domingo, 30 de agosto de 2009

Friendly Month

Agosto foi um mês amigo.
Em Agosto recolhi-me ao carinho maternal, expresso em quatro refeições diárias, muitas sobremesas e risos, muitas séries de culto a duas, algumas idas ao cinema, infindáveis cafezinhos, horas perdidas em shoppings, muita brincadeira com as mascotes da família. Em Agosto apaziguei saudades da cidade-berço, sem as matar, que as saudades do que está longe são imortais. Vagueei pelas ruas a pé, senti o cheiro próprio do metro, ouvi os ruídos familiares do trânsito, dos aviões, das ambulâncias, sons que não se ouvem por aqui. Os sabores da fast-food, e daquele bitoque específico, dos melhores croquetes do Mundo, dos pastéis de nata verdadeiros. Porque será que os sabores que nos marcam a infância jamais são superados por nada de novo que apareça?
Agosto foi um mês amigo.
Reconciliei-me com as minhas paixões. Li até ter que ir ao optometrista comprar uns óculos fashion por me doer a cabeça de modo infernal. Li, e li coisas brilhantes. Redescobri Marguerite Duras. Fui apresentada a Siri Hustvedt. Emocionei-me com o deserto do Miguel Sousa Tavares. Voltei a dar sonoras gargalhadas com o perspicaz Bryson. Entrei em vários mundos desconhecidos, fiz amizades com personagens estranhas e neuróticas, aventurei-me em estranhas paisagens e outros tempos. E vi filmes, fui ao cinema, abandonei-me ao DVD. Vi dois de que gostei muitíssimo, nenhum no cinema: “Seven Pounds” e “Into the Wild”. Sobre eles nem vou falar, por achar que qualquer coisa que diga fica aquém. Aconselho ambos vivamente, e a banda sonora de “Into the Wild” a duplicar.
Agosto foi um mês amigo.
Depois de sair da escola do ano passado zangadíssima com muita gente e decepcionadíssima com outra tanta, depois de ser testemunha e vítima de deslealdades que não consigo adjectivar de outra forma senão nojentas, e de ter ficado literalmente doente à conta do que a personagem de “Into the Wild” chama “Sociedade” ou a tendência que o ser humano tem de fazer mal aos outros naquilo que pensa, iludido, ser para benefício próprio e só o diminui, empobrece e apodrece, eis que, em Agosto-Amigo, um amigo com quem me tinha desentendido umas semanas antes, me dá provas da sua lealdade e integridade, num momento em que não tinha que o fazer nem eu o esperava. Saiu das suas férias e do seu mundinho, para me defender por escrito e em relatório, de uma acusação pouco justa a uma nota por mim atribuída. E depois de tanta traição, facadinha nas costas ou silêncio desleal por parte de tantos, o meu mundo emocional esboçou um sorriso. Não, nada está perdido enquanto não for eu a única a defender aqueles de quem gosto e houver outros a fazer o mesmo por mim sem precisar de lhes pedir.
Agosto foi um mês amigo.
E foi um mês de amigos. Depois de quase dois anos sem falar ao melhor de todos, depois de muito empenho e luta da minha parte, que sou uma tipa pouco dada a orgulhos e preconceitos, quando os fins são bens maiores, consegui o meu melhor amigo de volta, incondicionalmente. E parte do meu prédio, aquela parte que se assemelhava à Torre de Pisa, a vergar de um dos lados, endireitou, quando o alicerce que lhe faltava se reconstruiu e solidificou. Todo este blogue foi escrito na sua ausência e foi espelho dela, da falta que ele me fez em períodos difíceis. Apesar dos pesares, considero que, por muito errado que seja projectar o nosso equilíbrio em seres extrínsecos à nossa essência, a felicidade só é real quando partilhada, outra frase do “Into the Wild”. E a minha vida é mais colorida e muito mais saborosa com o seu sorriso familiar, o seu mau humor cáustico e a sua visão céptica do mundo e das pessoas, características essas que encontro decalcadas em mim e abolem o meu permanente sentimento de otherness, de alienação.
E foi um mês de amigos. Passei uma semana no Algarve com uma das melhores amigas que tenho, e toda a sua família. Convivi com crianças e adolescentes num plano distinto do ambiente escola. Fez-me bem à sensibilidade, à capacidade de sonhar, à imaginação e ao riso espontâneo, aquele que não tem laivos de ironia ou amargura, e que foi meu companheiro exclusivo durante tanto tempo.
E foi um mês de amigos. E against all odds, saiu-me o euromilhões nos concursos de professores. A Mzinha está de volta a casa. Quem diria? Se cada um tem o que merece, eu devo ser uma gaja mesmo especial.
Agosto foi um mês amigo.

15 comentários:

Mzinha disse...

Eu tinha dito que não era adeus que era até já.
E se tivesse colocado o código da casa 33 na casa 32, seriamos novamente colegas de escola. Mas pronto lá ia o sucesso da Matemática por água abaixo.
beijinhos

Mirovich disse...

Muito bem, vamos lá continuar com a Energia Telúrica saudável.

Jade disse...

Mzinha... ensandeceste? Ainda bem que puseste por essa ordem! Eu acho é lamentável que nós não sejamos colegas na TUA escola, que é a melhor do distrito!!!

Miro, energia telúrica saudável??? Mmmmm, não sei se será bem isso...

Beijinhos aos dois

Alexandra disse...

Fico muitíssimo contente por Agosto ter sido assim contigo. Muito mesmo! :)
A vida dá muitas voltas e parece que Agosto nos trouxe uma volta no sentido certo. PAra mim, apesar da faculdade e da carta de condução quase terminada, ainda me faltavam mais uns grauzinhos nessa volta, falta-me uma outra parte com quem partilhar essa felicidade e alguma da que ainda está para vir. Essa parte há-de chegar, não sei quando mas há-de vir. :)
E agora que rodou no sentido certo, é bom que o Mundo se deixe estar sossegadinho, pelo menos durante uns tempos. Porque nós também merecemos algum 'descanso' :)

Beijo enormeeeee* (ainda bem que gostaste do meu header novo. Fui eu que fiz.. já era tempo para um new look no blog! Obrigada pelo comentário.)

paddy disse...

Bem ultimamente ando só a descobrir gente daqui de perto na blogosfera. Pelos vistos és mais uma :)

Cris disse...

Eu vi uma quantidade significativa de filmes este Verão... mas nenhum à altura dos dois que referiste.

De qualquer das formas, gostei do The Soloist (mas eu não te disse nada, até porque ainda não estreou em Portugal!).

Shadow disse...

Se fosse eu teria chamado a este post "Meu querido mês de Agosto". Mas isso agora não interessa nada. interessa sim a filosofia de Into the Wild.

Pois, a filosofia é vasta... Ainda bem! Ainda assim a que interessa aqui é "A felicidade só é real quando partilhada" e nesse sentido parece que neste momento tens tudo.

"The sea's only gifts are harsh blows, and occasionally the chance to feel strong. Now I don't know much about the sea, but I do know that that's the way it is here. And I also know how important it is in life not necessarily to be strong but to feel strong. To measure yourself at least once. To find yourself at least once in the most ancient of human conditions. Facing the blind death stone alone, with nothing to help you but your hands and your own head."

Dr. House disse...

Olá Jade

E se o mundo da legislação educativa não fosse algo que não se percebe, tu e a Mzinha poderiam continuar na Cidade de Deus, na escola que, apesar de tudo, é a nossa.
Fico feliz por tere tido um bom Agosto. E espero que entres com o pé direito na terrinha que te recebe nos próximos quatro anos.
Beijos

Jade disse...

Alexandra, já sei que o teu Agosto também foi memorável e estou a torcer por ti! ;-)

Paddy, é verdade! Quem diria que o blogue com que me rio tantas vezes há tanto tempo é escrito por uma vizinha? Podemos mesmo apostar num jantar de bloggers!

Cris, vi imensos filmes estas férias, a minha mãe comprou uma data de DVDs, a Shadow gravou-me ainda mais e digo-te: não vi um único de que não gostasse... uma sorte do catano, que cada vez há menos filmes de culto.

Shadow, essa cena é linda. Talvez uma das melhores do filme que é todo ele genial...

House, thank you. Pelo comentário e pelo que fizeste no pico de uma gripe de meter medo. Amigos assim, diz que é coisa rara. Quanto a entrar com o pé direito, acho que precisava de três pés direitos para não me chatear com o que aí vem, mas enfim... depois logo choro (ou estrebucho) no teu ombro.

Beijinhos a todos

Mirovich disse...

Sim.... "Energia Telúrica saudável"
Existe uma outra com a mesma definição mas é renovadora da terra, mas quando é muito intensa faz tremer e cair as casas, afasta e aproxima as montanhas...
Quanto ao jantar de Bloggers, espero que a princesa tambem vá...
LoooL "Eu tambem quero ir2

cantinhodacasa disse...

Foi dos melhores post seus que li.
Desejo que nesta nova escola tudo corra pelo melhor, agora que a torre de Pisa se endireitou e se solidificou.
Voua aparecendo por cá.
Beijinho e boa sorte.

teia d'aranha disse...

Jade, só tenho a dizer que além do Agosto merecias muitos mais meses amigos e fico a fazer figas para que todos os que aí vêm o sejam...

Tenho saudades de trocar mais palavras contigo fora do blog (estou lamechas hoje, sorry!).

Beijinhos

P.S.- Sabes que "palavra" sou obrigada a introduzir aqui em baixo? "SIDIOTA". Não fosse o "S" inicial e seria uma palavra que retrataria na perfeição como me sinto hoje...

Jade disse...

Miro, o jantar é para bloggers da Cidade de Deus, e a Carolina, Deus a abençoe, não está por estes lados...

Cantinho, bem aparecida. Obrigada.Não há dúvida de que ando muito mais contente desde que transformei a Torre de Pisa no Big Ben...

Teia, também tenho saudades dos nossos bate-papos (Messenger, pá, quando é que cresces e instalas o messenger? Caral*inho!!!" Tenho mesmo. Não é lamechice. Estou numa onda boa, depois de uma má maré. E embora demos mais valor aos amigos quando eles se mantém connosco quando estamos na mó de baixo, quando estamos bem, como eu agora, temos tendência para lhes sentir mais a falta. Porque quando estamos mal somos, invariavelmente, pessoas muito mais obsessivas e self-centered. Miss u 2.

Beijinhos a todos

Pelo Ruso disse...

A dupla maravilha inquebrável! Aguardo visita brevemente!!! Não tens nenhum vestido para comprar? Beijos e muitas saudades!

Jade disse...

Arranja-se sempre um trapito para comprar, mas nem são precisas desculpas. Não tarda, estamos por aí. Beijos