domingo, 6 de março de 2011

(In)Human

Se hoje fosse um dia igual a tantos outros, amanhã teria que ir trabalhar. Quando me vim embora da escola, na quinta, não pensei que isso fosse possível, mas hoje, se tivesse que ser, acredito piamente que amanhã lá estaria.
Ao longo destes dias, descobri que temos em nós muito mais de animal irracional do que pensava. No fundo, é a natureza, e não a racionalidade, que nos domina.
Ser bicho compensou. Muito sono, boa alimentação, luz, preguiça, escuridão. Rendeu. Depois de muitas horas de sono e algumas refeições completas, já via as coisas de outra forma. Depois veio o humano que tenho em mim: os meus livros, os meus filmes, as minhas séries,. Por outro lado, tive que exercer também o controlo da mente, o evitar do "this is me, overthinking".
O humano que há em nós, por vezes, atrapalha. Atrapalha quando colocamos os nossos medos à frente dos nossos desejos. Atrapalha quando pautamos a vida pelo que temos e não pelo que somos. Atrapalha quando raciocinamos, como é o meu caso, baseados em falsas premissas. Atrapalha quando, como é o meu caso, deixamos que os outros façam de nós pessoas que não somos, e nos vemos por esses olhos, esquecendo o nosso próprio olhar.
Durante umas semanas carreguei o peso de me terem transformado num cliché. Contudo, livrei-me dele em poucas horas. Horas que incluíram luz, sombra, sono, vigília, livros, filmes.
E amigos. Dos verdadeiros. Dos que ficam. Dos que pertencem e se orgulham disso. Dos que acarinham o que temos. Dos que escrevem mensagens no telemóvel, cobram cafés cá em casa e te invadem a toca com ingredientes para um arroz de marisco e uma garrafa de vinho. Amigos que falam naturalmente contigo mesmo quando as lágrimas te caem cara abaixo, ou pior, quando não caem mas tens o olhar vazio e a mente ausente. Amigos que te amam e arranjam sempre formas de estar. Ainda que longe. Mesmo que o longe seja estar sentado ao teu lado no sofá, ou numa cadeira da sala de professores, e saber que tu estás noutra galáxia, perdida.
Hoje estou grata por ter amigos desses que, ao contrário de outros, sabem que amar é estar.

3 comentários:

Shadow disse...

Pois. Às vezes é o nada que nos abre os olhos.

Jade disse...

Metaforicamente, talvez. Mas já percebi que estes estados não são de cegueira nem de negação. Os olhos estão abertos. A percepção é que é diferente.

Shadow disse...

Não falava do teu texto, foi mais um desabafo inspirado no que li do que um comentário.
E agora volto ao silêncio que me impões.