Não tenho prazer nenhum na decepção, no abandono, nos dias cinzentos, na falta de vontade de me levantar de manhã, na sensação what's the point aplicada, basicamente, a tudo, incluindo respirar. São tempos difíceis e suados, em que qualquer dose de energia dispendida a lavar um copo parece um esforço hercúleo. Compreendo bem os que escolhem não passar por isso, virar costas e desistir. E durante algum tempo comprei discursos de impossíveis e impossibilidades, de como era fatalmente mentira que o amor acontecesse de repente, fora dos contos de fadas, às pessoas normais a partir de uma certa idade. Que essa fé ficaria para os ingénuos, e que demasiada ingenuidade junta era sinal de falta de inteligência, perspicácia e argúcia. Comprei essa teoria porque precisava dela para dar sentido à minha dor e assim poder tê-la justificada e não fruto dos actos aleatórios de pessoas pouco sérias com os outros, que as há, não nego, tão bem disfarçadas que enganam até os mais cicatrizados nestas coisas, como eu.
Até que me pus a pensar que os discursos apocalípticos do amor me chegam, sobretudo, de pessoas que se prendem demasiado ao passado, aos erros, às mágoas. Gente que jamais faz parágrafo depois de colocar um ponto final. Que continua a voltar atrás em loop, a analisar, a remexer, a dissecar o sapo morto all over again: Gente que não quer abrir mão de ninguém, como se alguém lhe pertencesse ou a quem quer que seja alguma vez na vida. Gente enredada em história complicadas e intrigas palacianas que são sempre culpa de outrém, nunca sua, mas que se repetem ad infinitum na sua envolvência, talvez na esperança de que abra os olhos e veja que, se calhar, alguma responsabilidade tem nesse perpetuar de um luto vão. Sinto que esses discursos vêm de control freaks que na sua assumida teoria científica do amor, "isto está tudo estudado pela neurologia e pela psicologia, sabes?" estão descontrolados na sua tentativa de controle.
É inútil tentar construir seja o que for em cima de terreno pantanoso. Na lama podem nascer flores, mas não casas. O amor pode acontecer de repente, por magia, seja a que idade for, sem que seja uma mentira contada com um qualquer fim obscuro. Não pode é o seu contrário ser justificado com grandes argumentações lógicas porque, infelizmente, se há coisa que a realidade é, cientifica ou artisticamente falando, é aleatória e profundamente misteriosa. Com uns, mais que com outros, altamente puta. Agora, se há coisa em que eu acredito, mesmo depois de quarenta anos a levar no focinho, é que podemos fazer sempre qualquer coisa para facilitar a vida a que coisas boas aconteçam. E um dos maiores facilitadores, aprendi eu, é o letting go.
Também eu, durante muito tempo, me concentrei naquele momento e naquela pessoa que virou costas e com ela levou a minha parte mais luminosa. Também eu obcequei com "the One that got away". Também eu lhe acompanhei passos, derrotas, vitórias e sorrisos, e palavras e silêncios. Até que percebi que estava parada no tempo a olhar para uma figura de costas para mim, por trás de uma porta transparente mas fechada. Enquanto aí me detive, passaram-se anos da minha vida a preto e branco. Quando fiz parágrafo, as coisas avançaram de um estado fotográfico para um estado cinematográfico gradual e solidamente.
Ao conhecer outras pessoas, consigo finalmente dar-lhes uma nova hipótese de me fazerem feliz. Mesmo que elas a aproveitem para me fazer chorar, cientificamente, para quem gosta tanto do pensamento matemático emotionless, é mais provável que zero, assim, que um dia me aconteça algo de bom. Sendo zero a probabilidade que tal aconteça enquanto olhamos as costas voltadas de alguém que partiu sem olhar para trás ou, pior, continuamente a fingir que sim, que continua a olhar-nos nos olhos, como sempre, como antes, quando segue toda contente com a sua vidinha self-centered pouco se importando com o estrago que faz à dos outros.
acrescentado um pouco mais tarde, como banda sonora perfeita
acrescentado um pouco mais tarde, como banda sonora perfeita

