Quando estive internada, viciei-me no Facebook. Passava muito tempo sozinha, e foi no que deu. Há muito pouco que eu não consiga descobrir, desde que me proponha a isso, e é com revelação em cima de revelação a desfilar-me à frente dos olhos que tenho tirado para mim grandes lições sobre a sociedade contemporânea. Angustiavam-me muito, certas descobertas. Eram coisas para me deixar doente, para me fazer chorar. Até que, como em tudo, uma certa numbness tomou conta de mim, de há umas seis semanas para cá. A so-called viewer's protective skin. Já não me impressionam as atitudes de acasalamento óbvias e de mau gosto. Já não me surpreendem a total falta de maneiras, a arrogância, as pedras atiradas a outros com telhados de vidro mais resistentes que os próprios, a mania ou a moda, não sei bem, de andar meio mundo a tentar provar ao outro meio que é mais culto, mais inteligente, mais divertido, mais viajado, mais fit. Toda a gente já leu os livros todos, já viu os filmes todos, já ouviu as músicas todas incluindo as que saíram há seis minutos, corre 20 Km e faz mais 3h de ginásio em cima disso todos os dias, e ainda passa a noite a beber e a curtir nas discotecas, para brunchar sushi num rooftop sobre a cidade de onde sai para o aeroporto para ir ver um concerto de uma banda indie à Escandinávia. E estar de volta para o derby, que toda a gente também percebe de futebol. E da NBA. E dos ALL Blacks. E com jeitinho ainda se pronunciar acertadamente sobre os refugiados da Síria e o governo de Portugal. Já não há pessoas, só super-heróis.
Como é claro, pelo menos para mim, este vício não me fez bem absolutamente nenhum.
Em quatro semanas apaixonaram-se por mim duas pessoas, sem sequer me conhecer. E desapaixonaram-se, claro está, mantendo-se obviamente desconhecidas. A minha vida está tal caos que nem me detenho a pensar neste tipo de coisas seriamente, ou provavelmente há muito que teria voltado pelo próprio pé para o hospital que isto, cá fora, interessa pouco. Mas como tenho problemas reais de que tratar, lá me vou aguentando com as emoções intactas, apesar das declarações de amor e dos mundos de boas probabilidades de futuro que se abrem num dia para se encerrar no outro.
E é óbvio que me comparo às mulheres pelas quais vou sendo preterida, e que escrevem mau português, são muito ordinaronas mesmo sem dizer palavrões, dormem com quem calha e permitem que isso seja visível nas redes sociais. Comparo-me com elas, giras, bem sucedidas, contentes e felizes, bem resolvidas, cada uma com seu séquito de seguidores e fico muito triste. Não consigo, por mais que tente, sentir-me realmente inferior a nenhuma delas. Não consigo, por mais que tente, ter inveja de nenhuma delas, mas ainda assim fico muito triste. Fico triste com a certeza absoluta de que jamais serei bem resolvida enquanto bem resolvida for aquilo que eu testemunho diariamente na rede. Fico triste porque não vejo como não ficar sozinha quando a companhia significa uma paixão assolapada hoje que já não é válida amanhã, um amor para sempre hoje que de aqui a pouco é fel, um amo-te que, uma semana passada, é que s'a foda. True story, by the way, contado ao dia.
É assim que eu vejo a maior parte da minha geração, dos que estão solteiros, divorciados, ou que são simplesmente tristes e banais adúlteros com as desculpas do costume, tão gastas que aborrecem.
Anda tudo a auto-promover-se e a pregar o desapego e o descaso, a reagir à pedrada a opiniões diferentes e a erigir grande estátuas a si mesmos. Não, não quero ser bem resolvida. Prefiro o epíteto, que foi meu durante muito tempo, de encalhada azeda. Mal por mal, quando me ameaçam, como já aconteceu, de que fazem e acontecem, eu durmo descansada com a minha dignidade intacta e a minha cabeça levantada. Já muita gente bem resolvida que por aí anda não poderá dizer o mesmo.