Quem me conhece bem sabe que sou pelo consenso, pela paz e pela tranquilidade. Sempre fui, embora durante muitos anos não parecesse. Isto porque nasci com um sentido de justiça que me impediu anos a fio de exercer o meu right to remain silent, e em vez disso arder em defesa de quem se calava por saber viver melhor que eu. Também nunca me consegui calar naquelas alturas em que era mais útil fazer-me de parva. Isto, porque a única coisa em mim da qual nunca duvidei foi da minha inteligência acima da média, e quando uma pessoa, sobretudo uma mulher, acha que não tem mais nada a oferecer ao sexo oposto que interesse intelectual estimulante, não deixa que a façam de parva.
Por esta mesma razão, mais tarde ou mais cedo, sempre acabei por me anular nas relações. Sempre acabei por andar às ordens. Por pedir desculpas para terminar discussões inférteis, assumir responsabilidades de outros, enfim, ir contra a minha natureza e fingir-me de parva. Mais vezes que menos, esforços vãos, dado que novamente, mais vezes que menos, me partiram o coração ao invés do contrário.
Entretanto, doze dias de hospital abanaram-me o sistema violentamente. O regresso, mais vinte e três, traumatizaram-me para o resto da vida, tenho certeza absoluta disso. Tenho a certeza bem tatuada na pele de que nunca mais serei a mesma pessoa . Há, julgo eu, indizíveis relacionados com estes dias. Memórias de mim sem dignidade absolutamente nenhuma e dependente para tudo o que um ser humano saudável nem se atreve a imaginar. E imagens de mim de que muito me orgulho, a arrastar-me cheia de dores para a cama ao lado da minha, para uma das velhotas não morrer sozinha, e estar ali, a segurar-lhe a mão e a fazer-lhe festas no cabelo sem palavras, para ver se ela não se apercebia que era uma estranha e partia amparada pela filha, enfim.
Não sou nenhum génio, nem nenhuma mártir, mas creio ser mais inteligente e mais generosa que o médio ser humano. E conheço muitos, de todas as idades. Durante anos e anos a fio, disfarcei as minhas fragilidades com uma agressividade infinita. Deixei-me disso. Estou numa escola em que todos os colegas sabem que fui destacada por motivos de saúde, a fragilidade é uma fractura exposta, vou proteger-me como? Não dá. Só que agora, e ao contrário de quando tudo em mim era luminoso e loud assustando os mais distraídos destas coisas que são as máscaras e as armaduras, e criando antipatias fáceis e amizades para o resto da vida, agora, dizia eu, sou muito muito quiet. Tão, tão , tão que passo finalmente despercebida. Também é verdade, e já é a segunda vez que me defronto com isso, que há certo e determinado número de inseguranças que já não moram aqui. Sei, por um saber de experiência feito, que não me voltam a apanhar em relações com pessoas que me rebaixem, me minem a autoestima ou me moldem a seu bel-prazer. Não volto a pedir desculpas para não perder uma pessoa de quem goste, mesmo que muito, se não tiver culpa nenhuma. Não volto a admitir que me apouquem para manter razões inexistentes. Não volto a deixar que me façam envergonhar por ser fraca e não reagir a agressões de quiasquer espécie. Estou mais quiet, mas como dizia uma amiga minha, se a autoestima para mim é uma briga diária, o self-respect ficou de cicatriz de um pesadelo que terminou mas jamais será esquecido.


