quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Se houver mais alguém com a mesma dúvida...

Alguém muito próximo perguntou-me recentemente: "Olha lá, Jade, como é que tu soubeste que era finalmente altura de procurar terapia?"
A pergunta tem razão de ser. Com tanta bagagem podre emocionalmente, muitos achavam que eu já o devia ter feito há muito, e que era uma questão de teimosia, de capricho e de preconceito. Como tal, pensaram também que mais depressa me suicidaria do que tomaria essa iniciativa. E era vista como um rochedo resistente a todas as tempestades. Uma rocha que colapsaria muda, sem pedir ajudas a ninguém, orgulhosa.
Não quer dizer que estas assumpções fossem erróneas, pelo contrário. Como disse ao meu terapêuta, quando ele me perguntou sensivelmente o mesmo, não o tinha feito até então por preconceito e falta de dinheiro. São tratamentos longos, com progressos pouco evidentes e custam uma pipa de massa. Nesse caso, por que mudei eu de ideias? Não ganhei prémio nenhum no euromilhões e estamos em tempos de crise, é verdade.
Procurei ajuda porque deixei de ser funcional. Funcional nos meus exigentes parâmetros. Ia para a escola e só não chorava nas aulas. Chorava o caminho todo, chorava nos intervalos, metida na casa de banho, chorava no bar e na cantina. Inventava alergias que me justificassem o péssimo aspecto e não conseguia desligar o cérebro do que me entristecia, do que me deitava abaixo. Martirizava-me com pensamentos circulares. Tremia por todos os lados. Quando e se adormecia, exausta, sonhava sobre o assunto. Não tinha paz. Andava esgotadíssima e entupia-me de vitaminas.
Procurei ajuda por medo. Por medo de ir para um sítio escuro da mente e de não haver regresso. Por medo de dar em doida. Por medo de deixar de fazer sentido. Por medo de perder o meu lugar na profissão, no Mundo. Por medo de fazer definitivamente a passagem para o lado de lá, para as margens, para o limbo. Assustei-me. E ainda bem. O medo é uma força poderosa, um beco escuro, húmido e mal-cheiroso. Às vezes, esse beco nojento é a nossa salvação.
Por outro lado, achava que antidepressivos não iam resolver o ponto a que me tinha deixado chegar. Considerei que era preciso uma mudança mais profunda e a verdade é que, hoje e agora, agorajá, como diria o O'Neill, se deixasse os comprimidos iria, sem dúvida,  regredir imenso, mas já teria algumas armas psicológicas a que me agarrar, já teria percorrido algumas veredas do meu labirinto pessoal, e já teria aberto algumas portas. Só por isso, já me sinto mais forte. Só por isso, quero continuar, para descobrir até onde tudo isto me pode levar. Oxalá seja a um porto bem mais seguro que o cenário a que estou, há tanto tempo, mal acostumbrada.

2 comentários:

José Maria Paínha disse...

Já há muito tempo que não te lia com esta qualidade. Brutal!

Beijo

Jade disse...

Obrigada, Zé. Pelo comentário e pela ajuda que tens sido neste processo doloroso.