terça-feira, 8 de março de 2011

Os 35

Dizem que de sete em sete anos o corpo regenera. Que é esse o tempo que demora a mudar todas as células do corpo humano. Os astrólogos falam de ciclos planetários. Senti tudo isto muito fortemente aos 21 anos, quando o meu avô morreu, num momento em que eu mal acabara o curso e começara a dar aulas. Foi nesse ano também que comecei um relacionamento que quase terminou em casamento, não fora eu achar que aquilo não era para mim, exactamente sete, pois, sete anos depois.
Coincidência ou não, agora, com 35, enfrento uma das piores provas de resistência de que tenho memória. Um acumular de situações e desgostos, muito stress, muita ansiedade e muita tristeza, que incluíram a perda de um animal de estimação que me fez companhia quase trinta anos, a efectivação numa escola de doidos, como há poucas, uma crise de saúde recorrente mas muito incómoda, e uma gota de água infeliz que fez transbordar o copo.
Não sei se me caíram sete anos em cima, mas dois ou três, decididamente, estamparam-se de frente contra mim a grande velocidade. O sentimento é o de completo atropelo, e embora saiba o momento exacto da colisão de um grande anjo mau contra um corpo já frágil de várias pancadas anteriores, as consequências foram, por mim, imprevisíveis. I didn't see it coming.
É fantástico como uma pessoa que se auto-analisa tanto como eu ainda se consegue surpreender a si mesma, e ainda guarda dentro de si tanto sentimento virgem. Posso dizer que nas últimas semanas enfrentei monstros completamente desconhecidos para mim. E que é uma grande treta, dizer que o que não nos mata torna-nos mais fortes. Não torna. Fragiliza-nos ao ponto de dar medo. De nos sentirmos em pânico só por acordar e termos que sair de casa. Destrói-nos as defesas, tira-nos o chão. Atira-nos à cara com palavras como falibilidade, impotência, exaustão. Abraça-nos um cepticismo atroz, uma raiva incontrolável, uma clara sensação de injustiça, desânimo, decepção com tudo aquilo que pautava, anteriormente, a nossa existência.
Por vezes, o que não nos mata, simplesmente, não nos mata. Só isso. Quem quase morre ainda vive, como diz um texto que tenho há muito tempo no rodapé deste blogue. Mas quem quase vive...
Há muitas formas de dourar a pílula, muitos modos de lavar as mãos, como Pilatos, de deixarmos as nossas culpas e as nossas responsabilidades nas mãos do tempo, que tudo cura. Mas há coisas que o tempo jamais apaga. E se ainda hoje recordo o momento em que me morreu o meu avô, não é difícil perceber que jamais esquecerei este tornado de 35 anos que se abateu sobre mim, a gota de água que o despoletou, e a inacreditável implosão do meu mundo, em consequência. Jamais esquecerei esta sensação infernal de todas as células novas que tenho no corpo a latejar, das dores violentas de um nascimento feito a fórceps.

15 comentários:

Anónimo disse...

Tu que tanto te auto-analisas, descobre o que te faz feliz, e faz. Sai de casa. Arrisca. Atravessa-se. Diz que vais fazer, e faz.

Jade disse...

"descobre o que te faz feliz, e faz."
Só esta é que me fazia rir hoje. Se fosse assim tão simples, todos nós éramos felizes. Infelizmente, a maior parte das vezes, para a maior parte de nós, o que nos faz felizes está fora do nosso alcance.

Anónimo disse...

Ok. Sugiro então que comeces por ser mais prática, deixa a utopia para os outros. Para os monges ou para os infelizes.

Pouco Anónima disse...

Não é definitivamente simples. Às vezes penso se não serei aparentada de Jade, de tanto que me identifico com o que tu escreves, mas a intensidade do sentir ultrapassa-me. Fiz por perder essa capacidade há bastante tempo e, embora me faça falta às vezes e tenha de me esforçar para me lembrar do que isso era, há alturas em que penso que, se não sinto e isto é assim tão mau, como seria se sentisse? Por isso, proponho a abolição dos 35 e a passagem directa para qualquer idade mais interessante, mais feliz, mais fácil... deve existir, certo?

Jade disse...

O anonimato impera hoje para estes lados. Mas de entre todos os conselhos, o de que gostei mais foi o da abolição dos 35. Das duas uma, ou sou monge, ou infeliz, para apostar numa utopia dessas...

Jade disse...

Se vier para aqui alguém aconselhar-me a ser mais pró-activa (o prática andou lá perto, mas só lá perto), juro que começo a gritar todos os palavrões que sei e mais uns que vou aprender. Ele há palavras que me tiram do sério, e esta cheira-me claramente aos políticos dominantes. Antes quero ser monge ou infeliz, c'o a breca!

An...ónima disse...

Queres alguns palavrões para engrossar a tua lista? Imagino-te, qual Rapunzel à janela nesse sítio tranquilo e familiar onde vives, a soltar longos palavrões em vez dos longos cabelos... Convida-me para assistir ok?

Jade disse...

An...ónima, até parece que era a primeira vez que assistias a esse espectáculo fascinante. E que ajudavas à festa.

An...ónima disse...

Parece-me que assim, da janela, em zona residendial,à luz do luar, teria mais impacto, não sei... Imagino as velhotas do sítio a comentarem: Isto já nada é como era! Vê lá tu agora que até já os cães uivam palavrões! Ou será que isto é uma maquinetas que se compram nas lojas dos chineses? Este mundo está perdido!

Jade disse...

Aqui não há velhotes, tudo malta jovem (cof cof), mas aposto que consigo pôr a cadela da vizinha (salvo seja) a uivar. Ora deixa cá ver:...........

An...ónima disse...

A propósito, fui eu que fiz a proposta de abolir os 35... Estou farta deles, detesto-os, não os suporto e mal posso esperar para ter 50 - é uma idade mais aceitável para deixar de ter esperanças, certo?

Jade disse...

Eu sei que foste tu, amiga. (sim, daquelas raras, que cabem na palma de uma mão... vá, duas!)
Eu cá ando nisto há três meses e têm sido de uma raça que mais valia ter passado dos 34 para os 36. Quanto a deixar de ter esperanças... não é preciso esperar tanto tempo (Aos 50? are you fucking crazy?). Vai por mim. Se os 35 me trouxeram algo, foi isso. Esperanças, ilusões, utopias, como diz o outro... finito. Mas não é por causa da cena dos monges, ou o raio. Foi da decepção, mesmo. A vida é uma puta de todo o tamanho, as pessoas são fraudes impressionantes e o melhor que temos a fazer é arranjar pachorra e manter o sentido de humor para ainda nos irmos rindo.

Jade disse...

(mas isto de os anónimos virem para aqui citar o Pedro Boucherie Mendes a falar sobre o Jel dá que pensar... será que acham que eu tenho dentro de mim um homem da luta?quiri quiri quiri quiri quiri... ou será que tenho algo que rima com luta? Luta tem algumas rimas parvas, lá isso...)

Mzinha disse...

Olá
Pior do que os 35 são os 36...
e não é por causa do arredondamento (ambos arredondam para 40)
beijinhos

PS: e ainda vou nos 36 e um mês e pouco...isto promete

Jade disse...

Piores? Porrrrrrrrra!