Hoje o Kikas morreu ao colo da minha mãe.
Ela, a soluçar-me ao telefone, com o corpinho dele sobre as pernas, pediu-me que lhe escrevesse um texto no blogue e eu disse-lhe, revoltada, agressiva, quase a gritar, que não ia escrever nada.
Ela disse que metade da vida dela se foi embora com ele.
Eu não disse nada.
Eu não sei o que dizer.
Era um papagaio, sinto-o como um irmão pouco mais novo. Morreu com 27 anos no dia em que eu devia ter ido a Lisboa e não fui, porque não tenho dinheiro para a viagem, porque calhou não ir.
E agora, longe, nem sei se foi melhor ou pior para mim assim. Se tivesse ido, teria sido ao meu colo, provavelmente. Teria sido, pelo menos, na presença das duas. Nem sei se sinto culpa por isso, se não. Não sei nada. Não sei definir a perda de uma ausência distante, de uma voz meiga ou estridente que se calou, de todas as brincadeiras diárias, das pedinchices em que era doutorado, dos olhos que lhe rolavam quando comia guloseimas, do biquinho que eu acariciava por entre as grades.
Não, não vou escrever um post bonito.
Não sou dos que escrevem belos textos quando estão de luto.
Morreu-me o meu amigo mais antigo.
Ela, a soluçar-me ao telefone, com o corpinho dele sobre as pernas, pediu-me que lhe escrevesse um texto no blogue e eu disse-lhe, revoltada, agressiva, quase a gritar, que não ia escrever nada.
Ela disse que metade da vida dela se foi embora com ele.
Eu não disse nada.
Eu não sei o que dizer.
Era um papagaio, sinto-o como um irmão pouco mais novo. Morreu com 27 anos no dia em que eu devia ter ido a Lisboa e não fui, porque não tenho dinheiro para a viagem, porque calhou não ir.
E agora, longe, nem sei se foi melhor ou pior para mim assim. Se tivesse ido, teria sido ao meu colo, provavelmente. Teria sido, pelo menos, na presença das duas. Nem sei se sinto culpa por isso, se não. Não sei nada. Não sei definir a perda de uma ausência distante, de uma voz meiga ou estridente que se calou, de todas as brincadeiras diárias, das pedinchices em que era doutorado, dos olhos que lhe rolavam quando comia guloseimas, do biquinho que eu acariciava por entre as grades.
Não, não vou escrever um post bonito.
Não sou dos que escrevem belos textos quando estão de luto.
Morreu-me o meu amigo mais antigo.
2 comentários:
Morreu-te o teu amigo mais antigo. A mim, aquele que me amava incondicionalmente. Que me dava as boas vindas no regresso a casa, sempre, sempre. Até à vez em que já cheguei tarde de mais.
Não era um bicho, não era um papagaio, não era um amigo, era o Kikas. Morreu, morreu-te o Kikas. Lamento... imenso! ("know exactly how it hurts)
A KISS
E pensar que ainda te ontem te escrevia que parecia estar normal... enfim.
Obrigada.
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