Uma amiga minha, também muito amiga do salero, da noite, das saídas, dos cinemas e das exposições, daquelas pessoas tão activas que até fazem impressão com tanta energia, costumava meter-se comigo, quando eu dizia que vinha para Lisboa. Vais para lá fazer o quê, dizia, sarcástica, meter-te em casa e ver televisão por cabo? Para isso ficas cá e vens sair comigo! É um ponto de vista e, concordo, o ponto de vista socialmente aceite, nesta era de velocidade e de hiperinformação. O que está a dar é, como diria o querido António Feio, aproveitar. Como ele fez, espremer ao máximo do que a vida tem para dar.
O bem sucedido é, assim, o que trabalha muito, produz muito, se cultiva muito, sai muito, não pára. Diz o povo que parar é morrer.
Alguém que, como eu, se mete em casa e dorme muitas horas, se levanta da cama e vai para o sofá, do sofá para o frigorífico e do frigorífico para a cama, só pode estar deprimido. E a depressão, mais do que uma doença mental é uma fraqueza, uma vergonha. Pois.
Só que eu acho que quem está doido é este mundo metido num fastforward ridículo, toda a gente a querer provar que tem mais energia e faz mais e melhor com o seu tempo que o seu semelhante. Essa necessidade de constante auto-afirmação, esse orgulho em dizer "estive até às cinco da manhã a trabalhar, sou mesmo excelente".
Não há paciência, não tenho mais pachorra para esse tipo de competição idiota. Há uns dias, a aboborar em frente à SicMulher, vi uma entrevista com a Joana qualquer-coisa, aquela deputada que esteve envolvida numa escandaleira qualquer entre partidos. E tenho a dizer que lhe achei muita graça. A tipa é tesa. Dizia, a dada altura que o tuga é muito tolerante, e a sua maior qualidade é também o seu maior defeito, visto que é demasiado tolerante com más políticas, maus governos, más pessoas. Assino por baixo.
Somos demasiado tolerantes todos os dias, com injustiças cometidas ao nosso lado que não denunciamos, em prol da nossa vidinha, de não querermos arranjar chatices, do deixa andar.
Aqueles que são tão enérgicos para trabalhar, para ver todos os filmes que passam no cinema e ler todos os livros que estão na berra são, afinal, os mesmos que se calam quando têm que falar ou se aproveitam de lugares e pessoas em benefício próprio. São os que aceitam elogios imerecidos e cargos que não são seus por direito. Os mesmos que se acham o máximo mas não vão a jogo, com medo de falhar, e preferem arranjar esquemas de conforto a competir com os seus pares de forma leal.
A Joana tem razão. Enquanto isto for um país de demasiada tolerância, de interesses mesquinhos e cobardia medíocre, há demasiado espaço para um oportunismo de que depois não somos senhores para nos queixar.
Prefiro parar e sossegar, deprimida ou não, a entrar neste tornado de podridão desenfreada.
4 comentários:
Gostei. Do que disseste tu, e também (suponho) a Joana Amaral Dias.
Mas tenho para mim que o português não é tolerante, é pachorrento. E parecendo que não são coisas bem diferentes.
Tolerante, pode ser um gato. Pachorrento, só um cão. Que ladra aos passantes que seguem alegremente na rua e... apanha do dono. Que corre, até à exaustão, atrás do rabo. Mas não corre em busca de comida. Senta-se, deita-se, espera, junto à porta, junto à caixa, por... comida.
E a vida é feita de fases. Ou de sofás. Há o sofá de casa, o sofá dos amigos, o sofá do bar e o sofá da exposição... Tudo o resto são catálogos. Ou rótulos, melhor dizendo.
Eish, que agora quando aqui vim parar até troquei os olhos. Levou aqui um novo look, o teu cantinho!
Concordo plenamente com o que dizes e apesar de 'estares de férias' queria deixar-te uma palavrinha e dizer que tenho saudades de ler aquilo que escreves. :)
Gosto muito de te ler (tu sabes, certo?)
Beijinho grande*
I like the new look......
Thanks, girls!!!!
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