sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Ballet

Tropeçaram um no outro, que já nem andavam de tanta pancada lhes caía em cima. Ela reconheceu-o de imediato, ele nem por isso. Seguiram-se meses em que ela dançava graciosamente em pontas, para que ele a visse, para que a deixasse colar-lhe os estilhaços, com toda a paciência do mundo, toda, dançava em pontas para parecer mais alta e esguia, mais bonita, tocava-lhe no ombro, amparava-lhe as quedas, velava-lhe o sono. Nunca a viu. Quando olhou enfim para trás, ela já lá não estava.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Quanto mais conheço os homens....

Para mulher, e ainda por cima educadíssima, uso o vocabulário de um carroceiro. Não sempre, não na sala de professores, mas em casa com frequência, amiúde entre amigos e sempre, mas sempre, no trânsito, que é coisa que exaspera o pendura, quando o pendura é a minha mãe. Nunca me saíu, nunca, um palavrão numa aula, por mais cansada ou furiosa que esteja. Hoje desanquei um gajo que se atravessou à minha frente numa rotunda: só não lhe chamei pai. Umas escassas centenas de metros à frente, atravessa-me o caminho um gato, com a basófia calma dos felinos, a olhar para mim com aquele ar de enfado imperial do "se tens pressa vai-te andando". E eu, oh minha riqueza, meu maluco, saí daí tontinho... com aquela voz idiota que certas mulheres reservam para os namorados e eu, jamais, tudo tem uma explicação e eu não estou sozinha por acaso.

Moral da história: Trato melhor bichos e alunos que pessoas.
Nota: sim, eu sei que distingui alunos de pessoas.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Sobre o que isto tem sido

Há um antes e um depois daquilo a que eu chamo um enorme pesadelo e o resto das pessoas chama férias de Verão de 2015. Toda a gente que tem lido estes posts sabe disso. O que talvez pouca gente saiba, ou queira saber, é que o depois não tem sido muito mais fácil.
Na altura foi a doença, o medo e o abandono. Mas também foi a solidariedade, o apoio e a companhia. Desde aí, foi o vazio e a solidão. Passei cinco fins de semana sozinha em casa e ninguém se lembrou de me telefonar a saber de mim, se respirava, se queria ir beber um café. Se falei com pessoas foi porque existem redes sociais, senão... nada. A ausência, o silêncio, a falta.
Perguntaram-me - é curioso como as mentalidades masculinas se estão tão rapidamente a aproximar das femininas em certos aspectos - que diabo me passou pela cabeça para namorar, (qual namorar, estás parva? tu nem digas uma coisa dessas que é dar demasiada importância a essa besta que arranjaste nem sabes como, mais valia teres torcido um pé nesse dia e passado horas no centro de saúde a ouvir queixas de velhos, qual namorado, isso é lá gajo para ser teu namorado, ensandeceste? - estou precisamente a ouvir a voz da minha amiga mais furiosa com este assunto, que há várias, mas esta juro que qualquer dia me enfia um par de estalos na tromba), pronto, vá, que diabo me passou para gostar (ai, porra, não gostaste nada dele, mas estás tontinha? tiveste uma paragem, foi o que foi... seja), para achar que gostaste dum gajo assim? E por "assim" referem-se às fotografias que eles, outros gajos, viram dele, do tipo de quem eu achei que gostei e me largou praticamente no hospital. É. Os homens agora também avaliam as relações pelas fotografias de ambos e acham que as dele não estão à minha altura. "Se não soubesse o que sei de fonte segura, dizia que o tipo era rico e tu querias era presentes"...
Nunca soube responder à pergunta masculina, curiosa e sádica de "o que é que viste nele?" Até que este fim de semana se fez luz. O que vi nele foi, sobretudo, uma pessoa que me convidava para ir ter com ela, para lhe fazer companhia, que me dizia que tinha saudades minhas, que me desafiava para sair da minha vida e do meu conforto, para passear, para ver outras coisas, para ter longas conversas e apanhar sol. Sim, eu sei que os motivos dele seriam suspeitos e discutíveis, mas bolas, eu era feliz a fazer-lhe esse tipo de vontades porque pelo menos não me sentia sozinha, ignorada e dispensável, como sempre me tenho sentido desde aí. Se trocava, se voltava, se me arrependo? Não, não e não. Mas não me venham com sermões de como é que desceste tão baixo, o que é que viste nele e daí por diante sem calçar os meus sapatos e morrer para o mundo sem que ninguém disso dê conta, cerca de 70 horas a cada 5 dias.

facebookices

Acabei de deixar o seguinte comentário na página do meu orientador de mestrado / guru / ídolo /pai-de-todos-os-deuses: " Tenho saudades de o ouvir dissertar, caríssimo. Se bem que me fica para sempre uma intervenção sua, em que no final, na parte das perguntas, a minha vontade foi perguntar " que diabo é um palimpsesto, e onde é que isso pasta?" ahahahahahahaha. Sempre a mesma ignorante, eu. Um grande beijinho." 
É por estas e por outras que jamais serei levada a sério, mas também não sei se quero.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Pessoas Bem Resolvidas

Quando estive internada, viciei-me no Facebook. Passava muito tempo sozinha, e foi no que deu. Há muito pouco que eu não consiga descobrir, desde que me proponha a isso, e é com revelação em cima de revelação a desfilar-me à frente dos olhos que tenho tirado para mim grandes lições sobre a sociedade contemporânea. Angustiavam-me muito, certas descobertas. Eram coisas para me deixar doente, para me fazer chorar. Até que, como em tudo, uma certa numbness tomou conta de mim, de há umas seis semanas para cá. A so-called viewer's protective skin. Já não me impressionam as atitudes de acasalamento óbvias e de mau gosto. Já não me surpreendem a total falta de maneiras, a arrogância, as pedras atiradas a outros com telhados de vidro mais resistentes que os próprios, a mania ou a moda, não sei bem, de andar meio mundo a tentar provar ao outro meio que é mais culto, mais inteligente, mais divertido, mais viajado, mais fit. Toda a gente já leu os livros todos, já viu os filmes todos, já ouviu as músicas todas incluindo as que saíram há seis minutos, corre 20 Km e faz mais 3h de ginásio em cima disso todos os dias, e ainda passa a noite a beber e a curtir nas discotecas, para brunchar sushi num rooftop sobre a cidade de onde sai para o aeroporto para ir ver um concerto de uma banda indie à Escandinávia. E estar de volta para o derby, que toda a gente também percebe de futebol. E da NBA. E dos ALL Blacks. E com jeitinho ainda se pronunciar acertadamente sobre os refugiados da Síria e o governo de Portugal. Já não há pessoas, só super-heróis.
Como é claro, pelo menos para mim, este vício não me fez bem absolutamente nenhum. 
Em quatro semanas apaixonaram-se por mim duas pessoas, sem sequer me conhecer. E desapaixonaram-se, claro está, mantendo-se obviamente desconhecidas. A minha vida está tal caos que nem me detenho a pensar neste tipo de coisas seriamente, ou provavelmente há muito que teria voltado pelo próprio pé para o hospital que isto, cá fora, interessa pouco. Mas como tenho problemas reais de que tratar, lá me vou aguentando com as emoções intactas, apesar das declarações de amor e dos mundos de boas probabilidades de futuro que se abrem num dia para se encerrar no outro.
E é óbvio que me comparo às mulheres pelas quais vou sendo preterida, e que escrevem mau português, são muito ordinaronas mesmo sem dizer palavrões, dormem com quem calha e permitem que isso seja visível nas redes sociais. Comparo-me com elas, giras, bem sucedidas, contentes e felizes, bem resolvidas, cada uma com seu séquito de seguidores e fico muito triste. Não consigo, por mais que tente, sentir-me realmente inferior a nenhuma delas. Não consigo, por mais que tente, ter inveja de nenhuma delas, mas ainda assim fico muito triste. Fico triste com a certeza absoluta de que jamais serei bem resolvida enquanto bem resolvida for aquilo que eu testemunho diariamente na rede. Fico triste porque não vejo como não ficar sozinha quando a companhia significa uma paixão assolapada hoje que já não é válida amanhã, um amor para sempre hoje que de aqui a pouco é fel, um amo-te que, uma semana passada, é que s'a foda. True story, by the way, contado ao dia.
É assim que eu vejo a maior parte da minha geração, dos que estão solteiros, divorciados, ou que são simplesmente tristes e banais adúlteros com as desculpas do costume, tão gastas que aborrecem. 
Anda tudo a auto-promover-se e a pregar o desapego e o descaso, a reagir à pedrada a opiniões diferentes e a erigir grande estátuas a si mesmos. Não, não quero ser bem resolvida. Prefiro o epíteto, que foi meu durante muito tempo, de encalhada azeda. Mal por mal, quando me ameaçam, como já aconteceu, de que fazem e acontecem, eu durmo descansada com a minha dignidade intacta e a minha cabeça levantada. Já muita gente bem resolvida que por aí anda não poderá dizer o mesmo.

on the other hand

Sinto muita falta daquela expressão de assombro e prazer que já vi em alguns olhos, daquele vislumbre de infinito mágico que em determinado momento me convenceu que a imortalidade era tão possível como o pequeno-almoço. É. Sou da tribo dos intensos e ando a enlouquecer aos poucos no meio do tépido e do assim-assim. Já nada disto me serve. 

Fim

Hoje fechou-se um ciclo e saldaram-se finalmente contas antigas.Na última semana, achei que jamais iria encerrar este capítulo. Pensei que ainda era mais burra que aquilo que já tinha assumido ser, e que isso era muito. Mas não. Afinal, daqui a uns tempos, pode ser que olhe para trás e me consiga lembrar de coisas boas.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Solidão

Como diz um amigo meu, a gente "afeiçoa-se" às pessoas. E depois elas partem e deixam um vazio enorme, e perguntamo-nos milhares de vezes como poderíamos ter evitado que nos virassem as costas, em que poderíamos ter sido melhores, onde é que teríamos metido a pata na poça, que diabo teria corrido mal quando tínhamos feito tudo, mas tudo mesmo, para demonstrar o nosso afecto. 
E estas perguntas atormentam-nos dia e noite e fazêmo-las às paredes brancas, às portas fechadas, ao nosso cão estupefacto, às palmas da nossas mãos a segurar o rosto em pranto. E isto acontece sempre que estamos sós, escondidos, recolhidos, sem que ninguém saiba, sem que ninguém veja, sem que ninguém suspeite, semanas a fio. Onde antes era a companhia, agora sobram perguntas e auto-recriminações. Relemos mensagens trocadas, obsessivamente buscamos respostas e explicações, achamos que vamos morrer ou, pior, enlouquecer, consideramos hipóteses realistas e outras completamente desesperadas, como largar tudo e desaparecer. 
E ninguém te pode valer, porque quando sais à rua, estás igual, até tens bom aspecto e ninguém sabe o inferno em que vives todos os dias, a cada momento em que sorris ao pedir um café e só te apetece gritar, morrer, acordar noutro planeta, todas as hipóteses ou nenhuma das anteriores. As pessoas partem e não fazem ideia do que deixam para trás.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Too late


Mauvais Sang, 1986

Pois foi

Primeiro o silêncio. Infinito numa fracção de segundo.
E depois a voz dele. Pega em ti e vem para cá. Não penses, vem. Eu sei que sou fraco consolo, mas tendo em conta as opções, o que vier é lucro.
E eu fui.
E foi.

domingo, 1 de novembro de 2015

E agora

Mas, por outro lado, sinto tanto a tua falta e quero-te tanto aqui comigo, ficou tanto por dizer, e agora os nossos passeios de mãos dadas e as nossas viagens pelo mundo, e as nossas conversas ao telefone, o nosso riso, os jantares, a lista de restaurantes a que queríamos tanto ir juntos, all the special places e os filmes aos domingos à tarde, e agora...? e agora eu aqui sozinha, como sempre, como antes de ti mas em pior, cheia de dores que não são bem dores, cheia de solidão que antes não era assim tão triste, até era amiga, antes, antes de ti. E agora depois de tudo, depois de ti, sento e choro nas margens de um rio qualquer, porque o meu coração estava tão bem encaminhado e foi atirado ao chão, again. E na verdade nunca nada disto mais foi que uma virtualidade, que até a ilusão está fora de moda, agora. Tudo se resumiu a uma virtualidade. E agora, venha a vida real, que nos intervalos só me resta este quarto e todas as lágrimas que ainda não tive tempo nem coragem de chorar.

Cicatriz


Quem me conhece bem sabe que sou pelo consenso, pela paz e pela tranquilidade. Sempre fui, embora durante muitos anos não parecesse. Isto porque nasci com um sentido de justiça que me impediu anos a fio de exercer o meu right to remain silent, e em vez disso arder em defesa de quem se calava por saber viver melhor que eu. Também nunca me consegui calar naquelas alturas em que era mais útil fazer-me de parva. Isto, porque a única coisa em mim da qual nunca duvidei foi da minha inteligência acima da média, e quando uma pessoa, sobretudo uma mulher, acha que não tem mais nada a oferecer ao sexo oposto que interesse intelectual estimulante, não deixa que a façam de parva.
Por esta mesma razão, mais tarde ou mais cedo, sempre acabei por me anular nas relações. Sempre acabei por andar às ordens. Por pedir desculpas para terminar discussões inférteis, assumir responsabilidades de outros, enfim, ir contra a minha natureza e fingir-me de parva. Mais vezes que menos, esforços vãos, dado que novamente, mais vezes que menos, me partiram o coração ao invés do contrário.
Entretanto, doze dias de hospital abanaram-me o sistema violentamente. O regresso, mais vinte e três, traumatizaram-me para o resto da vida, tenho certeza absoluta disso. Tenho a certeza bem tatuada na pele de que nunca mais serei a mesma pessoa . Há, julgo eu, indizíveis relacionados com estes dias. Memórias de mim sem dignidade absolutamente nenhuma e dependente para tudo o que um ser humano saudável nem se atreve a imaginar. E imagens de mim de que muito me orgulho, a arrastar-me cheia de dores para a cama ao lado da minha, para uma das velhotas não morrer sozinha, e estar ali, a segurar-lhe a mão e a fazer-lhe festas no cabelo sem palavras, para ver se ela não se apercebia que era uma estranha e partia amparada pela filha, enfim.
Não sou nenhum génio, nem nenhuma mártir, mas creio ser mais inteligente e mais generosa que o médio ser humano. E conheço muitos, de todas as idades. Durante anos e anos a fio, disfarcei as minhas fragilidades com uma agressividade infinita. Deixei-me disso. Estou numa escola em que todos os colegas sabem que fui destacada por motivos de saúde, a fragilidade é uma fractura exposta, vou proteger-me como? Não dá. Só que agora, e ao contrário de quando tudo em mim era luminoso e loud assustando os mais distraídos destas coisas que são as máscaras e as armaduras, e criando antipatias fáceis e amizades para o resto da vida, agora, dizia eu, sou muito muito quiet. Tão, tão , tão que passo finalmente despercebida. Também é verdade, e já é a segunda vez que me defronto com isso, que há certo e determinado número de inseguranças que já não moram aqui. Sei, por um saber de experiência feito, que não me voltam a apanhar em relações com pessoas que me rebaixem, me minem a autoestima ou me moldem a seu bel-prazer. Não volto a pedir desculpas para não perder uma pessoa de quem goste, mesmo que muito, se não tiver culpa nenhuma. Não volto a admitir que me apouquem para manter razões inexistentes. Não volto a deixar que me façam envergonhar por ser fraca e não reagir a agressões de quiasquer espécie. Estou mais quiet, mas como dizia uma amiga minha, se a autoestima para mim é uma briga diária, o self-respect ficou de cicatriz de um pesadelo que terminou mas jamais será esquecido.


sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Sobre parágrafos

Não tenho prazer nenhum na decepção, no abandono, nos dias cinzentos, na falta de vontade de me levantar de manhã, na sensação what's the point aplicada, basicamente, a tudo, incluindo respirar. São tempos difíceis e suados, em que qualquer dose de energia dispendida a lavar um copo parece um esforço hercúleo. Compreendo bem os que escolhem não passar por isso, virar costas e desistir. E durante algum tempo comprei discursos de impossíveis e impossibilidades, de como era fatalmente mentira que o amor acontecesse de repente, fora dos contos de fadas, às pessoas normais a partir de uma certa idade. Que essa fé ficaria para os ingénuos, e que demasiada ingenuidade junta era sinal de falta de inteligência, perspicácia e argúcia. Comprei essa teoria porque precisava dela para dar sentido à minha dor e assim poder tê-la justificada e não fruto dos actos aleatórios de pessoas pouco sérias com os outros, que as há, não nego, tão bem disfarçadas que enganam até os mais cicatrizados nestas coisas, como eu.
Até que me pus a pensar que os discursos apocalípticos do amor me chegam, sobretudo, de pessoas que se prendem demasiado ao passado, aos erros, às mágoas. Gente que jamais faz parágrafo depois de colocar um ponto final. Que continua a voltar atrás em loop, a analisar, a remexer, a dissecar o sapo morto all over again: Gente que não quer abrir mão de ninguém, como se alguém lhe pertencesse ou a quem quer que seja alguma vez na vida. Gente enredada em história complicadas e intrigas palacianas que são sempre culpa de outrém, nunca sua, mas que se repetem ad infinitum na sua envolvência, talvez na esperança de que abra os olhos e veja que, se calhar, alguma responsabilidade tem nesse perpetuar de um luto vão. Sinto que esses discursos vêm de control freaks que na sua assumida teoria científica do amor, "isto está tudo estudado pela neurologia e pela psicologia, sabes?" estão descontrolados na sua tentativa de controle.
É inútil tentar construir seja o que for em cima de terreno pantanoso. Na lama podem nascer flores, mas não casas. O amor pode acontecer de repente, por magia, seja a que idade for, sem que seja uma mentira contada com um qualquer fim obscuro. Não pode é o seu contrário ser justificado com grandes argumentações lógicas porque, infelizmente, se há coisa que a realidade é, cientifica ou artisticamente falando, é aleatória e profundamente misteriosa. Com uns, mais que com outros, altamente puta. Agora, se há coisa em que eu acredito, mesmo depois de quarenta anos a levar no focinho, é que podemos fazer sempre qualquer coisa para facilitar a vida a que coisas boas aconteçam. E um dos maiores facilitadores, aprendi eu, é o letting go
Também eu, durante muito tempo, me concentrei naquele momento e naquela pessoa que virou costas e com ela levou a minha parte mais luminosa. Também eu obcequei com "the One that got away". Também eu lhe acompanhei passos, derrotas, vitórias e sorrisos, e palavras e silêncios. Até que percebi que estava parada no tempo a olhar para uma figura de costas para mim, por trás de uma porta transparente mas fechada. Enquanto aí me detive, passaram-se anos da minha vida a preto e branco. Quando fiz parágrafo, as coisas avançaram de um estado fotográfico para um estado cinematográfico gradual e solidamente.
Ao conhecer outras pessoas, consigo finalmente dar-lhes uma nova hipótese de me fazerem feliz. Mesmo que elas a aproveitem para me fazer chorar, cientificamente, para quem gosta tanto do pensamento matemático emotionless, é mais provável que zero, assim, que um dia me aconteça algo de bom. Sendo zero a probabilidade que tal aconteça enquanto olhamos as costas voltadas de alguém que partiu sem olhar para trás ou, pior, continuamente a fingir que sim, que continua a olhar-nos nos olhos, como sempre, como antes, quando segue toda contente com a sua vidinha self-centered pouco se importando com o estrago que faz à dos outros.

acrescentado um pouco mais tarde, como banda sonora perfeita



sábado, 17 de outubro de 2015

reciprocidade

sobre reciprocidade, escreveu um amigo meu que é factor de ressentimento e eu não concordei. sempre dei o que quis sem pedir ou esperar em troca. sempre não, sempre até há pouco tempo atrás. porque há limites para tudo, incluindo para a minha generosidade. papéis assumidos são difíceis de mudar e eu costumo assumir o de giver. até me fazerem perceber que quem só dá, fica vazio. e o vazio é o local privilegiado do ressentimento. por isso, detendo-me sobre uma ideia que à partida me era estrangeira e desconfortável, acabo por me identificar com ela em absoluto. há que nos determos a pensar nas coisas, antes de as afastarmos liminarmente.

redes sociais

sobre as coincidências que nos agridem como bofetadas dadas à traição, sobre tropeçar em sítios insuspeitos pela mão de amigos novos e pelo historial saber o que determinada pessoa publicava em datas específicas, sobre nunca conhecer ninguém, sobre dormir com o inimigo e ser feita de tansa quando se é tão inteligente, sobre repetir os mesmos erros vezes sem conta, sobre a loucura de apostar nos mesmos gestos à espera de resultados diferentes porque as pessoas são diferentes e afinal verificar que não são, não. São monotona e decepcionantemente iguais umas às outras e a si próprias, e isso ainda me choca violentamente e me traz lágrimas aos olhos que deles não passam que a raiva não deixa.

rascunhado

E era como viver com ele confortavelmente instalado no peito, com a intensidade cardíaca em constante after sprint. Flutuar no mundo real sem lhe sentir as misérias. Era o completo e absoluto oposto da vulgaridade que nos arrasta tantas vezes apáticos e entediados. Um permanente estado de sobrepercepção afectiva. E um brilho sorridente que agride as vidas presas na realidade como uma cabeçada inesperada.

Não, a grande maioria das pessoas não lhe percebia a luz, nem lhe podia achar menos graça, que a inveja é o metabolismo dos tristes e dos pequenos.

domingo, 11 de outubro de 2015

Vou apostar na escrita

Na conversa com uma amiga minha, epifanei: vou escrever uma trilogia, cujo título está escolhido à partida e é inspirado no filme O Bom, o Mau e o Vilão. Vai chamar-se o Mau, o Traste e o Cabrão. As personagens serão ficcionais mas qualquer semelhança com a realidade poderá não ser pura coincidência.