Passou-me um camião TIR por cima. Acabadinha de chegar da praia, cheia de planos para o resto das férias e em franca recuperação, eis que levo com mais vinte e três dias de hospital. Desta vez nem eu quis ver ninguém, nem muita gente me quis ver a mim. Não tem explicação, o que uma pessoa sente, o desânimo, a tristeza de ver os dias com sol a acontecer lá fora, sem nós.
Junto de mim só os meus. A minha mãe, as minhas primas, um dos mosqueteiros, um casal muito próximo e um amigo novo, daqueles que começa tão bem que só pode ser para o resto da vida. Já que a vida também dá mostras de não querer durar assim tanto como isso.
Pelo caminho ficou uma relação que eu percebi que não tinha pernas para andar, quando falharam as minhas, que andavam sozinhas sem dar conta. Ou a fingir não dar conta. É impressionante como as pessoas conseguem virar costas a outras que lhes são íntimas e gostam delas, precisamente quando é mais necessário que fiquem. Nunca consegui perceber muito bem esse mistério que continua a ser, para mim, a crueldade humana para os que estão mais próximo. E continuo a perceber muito menos onde anda a minha tão apregoada inteligência quando se trata de afectos, dado que escolho sempre os piores trastes, aqueles que são tão maus que são, anos a fio, sempre dados como exemplos do pior que a espécie humana é capaz em relações emocionais, do género, "estás a queixar-te? isso não é nada, há um namorado que a Jade teve que..." É. Os namorados que a Jade teve engrossam as fileiras da escumalha de todas as relações conhecidas e próximas. Tenho uma amiga que passa frequentemente por um, de carro, e diz que qualquer dia é dia, perde a cabeça e passa-lhe por cima. Tenho amigas que, literalmente, têm pesadelos com ex-namorados meus. Juro que é verdade, e isso envergonha-me muito. Tal como me envergonha ser exemplo de mulher que não acerta uma. Outra amiga diz-me milhares de vezes "não te apaixones, a vida corre-te sempre muito mal, quando te apaixonas". É. Sinto uma enorme náusea quando penso que ela tem razão. Dar-lhe razão põe-me muito, muito, triste.
O que me aconteceu há um mês com esta pessoa foi um pesadelo. Porque eu estava doente, porque só via o dia em que nos íamos reencontrar, porque estava mesmo a precisar de consolo, daquele consolo a que os amigos, por melhores que sejam, e eu tenho os melhores do mundo, não conseguem chegar. Foi tudo muito feio. Eu fui internada num dia em que todos os meus sabiam que era a hipótese mais provável. Fui internada de manhã. Ele ligou-me às seis da tarde, depois de muito tempo perdido antes disso nas redes sociais. Os meus estrebucharam em coro. Eu, parva, deixei andar. Não tinha cabeça para mais perdas. Acabei por não ter outro remédio, depois de mais umas semanas de situações tristes de que me envergonho. Apesar de todos me dizerem que a vergonha está toda do outro lado, a gente fica sempre muito triste quando faz figura de estúpida. Quase com quarenta anos. É verdade. Eu fiquei. Estou, ainda. Sem saber muito bem como lidar com as coisas a correr muito depressa à minha volta, sem me deixar enrolar a um canto e lamber feridas.
Pareço o coelho da Alice, a correr a correr, a evitar contactos, a não querer falar muito sobre as férias com ninguém. I'm always on my way, porque se me obrigam a parar, juro, juro, que parto tudo e a seguir me desintegro.
Ultimamente tenho falado pouco. Ouço, sobretudo, quem me obriga a ouvir, a minha mãe e o lufa-lufa do quotidiano, os meus colegas de escola e o trabalho que ficou atrasado, os poucos amigos que não se importam de me ligar para falar quase sozinhos quando lhes ofereço tudo o que posso, um silêncio denso e magoado. Desses, às vezes ouço palavras brandas de censura molhada em mel, que ninguém tem coragem de chutar um cachorro abandonado. As palavras que me oferecem são abraçadas pela razão, sempre. Concordo com todas, com tudo. Que há o chamado pensamento mágico e que as pessoas acreditam nas maiores mentiras, se lhes parecerem exatamente aquilo que procuram. Que não existem coup de foudres de espécie nenhuma. Que até, se calhar, bem esprimidinho, bem esprimidinho, talvez nem sequer o amor exista. Ou seja como os milagres, só existe para quem acredita nele. Eu percebo isso tudo muito bem. Só agradecia que, já que essas coisas não existem, não me fodessem a vida tantas vezes, em loop, sempre que podem.


