sábado, 3 de janeiro de 2009

E querer muito é poder

Hoje o dia passou devagar, comigo sempre um passo à frente, como de costume. Arrastou-se atrás de mim. Deitada, pensava que tinha que me levantar. Em Lisboa, pensava que tinha que me fazer à estrada. Na estrada, só me queria ver em casa. Agora, que aqui estou, só penso que não tarda tenho que me ir vestir para ir ao espectáculo de Gospel que quero, há tanto tempo, ver, e já dava por perdido.
A maioria dos meus dias é assim. Mentalmente, vivo num tempo paralelo ao que passa. Um pouco mais à frente ou muito, muito atrás, perdida noutras dimensões. E sei que isso não é bom ou saudável, mas não consigo evitar.
Por isso, hoje, para me sentir normal e fazer o que as pessoas normais fazem, deixo aqui algumas resoluções de Ano Novo. Seja lá isso o que for, o Ano Novo. Aliás não são resoluções, são objectivos.
Quero fumar menos;
Quero sair mais de casa com os meus amigos (e vou começar já hoje);
Quero ler mais livros;
Quero trabalhar menos para a escola e mais para os alunos;
Quero escrever a minha dissertação de mestrado, mesmo que vá fora de prazo e já não a defenda em tempo útil;
Quero entrar para o ginásio;
Quero ir mais vezes a Lisboa;
Quero apaixonar-me, embora já não me lembre como é que isso se faz;
Quero ir à discoteca dançar, nem que sejam só duas ou três vezes o ano inteiro;
Quero voltar a ter noites de copos;
Quero voltar a ter noites de Póker de Dados;
Quero ir jantar fora mais vezes por motivo nenhum;
Quero ir mais vezes ao cinema (esta é fácil…);
Quero viver mais tempo no presente;
Quero continuar a escrever muito;
Quero ser muito mais positiva, mas acho que tudo o resto que quero vai ajudar a isso.
Quero acabar o ano a sentir-me viva. E já agora útil. E também bonita. E, se não for pedir muito, semi-realizada. Pronto.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Assim, em números...

... quanto tempo é muito tempo? Quanto tempo é tempo demais? Quão cedo é precipitar-se? Quão tarde é perder a oportunidade de ouro? Quanto tempo é o tempo certo?
O primeiro dia do ano chegou e foi-se, sem milagres ou epifanias. Sem novidades no Mundo interior. Sem escapadelas psicológicas para ilhas paradisíacas ou picos nevados. O primeiro dia do ano chegou e foi-se, como um qualquer dia vulgar de Março ou Abril. E deixou um travozito amargo, porque parece que, aos trinta e três anos, já nem sequer decepcionante é, a falta de luz e cor, a aceitação do assim-assim.
Ouvi vagamente que o euro já cá anda há nove anos. Sei exactamente onde estava, aquando da mudança, e fiquei assombrada: céus, passaram-se nove... não é possível, nove anos? E, à parte a surpresa de identificar um período de tempo tão vasto que parece ter passado tão rapidamente, nada. Mais emoção nenhuma. Nem sequer saudade dos anos felizes que se foram misturados nestes nove. Nada.
Este último ano que passou, então, ficará dissolvido na maré do tempo. Não serviu de muito, não teve grande utilidade. Nem serviu, sequer, para esquecer, o que já teria sido, por si só, uma benção. E, se não serviu para esquecer, ultrapassar, andar em frente, fazer por mim... um ano inteiro... quanto tempo é, então, preciso, para dizer adeus? Quanto tempo é suficiente para fazer o luto como deve ser? Quanto tempo é demasiado, transformando numa obsessão o que deveria ser um processo natural?
Quanto tempo é muito tempo? Quanto tempo é, enfim, preciso, para eu poder dizer com vontade "Ano Novo"? Assim, em números, digam lá... sabem responder-me?

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Despedida

Despeço-me aqui de dois mil e oito, um ano que não vai deixar saudades.
Despeço-me aqui, assim, porque li um post da Teia que me apeteceu, muito simplesmente, copiar e colar aqui, sem mais delongas, ide vê-lo.
Despeço-me quando, inclusivamente, disse à Teia que não iria publicar nenhum post, por todos os motivos e mais alguns.
Despeço-me, contudo, de um ano que teve os seus momentos inesquecíveis. Bons e maus, como os de todas as vidas vulgares.
Despeço-me do ano que viu nascer o meu blogue, do dia para a noite, sem tempo de gestação, como quase todas as decisões que tomo na vida que se revelam acertadas.
Despeço-me, também, de um ano de estagnação e solidão, de frustração e ansiedade, de velocidade e trabalho, de tempo que parece, agora, perdido para sempre e mal gasto.
Despeço-me sem saudade ou nostalgia, sem lágrimas ou sorrisos, sem arrependimentos ou esperanças que, à passagem da meia-noite, tudo vá ser diferente. Acreditam mesmo nisso ou cumprem apenas uma boa desculpa para uma festa em dias que não estão para isso?
Despeço-me sem rituais, que estou com uma gripe de meter medo ao susto e a Passagem de Ano em casa da S. ficou, para mim, sem efeito.
Despeço-me de trezentos e sessenta e seis dias de tornados que não deixaram pedra sobre pedra embora tenham sido sempre isso, vendavais em círculo, repetições, déjà-vues.
Despeço-me de momentos difíceis em que encontrei bons amigos, que não encontraria, certamente, em dias de sol. Desses espero jamais me despedir. Daqueles que me acompanharam em Maio e Junho, sobretudo desses.
Despeço-me de dois mil e oito. Sim. Despeço-me sem planos, sem decisões de mudança, sem listas, sem expectativas. O melhor do Mundo surge sempre que não estamos à espera. Sem expectativas, o que vier é lucro.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Museu do Oriente

Pronto, OK. A pedido de várias famílias (não muitas, vá, mas distintas) o estaminé reabre com a mesma gerência durante o período de pausa, em virtude da patroa ter ganho um prémio no Euromilhões. Pois foi. A senhora da tabacaria ia-me matando de susto quando pôs o bilhetinho na máquina e, enquanto eu folheava desinteressada uma revista cor-de-rosa, se sai com esta pérola: “(diminuitivo do diminuitivo)!!! Ganhaste um dinheirão!” Ia morrendo, até perceber que o dinheirão era menos de trinta euros. Não me estou a queixar, mas tive um ensaio geral do que se passaria se fosse “O Prémio”. E vou redigir um testamento já a seguir, para o caso de isso um dia acontecer, que eu morro logo na horinha e a haver Bahamas, é para a minha mãe… Claro que vim para casa a resmungar com a taquicardia e a rir-me intimamente da ironia de isso acontecer depois do post “Aviso”. Decidi logo que tinha que escrever qualquer coisita… tenho é pouco assunto. Ou talvez não.
Hoje fui com uma amiga visitar o Museu do Oriente. A ideia foi do marido dela, ai, e tal, ainda nunca lá fui, e eu logo, nem eu, nem eu, vamos, vamos lá, uma exposiçãozita é mesmo do que estou a precisar, que já nem vejo shoppings e embrulhos e sacos de plástico e fitas à frente. Combinámos isto a 25, num café preguiçoso que tomámos no único sítio aberto que encontrámos. Hoje, o macho estava de molho gripal, e a minha amiga achou que, visto eu estar em retiro permanente numa cidade onde não se passa nada e o que se passa está sempre esgotado, não me ia fazer a desfeita.
Belo dia para se sair de casa. Chovia que Deus a dava e, se há coisa que me tira do sério (como se a seriedade fosse uma das minhas melhores qualidades) é a chuva aliada ao frio. Mas ora bolas, cacete, depois de tanto dia a vegetar em frente à televisão, o “esquadrão da cultura” não se ia deixar intimidar por o céu ameaçar cair-lhe em cima da cabeça, isso é que não.
E fomos. E foi o máximo. Vimos uma exposição temporária de máscaras usadas para teatro e tributos religiosos. Passou-me várias vezes pela cabeça que máscara por máscara, antes a minha, que sempre dá um ar semi-natural à cara que Deus me deu. Com mais ou menos maquilhagem, antes isso que andar por aí a tentar agradar aos Deuses disfarçada de macaco, (Os indianos e os indonésios adoram máscaras de macaco, não percebo), papagaio ou leão sem juba. Ou de concubina. Eu e a minha amiga ainda nos fartámos de dissertar com a história do concubinato, que isto da cultura também é, como todas as áreas de discussão existentes, pretexto para se falar de sexo. Adiante.
Avançámos destemidas para as exposições permanentes. Adorámos. O museu é enorme, e criaram um ambiente fenomenal, com pouquíssima luz e tudo em tons de negro e vermelho, só cortados pela luz e cor das vitrinas e objectos nelas expostos. Claro que, dada a dimensão do bicho, estivemos várias horas lá metidas dentro, e as conversas variavam entre o intelectual (pérolas, pérolas, que nós somos as duas cultíssimas) e o profundamente fútil. Às tantas deu-me uma azia “asiática” e fomos ao café. Fiquei triste por não encontrar um ambiente japonês em que servissem chá connosco sentadas no chão, mas o que se arranjou foram meias-de-leite e queques e voltámos para ver as outras salas.
No segundo andar, fomos dar com uma exposição sobre divindades orientais, aprendi umas coisas sobre o Taoísmo, e o Hinduísmo, e as religiões japonesas, o Budismo, enfim, lá andámos nós feitas parvas, a observar de perto a nossa ignorância. Que é muita, como a de todas as pessoas cultas como nós.
Aconselho o museu a todas as mentes abertas e curiosas. Levem sapatos confortáveis. Arrisquem uma visita guiada, que eu e a minha amiga adesivámo-nos a uma em que um puto beto muito “sei-lá” dizia que as caixinhas onde os guerreiros samurais guardavam o chá nos cintos eram semelhantes a isqueiros zippo (é claro que uma cretina como eu nunca mais na vida vai decorar o nome correcto das ditas caixas e cacarejou o tempo todo à amiga que “faltava ver os zippos com atenção, pá, ainda não fomos aos zippos…”) e que o capacete do Darth Vader tinha sido inspirado nas armaduras dos samurais (fazendo com que a imbecil de serviço, eu, não resistisse a trautear a música do Star Wars sempre que nos aproximávamos de algo que tivesse remotamente a haver com samurais…)
Depois de tanto Natal e Cristo nas palhinhas, acho que enfureci também os deuses asiáticos. Ou não. No meio de tanta divindade, não vi nenhuma ao sentido de humor, mas os orientais são, pelo menos, mais pragmáticos e menos hipócritas, o que quer dizer que talvez me perdoassem as brincadeiras mais facilmente. E não acredito que, perante uma pedra que simboliza um falo de dimensões que impõem, pelo menos, respeito, os deuses não estejam à espera de comentários menos próprios de duas comuns mortais. De sentido de humor cáustico.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Aviso

Avisam-se os clientes habituais deste modesto estaminé que o mesmo encerrará para balanço até ao Ano Novo, a não ser que surja um motivo de força maior. Onde se lê motivo de força maior deverá ler-se um verdadeiro milagre.
O balanço deve-se às festas que se avizinham, que a autora não quer comentar, por falta de espírito e, desta vez, falta de criatividade para o fingir. A autora alvitra que esgotou a sua criatividade toda no decorrer dos últimos dias, em que andou de cara alegre quando só lhe apetecia fugir, e permaneceu a trabalhar até ao final das suas competências e obrigações, fazendo-se valer de um mundo inventado e paralelo em que teria alguns neurónios activos, quando tal deixou de ser o caso lá para meados de Novembro.
Mais se acrescenta que os caros clientes só terão notícias frescas se acontecer um de dois cenários: ganhar o euromilhões, e encerrar o estaminé de vez antes de emigrar para as Bahamas, ou descer na autora um encosto de Pai Natal ou Rena Rudolfo, o que é deveras improvável, dadas as circunstâncias actuais, pouco propícias a sinos, bolas, presentes, paz e amor.
Este tempo de balanço deverá servir, assim, para tomar vitaminas, arranjar uma farmácia onde se vendam comprimidos de boa disposição, e uma qualquer loja de conveniência que tenha disponíveis tabletes de esquecimento selectivo para fases menos boas da vida, palavras menos agradáveis e silêncios piores ainda. Esperamos voltar em Janeiro cheios de energia e com o passado livre de lixo tóxico.
Com os maiores cumprimentos e desejos de festas felizes,
A Gerência

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Almas-Gémeas

Na sua obra O Banquete, Platão teoriza sobre o amor. Apresenta-nos uma argumentação na qual, nos primórdios da humanidade, todos os seres teriam sido híbridos. Pares unidos corporeamente e que nem sempre teriam dois sexos diferentes. Pares que, por um motivo que já não lembro, li a obra há muitos anos, teriam depois sido divididos em dois com a responsabilidade e o dever de reencontrar as suas metades em vidas subsequentes. Explica assim o amor, o heterossexual e o homossexual, com a mesma naturalidade.
Gosto muito desta teoria. Sou uma romântica e acredito em almas gémeas. Simplesmente não acredito que essas almas se tenham dividido ao meio, e seja tudo uma questão de pares. Acho que algumas dessas almas foram estilhaçadas em várias. Não sei precisamente em quantas. Mas sei que, no meu percurso de trinta e três anos, já reconheci, pelo menos, duas. Uma é a minha mãe. Outra é um amor que tive. E tenho, porque o amor é eterno. Acredito que o amor verdadeiro não morre antes de nós. Não é substituído por outros. Acredito que posso amar vários homens sem trair nenhum. Acredito que o amor é uma soma, não uma substituição. E devemos entregar-nos a um de cada vez, respeitá-lo com lealdade, viver exclusivamente para esse, sem contudo fazermos tábua rasa do anterior, negá-lo, apagá-lo, ignorar a sua existência ou desrespeitar a importância que, a ser verdadeiro, terá sempre.
As minhas almas gémeas são ambas pessoas com quem entro frequentemente em conflito. Com quem tenho relações de amor-ódio, sendo o ódio a face lunar da frustração das ausências, de momentos em que não nos encontramos no meio das nossas vidas e de todo o ruído envolvente, momentos de perda de intimidade e sintonia.
Havendo o conflito, o uso de palavras duma dureza avassaladora, o frequente desgosto e a mútua violência de atitudes, como se pode afirmar, como posso eu ter certeza absoluta, que estou perante uma alma gémea, na presença da minha mãe e de determinada figura masculina? É uma questão de osmose. E esta palavra traz sempre uma ironia implícita porque soa a champô, mas é uma palavra que eu adoro e uso muito raramente. Com homens apliquei-a apenas uma vez, e nunca a desdisse ou dela me arrependi. Com a minha mãe é tão frequente que só não assusta porque caiu num ciclo de rotinas avassalador.
Diz Paulo Coelho, num dos seus livros, que agora já não leio mas me acompanharam em tempos, e que critico com conhecimento de causa, mas me marcaram em muitos aspectos, que “as almas-gémeas se reconhecem pelo brilho dos olhos”. Não só, mas também. No meio da mentira, da máscara, da transparência e da invisibilidade, há olhares que não conseguimos, porque a alma fala mais rápido que o corpo, e o coração se sobrepõe involuntariamente ao cérebro, evitar. Esses olhares, que expressam uma verdade inconsciente e involuntária, escondida ou envergonhada, esses olhares são reconhecidos pelo outro sem margem para quaisquer dúvidas. As duas almas (ou a mesma alma) aí, comungam, e não há palavras mentirosas que ludibriem a posteriori o que foi dito por instâncias superiores a dois corpos teimosos.
Acredito em almas gémeas e conheço duas das minhas. Não sei se fazemos parte duma única anterior e primordial, ou se somos almas irmãs, mas sei que se passam coisas entre nós que vão muito além de explicações racionais e científicas, e que por isso entram na natureza do absurdo e, aos olhos de outros e por vezes aos meus, do ridículo.
Sei que eu e a minha mãe temos na nossa história vários casos de telepatia, acredite quem quiser. Sei que temos muitos casos de simultaneidade de acções e pensamentos. Sei que temos casos em que uma sofre de um desconforto inexplicável para, no final da noite, falar com a outra e esta estar metida em sarilhos graves. Eu e a minha mãe temos uma relação que vai muito para além do amor maternal/filial. Aliás, vivi toda a minha vida convencida de que somos a verdadeira negação do que este tipo de amor é suposto ser, a nível convencional. Desempenhamos, desde o início, papéis muito dissolvidos um no outro. Há, então, quem me acuse à boca cheia de ser uma má filha. Porque as noções de respeito, de autoridade e de status, convencionalmente aceites, não cabem na nossa interacção. Se calhar, a nível de papéis sociais, falhamos muito ambas nos nossos. Mas não há ninguém no Mundo que goste mais de mim que ela. E o contrário também é verdadeiro. Muitas vezes quem nos rodeia diz que somos doentias. Eu digo, apenas, que somos almas gémeas. Enfiadas em corpos com papéis sociais que não permitem igualdade de respostas e atitudes, ela sempre acima, “Sou tua mãe, vê lá como é que falas…”.
Acredito em almas gémeas, e o meu estilhaço masculino arrasta-se pela vida num caminho paralelo ao meu. Já aprendi a aceitar que duas rectas paralelas jamais se encontram, mas as nossas seguem caminhos separados que estão desenhados num espaço suficientemente próximo para que nos consigamos observar de lés-a-lés. Sempre falámos em silêncio, a distância que nos separa não é grande novidade. Nunca acreditámos em palavras ditas com a profunda seriedade de quem está a ser sincero, por isso a ausência de discurso não muda grande coisa. E sempre identificámos entrelinhas, por isso continuamos ambos a escrever, mas agora para outros lerem o que sabemos ser dirigido, em primeiro lugar, ao nosso outro. E não tenho dúvidas de que continuamos a sorrir o mesmo sorriso. E a achar graça a coisas que mais ninguém acha. E a partilhar as mesmas paixões e os mesmos interesses. E a dizer as mesmas coisas em uníssono. Não preciso de o ter ao meu lado para saber que é ao meu lado que ele caminhará sempre. Embora numa recta paralela. Estaremos sempre sintonizados no mesmo posto. Mesmo agora, que seguimos vidas distintas, sem nos determos muito a lamentar o facto de isso acontecer.
As almas-gémeas, acho eu, por experiência, não sentem grande necessidade de partilhar mais que a profunda sorte de se terem encontrado em tempo útil. A identificação é o supremo milagre. O amor é inevitável e existe, mesmo que não seja vivido como é suposto que aconteça entre os homens. Aquelas pessoas fazem parte de algo que em mim é maior. E, de cada vez que os nossos olhos se encontram, eu sei disso e elas também. Embora nenhuma das duas acredite em almas-gémeas. A verdade é que nenhuma das duas jamais soube explicar que tipo de envolvimento tem comigo. E eu sei. Porque sou romântica, e explico tudo aquilo que não tem explicação pelo grande mistério que é o amor supremo.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Fim de Período

Pronto, acabou. O primeiro período lectivo terminou, e com ele, três meses de cansaço e emoções. Não cabem aqui as transformações que vieram entretanto, a volta que levou a minha vida. Foi uma montanha-russa de acontecimentos, um desgaste que em Outubro me fazia suspirar por férias e, agora que elas estão à porta, nem sequer grande gozo dão, tal é o trapo que me sinto.
Começa a nostalgia dos colegas que vimos partir em dois anos, de outros que estão agora de malas feitas, e de todos aqueles que vamos deixar dentro de meia-dúzia de meses.
Começa a ansiedade do momento que se aproxima, o momento de roleta-russa em que apostamos o futuro, de forma teoricamente planeada. Os concursos. As vozes que me confundem o espírito. A minha mãe a dizer, fica. Não te mudes para o Algarve, onde não conheces ninguém, não venhas para Lisboa, que te habilitas a ir parar a uma escola a anos-luz da realidade a que estás habituada, longe de mim na mesma, sem qualidade de vida, a arriscar passares horas em filas ou transportes públicos, fica.
Os meus amigos daqui, fica. Já te habituaste a isto, estás integrada, gostamos de ti, fica.
E o medo. O medo de partir para me arrepender mal saiam os resultados. O medo do desconhecido ser muito pior que aquilo que tenho, vou tendo, aqui, nesta cidade de que não gosto, deste ambiente pequenino, desta gente que se conhece de vista e assume que se conhece bem, destas pessoas que nos julgam e condenam, e opinam e criticam. Desta cidade que não nos deixa assentar os cotovelos na mesa e resiste a tudo o que é diferente.
Tudo aqui me oprime e não me deixa respirar. Se respirar melhor noutro sítio, serei mais feliz, longe de tanta gente de quem aprendi a gostar, longe de outros que amo como se fossem meus sem, contudo, o serem?
E depois, há pessoas, pessoas de quem gosto e que sei que gostam de mim, que me dizem, vai. Vai-te embora. Tu és mais que isto, tu mereces melhor, tu tens o mundo à tua espera, e liberdade para o conquistar. Vai. Vai fazer de ti o teu destino maior. E olho para a minha vida estagnada, e dói-me que não me peçam que fique, e queria muito ouvir uma opinião unânime de todos os que amo e me interessam. Gostava que me dissessem todos o mesmo. Para poder seguir os seus conselhos. Para poder, depois, culpar alguém que não seja eu mesma.
Porque a minha vida estagnou, apesar de tudo de novo que estes meses trouxeram. Porque ando há um ano sem encontrar grande sentido para a minha presença aqui. Mas a verdade é que esse sentido, o sentido da minha presença, vai continuar incógnito, seja onde for.
Estou muito triste. Muito angustiada. Não tarda nada os dados vão rolar e, seja qual for o resultado, há coisas que vou perder para sempre. O convívio diário com os meus amigos da escola, todos os do grupo, desse grupo que, vá ou fique, nunca mais vai ser o mesmo. Decidirei ser dos que ficam, ou dos que partem?
Detesto esta minha liberdade de decidir tudo sozinha sem ter que prestar contas a ninguém. O que para uns é um sonho, para outros será sempre uma maldição.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Because... (parte 1,5)

Porque hoje fui ao hi5 e um dos meus amigos escreveu no bloco de recortes "Não deixes uma só palavra por dizer. Amanhã pode o vento soprar noutra direcção.".
Porque sei que há muita gente importante que guarda coisas que não diz, prefere calá-las ou adiá-las.
Porque a anos-luz de imaginar que hoje ia ler esta frase no hi5, me passou pela cabeça, hoje à tarde, o pensamento peregrino "e se hoje, por acaso, me espetasse de carro e tudo acabasse de repente... como se sentiriam as pessoas que têm coisas para me dizer e não o fazem? Continuariam a achar que é melhor assim? Sentir-se-iam com a consciência tranquila por ter evitado males maiores? Recordar-me-iam com carinho e sem culpas?".
Porque no meio destes pensamentos mórbidos que me assolam de quando em vez, que a morte e a efemeridade são temas muito recorrentes na minha consciência, pensei na situação contrária: "Terei eu coisas importantes por dizer?"
Porque encontrei então a paz numa lista mental de pessoas que percorri num breve instante. Não. Eu, de momento, estou bem. Estou muito bem comigo e com os meus. Não está nada por dizer. Os meus colegas até me chamam "Língua de Trapos". Uma amiga minha muito querida, quando digo, vá, podes confiar que eu sou um poço sem fundo, responde, pois és, mas fazes muito eco...
Porque ao lembrar-me disto consigo sorrir.
Porque os que amo não estão na ignorância dos meus sentimentos precisos.
E porque, por via das dúvidas, mandei uma mensagem à minha mãe. Uma mensagem que dizia, simplesmente, "adoro-te".

Because...

Dia complicado.
Porque tinha que ser, a data a isso obriga.
Porque ontem houve noitada na Cidade de Deus, sob pretexto da Ceia de Natal da escola, e eu começo a achar que já não tenho idade para isto, copos e petiscos em dias de semana.
Porque tive uma dor de cabeça monumental.
Porque quando estou cansada fico com mau feitio. Quero dizer, com pior feitio.
Porque em dias como o de hoje, só me apetece chorar. E choro.
Porque é sempre nestes dias que alguém me resolve dizer as palavras erradas no momento certo ou as certas no momento errado, e hoje não foi excepção.
Porque não me consigo concentrar, e o diabrete fala mais alto que o grilo falante, apesar de tudo o que tenho para fazer.
Porque cumpro todas as obrigações consciente de que são isso mesmo, obrigações.
Porque o tempo dói a passar e os ponteiros do relógio não avançam.
Porque está um frio horrível, e o frio faz-me sentir muito sozinha, não sei porquê.
Porque me apetecia muito um carinho e não o tive.
Porque nem me apetece muito escrever, e ainda assim tenho que o fazer, se não dou em doida.
Porque tenho a noção de que este post está deplorável e ainda assim vou publicá-lo, porque tenho que me fazer ouvir de alguma forma.
Porque não se começam frases por “porque” como eu digo sempre aos meus alunos, e como se vê, o que digo não corresponde ao que faço e não sou exemplo para ninguém.
Porque, por mais que tente, ainda não desaprendi a chorar.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Listas de Deve-e-Haver

Hoje o dia correu bem. Se excluirmos o detalhe (importante) de estar um frio horroroso, e outro (ainda mais importante) de ser a última semana de aulas e andar já tudo em estado de sítio com as avaliações dos gaiatos, mais o programa alunos, mais os memorandos a secretários e DTs, mais os testes e trabalhos ainda por ver, mais as listas de conteúdos e a numeração das aulas dadas… pensando bem, o dia correu até muito aceitavelmente.
Arranjei tempo para ir ter com a S., a amiga que eu tenho mais parecida com família na Cidade de Deus. A família dela adoptou-me quando cá vim parar de pára-quedas, ainda mal saída da adolescência. Fomos colegas na Faculdade, fazíamos parte do mesmo grupo de amigas, éramos já muito próximas, mas nada que se compare à actualidade. Depois disso, já vivi em casa da avó dela. Já acompanhei todo o processo de nascimento e crescimento dos seus filhos, meus sobrinhos. Já estive presente em festas de aniversário e Ano Novo com a família toda. Patuscadas, churrascadas, férias, tudo, o embrulho completo. Foi ela que me disse, há uns anos, vais concorrer para Lisboa para quê? Compra cá casa que é aqui que está a tua família. A primogénita dela há-de ser sempre a MINHA afilhada, por muito que os padrinhos verdadeiros se insurjam contra a dura realidade. E ela hoje disse-me “Ontem à noite fui, pela primeira vez, ao teu blogue, mas não consegui deixar comentários, não percebo nada destas modernices e estive quase para te telefonar”. Ri-me, claro. É tão boa a informática como a Francês e Espanhol, e acreditem, vocês não a querem ouvir ler o Astérix em Francês em voz alta às tantas da manhã, nem estar presentes quando ela diz aos funcionários da recepção de um hotel em Palma de Maiorca “La chiave, por favior… obrigadia”.
Queria comentar o post do JadeMobile. Disse que tinha muitas aventuras para contar. Hoje dei conta que há um sem número de pessoas com histórias para contar à minha pala ao volante. Nenhuma delas me deixa ficar especialmente bonita na fotografia…enfim, com amigos destes, mais vale apostar nos inimigos!
E isto fez-me lembrar duas coisas. Primeiro, o Natal. Os leitores não esperem de mim textos, comentários ou outras referências que não esta, ao Natal. Não é, de facto, tema que me apaixone. De todo. Estar com a S. e ir ter com a minha mãe é o mais perto que consigo estar do espírito. É o mais perto que consigo chegar da noção de família. E tudo o resto, excluindo a família, nisso a que se chama Natal, para mim, é fantochada. Como dizia hoje a um amigo meu sobre política, não me façam falar daquilo que não percebo, desconheço ou não atinjo.
Depois, vem a questão da reciprocidade. A revolta da S. com as novas tecnologias por não me ter deixado um comentário a textos que lhe diziam directamente respeito, que há vários, aqui no blogue. A forma como roubou horas ao sono para ler o mais possível. O modo como disse, faz-te tão bem, escrever. Tudo isso mexeu comigo. Faço as coisas sempre sem pensar em retribuições. Presentes, então, adoro dar, fora de horas e de surpresa, por nada de especial que não seja gostar das pessoas. E farto-me de escrever textos bonitos a pessoas que, muitas vezes, nem sequer os lêem. Mas quando finalmente o fazem, gosto da atitude semelhante à da S. A reciprocidade. A cumplicidade. A retribuição. A preocupação em dizer, li, gostei, senti-me assim, acrescento isto, não acho aquilo nada assim, estou aqui, existo.
Há um tio (primo?) da Mzinha que teve um dia uma tirada brilhante: “Não, não vou ao funeral de fulano de tal, para quê? Já sei que ele também não vai ao meu…” Delicioso. Não é que se esteja à espera, que seja obrigatório, que se cobrem respostas, nada disso. Mas a verdade é que elas separam o trigo do joio. Volta sempre, S. Podes comentar pessoalmente, desde que não seja em Francês. Ou Espanhol.

domingo, 14 de dezembro de 2008

JadeMobile

Hoje, ao passar os olhos por umas fotos artísticas, lembrei-me da importância dos carros na minha vida.
Já aqui referi que detesto conduzir. Conduzir começou por ser, aliás, o que de mais perto tive na minha vida de uma verdadeira fobia. Lembro-me que, depois de tirar a carta, já com um carro (aquilo não era bem um carro, mas adiante) comprado, descia no elevador do prédio da minha mãe, saía para a rua, olhava para a triste máquina branca estacionada na placa em frente, entrava, puxava o ar, punha-o a trabalhar, metia a mudança, puxava o travão de mão para baixo e, quando era altura de arrancar, começava a suar frio e os pés não se mexiam. Todo o restante corpo tremia violentamente. E voltava a puxar o travão de mão para cima, com toda a força da minha frustração, desligava o carro e ia de transportes públicos ou a pé, para onde quer que fosse.
Depois fui colocada na Cidade de Deus. O meu namorado da altura, que conduzia na perfeição e tinha aprendido a guiar quase antes de andar, trouxe-me o carro para cá e regressou para Lisboa de Expresso, nunca mais me esqueço. Deixou-me sozinha na estação dos autocarros, de carro nas unhas e a uma distância de casa de cerca de um quilómetro, mais coisa, menos coisa. E eu conduzi até lá, pois, que remédio. A chorar o caminho todo.
E depois foi a velha história, a necessidade aguça o engenho. E agora conduzo (mal e desconfortavelmente, é verdade) para todo o lado. E quando comprei o meu segundo carro, um golf vermelho que depressa passou a cor-de-rosa, comecei a ganhar um sentimento especial pela latinha de transporte.
Esse meu carro acompanhou-me nas maiores viagens que fiz, num ano que fui colocada no Norte, a 400Km de casa, numa vila que quase não vem no mapa, no meio de uma serra de estradas para esquecer. E viveu comigo momentos inesquecíveis. Intensos. Apaixonantes e apaixonados. Maravilhosos. Os alunos deixavam-me flores presas ao limpa pára-brisas. A minha colega de casa estacionava-mo sozinha, do banco do pendura, comigo apenas a fazer pontos de embraiagem do lado do condutor, e aos gritos “Não cabe, pá, vais-me partir o chasso todo!”...
Tive imensa pena de o vender. E, de há uns anos a esta parte, quem me acompanha é o JadeMobile. Preto, mas cheio de Hello-Kittys e Nicis, Cds e papéis, embalagens vazias de sumo e iogurte e pratas de chocolate. Este não me dá as abébias que o outro dava. O meu outro carro era pesado, seguro, estável. Este é nervoso e um bocado parvo, como eu, de resto.Tem venetas. Uma vez lembrou-se que, quer fizesse chuva ou sol, se estivesse ligado, todos os limpa pára-brisas teriam que funcionar ao mesmo tempo, a dizer adeus aos transeuntes estupefactos. De outra vez, achou que devia continuar ligado e a funcionar, mesmo depois de lhe ter retirado a chave. Curto-circuito, dizia o meu electricista de boca aberta. Eu chamo-lhe personalidade forte, carregada de uma enorme estupidez natural. Tal como a dona.
Mas, ao olhar as tais fotos artísticas com atenção e inveja, aquelas que vi há pouco, recordei que foi neste carro que recebi o melhor beijo da minha vida, aquele que estará entre os momentos kodak que me assolarão a mente quando os olhos se fecharem pela última vez. Foi neste carro, então, que, num dia de chuva, um sol brilhou intensamente, como eu nunca tinha visto. Como acho que é difícil tornar a ver. E tive um vislumbre do que é estar-se grato a um carro. E que talvez seja por isso que o meu inconsciente obrigue a que um dos meus gestos mais genuínos seja abraçar-lhe o volante e assim permanecer num tempo subitamente imóvel, a ver a vida passar do lado de fora. Um abraço sempre melancólico, de quem tem saudades. Mas de quem lhe agradece profundamente ser o espaço onde tudo aconteceu.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

O Beijo, de Klimt

O dia do meu aniversário foi um dia perfeito. Os presentes que recebi, todos eles, todos, foram muito valiosos. Os materiais e os outros. Eu adoro objectos, adoro chocolates, e gosto sobretudo de gestos e de palavras. O dia do meu aniversário, e os subsequentes, foram ricos em gestos e palavras. E, se há coisa que me comove, são palavras escritas para mim. Tenho uma memória prodigiosa, mas ultimamente ando muito cansada e a memória a curto prazo começa a falhar. Por isso esqueço algumas palavras ditas, ficando apenas com a sensação de que em determinado momento me foi dito algo importante que me mexeu com a essência. Mas é apenas a doce sensação, e não a consubstancialização exacta do momento e da palavra. E isso angustia-me. Às palavras escritas posso regressar quando me apetece e, acreditem, regresso-lhes obsessivamente, para sorrir o mesmo sorriso, rir o mesmo riso ou chorar as mesmas lágrimas.
A minha memória é, cada vez mais, uma memória emocional, e isso é bom, mas insuficiente. E isto para dizer que um dos presentes que me assentou nos olhos e no espírito como uma luva feita à medida da minha mão direita, que não é igual à de mais ninguém, porque tem uns dedinhos que foram operados muitas vezes e simbolizam todas as minhas outras cicatrizes, esse presente, dizia, foi um puzzle de mil peças representando “O Beijo” de Klimt. Este é um dos meus quadros favoritos. Mexe com tudo de bom que eu tenho. À parte a enorme coincidência de ter oferecido um puzzle igualzinho há uns anos a uma grande amiga minha da altura, e ter pensado, e se comprasse dois?, à parte isso, receber esse presente nesta altura da minha vida é um presságio. Um presságio que quero muito considerar bom.
Há umas semanas atrás, por causa de um post da brilhosinhos, apeteceu-me escrever um texto sobre o beijo, e lembrei-me de começar pela referência ao dito quadro. Depois não o fiz, e ainda bem, que nesse dia um amigo meu desabafou que estava com uma grande necessidade de ser tocado e abraçado, beijado e acarinhado, e que ia ao meu blogue desanuviar. E eu pensei, ainda bem que não escrevi o tal texto.
E é hoje o dia. O beijo. O beijo, para mim, é a forma divina que o homem tem de demonstrar o melhor de si aos outros. Estou a falar do beijo que se dá a quem se ama, bem visto. A quem se ama de todos os modos possíveis que o amor veste. O beijinho carinhoso que se dá a uma criança. O beijinho amoroso que se dá a um familiar, à chegada de uma ausência. O beijinho na bochecha de um amigo que não se vê há muito tempo. O beijinho que se dá a um colega que nos escreveu na noite anterior um mail ou um comentário ao nosso blogue que caiu especialmente bem, ou foi especialmente importante. O beijinho. O contacto dos nossos lábios quentinhos no rosto frio de alguém que veio da rua. O contacto dos nossos lábios frios no rosto de alguém que nos espera quente e ansioso em casa. O beijinho de agradecimento por um presente de aniversário que nos surpreendeu e nos comoveu de tal forma que não queremos que as nossas palavras vãs se percam na brisa da tarde, como um Deus que por ela caminha.
Sou uma pessoa que adora beijos. Uma pessoa que adora beijos e beija pouco, tímida e envergonhada dos sentimentos que a assolam e não pode, ou quer, ou sabe demonstrar. Detesto que pessoas que me são pouco íntimas me toquem, é contraditório. Não gosto que me toquem com uma familiaridade que eu não compreendo ou sinto como mútua. Sou uma verdadeira princesinha de gelo, a maior parte do meu tempo. Fico muito incomodada com demonstrações físicas por parte de pessoas com quem não estou à vontade. Talvez por isso me reprima com outras de quem gosto tanto.
Há pessoas, homens e mulheres com quem partilho o quotidiano, que são muito importantes para mim. Há pessoas, homens e mulheres, que me apetece muitas vezes abraçar, acarinhar, fazer uma festa, segurar a mão, passar o braço à volta dos ombros. Há pessoas, homens e mulheres, que me apetece muitas vezes beijar. Porque beijar, repito, é a forma divina que o mortal tem de demonstrar o que de melhor sente por alguém.
E raramente tomo essa iniciativa. Talvez nunca a tome, agora que penso nisso. Se alguém importante me abraça, abraço de volta com força. Se alguém importante me dá um beijo, demoro o meu rosto nesse contacto. Mas intimida-me ser agente desses gestos. Mesmo quando aqueles de quem gosto estão mesmo a pedi-los, seja porque lhes desapareceu o cão que os acompanhou durante anos, porque fizeram um exame médico cujo resultado temem, porque o dia lhes correu num cenário dantesco ou porque me ofereceram de presente uma atitude que só um grande beijo poderia recompensar à altura.
A minha memória é, cada vez mais, uma memória emocional. E o beijo é a forma sublime de eternizar uma emoção. Por isso, guardo no corpo, como uma tatuagem, alguns escassos beijos que me marcaram. E guardo na alma, com um eterno suspiro e uma lágrima suspensa que jamais chega a brotar, todos os beijos que não dei, e que são bem mais numerosos. Aqueles que continuo a não dar, sabendo que esses, os que primam pela ausência, são os únicos que doem. Apesar de não perderem o que de divino todos eles têm.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Transparência e Invisibilidade

“Em Portrait of an Invisible Man, o pai de Auster é definido pela própria indefinição dos adjectivos que servem para o caracterizar. É uma figura ausente, não só a nível familiar, mas na sua dimensão pessoal e íntima. A ausência, a invisibilidade, a fragmentação e a solidão são aspectos marcantes na personalidade da figura paterna do autor, figura essa que Freud considera a primeira referência de identificação do ego. Auster oscila assim, ao longo da sua introspecção, entre a opinião de que o pai fora alguém vazio de vida interior e o senso comum de que alguém assim não existe. Contudo, apresenta-nos alguém reduzido a uma dimensão estritamente social, opaco e impenetrável na sua essência, inábil nas relações interpessoais, assumindo várias personae que funcionam como marionetas que manipula de um lugar escuro. Ao longo do texto, Auster tenta explicar esta necessidade paterna de recorrer a máscaras pelo desespero interior de ele próprio, enquanto criança, ter perdido o seu pai em consequência de uma tragédia familiar que o lançaria para um desespero interior. Seria esta invisibilidade uma estratégia de defesa para minimizar a sua fricção com o mundo, e o traço mais pungente que assombra a família Auster durante várias gerações. A invisibilidade gera a solidão de alguém que recusa ser visto pelo outro e se esconde até não haver nada mais a esconder. Esta solidão reverte-se de dois aspectos distintos: ou o isolamento da consciência privada atira o sujeito para uma incapacidade de auto-contemplação e o anula ao olhar do outro ou, pelo contrário, o sujeito se perde de si próprio, abrindo assim caminho a encontrar-se, a auto-criar-se em vez de se auto-destruir.”
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Esta é uma parte muito pequena da minha pretensa dissertação sobre Auster.
Vem a propósito dos meus textos sobre transparência.
O Homem Invisível (homem enquanto sujeito, claro está) não é um ser simplesmente transparente. É um sujeito destituído de vida interior, fruto de um trauma emocional complexo que culminou numa deliberada auto-anulação. O Homem Invisível não é mentiroso ou fraudulento, nem vive vidas paralelas ou ficcionais. O Homem Invisível não vive, simplesmente. Opera marionetas que nem suas são. Observa, sem opinião ou desejo, sem julgamento ou culpa, sem pretensão ou vaidade o infinito vazio que é ele mesmo. O Homem Invisível não sente nem cria laços, não reconhece as emoções que provoca nos outros, não treme, não receia, não arrisca, não ganha, não perde. Não vive.
O Homem Invisível não existe. O pai de Auster nunca existiu na sua dimensão paterna, nunca foi realmente amado, foi apenas alvo de uma profunda interrogação, da parte dos seus. Foi lamentado, desgostou, provocou emoções, mas jamais soube o que era senti-las. Tal explica-se, de forma redutora, pela ausência da própria figura paterna, estruturadora primária do seu respectivo ego. Porque não teve pai, nem ninguém que o substituísse em tempo útil, na primeira infância.
Eu, que tenho my issues no que diz respeito a figuras paternas, eu, que me comovo ao ponto de me virem as lágrimas aos olhos perante um pai que não só compra um livro a um filho pequeno, como ainda lhe escreve umas palavras de dedicatória na contra-capa, eu, cujo ego também não deve ter sido muito solidamente delineado a giz quando era pequena, eu… jamais serei o Homem Invisível. Porque sinto, porque quero, porque opino, porque sofro, porque exulto, porque filtro, porque sou, existo. Porque, quer me lamentem, quer me admirem, quer me amem, quer me odeiem, também eu sou sujeito de todas essas sensações em relação aos que me rodeiam. E ser sujeito, activo e interveniente, mata a invisibilidade.
Podemos ser fraudes, podemos viver mentiras, podemos lutar por verdades, podemos esconder-nos com medo, podemos enfrentar o elefante, mas somos. Existimos. Sentimos. Sentimos coisas contraditórias, temíveis, negadas até ao fim por nós próprios ou assumidas com todas as forças, mas sentimos.
Sinto, logo existo. E, por isso, posso ser transparente e sentir-me assim muito mais vezes que as que seria saudáveis. Mas jamais serei invisível. Como o pai de Auster, cuja derradeira invisibilidade foi ter vivido a sua vida de forma tão anti-natura que subverteu o amor mais simples de todos, o amor paternal. E não tendo sido capaz do paternal, jamais obteve o filial. E isso, apesar de tudo, pelas questões apresentadas, é caso raro. Não assenta em violência, em conflito, em questões geracionais. A invisibilidade assenta no vácuo absoluto. E, como tal, o senso comum diz-nos que nunca nada pode chegar a esse ponto. Nem filosoficamente. A invisibilidade é uma impossibilidade natural.

A Perfect Day

Tenho a agradecer, aqui, para que seja publicamente, a todos os que fizeram da minha entrada na Idade de Cristo um dia absolutamente perfeito.
Aos que encheram o blogue de comentários simpáticos, obrigada.
Àquele que não foi para Lisboa e ficou na Cidade de Deus mais quarenta e oito horas para estar comigo uns minutos numa tasca a beber um café, só porque eu fazia anos, obrigada.
A todos os que me ofereceram chocolates, a pensar que chocolates é uma prenda pouco original, para mim, chocolates são algo de muito pessoal: não há ninguém no Mundo que mais goste deles que eu, obrigada.
A quem se lembrou de me enviar um ramo de flores para a escola, Deus do Céu, que surpresa deliciosa, o que eu inchei de orgulho... obrigada.
Aos que me deixaram presentes de surpresa na mala, obrigada.
Àquela que diz que o seu presente foi feito pelas próprias mãos, e ninguém acredita, mas toda a gente começa a acreditar, obrigada.
Àquela que me deu uma arma de arremesso com a nossa fotografia, lindas, lindas, obrigada.
Àquele que me deu um presente surpreendente e brutalmente personalizado, dentro de um envelope, obrigada.
Aos que deixaram comentários ao meu perfil no hi5, obrigada.
Aos que me mandaram sms, alguns logo à meia-noite, obrigada.
Aos que me telefonaram, e que não ouviram metade do que a minha voz afónica disse, obrigada.
Às que me arranjaram o cabelo, e disseram, hoje não é nada, parabéns e um dia feliz, obrigada.
Àquela que me deu o meu quadro favorito em mil peças para que eu comece a reparar nos pormenores, obrigada.
Aos que me deram abraços e beijos que eu não esperava, obrigada.
Às que me cantaram os parabéns aos gritos no meio da rua e acrescentaram à música " Para a menina (nome verdadeiro) professora na escola (nome verdadeiro) das turmas (números verdadeiros), uma salva de palmas", comigo a andar cinquenta metros à frente a fingir que não era nada comigo, obrigada.
Aos que me cantaram os parabéns aos gritos e de pé, antes de um teste, numa sala de aula, e em Inglês, comigo de cócoras debaixo da mesa, que vergonha, obrigada.
Aos alunos todos a que não dei aulas e ainda assim fizeram questão de me procurar noutras salas, no bar, nos corredores, fora da escola, na sala de profes, obrigada.
Àquele que não fez ondas e que me surpreende muitas vezes em dias de não-aniversário, obrigada.
E à minha mãe, que me enviou prendas por ela, pela Guida, pelo Quicas e ainda outras de bónus, muito obrigada.
E a ordem é absolutamente arbitrária. Foram todos perfeitos.
Obrigada por um dia PERFEITO.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

A Idade de Cristo

Pois é. Este é o último dia dos meus 32 anos. Amanhã, quando acordar, terei a idade de Cristo. A última que ele teve, a derradeira e permanente, aquela com que foi crucificado. Isto, de facto, promete. Hoje, na escola, não faltaram voluntários para amanhã me levarem a tal cruz, mas meus queridos romanos, cruz já todos nós temos para carregar, e como tal, deixem lá isso.
Os meus alunos começaram já hoje a infernizar-me o juízo, que estava velha, que tinha apanhado o cabelo para parecer mais nova, ai, e tal, esse penteado tira-lhe vinte anos de cima, agora até parece que tem só trinta e tal, ai e o cacete, botas All-Star novas?, e eu, até que enfim que repararam, não são lindas? amanhã trago-as penduradas nas orelhas a fazer de brincos, para ver se toda a gente dá por elas, caneco, anda uma profe no supra-sumo da fashion e ninguém lhe olha para os pés... e eles, sim, sim, profe, e trancinhas afro, não é mulher não é nada se não vier de trancinhas afro e missangas, vocês não me provoquem, fedelhos, vejam lá se querem perder apostas por desporto, quanto, quanto é que pagam?
E a verdade é que estou mais doente que a gente doente. Estou com a verdadeira carraspana do século. A minha voz, sempre tão melodiosa e bem colocada, puff, foi-se, e é agora muitíssimo mais sexy, é verdade, mas só quando se ouve, que mal tenho pio. O que, dizem as más línguas, é uma benção.
Por isso vos digo, chagas já tenho, entre colegas e alunos que me torram a pachorra; coroa de espinhos, não é difícil: esqueci-me do pente em Lisboa e o meu cabelo imita bem; cruz... sem comentários, a minha cruz é do tamanho de um camiõ atrabexado... enfim, seja eu bem-vinda à idade de Cristo, que a pele dele visto-a eu bem. Só que de All-Stars. E sem dar a outra face, isso é que não.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

À Transparência

Costumo dizer que sou uma pessoa transparente. Nos afectos, não consigo fingir. Nem simpatia, nem antipatia, nem amor, nem desamor. Por isso toda a gente sabe com o que conta. As pessoas que não suporto não têm disso a menor dúvida. Os que amo, por mais que me magoem, enquanto amo, sabem que podem contar comigo sempre. E usam e abusam desse privilégio, até ao dia, que nunca sei quando é ou vejo chegar, em que digo basta, e passam duma lista para a outra, irremediável e irreversivelmente.
Sim, sou transparente nos afectos, há quem chame a isso não saber viver, a falha daquele tanto de hipocrisia mais um pouco de diplomacia, regado a uma pretensa dissimulação que o rosto não trai. O meu rosto é muito expressivo. Os meus olhos sorriem muitas vezes a quem não merece sorrisos há muito, e não consigo, por mais que tente, que não o façam. Opto, desde há algum tempo, por evitar olhar muita gente nos olhos, um gesto que em mim é natural. É a minha forma de tentar andar num patamar nem agressivo nem simpático, quando ambas as opções são inusitadas.
Muitas vezes, também, o sentimento de transparência é físico, venho para casa e tenho que me olhar ao espelho para me convencer que existo, e isso acontece quando passo o dia a mandar calar gaiatos que se comportam na sala de aula como se eu lá não estivesse, ou a tentar ser ouvida por colegas que não me dão a palavra, não ligam patavina ao que digo e depois repetem tudo o que eu disse, como de ideias originais se tratasse, e pelas bocas deles, toda a gente ouve. Nesses momentos, a transparência pesa e dói e uma pessoa sente-se muito pequenina.
No entanto... depois de um fim-de-semana em que morri para o Mundo porque valores mais altos se levantaram, em que estive praticamente sem telemóvel e de facto sem internet, em que estive prisioneira de outros castelos de altas torres, em que não estive um momento só e tudo pareceu passar em fast-forward, depois de um fim-de-semana num lugar em que faço sempre falta e sou sempre a mais importante, cheguei a minha casa, finalmente, para me ligar à realidade e descobrir que fui procurada. Tinha muitos mails, tinhas sms em quantidade surpreendente, tinha tentativas de comunicação.
Um dos mails, então, fez-me pensar. Um amigo relatava-me uma história em que determinada pessoa teria tecido comentários maldosos a meu respeito. E esse amigo pedia desculpa por me estar a contar coisas desagradáveis e pedia-me que não ficasse incomodada com isso.
E, de facto, não fiquei. Porque, no fundo, essas atitudes mazinhas e despeitadas, apresentam quem as toma, mas também dizem um pouco sobre mim. Eu sou, de facto, alguém importante e temível, alguém que representa uma ameaça seja de que espécie for, alguém que serve para inimigo, alguém que provoca raivas, ódios, invejas. Ninguém se dá ao trabalho de criticar pessoas como eu, que são incapazes de fazer mal a uma mosca, mesmo que a mosca meta um nojo horrível e seja chata todos os dias logo de manhã, ninguém se dá ao trabalho de dizer mal de pessoas inofensivas, como eu de facto sou, se essas pessoas forem indiferentes. Há algo em mim que desperta sentimentos profundos, bons e maus. E ambos me envaidecem. Porque fazem de mim uma presença forte, uma presença real, incómoda para alguns, so be it.
Sabendo eu que não prejudico ninguém e só gosto que ninguém me chateie, não consigo deixar de sorrir perante o carisma que me atribuem em especial os que não gostam de mim, e me dão a imensa importância de me enxovalhar pelas costas, sempre pelas costas, ou de deixar os tais comentários anónimos maldosos dia após dia, no blogue.
Não sei o que será, se será a gargalhada ruidosa, a tendência para a piada parva, o comentário escarninho sempre pronto, uma forma de viver a minha vida pouco convencional, a ironia com que olho o Mundo sem conseguir pôr panos quentes no quotidiano, a minha incapacidade assumida e óbvia de tolerar gente estúpida, a forma como viro costas ao que não me agrada. Acho que é isso tudo, aliado ao facto de ser uma das pessoas com o pior feitio do Universo, e, ainda assim, uma das que mais se ri.
O meu riso, não tenho dúvidas, é do que mais incomoda, constrange e chateia o resto do Mundo. E eu rio muito. Temos pena, desculpai lá qualquer coisinha, vós, seres trombudos e sérios, respeitáveis e responsáveis, competentes e superiores. A obsessão com a seriedade, a pompa, o formal, o grave, tudo isso me entristece nas pessoas. O achar que a carranca é sinónimo de inteligência e que quem se ri é idiota. Esta forma tuga-inha de ser. De dramatizar, de complicar, de empolar, de considerar que tudo o que é importante tem que ser feito com as maiores trombas do universo. Por isso, hei-de ser sempre olhada de lado nas reuniões de professores. E ainda bem, que adoro, adoro, esta minha maneira alegre (tola, idiota, estúpida, o que queiram) de ser.
Costumo dizer que sou transparente. Mas pelos vistos a minha transparência é o mundo de muita gente. E enquanto assim for, dou-me por feliz sendo tão importante.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Ataques de Riso

No meio da confusão em que se transformou a minha vida nos últimos dias, não me posso queixar. Isto, porque sempre fui uma pessoa divertida. O meu mau humor inato e intrínseco faz rir quem me ouve vociferar. Quanto mais furiosa estou, mais se multiplicam as gargalhadas à minha volta. E as gargalhadas são contagiosas, fazem-me rir por solidariedade. E passam-me logo a fúria e o mau humor, dissolvidos no nonsense.
A verdade tem que ser dita, estes últimos dias têm sido ricos em ataques de fúria. E adivinhem lá: são ataques de fúria em grupo. Desta vez não sou só eu a soltar a língua viperina. Não sou só eu a berrar que nem uma descontrolada. Não sou só eu a dizer palavrões. E, depois disso, não sou só eu a rebentar a rir.
Cheguei tardíssimo hoje a casa, para variar. Vinha esganada de fome e envenenada de cansaço. Vinha revoltada com este sistema completamente obtuso. Vinha em pulgas por uma pizza ao domicílio. Entrei em casa a resmungar com o tempo, e a Mzinha já tinha o jantar quase pronto, e lá se adiou a pizza. A cena não prometia nada de bom, com testes para fazer, outros por corrigir, milhares de tarefas a cumprir. Ainda de casaco vestido, olho para o telemóvel e verifico ter várias chamadas não atendidas. Quando ligo de volta, o interlocutor não demora três segundos a desatar aos gritos, a insultar toda a gente parva com que temos que conviver e, claro, comigo a não resistir e a juntar-me de imediato ao coro de protestos em uníssono. Passámos que tempos nisto, a gritar ao desvario, com a Mzinha a assistir e, claro, a rir-se. Foi uma experiência regeneradora. Deu para jantar a seguir, ainda de casaco vestido, mas muitíssimo mais bem disposta. Depois, fui trabalhar, pois, e a neura voltou.
Nem de propósito, com tudo já pronto para a ordem de impressão, liga-me outro. Nem dois minutos depois, já insultávamos alegremente mais quinhentos. Já falávamos em voz bem mais alta do que seria correcto e suposto, já fazíamos terapia de grupo a dois, (com a Mzinha a assistir, e a rir-se...) sem álcool mas a imitar bem a sua presença.
Quando desliguei, sentia-me leve pela segunda vez esta noite. E foi então que fui ao mail. E o cansaço do trabalho, a irritação com a avaliação, a neura do que se empilha por fazer, as preocupações com amigos, todas as chatices dos últimos dias, tudo isto se juntou em mistura alquímica. Alguns mails e outros tantos comentários a este blogue funcionaram de rastilho a um ataque de riso incontrolável. Uma explosão de riso alarve, imparável, irreprimível. Ri-me até me doerem a barriga e os maxilares. Chorei, literalmente, a rir. E agradeci profundamente a todos os que me mandam palavras hilariantes para o mail. São esses que zelam pela minha saúde mental. São também esses, os que me fazem rir e me aumentam as endorfinas e a auto-estima, que permitem que me deite hoje cheia de esperança.
Porque foi a rir que percebi que vai ficar tudo bem. Que os momentos difíceis, por que passam agora alguns dos meus amigos mais próximos e queridos, e eu com eles, vão passar. Entre gritos, palavrões e insultos ditos em conjunto. Entre pessoas que nos fazem ganhar o dia, a compensar os mares de gente estúpida que temos de engolir de manhã à noite. E entre os ataques de riso a ditar os pontos finais.