, mas anda sempre com o credo na boca, desde que se reúna a condição "Jade+JadeMobile+Número de quilómetros superior a um".
Vá, juizinho, poupem a vossa saúde, que eu cá... vou tratar mal a minha! E nada me dá mais gozo. BEIJOS!!!

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Murros em Pontas de Faca

Sou especialista em dar murros em pontas de faca. Foram anos e anos de experiência, a apurar a actividade até ao limite da excelência… e da inutilidade. Tornei-me mais do que doutorada em murros e em facas. Tudo isto porque sou uma pessoa teimosa e pouco prática, obcecada com a justiça e com os outros, obsessiva nas convicções. A expressão “não vale a pena”, quando dirigida a pessoas ou a desafios, sempre me desgostou muitíssimo. Tenho uma enorme dificuldade em contrariar os meus instintos, e quando gosto ou não gosto realmente de alguma coisa ou de alguém, teimo nas minhas intuições até ao limite do absurdo. Não há impossíveis, não há decepções, não há provas em contrário que me consigam dissuadir. Só o tempo e a repetição me levam a isso, e é um processo lento, longo e muito doloroso. Detesto desistir do que quer que seja. Abomino, repugna-me, nauseia-me, desistir de pessoas de quem um dia gostei ou que admirei muito.
Sou especialista em dar murros em pontas de faca, e continuo a surpreender-me quando, subitamente, dou um que é o último. Nunca sei quando isso acontece. Acontece de repente, sem aviso. Ao centésimo décimo terceiro, ao milésimo segundo, ao quinto, depende. Dependerá de alguma coisa, só não sei exactamente de quê.
Um dia acordo, e digo basta. É apenas assim, como tudo o que é simples. Mudo de ideias. Por uma gota-de-água que transborda o copo, por uma decepção valente ou por nada de concreto. E isso assusta-me, o facto da minha tolerância não se reger por parâmetros fixos. Uma amiga minha dizia-me ontem ao almoço, de determinada pessoa “Tocou-me uma vez, irritou-me, decepcionou-me, chateou-me. A partir daí, por mais que tente, não me toca, não me irrita, não me decepciona nem me chateia mais. Garanto-te que é verdade” E eu invejei-a.
Ponderei a minha própria situação. Como vos disse a um de Abril, e não era mentira, levei uma valente bofetada nesse dia. Foi uma cena inusitada, absurda, inesperada, muitíssimo injusta, e a minha capacidade de reacção falhou redondamente. Mas, a verdade é que, tendo coincidido com um dia em que já deveria estar de férias e tendo-me ausentado depois disso quase duas semanas da escola, deu para assentar ideias, para esfriar o espírito, controlar emoções, pensar racionalmente, tirar conclusões e, depois de tudo isso, deixar o corpo falar. Em Lisboa, foram poucos os dias em que não falei sobre o assunto com a minha Carolina, a minha sábia, terra-a-terra, tolerante e iluminada amiga. Falámos do assunto até o vomitarmos, transpondo a situação concreta para todas as outras fases da vida em que me aconteceram coisas paralelas, pelo mesmíssimo motivo, a minha teimosia, a minha generosidade, algum sentido de missão impossível que veio não sei de onde e só me prejudica. Falámos de imensa gente, e da urgência que havia em mim de auto-preservação, de dignidade, de fazer ver aos outros que sou importante e que, por mais que os ajude com força e atitude de super-mulher, nada justifica que me tratem mal ou me ignorem esforço e trabalho, dedicação ou, simplesmente, como foi o caso, dêem como certa e garantida a minha ajuda voluntária, tomando-a como obrigatória, natural e isenta, por isso, de respeito. E eu só lhe dizia que era tudo muito lindo na teoria, mas que se ia estragar tudo na prática, quando fosse confrontada novamente com este meu feitiozinho da tanga de dar tudo de mim vezes sem conta só para não ter que admitir que há coisas e pessoas que não valem o esforço. Este feitiozinho de merda consubstanciado na expressão "Pôr-me a jeito".
Mas hoje, decorrida já mais de uma semana de regresso às lides, reparo que, afinal, estas três ou quatro últimas semanas não foram em vão. Que vou para a escola mais leve, que as minhas energias estão a ser canalizadas para objectivos concretos, que os meus pensamentos giram em torno de pessoas que me dão valor e acarinham, me apreciam e me procuram, me ouvem e me respondem, me tratam bem e me agradecem, me ajudam sem que eu peça e me vêem quando olham para mim. As minhas preocupações giram em torno de pessoas que as retribuem, e já não se detêm nas que não o fazem. Ultrapassei tristezas e ódios de estimação.
Hoje, quando cheguei a casa, olhei para a agenda e vi que cumpri todos os compromissos da lista. Que os que estão em falta vão ainda muito a tempo. Que tive ainda opoprtunidade de almoçar fora com amigos duas vezes e ainda hoje é quarta-feira. Que fui ao cinema e beber um copo depois disso. Que não falhei a missa das terças. Que cumpri o meu trabalho e ainda ajudei uma colega com o dela (Há coisas que não mudam, mas esta agradeceu-me). Que não foi por isso que não passei um dia inteiro a deitar conversa fora na sala de professores. Que me detive ainda, por largos períodos de tempo, no bar, a conversar e a brincar com os meus alunos. E que aceitei, finalmente, um convite para passar o próximo fim-de-semana no Algarve.
Onde fui eu arranjar, de repente, o tempo todo que me faltava para ter uma vida organizada? É simples, vejo isso agora: o tempo que passava a dar murros em pontas de faca consumia-me muita energia. Derreava-me. Fazia-me arrastar pela vida com um cansaço constante. Desorganizava-me as ideias. Arrumei as facas e pus ligaduras em ambas as mãos. A frase “não vale a pena” tornou-se, subitamente, das minhas melhores amigas. Dizem os velhotes, “o que não tem remédio, remediado está”. E o que é que não vale a pena? Não vale a pena chatearmo-nos com coisas que não podemos mudar, com pessoas que se estão nas tintas para nós, com prazos que não cumprimos, com qualidades que nunca teremos, com atitudes que jamais compreenderemos, com explicações que damos vezes sem conta, como se falássemos chinês. Não vale mesmo a pena. E o tempo de que dispomos multiplica-se, quando assumimos as nossas desistências e nos concentramos nas coisas que queremos levar para a frente. Podemos não ser mais felizes mas somos, certamente, muito menos infelizes. Sem comparação possível. Poupamos palavras, poupamos energias, poupamos preocupações, poupamos, sobretudo, tempo. E o tempo, meus amigos, é o bem mais precioso, porque nunca ninguém há-de saber quando ele, sem avisar, acaba.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Bono's Advice...

... to restless souls.
Como complemento do post anterior, como statement de fim de ciclo, como imagem do closure de que a minha amiga Carolina fala tanto, como conselho a todas as almas inquietas, como agradecimento ao Dry Martini, que se auto-ofereceu este mesmo vídeo que eu acabei por roubar, como homenagem a uma das minhas duas ou três bandas favoritas, mas sobretudo, como mantra, como oração, como súplica, como suspiro, como sussurro,
ladies and gentlemen,
Mr. Bono Vox


Não é só Coimbra

Hoje passei quase dez horas (terão sido mais?) na escola, para dar um bloco de noventa, três tempos de 45 e ter uma reunião pós-laboral. O resto do tempo passei-o na sala de professores. Estava cheia de boas intenções, de assuntos prementes para resolver fora dali, mas aquela sala hoje estava… gira. Quem diria? Estava mesmo gira, pá!
A escola estava com bom ambiente. E fui-me deixando ficar. Não é que tenhamos feito uma rave ao som da rádio. Para dizer a verdade, nem sei se ligámos o dito aparelho roufenho. Mas, mal lá entrei, às oito e pouco, começou logo a fugir-me o pé para a chinela, e a boca para o comentário parvo, daqueles que fazem rir toda a gente. E eu tinha tantas saudades de ouvir rir a sério naquele espaço específico…
Depois do primeiro bloco de aulas, a risota continuou, com uma sessão de anedotas entre o seco, o ordinário e o escatológico, entre colegas que entravam e saíam com comentários surrealistas à abertura do concurso das escolas TEIP (Quatrocentas horas de Formação? Quem é que tem quatrocentas horas de Formação? Esta gente ensandeceu? E eu, a rir-me, eu cá tenho, eu cá tenho, não tenho é vaga… Contratados não podem concorrer? Fónix, que raio de país democrático é este? E eu, a rir-me, eu cá posso, eu cá posso… não tenho é vaga…) E assim continuámos, entre anedotas contadas e anedotas reais, chocolates, cafezinhos, portáteis e papéis. “Ai, não me apetece fazer nenhum, estou para aqui feita parva há horas e não fiz ponta de corno”, e eu, a rir-me, eu cá fiz, eu cá já vi outra turma de mini-testes… não tenho é vaga…
Pode ter sido da ressaca do filme de ontem, Revolutionary Road, que adorei e me valeu o epíteto de “maluquinho”. Querem saber porquê? Ide ver o filme, que é excelente, e a personagem que me deu o nome, ma-ra-vi-lho-sa; pode ter sido dos neurónios anestesiados com o trabalho todo, o feito e o ‘a fazer’. Pode ter sido da alma já meio nostálgica, do facto de nem poder concorrer a um lugar nesta escola que me ensinou tanta coisa (mais do que eu queria, para dizer a verdade). Pode ter sido de tudo isso, mas hoje, naquela sala de professores, cheia da luz do sol e de companhias extra-divertidas, comecei a sentir mesmo saudades. Senti-me lá mesmo bem. Senti vontade de não ir logo para casa, de estar, de partilhar, de prolongar o momento, de olhar aquelas caras e pensar “gosto mesmo de vocês, caramba”. Há quanto tempo isto não acontecia… é, de facto, o fechar do ciclo.
Não há dúvida, com apenas uma adaptação muito singela ao famoso Fado Coimbrão, TUDO tem mais encanto na hora da despedida.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Faz-me impressão o trabalho... a inércia faz-me mal

Sempre ouvi dizer que a preguiça é a mãe de todos os vícios e que o trabalho enobrece a alma. Não sou, já fui mas deixei de ser no dia em que acabei o meu estágio, uma formiguinha. Não me orgulho nadinha de ser tão indolente, mas arrumei as botas depois de um ano de trabalho que me vai ficar marcado na carne para sempre, aquele estágio alucinante, em que duas turmas me deram noites de directa incontáveis, tudo era para ser entregue no dia anterior, os cinzeiros abarrotavam de cigarros e nada, mesmo nada, era deixado ao acaso, sob pena de graves embaraços e achincahanços públicos.
Não sou também, de todo, uma inconsciente ou uma irresponsável, não vou para as aulas dissertar sobre a minha vida privada, nem falto se não estiver mesmo doente, nem me baldo a reuniões, nem fujo a novas responsabilidades. Cumpro o meu papel, mas adoraria também cumprir apenas o meu horário, o que nem sempre é possível.
Há umas noites atrás, uma amiga minha dizia-me que não se pode ser um professor competente estando sempre a olhar para o relógio. Eu respondi-lhe que não concordava. Que era possível ser um professor competente, cumprindo apenas horários. O que não era possível era ter a mesma atitude quando se assumem outros cargos. E ela dizia, não, estás a esquecer-te que há muita gente que cumpre o horário marcado e depois não dá à escola as horas que sobram para o trabalho individual a que é obrigado. Ao que eu respondi, pois é, minha amiga, só que nessas horas cabe tudo, e se eu fosse contabilizá-las ao minuto ia perceber que, afinal, se calhar, tinham que me pagar extraordinárias…
Já me perdi. Onde é que eu queria chegar? Ah, pois, já sei.
Hoje foi um dia de trabalho maluco. Oito tempos lectivos que até apitei. Nas horas vagas ainda vi uma turma de mini-testes, que aprendi com a Mzinha que a auto-punição pelos nossos pecados mais graves se materializa com a expressão “Mini-Teste”. E como eu sou muito dada a auto-punições, tendo em vista a remissão dos meus pecados, decretei que este período os meus alunos têm mini-testes todas as semanas (ou não tivesse este período pouquíssimas semanas, que eu sou parva mas ainda não ensandeci).
Ah, e ainda escrevi hoje umas notas que andava para escrever em dois livros de actas desde Setembro.
À tarde, fui lanchar com um colega a uma esplanada, ver o sol, que quando nasce é para todos, comer uma tosta e beber um ice-tea. Ele bebeu uma cerveja, mas eu estou em fase de auto-punição, como tal, não me dei a esse luxo. Até porque, convenhamos, não sou muito amiga de cerveja e teria que meter um vodka laranja em cima da tosta, o que, às seis da tarde, não seria aconselhável a nada a não ser ir da esplanada para o vale dos lençóis. E enquanto comentava com ele que me sentia como se já tivesse dado três dias de aulas esta semana, a minha disposição era, pasme-se, óptima. E decretámos que, logo à noite, vamos em rebanho ao cinema ver Revolutionary Road, se conseguirmos, e falo por mim, mantermo-nos de pestana aberta. Os bilhetes, esses, já cá cantam.
E tenho que dar a mão à palmatória: o trabalho, se não enobrece a alma, pelo menos deixa-a sem tempo para lamentações. Como diz o Pan, se queres arrumar a cabeça, começa pelas gavetas. E, se bem que a última coisa que me apeteça agora é pegar numa esfregona e pôr-me a lavar o chão ao desvario, tenho que conceder que um dia em que não houve tempo para me coçar (e a comichão que eu tenho no espírito, às vezes, é insuportável, são as alergias…), foi um dia dos menos depressivos dos últimos tempos. É que andei mesmo bem-disposta, pá. O vazio que me habita simplesmente mudou de casa, foi de férias. Venha o trabalho. Se me tivesse apercebido disto antes, sera uma séria candidata ao excelente.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Par ou Ímpar

“Estás aqui para ser feliz” é o outdoor que faz parte da nova campanha da Coca-Cola. O anúncio da televisão é igualmente poderoso, um monólogo de um velhote de cem anos a um recém-nascido. Para mim, a frase-chave de todo o discurso é : “Não percas tempo com disparates, que ele passa muito depressa”.
Desde sempre, ou desde que me lembro, a Coca-Cola é das empresas que mais se preocupa com a qualidade da sua publicidade. Faz anúncios marcantes, mexe com o inconsciente e os desejos das pessoas, sai do comum, inova. Durante muito, muito, tempo, fui adolescente. Durante muito mais tempo que a idade física. Às vezes ainda sou, mas só no que toca à revolta, aos complexos e aos medos. Durante muito tempo fui também adolescente no que essa fase teve de melhor, nas convicções, nos valores, nas paixões. Tudo isso se desvaneceu com a idade, essa capacidade de andar sempre no fio na navalha, no branco impoluto ou no negro absoluto, tudo ganhou uma dimensão infinita de cinzentos, a tolerância foi nascendo em relação a opiniões diferentes, a comportamentos desviantes, a tudo o que é estrangeiro ao meu mundo.
Também desenvolvi, como toda a gente, acho eu, desenvolve até morrer, o espírito crítico. A capacidade de aceitação é directamente proporcional ao reconhecimento do que nos distancia dos outros e, embora os compreendamos melhor, distinguimo-nos mais, julgo eu. Já sou incapaz de ler um livro de um autor consagrado sentindo-me obrigada a admirá-lo, ou envergonhada por não o entender ou apreciar. Não consigo aceitar o que me dizem as pessoas que me são superiores seja no que for (cultura, status, posição hierárquica) apenas por serem quem são. Gosto muito de me sentir acompanhada, de ter cumplicidades, de partilhar interesses e opiniões, mas não faço questão nenhuma, como fazia quando era adolescente, de pertencer a grupos, associações ou rebanhos que ditem as ideias que acham melhores para mim.
E também já não me deslumbro com a publicidade. Mesmo com a que é bem feita, mesmo com a que é poderosa. Por isso, quando me chamaram há uns dias a atenção para o outdoor da Coca-Cola, muito contrafeita e envergonhada, porque ando sensível, cansada e cheia de problemas e chatices, as lágrimas vieram-me aos olhos instantaneamente. “Estás aqui para ser feliz”. Na altura, nem raciocinei, as cinco palavras apenas me atingiram a alma sem passar pelo cérebro. Apenas me agrediram a carne, as entranhas, tudo o que em mim é sangue, é calor, é meiguice, é doçura. Tudo o que em mim é passível de dor.
Porque, por mais que alguns leitores bocejem e se irritem com o facto deste blogue ser deprimente e depressivo, por mais que alguns leitores digam que faço dele um muro de lamentações ou um espaço de vitimização, a puxar à lágrima e à pena, a verdade é que só sabe do que vai no convento quem lá está dentro. E eu acredito, acredito mesmo, que a felicidade, que tanta gente apregoa começar em nós, depende muito mais dos outros que de cada um individualmente.
Sim, é uma questão de olhar para a vida com os olhos da esperança. Sim, é uma questão de se ser positivo, optimista, empreendedor, corajoso. Sim, é uma questão de saber viver. Só que às vezes, saber viver é viver de uma forma com a qual eu não concordo. Às vezes, ser optimista e corajoso está para além das minhas forças. E ser generoso, sentirmo-nos recompensados e felizes com o que damos sem nada receber em troca, não chega. Porque não receber, para mim, é um lucro, o problema está em receber o que não se quer ou se merece.
Não sei se aqui estamos para ser felizes. Continuo a acreditar que aqui andamos para fazer os outros felizes, para os fazer sorrir, rir, sentir, no meio do rat race que é a vida de toda a gente. Acho que anda toda a gente obcecada em ser feliz, e que isso não ajuda ninguém. Se houvesse mais Amélies Poulain, tudo seria mais fácil. O problema, acho eu, ao contrário do que dizia um anónimo a um post de há uns dias atrás, é andarmos desencontrados. As pessoas não recebem na medida do que dão. E isso estraga a engrenagem. Porque as Amélies desta vida (das quais eu fiz parte e ainda faço, mas já muito esporadicamente) acabam por se cansar de não encontrar pela frente pares das suas atitudes e convicções. As Amélies, ímpares que são na forma de agir, acabam por se cansar de ficar, literalmente, ímpares. Não há nada mais solitário que um número ímpar. Aquando da divisão pela metade, sendo a nossa metade aquilo que nos acompanha e nos aquece, nos consola e nos encoraja, sobra sempre um resto. E restos não são uma alimentação saudável. Nem têm piada de espécie nenhuma.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Via Profana

Este texto era para se chamar Via Sacra, mas dado que já discorri uma vez sobre a Páscoa e o Catolicismo, e de forma pouco abonatória, e não quero ferir mais susceptibilidades nem desrespeitar credos de espécie nenhuma, para além de, confesso, ser especialmente sensível à representação do caminho de Cristo em direcção à crucificação, sempre me impressionou, resolvi chamar-lhe Via Profana, ou o caminho de regresso à Cidade-de-Deus.
Cada vez mais me identifico com os gatos. Para além de adorar dormir e olhar pelas janelas, não me mexam com as rotinas. Ganhei, ao longo dos anos, um ódio especial a fazer malas e carregar com elas para a bagageira do JadeMobile. Irrita-me, deprime-me, cansa-me, deixa-me de humor estragado. Principalmente nas viagens de regresso, no virar costas a Lisboa. Quando lá chego sinto-me sempre estrangeira, mas arrancar-me de lá depois de mais de três ou quatro dias de cheiro a berço é tortura.
Tudo começou ontem. Fui buscar o carro ao sítio onde o deixo, longe de casa, para evitar parquímetros e EMELgas. Apanhei um táxi (sim, deixo o carro mesmo longe), e fiz amizade com o taxista, muito giro, da minha idade e de Sesimbra, o sítio onde sempre passei as férias de Verão em família. O rapaz era um charme e até me deu o número de telefone, o que me fez dissipar momentaneamente o mau-humor com que ia. Eh lá, Jade... afinal continuas a ter um certo brilho, pá... às vezes até te esqueces! Passei o resto da tarde a meter coisas em sacos e a ajudar a minha mãe desesperada com o IRS, mais o programa JAVA, mais a impressora, and soyon and soyon. A minha gata ajudava à festa, aos saltos em cima dos papéis e das facturas, dos sacos e das camisolas, dos livros e dos computadores. Uma tarde de resmungos e gargalhadas, comigo a ameaçar, "Tigresa, levas um estouro, olha que te meto dentro da mala e quando deres por ti estás numa casa de paredes cor-de-laranja" (Olhar de desprezo e miau escarninho), "mãe, não quero ir, tem mesmo que ser? escreve lá na minha caderneta que estou doente e sou vítima de bullying e queres a minha transferência para uma escola perto de casa" (suspiro, abanar de cabeça e encolher de ombros, seguido de "não te esqueças do carregador do telefone e leva também o Babyliss).
Hoje acordei com a telha monumental de quem tem um carro por carregar. Arrastei-me pelo bairro com a progenitora atrás, ao café e às lojas, e vim-me embora sob protesto.
Parei em Azeitão para almoçar em casa dos Vs e atrasar o regresso. O filhote deles, de cinco anos, encheu-me de mimos e deu-me um boneco do Madagáscar, a girafa, "para levares para tua casa, que estás tão tristinha". Eheheheh, que fofo. E os Vs deram-me chá e doce e carinhos e risos.
Demorei sete horas a chegar ao destino, e resmunguei sozinha na estrada o tempo todo. Via Profana. Mas com tanto miminho (a minha mãe, à despedida, ainda me deu um lapinhos para a minha colecção) até parece mal estar tão irritada, até porque os exames médicos da minha mãe, graças a Deus, não confirmaram nada do que se temia, e sinto-me grata por isso, que a ansiedade já era muita. A saúde dela é o mais importante. Ainda assim, voltar à escola põe-me literalmente doente.
E foi com irritação que estacionei o carro e que subi duas vezes trezentos degraus com sacos às costas... mas a Mzinha trouxe berbigão de casa e o jantar compensou muito. E ainda me fartei de comer das melhores amêndoas do Mundo. E, se bem que o amanhã me deprima quase até às lágrimas, o hoje foi mesmo muito bom.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Uma Sexta-Feira... Santa.

A empregada da minha mãe, que vem cá a casa desde os meus dois anos e meio, tem já mais de oitenta e é uma das muitas avós que eu tive, contava-me há pouco que na sua aldeia transmontana e nos seus tempos de meninice, as pessoas podiam comprar na igreja um papel “chamavam-lhe bula, menina!” que as autorizava a comer carne durante a Quaresma. “Já viu bem que fantochada, menina? Aquela gente tinha lá dinheiro para comer carne… mas se podiam, pagando, porque havia de ser pecado, se não pagassem?” Para mim, este é um dos grandes paradigmas do Catolicismo, a Hipocrisia. Não estou a falar, reparem, dos Católicos, nem da Fé das pessoas. Estou a falar da Instituição Igreja, dos decretos, das normas que algum homem inventou em nome de Deus e que são agora desculpa, entre outras coisas, para se criticar o uso do preservativo em países africanos, sem ninguém se lembrar de atirar uma pedra à cabeça de quem tal defende. A Hipocrisia, não meu filho, Quaresma é tempo de abstinência, mas se comprares esta bula, então… e os lugares no céu, e a remissão dos pecados, e o confessionário, em que trocas os teus erros por três ou quatro pais-nossos e fica tudo bem. A Hipocrisia. Quando podes fazer tudo a troca de orações ou dinheiro, a tua culpa é relativa, a tua responsabilidade, nula, os mesmos erros permitidos e desculpabilizados ad aeternum. Se não fosse a Fé das pessoas, os Católicos, instigados pelas próprias regras, podiam perfeitamente ser um bando de marginais, desde que fossem à missa uma vez por semana, se confessassem com regularidade, e cumprissem os preceitos. Especialmente os que têm a haver com sexo, o grande bicho-papão.
Na Cidade de Deus estou rodeada de Católicos por todos os lados. Bons, praticantes, sinceros e genuínos, há poucos. Há os escuteiros. Aqueles com quem privo dão muitíssimo bom nome à classe. E há os outros. Os que fingem, os que mentem, os que enganam, os que tratam mal as pessoas, os que não dão um cêntimo a um pobre, os que não dão uma ajuda a quem precisa, os que não sabem o que é a solidariedade, a gratidão, o consolo, a partilha, o respeito. Há muitos católicos que sabem de cor o que é o Catolicismo e hão-de andar toda a vida sem saber o que é a Fé. Ou, já agora, a verdadeira palavra do Senhor “Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei”. Acho que foi isto que um dia me ensinaram. O resto… tretas. Não há Deus no Mundo que se vá meter na minha vida íntima e sexual, disso vos garanto. Ou que me vá cobrar em dinheiro a minha entrada no Paraíso. Até porque pouca gente conhecida hei-de por lá encontrar.
Na Cidade de Deus há muitos católicos. Mal venho para Lisboa, começo a relacionar-me com os outros. Gente de Fé, mas de uma Fé diferente. Gente das Ciências e das Medicinas. Gente com dúvidas e perguntas. Gente que acha que os nossos erros têm que ser corrigidos, não apenas perdoados. Gente das Filosofias. Gente das Literaturas, que já leram Nietsche e até lhe conseguem discernir alguma lógica. Gente que compreende rituais e os cumpre por amor à tradição, honrando apenas as tradições que lhes são significativas. Por isso, cá em casa, hoje, não há jejum para ninguém. Cá em casa não se entende em que é que se ter morto um homem de forma bárbara e injusta tem a haver com não se comer o que quer que seja. Por isso, não há abstinências. O meu Deus não me culpa a mim pelo assassinato do seu filho na cruz. E se tivesse sido eu a matá-lo, noutra vida, o meu Deus não me perdoaria disso por não comer carne quarenta dias. Enfim.
Tudo isto para dizer que vou passar a Sexta-feira Santa no Museu do Chiado a ver uma exposição de fotografia portuguesa da década de cinquenta (Castello-Lopes, Afonso Dias, Sena da Silva, Palla), e no CCB, e deambular pela colecção Berardo, e a ver passar os barcos ao fundo, no rio. E de lés-a-lés vou lembrar-me de Jesus, com a minha idade, a ser torturado e crucificado sabe-se lá bem porquê. Por fanatismos, interesses, ambições, jogos de poder. Por tudo o que é Igreja e jamais será Fé. E como me recuso a compactuar com tudo o que é grupal e pouco razoável, gosto pouco de rebanhos, mesmo que sejam de Cordeiros de Deus, vou passar uma sexta-feira de forma “santa”, a fazer precisamente o que mais gosto, sem arrependimentos ou culpas que não são minhas, e uma grande admiração, isso sim, pela figura de Cristo, e o que a nós chegou do que disse, pregou e ensinou. Ou, pelo menos, morreu a tentar ensinar.
POST SCRYPTUM
São nove da noite.
Voltei para partilhar a tarde que tive. Perfeita. Perfeita até nos pormenores que deram para o torto. E que nos fizeram rir com gosto.
Às três da tarde ainda estava em casa, a dizer mal da minha vida: havia muito a ver e “aqueles gajos não se despacham, pá?” Os primeiros a aparecer à minha porta foram os Vs. Pedi-lhes o especial favor de, a caminho do Museu do Chiado, pararem no Cais do Sodré para descobrir o Auditório BES, onde vamos trazer umas turmas a uma peça de teatro, uma incumbência que me deu o G. como "TPC Pascal". Depois de trinta voltas, que o terreiro do Paço está fechado ao trânsito, mais duas ou três ao largo, e cinquenta conversas com taxistas, NADA. Lá liguei ao G. para ele me dizer... o nome da rua! E eu, então tu sabes o nome da rua e só agora é que me dizes? Ai, os gajos, os gajos, todos uns mentecaptos! E ele, a rir-se, olha, já agora é só para te avisar que comprei o CD da Cristina Branco, era o último, mas já não precisas de ir à FNAC à minha conta… eu ri-me, obrigadinha, desliguei e siga para o Museu. (Sem passar pela tal rua do auditório, mas com uma leve ideia de onde é: tal e qual como os alunos e o TPC, stôra eu só fiz os exercícios 1 e 3, os outros não percebi…quando “os outros” são, claro, os mais importantes e os que dão mais trabalho, assim fiz eu, com o meu TPC Pascal, mas depois de tanta luta já não me apeteceu ir mesmo à tal rua só para meter o nariz no sítio exacto)
No Museu, ainda mal eu tinha aberto a boca para dizer ao que íamos, já o recepcionista-robot me estava a dizer “Vila Franca de Xira”. Enquanto eu arregalava os olhos e continha o riso, e retomava calmamente a minha frase interrompida, ele olhava-me absent-minded. Depois de me deixar acabar, repetiu “Vila Franca de Xira. Essa colecção é do Museu do Chiado, mas está exposta em Vila Franca de Xira”. Ah, ok, isto está a correr bem. Ainda resmungámos contra artigos mal-feitos e pouco explícitos e saímos, comigo furiosa, mas a rir-me e a perguntar à V. “Olha lá, aquele homem não era lá muito certo das ideias, ou sou eu que sou mazinha?”… Fomos à cafetaria do Museu que eu ia doida por um Cappucino, e seguimos para o CCB, onde estava à nossa espera o outro casal amigo.
E passámos horas metidos na colecção Berardo, a comentar as obras com tiradas tipo montanha-russa entre o profundo intelectual e a mais superficial piada parva, de índole escatológica ou pseudo-pornográfica que, toda a gente sabe, a arte moderna dá para tudo. Emocionei-me em frente ao Warhol que lá está, quase tiveram que me arrastar da frente dele, enquanto murmurava, foi ele, P., já viste bem? Foi ele que pintou isto… ma-ra-vi-lho-so; adorei as obras de Julião Sarmento; vi o Hockney, a prender a respiração em sinal de respeito; vi os Lourdes Castro pela primeira vez sem ser em fotografias de catálogos de arte, vi o Júlio Pomar e senti-me privilegiada por viver num país em que um rico excêntrico compra arte e a oferece a toda a gente, fazendo de um enorme museu a sua sala de estar privada aberta ao público gratuitamente.
E depois fomos às temporárias, já a mancar com dores nas patas, já. A primeira, um surrealista, Raul Perez. Eu adoro surrealismo mas detestei as suas interpretações. Escuras, repetitivas, monótonas. E ainda me dei ao luxo de grasnar arrogantemente "Quem viu os mestres no Guggenheim Bilbao, não acha graça a aprendizes". E a P. calou-me logo, com um "Guggenheim Bilbao? Estiveste lá? Eu estive no de Nova Iorque!" Ao que eu disse que a odiava e deixei de lhe falar durante muito tempo, que a inveja é um sentimento muito feio, mas eu sou assim, feia. Anyway, os meus amigos gostaram do tal Perez. Depois, a segunda temporária fez-me, juntamente com o Warhol e o Hockney, ganhar o dia. Literalmente. Sob o título “Arquivo Universal”, uma exposição de fotografia que é isso mesmo: Universal. Comecei aos saltinhos de entusiasmo quando vi três “Rodchenkos”, ia morrendo quando dei com uma Kertézs e várias Cartier-Bresson, e emudeci pasmada quando vi obras dos mesmos portugueses que me fugiram no Museu do Chiado: Castello-Lopes, Palla, Sena da Silva. Perdi-me dos meus amigos todos, porque lá fiquei que tempos a olhar para aquilo e a pensar. “tenho que vir cá de propósito para ver isto com calma, tem que ser, que delícia!"
Lá encontrei o resto da seita, e concedi o grande favor de voltar a falar à P., que sou muito magnânima (Guggenheim NY... grande parvalhona!...) e ainda vimos a terceira exposição temporária, que detestei. A única coisa interessante foi a instalação “Quarto Escuro”, que nada mais é que isso. Nem entrei. Quando jogava ao Quarto Escuro era um perigo, e dadas as circunstâncias, a última coisa de que preciso é de me enfiar num quarto escuro e deixar a imaginação voar. Quarto escuro por quarto escuro, antes o meu. Mas se tivesse ido com o meu marido, como as minhas amigas, não tinha perdido a hipótese de lá ir dentro, dar-lhes um grande beijo na boca, tipo adolescentes…
E depois, o final da volta à Senhora da Asneira. Alguém disse, pastéis de Belém, pessoal? E lá foram cinco estarolas cheios de fome e dores nas patas ao cheiro dos bolos. Foi só isso que levámos, o cheiro. Uma fila de meter medo, e o resultado final foi Pastéis de Belém: 10; Malta-que-já-foi-de-Lisboa-mas-agora-está-exilada-em-terras-estranhas-e-parece-estrangeira-na-própria-cidade-berço: 0. Fónix, mas o que é que nos passou pela cabeça, parece que não temos estudos, ou, pior, que nunca viémos a Lisboa, cacete!
Lá voltámos nós para o CCB, onde estivemos na cafetaria a comer queques e a beber meias-de-leite como se não houvesse amanhã, até nos porem de lá para fora, para fechar o estaminé.
E eu sei que sou uma pessoa estranha, mas acreditem que, no meio de tanta confusão e planos furados, esta tarde, para mim, foi perfeita.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Basta

Há limites para tudo, nesta vida. Eu sou daquelas pessoas que leva os amigos ao desespero, já para não falar na mãe capricorniana-perfeccionista, com a minha noção de limites. Sou uma pessoa que traça limites absurdos. A minha mãe, que anota todas as despesas, todos os aniversários, todos os compromissos, que faz listas para tudo, que anda sempre em cima de todos os acontecimentos, que consegue perceber que um objecto na sala está dois milímetros afastado do seu lugar perfeito, teve muito azar com a filha que lhe coube em sorte.
És uma desorientada, diz muitas vezes, com aquela já aceitação que não tinha quando eu era adolescente e ainda podia levar estalos bem dados na cara. És uma desorientada e não sei como fazes para ainda não estares no hospital ou na prisão. É verdade. Eu sou pior que desorientada, sou desleixada. Sei que ando com a cabeça sempre a mil à hora e me despisto com as coisas banais da vida, contas para pagar, IRS para preencher, aniversários de amigos, prazos, tudo me passa ao lado. Compro agendas que não uso, escrevo papéis que não releio, ando sempre à nora.
Mas, como dizia no início, há limites para tudo. A minha saúde anda péssima há mais de um mês. Hoje era suposto ter uma daquelas consultas médicas em que o médico que me segue desde os dezoito anos me ia dizer o que Maomé não disse do chouriço, para depois me marcar uma caterva de exames, mais uma lista de novos medicamentos, mais o diabo-a-sete. E eu detesto estas consultas, em que ele olha para as análises (já olhou e já o disse, à minha mãe, siderada) e diz ”Temos novidades, há ANAs (são indicadores auto-imunes, os meus maiores inimigos) em órgãos novos”. E eu já sei que vai haver inferno para o meu lado. Enfim. O cúmulo da inconsequência? A consulta era ONTEM! ONTEM!
Não sei quem fez burrada, se eu, se a funcionária das marcações, mas aceito que tenha sido eu. E estou piursa. Furiosa. Porque este erro me vai custar caro. Não só terei que vir a Lisboa em tempo de aulas, como ainda terei que me sentir em baixo de forma pelo menos mais quase um mês. E estas férias, profícuas que têm sido em auto-admoestação, desde o mestrado que não fiz, até aos níveis inaceitáveis de estupidez que me têm impregnado corpo e alma nos últimos tempos, transformaram-se no pesadelo de qualquer pessoa com um mínimo de consciência. Transformaram-se no meu pesadelo.
Já normalmente me tenho em fraca conta, e dou toda a razão aos meus amigos e à minha mãe, quando me dizem que sou a principal inimiga de mim mesma, que não me organizo, não me defendo nem me preservo. Dou-lhes razão passivamente, ouço-lhes as críticas, aceito-as, mas não reajo nem ao estalo. Sou uma deixa-andar. Mas hoje assustei-me. Ainda ontem dizia a uma das minhas melhores amigas que receava que o meu cérebro, cheio que anda de merdas que não interessam, me falhasse quando tivesse de funcionar para coisas importantes. Ora aí está um sinal que é um bom exemplo da materialização dos meus receios. Desgovernada. Desencabrestada, mais uma vez, como diz a minha mãe. E ontem, falava à minha amiga de uma situação em que, já fora de todos os limites aceitáveis, já de forma tardia e extemporânea, disse, chega, enchi, cansei, fartei. E ela dizia-me que há coisas que apenas pecam por tardias, mas que mais vale tarde que nunca. E eu estou a precisar de dizer basta a coisas mais sérias e importantes. Estou a precisar de dizer basta a esta forma idiota que tenho de ser e de pensar, a esta inversão de prioridades com que vivo (boa piada) a minha vida, e que me estão a custar a sanidade mental, mas pior, a saúde física, e coisas práticas como o mestrado, a conta bancária, a eficiência quotidiana.
Estou furiosa. Preciso de dizer um basta definitivo a esta confusão horrorosa. Preciso mesmo muito, e com urgência, de crescer. Se não por mim (o que é que eu alguma vez fiz por mim…), pela minha mãe, pelos meus amigos, por toda essa gente que se sente revoltada e impotente perante uma pessoa que não gosta dela nem metade do que todos eles gostam, e anda pela vida com a inconsequência própria de uma criança de cinco anos metida num corpo de 33.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Esta doeu

Passei o fim-de-semana a trabalhar para mim e para os outros. Três dias de stress contra-relógio, já que quando se trata de avaliações, actas, traduções, revisões textuais, números e grelhas, os pormenores são mais que muitos e qualquer detalhe serve para engatar o trabalho de horas.
Nesta altura do ano, tendo o cargo de secretária, e a fama de escrever com facilidade, e sendo uma pessoa a quem faz muita confusão ver outras com os nervos em franja ou atulhadas em papéis que parecem reproduzir-se como coelhos, trabalho o triplo do que é costume. E o quíntuplo de qualquer secretário que se limite a cumprir as suas funções. Estou sempre à coca para ver de que precisam os directores de todas as minhas turmas e os secretários com quem simpatizo. Digo que sim a tudo e todos. E cumpro todos os meus compromissos, não sonho, sequer, em falhar com alguém.
E foi por isso que hoje me despedi da escola por catorze dias em estado de choque. Completamente arrasada pelas bases. E as coincidências, tão bonitas que costumam ser, parece que comigo só servem para mostrar que tenho um azar do caraças. E que, de facto, quando se trata de ajudar os outros, às vezes não nos metermos é a melhor ajuda que podemos dar. Especialmente a nós próprios.
Ontem, os assessores da escola, fartaram-se de mandar actas para trás. Ninguém informou ninguém de que as regras tinham mudado e os secretários andaram num virote, a acrescentar coisas, a mudar palavras por sinónimos, a alterar o português de cada um para o português institucionalizado à pressão para as actas do segundo período. Até aí, tudo bem, foi motivo de galhofa e brincadeira, foi motivo para andarmos todos a gozar-nos mutuamente e a insultar-nos, és mesmo ignorante, não sabes escrever, então e tu, qual foi o veredicto? Fogueira? Forca?
Eu cumpri a minha parte e estava despachadinha às seis e meia da tarde. E podia ter-me ido embora e esquecido a escola por quinze dias. Mas não. Porque havia uma colega assoberbada. Uma colega secretária apavorada com a inundação de papéis e declarações e alunos com mais de três níveis negativos. Uma colega com problemas graves de saúde. E eu pensei, não te custa nada ajudar. Até vais ter prazer nisso. Hoje fazes-lhe a acta e amanhã de manhã vens cá entregá-la. Mesmo que a acta volte para trás, pelo menos não haverá erros que justifiquem que se insultem pessoas, ou se lhes grite, como parece ter acontecido ontem. E asssim foi.
Ontem, já de férias, ainda estive a acabar uma acta. Hoje, acordei tarde e entrei em pânico. Ainda iria a horas? Quando cheguei, coincidência das coincidências, pensei que tinha falhado o encontro por segundos. Afinal, não. Só que tive o azar de entrar numa sala de professores quase vazia e levar com o último comentário aceitável da única pessoa que lá estava. Alguém que hoje, e depois dos últimos dias, me podia ter dito tudo, tudo, menos o que disse.
E senti uma náusea do tamanho do Mundo. E o chão fugiu-me debaixo dos pés. E, com a única sorte no meio do tornado, a tal colega apareceu pouco depois, eu passei-lhe a acta e vim-me embora, sem sequer tomar o café que ela queria tanto pagar-me para me agradecer a ajuda. Vim-me embora sem sequer me despedir de ninguém, ou desejar Boa Páscoa fosse a quem fosse.
E penso: bastava ter-me atrasado mais cinco minutos, ou ter-me levantado cinco minutos mais cedo, e nada teria acontecido. Ainda ontem me contaram uma história: duas pessoas conhecidas minhas que trabalham no mesmo sítio, faltaram por terem uma consulta médica numa cidade a mais de cem quilómetros. E não é que se vão encontrar numa área de serviço e almoçam animadamente as duas? Coincidências (se a história se passou de facto assim, o que custa a crer…) felizes. De repente, no meio do desconhecido, tens a companhia para o almoço de uma cara conhecida. Engraçado. As minhas coincidências, pelos vistos, são sempre miseráveis.
A de hoje só me fez pensar que eu devia era ter juízo e preocupar-me com a minha vidinha. Se não insistisse em ajudar os outros sem ninguém me pedir, se não insistisse em ir à escola só para me despedir das pessoas que são importantes para mim, se não insistisse em fazer o que é certo e em dar aos outros o que de melhor tenho e posso, não me punha a jeito. Não me punha a jeito para levar patada.
Hoje só fui à escola para ajudar. Para conviver com pessoas de uma forma já isenta de stress. Para desejar boas férias, tomar um café, quem sabe almoçar com quem por lá estivesse. E levei o estalo na cara mais bem dado de sempre.
Há coincidências que me convencem que Deus existe, e não pode comigo.