domingo, 14 de agosto de 2011

(Des)culpas esfarrapadas

A Susi é uma das minhas melhores amigas. Também é uma das mais antigas, diga-se, em abono da verdade, que sou péssima a manter contactos e falo com pouquíssima gente dos meus tempos de escola, e apenas por facebook. A Susi e a V., guardo-as dos tempos de Faculdade, quase há vinte anos. E sabem tudo o que de importante se tem passado na minha vida desde aí.
Acontece que a Susi, ao contrário da V., mora na mesma cidade que eu. Uma cidade tão grande que, cada uma morando na sua ponta, a minha casa fica a sete minutos de carro da dela, mais coisa, menos coisa. E a Susi não me vê há seis meses. Nem falava comigo por telefone aí há uns quatro. Culpa minha, que não lhe retribuía as chamadas, nem lhe respondia às sms. Numa cidade como a nossa, ela sabia que eu estava viva: havia sempre alguém que me via no supermercado, na bomba de gasolina, ou num desses sítios por onde me arrastei obrigada nestes últimos tempos. Houve sempre alguém que lhe disse "eu vi-a, parece bem.".
Ao longo destes meses, pensei em telefonar-lhe milhares de vezes, em mandar-lhe sms, centenas, e em ir a casa dela, umas dezenas. Desisti sempre, por razões várias e, sobretudo, por não me apetecer mexer-me para lado nenhum. As pessoas que vi neste período de tempo foram as que me bateram, literalmente, à porta de casa e me arrastaram, (quase) literalmente, porta fora. Disse muitas vezes que a minha depressão não era politicamente correcta, e que lamentava: os mais próximos, incluindo a minha mãe, pareciam achar que eu tinha todas as razões para me enfiar em casa a dormir, desde que isso não afectasse a relação que eu tinha com cada um, em particular. Infelizmente, afectou todos, sem excepção.
Como me forcei a funcionar profissionalmente, e o que faço exige comunicação constante, energia qb e muito auto-controlo, de cada vez que saía da escola instalava-se-me um silêncio poderoso. Vindo da alma, do cosmos, de Deus, sei lá de onde. E isso não mudou, melhorou, mas não mudou. Habituei-me a um conforto isento de palavras, de sorrisos, de trocas. Habituei-me a tudo aquilo que a maior parte do Mundo diz ser contraproducente num estado depressivo, mas que a mim me faz bem, me recompõe e me dá algum estômago para continuar.
A Susi é uma das minhas melhores amigas, e telefonei-lhe esta semana. Disse-lhe, estou viva, ela respondeu, eu sei; logo a seguir, disse-lhe, desculpa, e ela disse, não sejas parva, onde é que nós ficámos? Pusémos a conversa em dia, expliquei-lhe como pude, em vinte minutos, as andanças de seis meses, e disse-lhe, à despedida, eu telefono-te (à espera, pelo menos neste instante, de um comentário mais sarcástico). Ela respondeu, até breve. Também por isto, a Susi é uma das minhas melhores amigas.

1 comentário:

Anónimo disse...

Todos temos o nosso lado "House". Com sorte, temos também um "Wilson" para o caminho.