Quando procuro a causa de tanta raiva, descubro que, na raiz dela, está o facto de sempre a ter tentado calar. E essa coisa oprimida tantos anos, alimentada dos pequenos e grandes desgostos da vida, silenciada porque não se fala de boca cheia de misérias e frustrações e dores e desilusões, essa coisa cresceu, engordou e só não se reproduziu porque é árida e só e triste e amarga. Essa coisa lateja e estrebucha e já não há volta a dar-lhe. Agora é tirar-lhe a mordaça e deixá-la consumir-se, que um dia há-de morrer, como tudo o que existe.
domingo, 2 de novembro de 2014
sábado, 1 de novembro de 2014
O Direito à Indignação.
Acho uma imensa metafórica graça àquelas pessoas que te apontam o dedo por estares "a gritar" com elas e, na sua versão dos factos, estares "fora de ti", a agir "irracionalmente", e outros mimos com que te brindam no calor do momento, mimos esses que nunca admitem serem ofensivos e insultuosos quando, na realidade, tudo começou contigo a repetir, em voz baixa e calmamente, a mesma coisa que agora gritas, umas cinco ou seis vezes, quando estavam demasiado preocupadas com o seu ego e o seu discurso / monólogo semiautista, para te ouvir. Há certas pessoas que só te ouvem quando explodes, e depois te apontam o dedo porque o fazes. Dei comigo a pensar nisto hoje e a encontrar vários exemplos em conhecidos meus. Detesto esta nova moda de que a cólera é gémea da doença mental, como se nascesse de um desequilíbrio neuronal e não fosse tantas vezes deliberadamente provocada por terceiros que depois "não percebem a razão de tanto descontrolo". Muitas vezes, cobardes que só caem na real e saem do seu umbigo quando levam um par de berros e ficam cheios de medo do que os vizinhos ou as pessoas que estão a assistir "vão pensar". A esses cresce-lhes, de repente, uma enorme preocupação com os outros e uma imensa solidariedade com os frágeis sentimentos que uma porta possa ter, "não batas com a porta, se faz favor!". Gosto tanto da preocupação com as boas maneiras em situações de stress... que não consigo evitar sorrir, fechar a porta com cuidado e pensar, só pensar, porque nem me merecem o respeito que seria dizer-lhes "vai-te mas é fod*r!"
terça-feira, 21 de outubro de 2014
La Rentrée
Séries.
Estou feita num molho de bróculos. Nem quero contar quantas estou a seguir religiosamente. São muitas, e as novas temporadas estão todas aí a dar cartas. Até em séries que eu já tinha descartado por me aborrecerem sobremaneira, como a Meredith-Big-Yawn-Grey, as novas temporadas justificam a continuidade.
À exceção de Homeland, que me transtornou tanto no final da temporada anterior que nem sequer ainda me apeteceu ver o regresso da Carrie, vejamos como vai o mundo:
À exceção de Homeland, que me transtornou tanto no final da temporada anterior que nem sequer ainda me apeteceu ver o regresso da Carrie, vejamos como vai o mundo:
1. Criminal Minds: lindo. Adoro a Love-Hewitt levezinha, ali no meio dos trombudos sérios, graves e circunspectos.
2.NCIS: aguenta-se estoicamente sem a Ziva, o que não é dizer pouco, com o golpe que foi a saída da personagem feminina mais carismática das 14 ou 15 temporadas;
3. Castle: fraquito, mas nunca foi mais que isso, um delicioso Guilty Pleasure;
4. CSI Vegas: Mais do mesmo, sempre com classe.
5. Scandal: Grande rentrée. Mesmo. Shonda Rhymes inspiradíssima.
6. Good Wife: Provavelmente, a única que vou deixar cair. Devia ter terminado em alta com a tragédia da temporada anterior. É este precisamente o medo que tenho em relação a Homeland, que banalize o que foram três temporadas irrepreensíveis.
7. Arrow: um consolo para os olhos e para um coração romântico que suspira e sorri perante a dupla Ollicity... e o six.pack do Amell.
E estou a acompanhar Forever, que estou a amar tanto que até citações faço do diabo do moço, que giro que ele é, entre Mentalist, House, The Highlander, Sherlock, Castle... vejo-lhe semelhanças com todos os meus protagonistas masculinos favoritos. Até me faz lembrar o gajo do Dempsey & Makepiece, a série malvada em que este vício se me colou ao corpo e à i-alma.
E comecei a ver NCIS New Orleans: primeiro estranha-se, depois entranha-se, nem que seja pelo Soul e pelo Jazz de pano de fundo, sempre presentes. Olho para aquilo e cheira-me a camarão em azeite e alho, misturado com terra molhada de chuva de verão e maresia.
E ando viciadíssima em Chicago PD, "Break the rules, not the law".
E não consigo passar muito tempo sem espreitar Modern Family, Law and Order, e Big Bang Theory.
E estou deserta da segunda temporada de True Detective, só para escrever uma resma de posts a dizer MAL da dupla que suceder ao Matt e ao Woody.
E já não posso de saudades do meu Kevin Bacon e de The Following.
E o que é assustador - parei no sete propositadamente porque já me estava a fazer impressão o tamanho a lista - o que é mesmo assustador, é que sei que quando fechar este artigo já já ja, me vou lembrar de mais meia dúzia. Sem exagero, infelizmente.
Haters, have some patience, do not react yet: wait until I list the books and films, and then spread your venom... sim, não faço mais nada na vida a não ser estar de rabo enfiado no sofá.
Teatro
Amanhã estreia uma nova comédia da Luísa Costa Gomes. Em cena, Zé Pedro Gomes. Título, "Estamos todos?". O que me veio imediatamente à cabeça, "Não. Falta o António Feio". São assim, as estrelas. Presentes, mesmo que invisíveis.
Família
Uma pesquisa recente diz que o adágio "os amigos são a família que escolhemos" é, cientificamente, uma verdade bem maior do que à partida o bom senso parece aceitar. Tal como os cães e os donos se começam, com o tempo, a assemelhar uns aos outros fisicamente, or so they say, também os amigos têm entre si semelhanças genéticas em maior quantidade, se é que tal se mede em quantidade que eu do assunto percebo zero. O que me interessa é que, resumindo, eu tenho vários genes semelhantes aos dos meus melhores amigos, o que me reconforta muito porque:
1- Nenhum é autoimune;
2- Alguns são muito boas pessoas, embora em nenhum habite a santidade;
3- Outros são geniais, embora nenhum seja gabarola ou falso modesto;
4- Há um ou dois que até acumulam os pontos 2 e 3;
5- Estão todos a envelhecer lindamente, quase sem rugas, quase sem banhas, quase sem manias, quase sem caprichos... e o que mais amo neles todos é o mundo de perfeitas imperfeições que cabe nos seus quases.
Tenho uns genes tão maravilhosos que me parece que, afinal, sou imortal.
terça-feira, 14 de outubro de 2014
A Sul da Fronteira...
Reli, há pouquíssimo tempo, esta pérola do Murakami, um dos meus escritores de eleição. O problema de escritores como este é que gostam de se alongar, e escrevem romances de seiscentas e setecentas páginas que, por muito que se goste, não se tem coragem de reler. Mas existem as novelas, e as short stories, e uma biografia, e eu estava com saudades das ambiências oníricas, do limbo entre o real e o não-se-sabe-bem-o-quê, sonho, ficção, loucura, e que interessa, no fundo, o que lhe chamar, pergunto.
Reli o livro sobre o que se pretende que seja um amor eternamente desencontrado e achei muito interessante confrontar-me claramente com o peso da minha idade e experiência(s).
É verdade, e talvez seja bastante mais cruel do que parece à partida, que um livro não se esgota por ser diferente para cada um dos olhares que o recebe. Mesmo que esses olhares sejam da mesma pessoa em diferentes fases da vida. E não me refiro ao óbvio, ao reler de um livro que nos apaixonou aos dez anos e que agora nos traz apenas a nostalgia da inocência e um bocejo entediado - sim, eu sou daquelas hereges que já não tem pachorra nenhuma para o Principezinho, embora respeite os puros de espírito que amam a obra, e que se ri escarninha da Condessa de Ségur, e que acha a coleção "Uma Aventura" francamente pobrezinha - não, dizia eu, refiro-me ao choque que é o mesmo livro me parecer tão diferente meia dúzia (talvez uma dúzia, não sei) de anos depois. Já não era criança, já não era adolescente e já não era o pior de tudo, a jovem adulta que acha que, agora que já trabalha e já vive sozinha, e já não depende de ninguém, é a maior dos bonecos da bola. Nada disso. Já tinha passado todas essas fases. Já era mesmo adulta "a sério". Já sabia o que era morrerem-me. Ninguém sabe nada até ao momento em que descobre o que é morrer alguém que leva consigo um bocado de nós para debaixo da terra.
É verdade, e talvez seja bastante mais cruel do que parece à partida, que um livro não se esgota por ser diferente para cada um dos olhares que o recebe. Mesmo que esses olhares sejam da mesma pessoa em diferentes fases da vida. E não me refiro ao óbvio, ao reler de um livro que nos apaixonou aos dez anos e que agora nos traz apenas a nostalgia da inocência e um bocejo entediado - sim, eu sou daquelas hereges que já não tem pachorra nenhuma para o Principezinho, embora respeite os puros de espírito que amam a obra, e que se ri escarninha da Condessa de Ségur, e que acha a coleção "Uma Aventura" francamente pobrezinha - não, dizia eu, refiro-me ao choque que é o mesmo livro me parecer tão diferente meia dúzia (talvez uma dúzia, não sei) de anos depois. Já não era criança, já não era adolescente e já não era o pior de tudo, a jovem adulta que acha que, agora que já trabalha e já vive sozinha, e já não depende de ninguém, é a maior dos bonecos da bola. Nada disso. Já tinha passado todas essas fases. Já era mesmo adulta "a sério". Já sabia o que era morrerem-me. Ninguém sabe nada até ao momento em que descobre o que é morrer alguém que leva consigo um bocado de nós para debaixo da terra.
E, na verdade, o livro que eu tanto tinha amado, e de onde tinha tirado tantas lições sobre o amor eterno, e a resignação ao facto de nem todos nós o podermos viver por motivos insondáveis, ai, que lindo, ai, que romântico, suspiremos e consolemo-nos pensando que a vida já valeu a pena só por o termos conhecido e aproveitado fugazmente, o livro, dizia, que tinha suscitado todos esses sentimentos de heroína trágica que atualmente me parecem completamente idiotas, desta vez despertou introspeções bem diversas.
Murakami começa por falar em filhos únicos e na estranheza que isso foi na infância do protagonista, já que todos os coleguinhas de escola tinham irmãos. Sou filha única e nunca me senti diferente, original ou especial por causa disso. Senti-me, isso sim, e ainda sinto, às vezes, insultada por certa estirpe de idiotas que comenta "Vê-se logo que és filha única" para justificar o meu feitio opinativo, a minha teimosia, ou outro qualquer traço do meu caráter menos bem aceite socialmente. Tenho, felizmente, muitas especificidades de personalidade que não me agradam, e digo felizmente porque são essas que me dão espaço ao progresso. Não sou, de todo, aquela menina hipócrita que responde à pergunta "qual é o teu pior defeito?" com uma virtude do género "sou muito frontal". Não. Os meus defeitos, como os de toda a gente, são defeitos. Existem. E são maus. A diferença é que eu não tenho medo nenhum deles, assumo-os e exponho-os. Sou irascível. Sou impaciente. Sou sarcástica. (O sarcasmo, by the way, está na moda, como se fosse uma coisa muito bonita e admirável. Não é. É a pior forma de superioridade e magoa brutalmente as pessoas, porque lhes passa um atestado de estupidez nem sempre justo ou razoável). Sou muito da "Morena" que canta o Tiago Bettencourt. Há coisas que não me passam por dentro, sou indiferente a muitos sabores e há muito que o amor me deixou de cegar. Sou agressiva. E raramente, embora cada única vez seja uma vez a mais, sou cruel. Nada disto está ligado ao facto de ser filha única. Nem uma só destas tristes marcas. E não tenho dúvidas nenhumas de que se fosse egoísta ou avarenta, ser única cria também não seria razão ou desculpa. Basta assistir às partilhas, às vezes ainda em vida, dos bens paternais, entre irmãos tão amiguinhos e tão próximos, para ver que a inveja, o egoísmo e a avareza são muito comuns e não olham cá a relações familiares. E não me venham dizer que o mimo e o capricho são exclusivos do filho único, que eu conheço tanta gente que tão exemplarmente desdiz essa teoria que é impossível, sequer, tentar defendê-la.
Ser filha única trouxe-me, isso sim, uma solidão intrínseca, uma dificuldade imensa de falar sobre mim, um medo horrível de perder a minha mãe, um sentido de responsabilidade doentio em relação a ela, e uma obsessão em controlar tudo que me leva à loucura, porque, infelizmente, tenho sabedoria suficiente para saber que não controlo ponta de um corno.
E o que é peculiar, no meio do livro do Murakami, é que é uma novela sobre o amor perdido, reencontrado e desencontrado, e eu sobre isso não tenho nada a dizer, porque nem sequer me apetece. O que é peculiar, no livro do Murakami, é que, uns anos depois, dei comigo a debruçar-me sobre as questões da solidão e das coisas boas que ela faz connosco, que das más estamos nós fartinhos, e a ignorar completamente as questões românticas que, verdade seja dita, me aborreceram sobremaneira.
Não sofrerei de histeria siberiana, mas tenho um bug que me diz que, qualquer dia, começo a minha caminhada. (e perdoe-me quem não leu o livro e não entendeu este piscar de olho final)
... a Oeste do Sol.
segunda-feira, 28 de julho de 2014
O regresso
Como a formiguinha, ando a armazenar: a colecionar leituras e citações, a interiorizar emoções gastas e outras novinhas em folha, a experimentar olhares e perspetivas, a trabalhar ideias, imagens, sons.
Em silêncio, um dos bens mais preciosos que se teima desprezar. Em silêncio relativo, porque não escrevo aqui nem em lado nenhum, mas não consigo controlar as cascatas verbais que a cada instante me as.sombra.m ou as.sol.am.
Já há muito que os dedos procuram teclado mas a verdade é que sentimentos extremos, sejam eles de dor, cólera, alegria, esperança ou orgulho, são maus conselheiros e gosto pouco de arrependimentos. Ao contrário do resto da humanidade, acho mesmo imbecil aquela frase do "mais vale arrependermo-nos do que fizémos do que daquilo que não fizémos". Quem terá sido o cretino que inventou esta pérola da estupidez humana que consumiu tantos seguidores? O arrependimento é mau. Ponto final. Há que evitá-lo. Ponto final.
Por isso, ando caladinha, em pontas de pés, com a graça de um elefante numa loja de cristais que, convenhamos, as pessoas controlam-se, mas não mudam grande coisa.
Com o grande objetivo de dar uma volta há muito ambicionada neste blogue, partindo da premissa que um novo ciclo se está claramente a iniciar na minha vida, - com a chegada dos 40, o fim da terapia, a tão esperada bofetada de luva branca em tanta gente que me andou a enxovalhar profissionalmente e um momento epifânico em que um homem capa de revista se vira para mim e me diz "tens um rosto lindo" e eu finalmente acredito nele e me saem 38 anos de negros complexos de cima - o objetivo é refrescar isto por aqui, e direcionar os discursos de dentro para fora, e não o inverso, como tem acontecido. Por aqui, vou passar a falar das minhas grandes paixões, dos meus livros, da minha música, dos meus filmes, das minhas séries, das minhas imagens, das minhas viagens, dos meus objetos-fétiche, das minhas aulas com os meus alunos, do meu cão.
De mim não vou falar. Querem saber de mim, têm toda a informação de que precisam em textos anteriores. A partir de agora, se querem ter assunto que me inclua, falem dos livros que ando a ler ou do último filme que vi que, se estiverem com atenção, continuam a ter tema de conversa para horas, e de certeza mais interessante e passível de vos tornar seres humanos mais cultos. Ou, pelo menos, não tão fúteis.
segunda-feira, 5 de maio de 2014
Porra, porra, porra
E com tanto por ler, tanto por fazer, tanto por descobrir... vou dar com isto:
"Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz....
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz....
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.
Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria…
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada."
-Miguel Torga
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria…
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada."
-Miguel Torga
quarta-feira, 23 de abril de 2014
terça-feira, 25 de março de 2014
Facebookassholes
O Facebook é, frequentemente, fonte de lágrimas, fúrias e
ranger de dentes.
É preciso ter estômago, quando se tem um desgosto amoroso,
para se abrir a dita página. Talvez porque, nesses tristes momentos, hoje em dia
todos sejamos elevados à categoria de celebridades: aquilo que antigamente
ficava na esfera da santa ignorância, aparece agora displicentemente nos
murais. Já não é possível acreditar-se na desculpa esfarrapada com que nos
brindavam, não és tu, sou eu, nasci para estar sozinho, não estou preparado
para compromissos, tu mereces melhor, eu também estou a sofrer mas é melhor
assim. Seguia-se então em frente, de coração partido, mas ainda preso pelos
arames das mentiras piedosas.
Não se via, depois, na comunicação social, a dita criatura,
feliz e contente, a fazer comentários ou a dar likes a fotos de outras mulheres,
a esconder ostensivamente conteúdos outrora disponíveis, a aparecer toda
contente em bares e festas. À medida que estas coisas acontecem, e aparecem
músicas que sabemos que não nos são dedicadas, até porque nunca nos dedicaram
nenhuma, pelo menos publicamente, e likes a comentários - estúpidos nas horas,
na maior parte das vezes, e ainda por cima - quando os nossos, muito mais
divertidos e inteligentes, passam ignorados, cresce uma náusea, um vómito, um
desânimo e uma vontade enorme de tudo ser como antes, em que mesmo que a
curiosidade mórbida apertasse, não havia nada a fazer a não ser engoli-la e
andar para a frente, sem mais imagens ou palavras a assombrar-nos o espírito.
domingo, 23 de março de 2014
sábado, 22 de março de 2014
Mulheres
Já agora, gostaria de reiterar que, desde adolescente, acredito na amizade e cumplicidade femininas. Desde a adolescência, estou habituada a confiar em mulheres, em fazer delas confidentes, irmãs, pilares. É sempre um choque, quando uma mulher (sempre, sempre, por causa de um qualquer gajo que não vale ponta de corno), me mostra que a deslealdade existe. É sempre um choque horrível, mas cada vez sara mais depressa.
Vamos por partes
Há muito que não escrevo. Por muito continuarei sem escrever. É que a vida só me apresenta psicopatas. E tenho a ilusão, a cada vez, de gostar muito eles. Tive a ilusão, por duas vezes, que desta vez ia ser por muitos e bons anos, no que dependesse de mim, as coisas iam resultar, bolas, não seria eu uma mulher igual às outras?
Pelos vistos não sou.
E a vida só me apresenta psicopatas, também há que dar valor a esse pormenor.
quarta-feira, 24 de julho de 2013
A Mulher que Eu Quero Ser
O Face também tem uma espécie de blogues, e eu sigo os dos meus amigos. Hoje, no blogue Don't Play Games with a Girl who Can Play Better, foi partilhado um parágrafo muito bom da autoria de Rita Barata Silvério com o título deste post. E depois de muitos meses, deu-me vontade de escrever.
Hoje, por coincidência, foi um dia muito mau. E eu devia ter previsto isso mesmo quando, no passeio da manhã, o meu cão fez tal estrangeirinha com a trampa do peitoral que usa para eu não o estrafegar com coleiras, que tive que subir dois andares a bufar, com o grande mastodonte ao colo, todo contente, a trepar-me pelos ombros acima e a meter-me a língua nos olhos, nariz, cabelos e orelhas. O universo dá-nos sinais claros de que o dia vai correr mal, e é preciso coragem para os ignorar.
O que aconteceu depois não interessa a ninguém. O que interessa realmente é que este ano letivo que agora está a terminar parece querer morrer a estrebuchar em grande e eu, sinceramente, há muito que não estou para o aturar.
Não me lembro nunca de ter passado tantos meses em tão completo inferno. Uma lástima, a nível de saúde, um desastre, a nível de relações humanas. Tenho pedras suficientes colecionadas no caminho para construir a grande muralha ocidental, mas melhor fazia se tivesse feitio para as atirar ao focinho de algumas pessoas.
Infelizmente, e à semelhança de há uns anos atrás, aconteceram situações limite que me fizeram virar costas, em definitivo, a pessoas que tinha por próximas. A última vez que tal me aconteceu foi há quase uma década, e tenho por consolo de um saber de experiência feito que jamais me arrependi, e que a dor passou muito mais rápido que a angústia do antes.
Infelizmente, e à semelhança de há uns anos atrás, aconteceram situações limite que me fizeram virar costas, em definitivo, a pessoas que tinha por próximas. A última vez que tal me aconteceu foi há quase uma década, e tenho por consolo de um saber de experiência feito que jamais me arrependi, e que a dor passou muito mais rápido que a angústia do antes.
A mulher que eu quero ser não compactua com mentiras, com facadas nas costas. Não compactua com hipocrisias, com politicamente corretos. Não compactua com aparências, com interesses, com lambe-botismos. Não compactua com burrice, com estupidez, com egoísmos.
A mulher que eu quero ser não se cala. A mulher que eu quero ser jamais perde uma noite de sono a pensar como ferir alguém, como lhe fazer mal, como se vingar. A mulher que eu quero ser brilha, incomoda e suscita ódios por brilhar e incomodar, sendo que jamais os compreenderá.
A mulher que eu quero ser tem amigos que fazem por ela o impossível e estão sempre lá, sempre. A mulher que eu quero ser continua a fazer amigos verdadeiros, já bem perto dos quarenta, e não precisa de fazer disso alarde. A mulher que eu quero ser não esfrega as suas melhores qualidades na cara de ninguém e, no entanto elas são notadas o suficiente para serem invejadas sem pejo nenhum.
A mulher que eu quero ser é de uma generosidade infinita, e de aversões absolutas e físicas, ao ponto da náusea.
A mulher que eu quero ser vive as suas emoções sem as controlar demasiado, porque sabe desde que nasceu que o que se leva desta vida são os afetos genuínos.
No dia de hoje, sobretudo no dia de hoje, sei, com uma sabedoria que me vem das entranhas do corpo e das profundezas do espírito, que sou exatamente a mulher que quero ser. E de cada vez que, como hoje, sentir que alguém sai da sua vidinha triste e vazia para me fazer mal por puro despeito, terei a confirmação absoluta que sou exatamente a mulher que quero ser.
domingo, 26 de maio de 2013
Sobre Saber
Quando me irrito a sério com os meus alunos, eles sabem que vem aí o sermão que começa por "Há tantos anos na escola e ainda não sabem como comportar-se numa sala de aula?". Se eles estivessem em pé de igualdade comigo, numa discussão taco-a-taco, poderiam atirar-me muito corretamente um "Há quatro décadas na vida e ainda não sabes comportar-te na maior parte das situações realmente importantes?"
E o meu problema é, exatamente, o problema deles: sei de cor a teoria, e não a ponho em prática.
Consigo papaguear todas as regras do saber viver. Não cumpro nem oitenta por cento.
Deitar cedo e cedo erguer. Comer a horas. Abusar nas frutas e legumes. Não fumar. Praticar exercício físico. Saber ficar calada. Mimar amigos. Ignorar os outros. Não correr atrás de prejuízos. Não chorar o leite derramado. Não procrastinar. Não ter pressa mas não perder tempo. Arranjar uma horita por dia para dedicar a mim mesma. Não abdicar de nenhum princípio mas não entrar em guerras por coisas que não valem a pena. Distinguir verdadeiros problemas de chatices quotidianas. Não me comparar a ninguém e, se tiver mesmo que ser, que seja a alguém melhor. Não esperar por respostas a mensagens, por telefonemas de retorno, por atitudes de arrependimento ou retratamento. Não ter esperança que as pessoas mudem. Ter esperança que eu sou capaz de mudanças em mim própria. Ver o copo meio cheio. Beber muita água. Conviver com quem me quer bem. Evitar quem me faz mal. Virar costas a quem me deixa cair repetidamente. Não olhar para trás. Não dar murros em ponta de faca. Poupar dinheiro para hospitais e viagens. Aceitar que a maioria das pessoas olha para mim sem me ver, e que, quem me vê, acaba sempre por ficar. Não guardar rancores e mágoas, mas praticar o desprendimento emocional.
Têm sido semanas tão, mas tão, duras, que o destino me tem obrigado a cumprir muitas destas regras por pura sobrevivência. Profissionalmente, houve aulas assistidas, houve inspeção geral de educação, houve testes para fazer e corrigir, houve reuniões para presidir e assistir, houve concurso de professores. Emocionalmente, houve amigos que dececionaram em grande. Houve gente a fazer apostas à custa da minha vida e como procederia nos concursos. Houve pessoas a dizer-me que sou ressabiada e competitiva, e que não admito que haja alguém a fazer sombra à minha posição de centro das atenções. Houve pessoas a passar por cima da minha generosidade e da minha preocupação que nem camiões-TIR. Houve desrespeito e falta de consideração. Houve de tudo.
Por isso, eu, que levo na tromba e ainda dou a outra face, eu, que sou resiliente e obstinada e cumpro sempre as minhas obrigações, mesmo que a segundos do final dos prazos, eu, que carrego, tipo Atlas, o mundo às costas, e assumo como minhas culpas que não tenho, eu... passei-me. Passei-me sem ruído nem espalhafato. Passei-me e interditei na minha vida muita gente que nem disso deu ainda conta. Passei-me e virei costas sem olhar para trás, o que é anti-natural em mim, sempre na dúvida, sempre insegura, sempre a achar que podia ou devia ter feito mais.
Respirei fundo, travei lágrimas, engoli em seco e estabeleci prioridades. Preparei aulas assistidas, preparei paineis inspetivos, fiz testes, mas não os corrigi. Sou só uma. Fui ao batizado dos meus sobrinhos, estive presente quando a minha mãe precisou de mim, não descurei do Chico, comprei presentes de aniversário, mas deixei de me dar a certas pessoas, deixei de mostrar-lhes as minhas vulnerabilidades, deixei de lutar contra a invisibilidade, deixei de tentar provar-lhes que sou diferente do que elas me julgam, ou melhor do que aquilo que parece.
Deixei de esperar por palavras, por atos, por sinais. Deixei de me incomodar com problemas alheios. Fingi acreditar em mentiras e não dar por omissões propositadas. Fiz-me de parva. Parti a loiça toda. Soltei todos os demónios da alma. Sinto-me vazia, sem demónios. Sei viver. Os meus alunos sabem as regras. Agora, temos todos que dar o passo entre a teoria e a prática. E lembrar-me que, se morrer amanhã, o importante é que o último dia tenha valido a pena. O que interessa é fazer com que cada possível último dia valha a pena, junto de quem está, porque quem não está, não faz verdadeiramente falta.
sexta-feira, 5 de abril de 2013
Não, não é loucura pura.
Falei na cena de ontem ao DOC. Ele explicou-me que o tal sexto sentido para a desgraça não se deve a males do cérebro - tipo, não, não estou demente, - nem a superstições - não, não atraio desgraças. Simplesmente, pessoas ansiosas e habituadas a que as coisas deem para o torto e corram mal, pessoas a quem as desgraças realmente acontecem, estão muito mais despertas para microexpressões faciais (alguém aqui vê "Lie to Me"?). Assim sendo, detetam e interpretam sinais que mais ninguém vê, e têm premonições de desgraça... sempre certas. Não sou um detetor de mentiras humano, mas o adágio "só me faz de parva quem eu deixo", aplica-se. E eu respiro fundo por não estar louca nem com a mania da perseguição. Mas sinto-me triste, por ser uma dessas pessoas que veem de longe o perigo. E, ainda assim, e estupida e infelizmente, continuam a esperar pela confirmação para chorar sozinhas as suas mágoas.
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