domingo, 11 de outubro de 2015





Ou pudéssemos nós fazer dela tudo o que desejamos. Temos apenas a ilusão de a controlar, quando tudo o que é importante é aleatório.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Sobre o Ciúme

No rescaldo de mais uma relação falhada, esta do reino dos infernos, tenho a dizer sobre o Anselmo Ralph, cuja música detesto, que passei a respeitá-lo muitíssimo como pessoa mas, sobretudo, como homem quando, numa entrevista, à pergunta "Como é que a sua mulher lida com o assédio das fans?", ele responde qualquer coisa como "A minha mulher não lida com isso. Quem tem que lidar com isso sou eu. E apaziguá-la, sempre. Dar-lhe toda a segurança do mundo, sempre". Achei lindo e apeteceu-me aplaudir de pé. Depois de levar com um gajo que se punha a babar e fazia comentários às fotos do amiguedo todo do facebook quando, se fosse preciso, a mim nem a mensagens privadas respondia, acho que, de facto, tenho o toque de Merdas quando se trata de escolher homens. Não, não me enganei. O Midas está muito longe destas histórias. Quase um mês passado sobre a ruptura,  e olhando para as fotos do amiguedo mais próximo, começo finalmente a ver o que é que eu não tenho que elas têm. E, em vez de doer ou nausear, já dou por mim com um leve sorriso trocista, o que é um consolo. (não deixando, claro, de ser daquelas vergonhas que só apetece fugir).

domingo, 4 de outubro de 2015

Sem Palavras

Passou-me um camião TIR por cima. Acabadinha de chegar da praia, cheia de planos para o resto das férias e em franca recuperação, eis que levo com mais vinte e três dias de hospital. Desta vez nem eu quis ver ninguém, nem muita gente me quis ver a mim. Não tem explicação, o que uma pessoa sente, o desânimo, a tristeza de ver os dias com sol a acontecer lá fora, sem nós.
Junto de mim só os meus. A minha mãe, as minhas primas, um dos mosqueteiros, um casal muito próximo e um amigo novo, daqueles que começa tão bem que só pode ser para o resto da vida. Já que a vida também dá mostras de não querer durar assim tanto como isso.
Pelo caminho ficou uma relação que eu percebi que não tinha pernas para andar, quando falharam as minhas, que andavam sozinhas sem dar conta. Ou a fingir não dar conta. É impressionante como as pessoas conseguem virar costas a outras que lhes são íntimas e gostam delas, precisamente quando é mais necessário que fiquem. Nunca consegui perceber muito bem esse mistério que continua a ser, para mim, a crueldade humana para os que estão mais próximo. E continuo a perceber muito menos onde anda a minha tão apregoada inteligência quando se trata de afectos, dado que escolho sempre os piores trastes, aqueles que são tão maus que são, anos a fio, sempre dados como exemplos do pior que a espécie humana é capaz em relações emocionais, do género, "estás a queixar-te? isso não é nada, há um namorado que a Jade teve que..." É. Os namorados que a Jade teve engrossam as fileiras da escumalha de todas as relações conhecidas e próximas. Tenho uma amiga que passa frequentemente por um, de carro, e diz que qualquer dia é dia, perde a cabeça e passa-lhe por cima. Tenho amigas que, literalmente, têm pesadelos com ex-namorados meus. Juro que é verdade, e isso envergonha-me muito. Tal como me envergonha ser exemplo de mulher que não acerta uma. Outra amiga diz-me milhares de vezes "não te apaixones, a vida corre-te sempre muito mal, quando te apaixonas". É. Sinto uma enorme náusea quando penso que ela tem razão. Dar-lhe razão põe-me muito, muito, triste.
O que me aconteceu há um mês com esta pessoa foi um pesadelo. Porque eu estava doente, porque só via o dia em que nos íamos reencontrar, porque estava mesmo a precisar de consolo, daquele consolo a que os amigos, por melhores que sejam, e eu tenho os melhores do mundo, não conseguem chegar. Foi tudo muito feio. Eu fui internada num dia em que todos os meus sabiam que era a hipótese mais provável. Fui internada de manhã. Ele ligou-me às seis da tarde, depois de muito tempo perdido antes disso nas redes sociais. Os meus estrebucharam em coro. Eu, parva, deixei andar. Não tinha cabeça para mais perdas. Acabei por não ter outro remédio, depois de mais umas semanas de situações tristes de que me envergonho. Apesar de todos me dizerem que a vergonha está toda do outro lado, a gente fica sempre muito triste quando faz figura de estúpida. Quase com quarenta anos. É verdade. Eu fiquei. Estou, ainda. Sem saber muito bem como lidar com as coisas a correr muito depressa à minha volta, sem me deixar enrolar a um canto e lamber feridas.
Pareço o coelho da Alice, a correr a correr, a evitar contactos, a não querer falar muito sobre as férias com ninguém. I'm always on my way, porque se me obrigam a parar, juro, juro, que parto tudo e a seguir me desintegro. 
Ultimamente tenho falado pouco. Ouço, sobretudo, quem me obriga a ouvir, a minha mãe e o lufa-lufa do quotidiano, os meus colegas de escola e o trabalho que ficou atrasado, os poucos amigos que não se importam de me ligar para falar quase sozinhos quando lhes ofereço tudo o que posso, um silêncio denso e magoado. Desses, às vezes ouço palavras brandas de censura molhada em mel, que ninguém tem coragem de chutar um cachorro abandonado. As palavras que me oferecem são abraçadas pela razão, sempre. Concordo com todas, com tudo. Que há o chamado pensamento mágico e que as pessoas acreditam nas maiores mentiras, se lhes parecerem exatamente aquilo que procuram. Que não existem coup de foudres de espécie nenhuma. Que até, se calhar, bem esprimidinho, bem esprimidinho, talvez nem sequer o amor exista. Ou seja como os milagres, só existe para quem acredita nele. Eu percebo isso tudo muito bem. Só agradecia que, já que essas coisas não existem, não me fodessem a vida tantas vezes, em loop, sempre que podem.


domingo, 12 de julho de 2015

Contabilidade

No final de contas, não é importante quantos são, mas com quantos podes contar. E estou a falar de amigos. De "A"migos.
Hoje foi assim,
eu: então, e a feira, foi boa?
eles: não, faltaste lá tu.
É assim. A diferença entre o "não sabes o que perdeste", que seria a verdade, e o"faltaste lá tu", que eu sei perfeitamente que não influenciou em nada a boa disposição alheia, mas cuja enunciação aldrabona influenciou a minha. Porque há mentiras que aquecem o coração e são provas de amor.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Regresso

Nada acontece por acaso é um daqueles clichés que me tira do sério: sou adepta do contrário, tudo acontece por acaso e, tal como há coincidências felizes, há outras que são uma trampa. Acontecem coisas más a pessoas boas, sem razão nenhuma. Nenhuma. Se depois disso, as pessoas têm vida para retirar daí lições, melhor para elas, mas há lições que não há necessidade nenhuma de aprender e as boas pessoas não precisam para nada de saber o que dói uma quimioterapia, a angústia de ficar sem cabelo, viver sem poder comer as coisas de que mais gosta ou não poder acompanhar os amigos no que lhe apetece. Reservavam-se essas lições para os filhos da puta, não era?... e talvez assim eu dissesse que nada acontece por acaso e que sim, afinal sempre existe um deus.
Isto porque estive dez dias internada no hospital e é óbvio que aprendi muito com isso. Aprendi, por exemplo, que, ao contrário da última década, em que entrei e saí de hospitais sempre sozinha, ter companhia é bom. E por companhia incluem-se as visitas, sim, que aprendi a tolerar, mas que detesto, detesto, porque me dão uma sensação horrível de descompostura e vulnerabilidade que eu odeio, numa obsessão felina que me faz engolir tantas vezes a dor e mascará-la de mau feitio, ninguém tem nada que me ver chorar, suar, gemer, gritar, ninguém e muito menos os meus, as visitas, dizia eu, mas sobretudo a presença espiritual e emocional de tanta gente que ligou, mandou mensagens, deixou recados, apareceu, deu presentes, abraçou, beijou, esteve. Aprendi a gostar de surpresas porque de facto, nestes dias, as surpresas foram boas, e foram muitas. Quem não esteve, não surpreendeu, não tive uma única decepção, não. Quem não esteve, não fez falta nenhuma. No início contabilizei as falhas, mas com a catadupa das presenças, algumas tão improváveis, percebi, finalmente, outro adágio que tanto me irritava mas ao qual tive que me render: só faz mesmo falta quem está.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Já me aconteceu, e costumava doer



Mas encontrei a melhor perspectiva sobre este assunto.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Saída Airosa

Hoje, resmungava eu a um aluno, no meio de um teste, que raio de pergunta é essa, M? Com esse jeitinho para o Inglês, nem parece que nasceste no mesmo dia que eu, pah! E ele, que faz, de facto, anos no mesmo dia que eu, responde muito depressa, oh professora, no mesmo dia não, senão eu teria uns...
Faz uma pausa e olha para a minha cara número trinta e três. Levanto-lhe uma sobrancelha, a sublinhar o perigo.
... vinte e dois aninhos muito bem conservados?
Estão bem amestrados, os meus putos.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Saber de Experiência Feito

Somos tão melhores pessoas quando estamos felizes.

Treinar

o desapego, habituar-me ao peso do silêncio e evitar abrir mail e olhar para o telemóvel obsessivamente. The force só funciona nas Star Wars.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Foram dezasseis dias

Dezasseis.
Luta inglória, quando se trata de ir ao tapete. Tivesse ganho e teria, pelo menos, valido a pena.

domingo, 25 de janeiro de 2015

Estou mesmo pelos cabelos

Gostava de saber onde é que está escrito que uma pessoa tem que aturar bocas foleiras, senão tem mau feitio, e piadas parvas, ou lhe falta o sentido de humor.
Eu sou uma pessoa que tem pouca paciência para conversa fiada. Sou de poucas palavras e cada vez menos sorrisos. É verdade. Mas a próxima pessoa que me vier com a conversa do mau feitio, vai ser mandada para a p*ta que a pariu. Estou farta de levar com a fama sem ter proveito nenhum. Sou a maior banana da escola, sempre a desenrascar toda a gente, sempre a defender meio mundo: quando precisei, deixaram-me arder indecentemente. Quem? As porreiras lá da escola. As que se riem, e sorriem muito e são tão bem dispostas. A pensar só em si próprias. Assim, também eu tinha bom feitio. Não aturo mais insultos mascarados de brincadeirinha, acabou-se.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Figurinhas

Hoje à vinda da escola pus-me a pensar que, para quem não gosta de conduzir, o meu carro é palco de muitas das cenas deste teatrinho amador que é a minha vida. Ainda hoje, e apenas no trajeto diário, viu-me maquilhar, pôr brincos, borrifar perfume, cantar, dançar, dizer palavrões e ladrar ao desafio com o Chico que, ameaçado pelo labrastalker cá do bairro, agora tem honras de motorista privado nos passeios dele.
O pior é que o teatrinho, às vezes, não progride em plateia vazia. Volta e meia, esqueço-me que a máquina infernal não tem vidros opacos e desperto para essa realidade com a cara embasbacada das pessoas com quem me cruzo enquanto guincho, toda contente, uptown funk it up, uptown funk it up...

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Precipitou-se...

Hoje, lamentava-me com a habitual ladainha, eu aqui tão gira, largada aos cães, que desperdício, bla bla bla whiskas saquetas, e um dos charmosos que são os meus colegas de escola, diz, eu também acho. Já não sei como a conversa continuou que, às tantas, o pobre diz, em tom de autodefesa, mas eu já era casado quando a conheci! (a mim, bem visto) E eu, a rir-me, "Precipitaste-te!"
Hold that thought.
Há uns dias, perguntaram-me, sabes quem se divorciou? e eu, quem? resposta, o fulano-de-tal. E eu, ah. (não vou dizer o que pensei, mas não foi um pensamento feliz, ou de que me orgulhe).
Hold this thought, too.


O RAP continua casado e bem, ao que consta. Tenho para mim, ainda assim, que também ele se precipitou, mas ficará na ignorância, ao contrário dos meus charmosos colegas de escola.

O Final de um Ciclo

Vou largar a terapia. Quatro anos depois.
Como disse uma amiga minha a propósito de uma outra perda recente, a vida é um permanente deixar partir. Adorei esta frase. Mas vê-la assim, escrita, por mais bela que seja, faz-me arder muito os olhos e provoca-me um reflexo condicionado, engolir em seco, como se de repente alguém me jogasse as mãos ao pescoço e me apertasse só um bocadinho mais que o confortável. Um permanente deixar partir, e as letras, que não passam também elas de desenhos, desenham rostos, sorrisos, olhares, vozes, mãos, abraços, gargalhadas, muitas lágrimas. Deixei partir muita gente, este ano. Agora tenho que gerir essas perdas sem torrar a paciência ao DOC. Mas como não tenho coragem de torrar a paciência a mais ninguém, ou pelo menos não da forma violenta e obsessiva como fazia em sessão, parece que vou ter que crescer e fazer como as pessoas. Seja lá o que isso for.

Milionária

Com a sorte que eu tenho ao amor, andava a investir pouco no jogo. Este ano resolvi deixar-me de merdas e entrar para o clube dos excêntricos. Se me querem engraxar, é agora, não é depois. Just saying.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Ele há dias...

... de merda e eu não tinha um assim há anos.
(foi ontem, que o hoje já leva vinte e cinco minutos e não se vislumbram melhoras, mas espera-se por elas na mesma)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Persistir, Viciar; Repetir

Li livros fabulosos estas férias.
Adorei o livro do Mário de Carvalho sobre escrita criativa, ou melhor, sobre escrita de ficcão, que isto da escrita dita "criativa" agora aplica-se a um leque tão vasto de rabiscos, - da publicidade às composições das criancinhas, - que é bom que se saiba do que se está a falar, para evitar agruras em territórios esconsos. 
Uma das ideias que este autor defende é que um escritor de ficção deve escrever muito. Em quantidade, muita parvoíce, muito lixo, todos os dias, diferentes tipos de registos, ideias, citações, títulos, sinopses, diálogos, descrições, piadas, dilemas, questões, listas. Mas escrever, insistir, praticar, repetir, viciar-se maquinalmente no gesto escrita.
Esta sou eu a seguir bons conselhos. 
Sempre defendi a tese de que se não há nada de interessante a dizer, o melhor é estar caladinha, mas a verdade é que o crivo do interesse sou eu que estabeleço, e sou tendencialmente pró-silêncio. Acredito, por formação, por leituras que faço do que considero serem os melhores autores, por feitio, por educação e por fatalidade, que nunca tenho nada de jeito para dizer, nenhum tema interessante para tratar, nada de original a acrescentar à forma escrita. Por isso, passo imenso tempo calada e eras sem escrever coisa alguma. Continuo a acreditar que é assim, mas também aceito os conselhos dos mestres, e o Mário de Carvalho confirmou o profundo respeito que já lhe tinha, enquanto escritor, e duplicou a minha admiração enquanto teórico da cousa literaria. Assim, enchi-me de coragem, lápis, canetas e bloquinhos, caderninhos, agendas e moleskines, e anoto tudo. Resolvi vir aqui mais vezes só fazer isto, deitar conversa ao lixo, dizer de minha justiça, soletrar uma quantas parvoíces, cantar umas baboseiras, passar os dedos pelo teclado. Mal não faz. Quero dizer, se não contarmos com a inevitável contribuição para o engrossar da banalidade que grassa na maioria bruta de textos que se apanham nas redes sociais e nos blogues da moda.
Não me comprometo a fazer melhor. Mas podem esperar de mim humildade suficiente para conhecer os meus limites e não me arrogar a grandes feitos. 
Uma coisa que me faz muita impressão no panorama que vou observando é a falta de poder de encaixe a opiniões diferentes, ou a observações menos positivas, ainda que justas, sobre o que se vai escrevendo e dizendo por aí: anda tudo de monarca na pança, toda a gente é bestial, faz tudo certo, sabe imenso, e com frequência produz mais e desempenha melhor que o resto dos comuns mortais. Ó-da-guarda se alguém diz "não gosto", ou "vai lá informar-te melhor sobre esse assunto, que não sabes muito bem do que estás a falar".
Quando eu andava em estágio e tinha aulas assistidas, pegava num lápis e anotava tudo o que as minhas orientadoras consideravam errado na minha prestação, quer concordasse, quer não. Aqueles "ditos" erros, eu não cometia de novo. Obviamente, não me faltava sentido crítico para achar que havia coisas ali que eu poderia contestar, mas dava sempre o benefício da dúvida ao contraditório. As minhas colegas não apontavam nada e rebatiam cada uma das observações, defendendo tudo o que haviam feito como se estivessem num tribunal. Eu aprendi imenso nesse ano. Elas, duvido muito. Claro que isto é um caso muito específico, dado que eu estava a ser avaliada, e estava numa condição de aprendente, logo quem me observava sabia, à partida, mais que eu, para além de ser do meu interesse fazer os possíveis por ir ao encontro do que me era solicitado. Ainda assim, mesmo no contexto quotidiano do real, gosto sempre de pensar que não tenho a razão toda e que toda a gente me pode ensinar alguma coisa, nem que seja a pensar de forma diferente da minha, ou a apresentar-me ideias diferentes, quer as adote, quer as rejeite. E por gostar tanto de ser assim, e por tirar tanta vantagem dessa qualidade tão positiva que é a minha genuína humildade, lamento mais do que abomino as pessoas que estão sempre tão contentes consigo mesmas por serem tão insufladamente geniais. Até porque nove em cada dez não andam, sequer, lá perto. À que sobra, tolera-se a arrogância. E a condescendência não é muito elogiosa, digo eu.