Como a formiguinha, ando a armazenar: a colecionar leituras e citações, a interiorizar emoções gastas e outras novinhas em folha, a experimentar olhares e perspetivas, a trabalhar ideias, imagens, sons.
Em silêncio, um dos bens mais preciosos que se teima desprezar. Em silêncio relativo, porque não escrevo aqui nem em lado nenhum, mas não consigo controlar as cascatas verbais que a cada instante me as.sombra.m ou as.sol.am.
Já há muito que os dedos procuram teclado mas a verdade é que sentimentos extremos, sejam eles de dor, cólera, alegria, esperança ou orgulho, são maus conselheiros e gosto pouco de arrependimentos. Ao contrário do resto da humanidade, acho mesmo imbecil aquela frase do "mais vale arrependermo-nos do que fizémos do que daquilo que não fizémos". Quem terá sido o cretino que inventou esta pérola da estupidez humana que consumiu tantos seguidores? O arrependimento é mau. Ponto final. Há que evitá-lo. Ponto final.
Por isso, ando caladinha, em pontas de pés, com a graça de um elefante numa loja de cristais que, convenhamos, as pessoas controlam-se, mas não mudam grande coisa.
Com o grande objetivo de dar uma volta há muito ambicionada neste blogue, partindo da premissa que um novo ciclo se está claramente a iniciar na minha vida, - com a chegada dos 40, o fim da terapia, a tão esperada bofetada de luva branca em tanta gente que me andou a enxovalhar profissionalmente e um momento epifânico em que um homem capa de revista se vira para mim e me diz "tens um rosto lindo" e eu finalmente acredito nele e me saem 38 anos de negros complexos de cima - o objetivo é refrescar isto por aqui, e direcionar os discursos de dentro para fora, e não o inverso, como tem acontecido. Por aqui, vou passar a falar das minhas grandes paixões, dos meus livros, da minha música, dos meus filmes, das minhas séries, das minhas imagens, das minhas viagens, dos meus objetos-fétiche, das minhas aulas com os meus alunos, do meu cão.
De mim não vou falar. Querem saber de mim, têm toda a informação de que precisam em textos anteriores. A partir de agora, se querem ter assunto que me inclua, falem dos livros que ando a ler ou do último filme que vi que, se estiverem com atenção, continuam a ter tema de conversa para horas, e de certeza mais interessante e passível de vos tornar seres humanos mais cultos. Ou, pelo menos, não tão fúteis.



