quinta-feira, 18 de dezembro de 2014
Três dias maus
Detesto fazer limpezas. Custa-me muito, imenso. Mas o alívio de ter a casa limpa compensa tanto... nunca mais nada é igual, e jamais olho para trás.
quarta-feira, 19 de novembro de 2014
sexta-feira, 14 de novembro de 2014
Reconfortante
Quando alguém te conhece tão bem e há tanto tempo, que tu perguntas, por mensagem privada numa rede social, já em desespero por estares há horas a puxar pelos neurónios, "Como é que se chama aquele gajo que canta com um gorro?", e te responde, acto-contínuo,"Jamiroquai".
Lindo.
quinta-feira, 13 de novembro de 2014
Memória Futura
Sobre a minha epifania emocional, correu muita tinta. Não parece, porque os leitores aqui do estaminé há muito que o comentam off the record, não sei porquê. Mas correu. Houve alguém que me disse que o seu príncipe encantado foi atropelado por um camião. Outra pessoa disse que o meu já não deve tardar (se tardar muito, terá que me procurar num lar da santa casa). Houve quem me dissesse que eu tenho que abrir o meu coração, ser mais simpática, mostrar disponibilidade para... nem sei bem para quê.
Em tempos, houve um rapaz que fez quatrocentos quilómetros para vir almoçar comigo. Entre as duas viagens, de vinda e de regresso a casa, esteve na estrada o dobro do tempo que passámos juntos. E permanecemos sempre em sítios públicos, a conversar amenamente, a rir e a recordar tempos idos. Foi das melhores horas de almoço, senão a melhor, de toda a minha vida. E não lhe toquei, sequer, ou ele a mim. Mas acho que esse par de horas foi o maior abraço que alguma vez alguém me deu. Se morrer muito velhinha, ainda assim o vou levar tatuado no corpo, esse abraço. Depois disso, estive muito tempo sozinha. Anos. Um dia achei que já chegava e conheci uma pessoa que me interessou. Muito. Parecia mesmo feita à minha medida. Vivia a umas dezenas de quilómetros de mim e eu achei que merecíamos ambos o esforço. Detesto conduzir mas peguei no JadeMobile, máquina infernal, e fui várias vezes à terra dele, vê-lo, conhecê-lo melhor. As coisas pareciam estar a encaixar bem. Uma noite, estive com uns amigos umas horas num cafezinho, na conversa, à noite. Ele esteve noutro, a uns quinhentos metros. Não fez esse caminho para estar comigo.
Em tempos, houve um rapaz que fez quatrocentos quilómetros para vir almoçar comigo. Entre as duas viagens, de vinda e de regresso a casa, esteve na estrada o dobro do tempo que passámos juntos. E permanecemos sempre em sítios públicos, a conversar amenamente, a rir e a recordar tempos idos. Foi das melhores horas de almoço, senão a melhor, de toda a minha vida. E não lhe toquei, sequer, ou ele a mim. Mas acho que esse par de horas foi o maior abraço que alguma vez alguém me deu. Se morrer muito velhinha, ainda assim o vou levar tatuado no corpo, esse abraço. Depois disso, estive muito tempo sozinha. Anos. Um dia achei que já chegava e conheci uma pessoa que me interessou. Muito. Parecia mesmo feita à minha medida. Vivia a umas dezenas de quilómetros de mim e eu achei que merecíamos ambos o esforço. Detesto conduzir mas peguei no JadeMobile, máquina infernal, e fui várias vezes à terra dele, vê-lo, conhecê-lo melhor. As coisas pareciam estar a encaixar bem. Uma noite, estive com uns amigos umas horas num cafezinho, na conversa, à noite. Ele esteve noutro, a uns quinhentos metros. Não fez esse caminho para estar comigo.
Não tenho que mostrar disponibilidade, bom feitio, simpatia, nada disso sou eu. Eu sou uma gaja dura e difícil, como já me descreveram. Não sou cá de falinhas mansas e paninhos quentes. Não sou aconchegadora de egos alheios, ainda estou a aprender a aconchegar o meu. Eu sou assim, e não deixo de ser extraordinária, como também já me definiram. Não tenho que fingir coisa nenhuma para atrair quem quer que seja. Dou-me a conhecer, e o tempo logo se encarregará do que tiver que ser. As atitudes das pessoas comigo, essas, separam sempre, mas sempre, o trigo do joio.
domingo, 9 de novembro de 2014
Romantic Epiphany
Depois de um fim de semana inteirinho na companhia de Blue Bloods, quer-me parecer que descobri a pólvora: a minha cara metade é, certamente, das forças de segurança. De preferência, detetive. Muito provavelmente, americano, o que explica a relutância em aparecer. E nova-iorquino, porque não poderia ser de outra forma. Ah, e tem que saber dedilhar uma viola, porque é condição sine qua non. E como está uma década atrasado, já se sabe que tem que ser macho suficiente para tomar iniciativas, mandar sms amorosas, levar-me a jantar fora a sítios fantásticos e ler uns livros de jeito de vez em quando, que a idade apura o bom gosto. E gostar de cães. E de ver filmes. E ter super poderes, para me descobrir fechada em casa. Fácil.
sábado, 8 de novembro de 2014
Meanwhile...
... este é capaz de estar a ser um dos melhores anos de leituras da última década.
Neste momento estou a ler Vendedor de Passados, do Agualusa, Galveias, do Peixoto, Em Casa, do Bill Bryson, o Chalet da Memória, do Tony Judt e Porquê Ler os Clássicos, do Calvino. E a adorar todos. Se os acabar antes de 31 de dezembro, a relação quantidade/qualidade do que li este anos é astonishing, em bom. Já no parâmetro "novos autores, novos ídolos", parece-me existir um novo recorde absoluto. Com os portugueses em destaque.
sexta-feira, 7 de novembro de 2014
Best ever
Best stress relieving remedy ever: my happy dog's mild snoring a couple of meters from me.
Breve Apontamento Regional
Ontem fui passar a tarde com uma amiga minha, para quebrar a semana, aprender um novo hobby, - ela ensinou-me a tricotar- pôr a conversa em dia, enfim, descansar e divertir-me. Às páginas tantas, ela diz que os homens daqui deviam ir tirar um curso de estilo ao Norte, porque são uma cambada de calhaus caídos de chaparros em bruto, incapazes de fazer um elogio, incapazes de tomar uma iniciativa, incapazes de demonstrar um sentimento.
É verdade. Não estarei sozinha por ser um estafermo em quem ninguém pega, ou por ser burra que dá dó. Muitos me dizem que estou assim por ser demasiado exigente. Também não será assim. Mas, de facto, não me consigo encantar pela frieza ou pela rudeza. Já lá vai o tempo em que achava piada a picardias ou em que estava disposta a fazer o trabalhinho todo. Aliás, está praticamente a fazer um ano, deixei-me dessas lides de vez. Foi a última vez que me apanharam a fazer viagens para estar com alguém ou para ver alguém, que me apanharam a mandar sms queridas ou a ligar, ou a apostar ou a ter alguma esperança no que quer que seja a troco de migalhas e um balde de água fria.
Não sei se será regional. Mas palavra bonitas, que me tenham dito... ouço-as sempre com pronúncia do norte. A várias vozes, mas sempre a trocar bs por vs.
Cair Mal
Quando uma pessoa passa a infância e a adolescência a ser comparada a outras e a ficar sempre aquém, é óbvio que na sua vida adulta se vai rodear de gente que acha que tudo o que faz é errado - não devias cortar o cabelo à rapaz, não, afinal não devias era pôr extensões, essas calças dessa cor parecem de um bobo da corte, o cabelo dessa cor parece não sei quê, a fulana de tal é que é gira, as louras é que são bonitas, as mulheres prendadas é que interessam, aquela outra é que é uma profissional competente, fulana de tal é de uma perspicácia...
Quando uma pessoa passa a infância e a adolescência a ser comparada a outras e a ficar sempre aquém, é óbvio que fica um bocado imune ao que pensam ou deixam de pensar sobre ela, porque é um jogo perdido à partida, faça o que fizer, estará sempre mal feito ou a vizinha terá sempre feito muito muito melhor.
Mas quando uma pessoa passou a vida inteira nisto, estes comentários caem cada vez pior. E as pessoas que não te dão valor e que passam a vida a apoucar-te, por muito que delas gostes, começam a caminhar uma estrada sem regresso para fora do teu mundo.
domingo, 2 de novembro de 2014
The Special One
Sei que o meu cão é especial quando são estas horas - e relaxo a ver uma série em frente ao computador, esparramada no sofá com a luz do teto acesa, porque quando me dei conta disso já me tinha deitado no sofá e não me apeteceu mexer-me até ao outro lado da sala... - e o vejo entrar, tic tic tic tic, cauda e orelhas caídas, aos tropeções da bebedeira de sono que traz, aterrar no puff, colado ao sofá, que é onde se deita para adormecer ao ritmo das minha cóceguinhas no lombo e... pôr a cabecita à sombra da cadeira onde assenta o portátil. Com o cancro de pele não se brinca, e o meu cão é obcecado por sombras. Nem que a luz venha de uma lâmpada elétrica, bem fraquinha, por sinal.
Na raiz
Quando procuro a causa de tanta raiva, descubro que, na raiz dela, está o facto de sempre a ter tentado calar. E essa coisa oprimida tantos anos, alimentada dos pequenos e grandes desgostos da vida, silenciada porque não se fala de boca cheia de misérias e frustrações e dores e desilusões, essa coisa cresceu, engordou e só não se reproduziu porque é árida e só e triste e amarga. Essa coisa lateja e estrebucha e já não há volta a dar-lhe. Agora é tirar-lhe a mordaça e deixá-la consumir-se, que um dia há-de morrer, como tudo o que existe.
sábado, 1 de novembro de 2014
O Direito à Indignação.
Acho uma imensa metafórica graça àquelas pessoas que te apontam o dedo por estares "a gritar" com elas e, na sua versão dos factos, estares "fora de ti", a agir "irracionalmente", e outros mimos com que te brindam no calor do momento, mimos esses que nunca admitem serem ofensivos e insultuosos quando, na realidade, tudo começou contigo a repetir, em voz baixa e calmamente, a mesma coisa que agora gritas, umas cinco ou seis vezes, quando estavam demasiado preocupadas com o seu ego e o seu discurso / monólogo semiautista, para te ouvir. Há certas pessoas que só te ouvem quando explodes, e depois te apontam o dedo porque o fazes. Dei comigo a pensar nisto hoje e a encontrar vários exemplos em conhecidos meus. Detesto esta nova moda de que a cólera é gémea da doença mental, como se nascesse de um desequilíbrio neuronal e não fosse tantas vezes deliberadamente provocada por terceiros que depois "não percebem a razão de tanto descontrolo". Muitas vezes, cobardes que só caem na real e saem do seu umbigo quando levam um par de berros e ficam cheios de medo do que os vizinhos ou as pessoas que estão a assistir "vão pensar". A esses cresce-lhes, de repente, uma enorme preocupação com os outros e uma imensa solidariedade com os frágeis sentimentos que uma porta possa ter, "não batas com a porta, se faz favor!". Gosto tanto da preocupação com as boas maneiras em situações de stress... que não consigo evitar sorrir, fechar a porta com cuidado e pensar, só pensar, porque nem me merecem o respeito que seria dizer-lhes "vai-te mas é fod*r!"
terça-feira, 21 de outubro de 2014
La Rentrée
Séries.
Estou feita num molho de bróculos. Nem quero contar quantas estou a seguir religiosamente. São muitas, e as novas temporadas estão todas aí a dar cartas. Até em séries que eu já tinha descartado por me aborrecerem sobremaneira, como a Meredith-Big-Yawn-Grey, as novas temporadas justificam a continuidade.
À exceção de Homeland, que me transtornou tanto no final da temporada anterior que nem sequer ainda me apeteceu ver o regresso da Carrie, vejamos como vai o mundo:
À exceção de Homeland, que me transtornou tanto no final da temporada anterior que nem sequer ainda me apeteceu ver o regresso da Carrie, vejamos como vai o mundo:
1. Criminal Minds: lindo. Adoro a Love-Hewitt levezinha, ali no meio dos trombudos sérios, graves e circunspectos.
2.NCIS: aguenta-se estoicamente sem a Ziva, o que não é dizer pouco, com o golpe que foi a saída da personagem feminina mais carismática das 14 ou 15 temporadas;
3. Castle: fraquito, mas nunca foi mais que isso, um delicioso Guilty Pleasure;
4. CSI Vegas: Mais do mesmo, sempre com classe.
5. Scandal: Grande rentrée. Mesmo. Shonda Rhymes inspiradíssima.
6. Good Wife: Provavelmente, a única que vou deixar cair. Devia ter terminado em alta com a tragédia da temporada anterior. É este precisamente o medo que tenho em relação a Homeland, que banalize o que foram três temporadas irrepreensíveis.
7. Arrow: um consolo para os olhos e para um coração romântico que suspira e sorri perante a dupla Ollicity... e o six.pack do Amell.
E estou a acompanhar Forever, que estou a amar tanto que até citações faço do diabo do moço, que giro que ele é, entre Mentalist, House, The Highlander, Sherlock, Castle... vejo-lhe semelhanças com todos os meus protagonistas masculinos favoritos. Até me faz lembrar o gajo do Dempsey & Makepiece, a série malvada em que este vício se me colou ao corpo e à i-alma.
E comecei a ver NCIS New Orleans: primeiro estranha-se, depois entranha-se, nem que seja pelo Soul e pelo Jazz de pano de fundo, sempre presentes. Olho para aquilo e cheira-me a camarão em azeite e alho, misturado com terra molhada de chuva de verão e maresia.
E ando viciadíssima em Chicago PD, "Break the rules, not the law".
E não consigo passar muito tempo sem espreitar Modern Family, Law and Order, e Big Bang Theory.
E estou deserta da segunda temporada de True Detective, só para escrever uma resma de posts a dizer MAL da dupla que suceder ao Matt e ao Woody.
E já não posso de saudades do meu Kevin Bacon e de The Following.
E o que é assustador - parei no sete propositadamente porque já me estava a fazer impressão o tamanho a lista - o que é mesmo assustador, é que sei que quando fechar este artigo já já ja, me vou lembrar de mais meia dúzia. Sem exagero, infelizmente.
Haters, have some patience, do not react yet: wait until I list the books and films, and then spread your venom... sim, não faço mais nada na vida a não ser estar de rabo enfiado no sofá.
Teatro
Amanhã estreia uma nova comédia da Luísa Costa Gomes. Em cena, Zé Pedro Gomes. Título, "Estamos todos?". O que me veio imediatamente à cabeça, "Não. Falta o António Feio". São assim, as estrelas. Presentes, mesmo que invisíveis.
Família
Uma pesquisa recente diz que o adágio "os amigos são a família que escolhemos" é, cientificamente, uma verdade bem maior do que à partida o bom senso parece aceitar. Tal como os cães e os donos se começam, com o tempo, a assemelhar uns aos outros fisicamente, or so they say, também os amigos têm entre si semelhanças genéticas em maior quantidade, se é que tal se mede em quantidade que eu do assunto percebo zero. O que me interessa é que, resumindo, eu tenho vários genes semelhantes aos dos meus melhores amigos, o que me reconforta muito porque:
1- Nenhum é autoimune;
2- Alguns são muito boas pessoas, embora em nenhum habite a santidade;
3- Outros são geniais, embora nenhum seja gabarola ou falso modesto;
4- Há um ou dois que até acumulam os pontos 2 e 3;
5- Estão todos a envelhecer lindamente, quase sem rugas, quase sem banhas, quase sem manias, quase sem caprichos... e o que mais amo neles todos é o mundo de perfeitas imperfeições que cabe nos seus quases.
Tenho uns genes tão maravilhosos que me parece que, afinal, sou imortal.
terça-feira, 14 de outubro de 2014
A Sul da Fronteira...
Reli, há pouquíssimo tempo, esta pérola do Murakami, um dos meus escritores de eleição. O problema de escritores como este é que gostam de se alongar, e escrevem romances de seiscentas e setecentas páginas que, por muito que se goste, não se tem coragem de reler. Mas existem as novelas, e as short stories, e uma biografia, e eu estava com saudades das ambiências oníricas, do limbo entre o real e o não-se-sabe-bem-o-quê, sonho, ficção, loucura, e que interessa, no fundo, o que lhe chamar, pergunto.
Reli o livro sobre o que se pretende que seja um amor eternamente desencontrado e achei muito interessante confrontar-me claramente com o peso da minha idade e experiência(s).
É verdade, e talvez seja bastante mais cruel do que parece à partida, que um livro não se esgota por ser diferente para cada um dos olhares que o recebe. Mesmo que esses olhares sejam da mesma pessoa em diferentes fases da vida. E não me refiro ao óbvio, ao reler de um livro que nos apaixonou aos dez anos e que agora nos traz apenas a nostalgia da inocência e um bocejo entediado - sim, eu sou daquelas hereges que já não tem pachorra nenhuma para o Principezinho, embora respeite os puros de espírito que amam a obra, e que se ri escarninha da Condessa de Ségur, e que acha a coleção "Uma Aventura" francamente pobrezinha - não, dizia eu, refiro-me ao choque que é o mesmo livro me parecer tão diferente meia dúzia (talvez uma dúzia, não sei) de anos depois. Já não era criança, já não era adolescente e já não era o pior de tudo, a jovem adulta que acha que, agora que já trabalha e já vive sozinha, e já não depende de ninguém, é a maior dos bonecos da bola. Nada disso. Já tinha passado todas essas fases. Já era mesmo adulta "a sério". Já sabia o que era morrerem-me. Ninguém sabe nada até ao momento em que descobre o que é morrer alguém que leva consigo um bocado de nós para debaixo da terra.
É verdade, e talvez seja bastante mais cruel do que parece à partida, que um livro não se esgota por ser diferente para cada um dos olhares que o recebe. Mesmo que esses olhares sejam da mesma pessoa em diferentes fases da vida. E não me refiro ao óbvio, ao reler de um livro que nos apaixonou aos dez anos e que agora nos traz apenas a nostalgia da inocência e um bocejo entediado - sim, eu sou daquelas hereges que já não tem pachorra nenhuma para o Principezinho, embora respeite os puros de espírito que amam a obra, e que se ri escarninha da Condessa de Ségur, e que acha a coleção "Uma Aventura" francamente pobrezinha - não, dizia eu, refiro-me ao choque que é o mesmo livro me parecer tão diferente meia dúzia (talvez uma dúzia, não sei) de anos depois. Já não era criança, já não era adolescente e já não era o pior de tudo, a jovem adulta que acha que, agora que já trabalha e já vive sozinha, e já não depende de ninguém, é a maior dos bonecos da bola. Nada disso. Já tinha passado todas essas fases. Já era mesmo adulta "a sério". Já sabia o que era morrerem-me. Ninguém sabe nada até ao momento em que descobre o que é morrer alguém que leva consigo um bocado de nós para debaixo da terra.
E, na verdade, o livro que eu tanto tinha amado, e de onde tinha tirado tantas lições sobre o amor eterno, e a resignação ao facto de nem todos nós o podermos viver por motivos insondáveis, ai, que lindo, ai, que romântico, suspiremos e consolemo-nos pensando que a vida já valeu a pena só por o termos conhecido e aproveitado fugazmente, o livro, dizia, que tinha suscitado todos esses sentimentos de heroína trágica que atualmente me parecem completamente idiotas, desta vez despertou introspeções bem diversas.
Murakami começa por falar em filhos únicos e na estranheza que isso foi na infância do protagonista, já que todos os coleguinhas de escola tinham irmãos. Sou filha única e nunca me senti diferente, original ou especial por causa disso. Senti-me, isso sim, e ainda sinto, às vezes, insultada por certa estirpe de idiotas que comenta "Vê-se logo que és filha única" para justificar o meu feitio opinativo, a minha teimosia, ou outro qualquer traço do meu caráter menos bem aceite socialmente. Tenho, felizmente, muitas especificidades de personalidade que não me agradam, e digo felizmente porque são essas que me dão espaço ao progresso. Não sou, de todo, aquela menina hipócrita que responde à pergunta "qual é o teu pior defeito?" com uma virtude do género "sou muito frontal". Não. Os meus defeitos, como os de toda a gente, são defeitos. Existem. E são maus. A diferença é que eu não tenho medo nenhum deles, assumo-os e exponho-os. Sou irascível. Sou impaciente. Sou sarcástica. (O sarcasmo, by the way, está na moda, como se fosse uma coisa muito bonita e admirável. Não é. É a pior forma de superioridade e magoa brutalmente as pessoas, porque lhes passa um atestado de estupidez nem sempre justo ou razoável). Sou muito da "Morena" que canta o Tiago Bettencourt. Há coisas que não me passam por dentro, sou indiferente a muitos sabores e há muito que o amor me deixou de cegar. Sou agressiva. E raramente, embora cada única vez seja uma vez a mais, sou cruel. Nada disto está ligado ao facto de ser filha única. Nem uma só destas tristes marcas. E não tenho dúvidas nenhumas de que se fosse egoísta ou avarenta, ser única cria também não seria razão ou desculpa. Basta assistir às partilhas, às vezes ainda em vida, dos bens paternais, entre irmãos tão amiguinhos e tão próximos, para ver que a inveja, o egoísmo e a avareza são muito comuns e não olham cá a relações familiares. E não me venham dizer que o mimo e o capricho são exclusivos do filho único, que eu conheço tanta gente que tão exemplarmente desdiz essa teoria que é impossível, sequer, tentar defendê-la.
Ser filha única trouxe-me, isso sim, uma solidão intrínseca, uma dificuldade imensa de falar sobre mim, um medo horrível de perder a minha mãe, um sentido de responsabilidade doentio em relação a ela, e uma obsessão em controlar tudo que me leva à loucura, porque, infelizmente, tenho sabedoria suficiente para saber que não controlo ponta de um corno.
E o que é peculiar, no meio do livro do Murakami, é que é uma novela sobre o amor perdido, reencontrado e desencontrado, e eu sobre isso não tenho nada a dizer, porque nem sequer me apetece. O que é peculiar, no livro do Murakami, é que, uns anos depois, dei comigo a debruçar-me sobre as questões da solidão e das coisas boas que ela faz connosco, que das más estamos nós fartinhos, e a ignorar completamente as questões românticas que, verdade seja dita, me aborreceram sobremaneira.
Não sofrerei de histeria siberiana, mas tenho um bug que me diz que, qualquer dia, começo a minha caminhada. (e perdoe-me quem não leu o livro e não entendeu este piscar de olho final)
... a Oeste do Sol.
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