quarta-feira, 23 de abril de 2014

Devo rezar em Chinês

A uma divindade portuguesa com déficit de atenção.

Bolachas

Há por aí muita gaja que, se fosse uma bolacha, seria uma Wh.OREo.

terça-feira, 25 de março de 2014

Facebookassholes


O Facebook é, frequentemente, fonte de lágrimas, fúrias e ranger de dentes.

É preciso ter estômago, quando se tem um desgosto amoroso, para se abrir a dita página. Talvez porque, nesses tristes momentos, hoje em dia todos sejamos elevados à categoria de celebridades: aquilo que antigamente ficava na esfera da santa ignorância, aparece agora displicentemente nos murais. Já não é possível acreditar-se na desculpa esfarrapada com que nos brindavam, não és tu, sou eu, nasci para estar sozinho, não estou preparado para compromissos, tu mereces melhor, eu também estou a sofrer mas é melhor assim. Seguia-se então em frente, de coração partido, mas ainda preso pelos arames das mentiras piedosas.

Não se via, depois, na comunicação social, a dita criatura, feliz e contente, a fazer comentários ou a dar likes a fotos de outras mulheres, a esconder ostensivamente conteúdos outrora disponíveis, a aparecer toda contente em bares e festas. À medida que estas coisas acontecem, e aparecem músicas que sabemos que não nos são dedicadas, até porque nunca nos dedicaram nenhuma, pelo menos publicamente, e likes a comentários - estúpidos nas horas, na maior parte das vezes, e ainda por cima - quando os nossos, muito mais divertidos e inteligentes, passam ignorados, cresce uma náusea, um vómito, um desânimo e uma vontade enorme de tudo ser como antes, em que mesmo que a curiosidade mórbida apertasse, não havia nada a fazer a não ser engoli-la e andar para a frente, sem mais imagens ou palavras a assombrar-nos o espírito.

domingo, 23 de março de 2014

Já chega, astros

Ultimamente, só me saem divas. Um asco.

sábado, 22 de março de 2014

Mulheres

Já agora, gostaria de reiterar que, desde adolescente, acredito na amizade e cumplicidade femininas. Desde a adolescência, estou habituada a confiar em mulheres, em fazer delas confidentes, irmãs, pilares. É sempre um choque, quando uma mulher (sempre, sempre, por causa de um qualquer gajo que não vale ponta de corno), me mostra que a deslealdade existe. É sempre um choque horrível, mas cada vez sara mais depressa.

Vamos por partes

Há muito que não escrevo. Por muito continuarei sem escrever. É que a vida só me apresenta psicopatas. E tenho a ilusão, a cada vez, de gostar muito eles. Tive a ilusão, por duas vezes, que desta vez ia ser por muitos e bons anos, no que dependesse de mim, as coisas iam resultar, bolas, não seria eu uma mulher igual às outras?
Pelos vistos não sou.
E a vida só me apresenta psicopatas, também há que dar valor a esse pormenor.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

A Mulher que Eu Quero Ser

O Face também tem uma espécie de blogues, e eu sigo os dos meus amigos. Hoje, no blogue Don't Play Games with a Girl who Can Play Better, foi partilhado um parágrafo muito bom da autoria de Rita Barata Silvério com o título deste post. E depois de muitos meses, deu-me vontade de escrever.
Hoje, por coincidência, foi um dia muito mau. E eu devia ter previsto isso mesmo quando, no passeio da manhã, o meu cão fez tal estrangeirinha com a trampa do peitoral que usa para eu não o estrafegar com coleiras, que tive que subir dois andares a bufar, com o grande mastodonte ao colo, todo contente, a trepar-me pelos ombros acima e a meter-me a língua nos olhos, nariz, cabelos e orelhas. O universo dá-nos sinais claros de que o dia vai correr mal, e é preciso coragem para os ignorar.
O que aconteceu depois não interessa a ninguém. O que interessa realmente é que este ano letivo que agora está a terminar parece querer morrer a estrebuchar em grande e eu, sinceramente, há muito que não estou para o aturar.
Não me lembro nunca de ter passado tantos meses em tão completo inferno. Uma lástima, a nível de saúde, um desastre, a nível de relações humanas. Tenho pedras suficientes colecionadas no caminho para construir a grande muralha ocidental, mas melhor fazia se tivesse feitio para as atirar ao focinho de algumas pessoas.
Infelizmente, e à semelhança de há uns anos atrás, aconteceram situações limite que me fizeram virar costas, em definitivo, a pessoas que tinha por próximas. A última vez que tal me aconteceu foi há quase uma década, e tenho por consolo de um saber de experiência feito que jamais me arrependi, e que a dor passou muito mais rápido que a angústia do antes.
A mulher que eu quero ser não compactua com mentiras, com facadas nas costas. Não compactua com hipocrisias, com politicamente corretos. Não compactua com aparências, com interesses, com lambe-botismos. Não compactua com burrice, com estupidez, com egoísmos.
A mulher que eu quero ser não se cala. A mulher que eu quero ser jamais perde uma noite de sono a pensar como ferir alguém, como lhe fazer mal, como se vingar. A mulher que eu quero ser brilha, incomoda e suscita ódios por brilhar e incomodar, sendo que jamais os compreenderá.
A mulher que eu quero ser tem amigos que fazem por ela o impossível e estão sempre lá, sempre. A mulher que eu quero ser continua a fazer amigos verdadeiros, já bem perto dos quarenta, e não precisa de fazer disso alarde. A mulher que eu quero ser não esfrega as suas melhores qualidades na cara de ninguém e, no entanto elas são notadas o suficiente para serem invejadas sem pejo nenhum.
A mulher que eu quero ser é de uma generosidade infinita, e de aversões absolutas e físicas, ao ponto da náusea.
A mulher que eu quero ser vive as suas emoções sem as controlar demasiado, porque sabe desde que nasceu que o que se leva desta vida são os afetos genuínos.
No dia de hoje, sobretudo no dia de hoje, sei, com uma sabedoria que me vem das entranhas do corpo e das profundezas do espírito, que sou exatamente a mulher que quero ser. E de cada vez que, como hoje, sentir que alguém sai da sua vidinha triste e vazia para me fazer mal por puro despeito, terei a confirmação absoluta que sou exatamente a mulher que quero ser.

domingo, 26 de maio de 2013

Sobre Saber

Quando me irrito a sério com os meus alunos, eles sabem que vem aí o sermão que começa por "Há tantos anos na escola e ainda não sabem como comportar-se numa sala de aula?". Se eles estivessem em pé de igualdade comigo, numa discussão taco-a-taco, poderiam atirar-me muito corretamente um "Há quatro décadas na vida e ainda não sabes comportar-te na maior parte das situações realmente importantes?"
E o meu problema é, exatamente, o problema deles: sei de cor a teoria, e não a ponho em prática.
Consigo papaguear todas as regras do saber viver. Não cumpro nem oitenta por cento.
Deitar cedo e cedo erguer. Comer a horas. Abusar nas frutas e legumes. Não fumar. Praticar exercício físico. Saber ficar calada. Mimar amigos. Ignorar os outros. Não correr atrás de prejuízos. Não chorar o leite derramado. Não procrastinar. Não ter pressa mas não perder tempo. Arranjar uma horita por dia para dedicar a mim mesma. Não abdicar de nenhum princípio mas não entrar em guerras por coisas que não valem a pena. Distinguir verdadeiros problemas de chatices quotidianas. Não me comparar a ninguém e, se tiver mesmo que ser, que seja a alguém melhor. Não esperar por respostas a mensagens, por telefonemas de retorno, por atitudes de arrependimento ou retratamento. Não ter esperança que as pessoas mudem. Ter esperança que eu sou capaz de mudanças em mim própria. Ver o copo meio cheio. Beber muita água. Conviver com quem me quer bem. Evitar quem me faz mal. Virar costas a quem me deixa cair repetidamente. Não olhar para trás. Não dar murros em ponta de faca. Poupar dinheiro para hospitais e viagens. Aceitar que a maioria das pessoas olha para mim sem me ver, e que, quem me , acaba sempre por ficar. Não guardar rancores e mágoas, mas praticar o desprendimento emocional.
Têm sido semanas tão, mas tão, duras, que o destino me tem obrigado a cumprir muitas destas regras por pura sobrevivência. Profissionalmente, houve aulas assistidas, houve inspeção geral de educação, houve testes para fazer e corrigir, houve reuniões para presidir e assistir, houve concurso de professores. Emocionalmente, houve amigos que dececionaram em grande. Houve gente a fazer apostas à custa da minha vida e como procederia nos concursos. Houve pessoas a dizer-me que sou ressabiada e competitiva, e que não admito que haja alguém a fazer sombra à minha posição de centro das atenções. Houve pessoas a passar por cima da minha generosidade e da minha preocupação que nem camiões-TIR. Houve desrespeito e falta de consideração. Houve de tudo.
Por isso, eu, que levo na tromba e ainda dou a outra face, eu, que sou resiliente e obstinada e cumpro sempre as minhas obrigações, mesmo que a segundos do final dos prazos, eu, que carrego, tipo Atlas, o mundo às costas, e assumo como minhas culpas que não tenho, eu... passei-me. Passei-me sem ruído nem espalhafato. Passei-me e interditei na minha vida muita gente que nem disso deu ainda conta. Passei-me e virei costas sem olhar para trás, o que é anti-natural em mim, sempre na dúvida, sempre insegura, sempre a achar que podia ou devia ter feito mais.
Respirei fundo, travei lágrimas, engoli em seco e estabeleci prioridades. Preparei aulas assistidas, preparei paineis inspetivos, fiz testes, mas não os corrigi. Sou só uma. Fui ao batizado dos meus sobrinhos, estive presente quando a minha mãe precisou de mim, não descurei do Chico, comprei presentes de aniversário, mas deixei de me dar a certas pessoas, deixei de mostrar-lhes as minhas vulnerabilidades, deixei de lutar contra a invisibilidade, deixei de tentar provar-lhes que sou diferente do que elas me julgam, ou melhor do que aquilo que parece.
Deixei de esperar por palavras, por atos, por sinais. Deixei de me incomodar com problemas alheios. Fingi acreditar em mentiras e não dar por omissões propositadas. Fiz-me de parva. Parti a loiça toda. Soltei todos os demónios da alma. Sinto-me vazia, sem demónios. Sei viver. Os meus alunos sabem as regras. Agora, temos todos que dar o passo entre a teoria e a prática. E lembrar-me que, se morrer amanhã, o importante é que o último dia tenha valido a pena. O que interessa é fazer com que cada possível último dia valha a pena, junto de quem está, porque quem não está, não faz verdadeiramente falta.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Não, não é loucura pura.

Falei na cena de ontem ao DOC. Ele explicou-me que o tal sexto sentido para a desgraça não se deve a males do cérebro - tipo, não, não estou demente, - nem a superstições - não, não atraio desgraças. Simplesmente, pessoas ansiosas e habituadas a que as coisas deem para o torto e corram mal, pessoas a quem as desgraças realmente acontecem, estão muito mais despertas para microexpressões faciais (alguém aqui vê "Lie to Me"?). Assim sendo, detetam e interpretam sinais que mais ninguém vê, e têm premonições de desgraça... sempre certas. Não sou um detetor de mentiras humano, mas o adágio "só me faz de parva quem eu deixo", aplica-se. E eu respiro fundo por não estar louca nem com a mania da perseguição. Mas sinto-me triste, por ser uma dessas pessoas que veem de longe o perigo. E, ainda assim, e estupida e infelizmente, continuam a esperar pela confirmação para chorar sozinhas as suas mágoas.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Pink Unicorns



Tenho disto, de quando em vez. Uma sensação de estranheza e superioridade em relação ao mundo em geral. Quase sempre quando me decepciono, o que não acontece frequentemente, convenhamos, que isso é coisa para gente dada a muitas ilusões, não para mim. Mas sinto-me completamente ludibriada, quando, por exemplo, se confirmam as minhas suspeitas ou piores expetativas em relação a pessoas ou situações. Sim, sinto-me enganada, traída pela verdade que adivinhei antecipadamente. É esta, a minha maldição: ter maus pressentimentos que se verificam corretos quando os bons nunca passam disso, ter um sexto sentido que só funciona para o que é desagradável. E aí, gelo, petrifico. É tão diferente deixar sair o ar de um balão até ele murchar, ridículo, e rebentá-lo, com pompa e circunstância, fazendo barulho e atirando bocados por todo o lado, superlativo, hiperbólico, assustador. De cada vez que me encontro de alma vazia e encolhida, desejo que ela tivesse explodido majestosa, rebentasse com estrondo e espalhasse bocados coloridos e peganhentos de si na cara do mundo. But fuck it, I'm a pink unicorn.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Alive, not kicking



Estes meses vão para a história como a fase mais estúpida da minha vida.
Um imenso espaço temporal em que não fiz nada, não construí pevide, não criei momentos para recordar, não agi, não li, não escrevi. Limitei-me a apagar os fogos que apareceram por ter de ir tantas vezes para Lisboa ao médico, deixando a escola, o trabalho e os alunos num mundo a girar apesar de mim ausente.
Ficou tudo imperfeito, inacabado, standing by.
As férias da Páscoa foram a ode final a esta inércia e incluiram cinco dias sem ligar o computador.
Mal me reconheço. Tenho que arranjar rapidamente dois ou três projetos que me façam vibrar, que este papel de Dama das Camélias não vai nada bem com o meu tom de pele. Que abril que agora começa seja o mês da revolução do meu espírito que, como está, não serve.
Que diabos, I'm Once in a Lifetime Kind of Woman, caneco!

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

2013



A minha mãe é uma mãe singular. Não a consigo descrever, por inúmeras razões que se prendem com o seu ser contraditório, cujos genes herdei. Há alturas em que me liberta das suas asas, me deixa esborrachar no chão sozinha e, se preciso for, ainda se ri. Há outras em que lhe chamar coruja ou mãe-galinha é pouco, e me carrega metaforicamente ao colo, ou me empurra violentamente para a frente.
Neste momento, está revoltada. Diz que, se encontrar o meu anjo da guarda, lhe dá uma coça.
Isto porque Janeiro tem sido difícil. Tem sido infernal.
Janeiro? Parece que a estou a ouvir, numa das suas gargalhadas de fúria. A minha mãe sabe rir-se de fúria. Há um ano que a nossa vida se virou de pernas para o ar! E é verdade.  Estivémos doentes. Ela mudou de emprego. Eu assumi novas responsabilidades no meu. Passámos ambas as férias de Verão à cabeceira de um ente querido e ainda jovem, a vê-lo definhar de cancro, e a abraçá-lo na sua morte.
Mas Janeiro... bolas. A minha vida em Janeiro: duas vezes por semana para Lisboa, entre cirurgiã plástica da mão e oncológico da mama. E se o fantasma do cancro não se consubstancializou, - até ver, tudo não passou de um susto, mas um daqueles sustos que nos abala os alicerces e nos faz andar nauseados muito depois do alívio, - a hipótese de perder um dedo da mão direita ainda é uma realidade. Uma realidade que, a não acontecer, não me poupa um mês e meio de dores atrozes.
Isto são os meus problemas genuínos. Dores daquelas que te fazem pairar meia maluca pelo quotidiano, e sustos de morte, para que não me queixe de monotonia.
Não contente com isso, Janeiro tem sido um mês de merdices. Eu sou muito dada a merdices, às chaves que ficam em casa quando a única pessoa que tem a sobresselente não está disponível, a avarias na autoestrada quando o telemóvel está sem bateria. Sou muito dada à lei de Murphy.
A par das dores e dos sustos, em Janeiro fiquei, a escasso tempo de uma consulta oncológica de urgência, metida numa área de serviço sem dinheiro para pagar o gasóleo. Com quem me podia valer a mais de cem quilómetros. Pois foi. E o meu cão destruíu o meu telemóvel e, com ele, todos os meus contatos e mensagens bonitas que guardava religiosamente, mesmo antes de mais uma longa viagem, desta feita à cirurgiã das mãos. Pois foi. E o meu carro chumbou na inspeção. Como não podia deixar de ser.
Há escolhas certas na vida, e eu relembro que, desde que fui preterida por outra mulher por uma pessoa que eu achava que não o iria fazer, o meu mundo emocional ruíu e costumo dizer que arrumei as botas. Mas não há dúvida de que, se o meu anjo da guarda anda a dormir, o dele está bem acordado porque, convenhamos, sou o verdadeiro corta-interesse seja para quem for. Feitas as contas, pelo menos sempre é menos um angustiado por minha causa. Não me admira mesmo nada que também tenham, entretanto, desaparecido da minha vida mais alguns seres que achava estarem perto.
Por tudo isso, ando de péssimo humor. Experimentem viver num esquema de dor nível seis ou sete permanentemente, seis semanas consecutivas, apanhar um cagaço de todo o tamanho, e ter milhões de coisas para resolver no entretanto, e venham depois falar-me de más caras. Experimentem continuar, apesar disso, a tentar funcionar, a não esquecer datas de testes, a inteirar-se de reuniões em que não puderam estar presentes, e a desenlear molhos de bróculos dos vossos alunos da direção de turma. Então venham ter comigo. E aí, vou tentar explicar-vos porque é que, se chegar a Fevereiro, vou entrar para a categoria dos heróis.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Adorable

Numa turma de gralhas meias-lecas, passo a vida a gritar que se calem. Hoje, já desesperada, rosno-lhes: "Vocês não têm vergonha de que todos os professores venham dar-vos aulas contrariados e não gostem nada da vossa turma?", ao que uma vozinha me responde, muito triste, "Isso não é verdade! A professora de TIC até nos chama periquitos!"
E eu tive vontade de abraçar aquele periquito indignado.

Pérolas da Jade

Não são só os alunos que são parvos. Hoje, um lia o seu parágrafo sobre a amizade e diz "My friends have to like football and be funny". E eu, logo... Futebol está bem, mas para que tem um amigo teu que gostar de bifanas?
Bonito serviço.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Da janela da sala de professores, olho a curva onde estacionaste o carro, com fé de que, por tanto olhar, ele lá se consubstancie, contigo parado à porta, a sorrir.
Ficarias admirado se me viesses ver e me perguntasses há quanto tempo não choro a tua ausência. Não a choro há vinte minutos, e já passaram quase dois anos.

domingo, 18 de novembro de 2012

Decorações de Natal

O Chico descobriu as potencialidades dos rolos de papel higiénico e só posso dizer que parece que nevou de repente na minha sala de estar. De repente, porque se me distraí vinte segundos foi muito, mas o suficiente para o raio do cão se deixar contagiar por um espírito natalício da tanga.

No Bairro dos Avós

Moro num enorme bairro antigo cuja média de idades da população residente deve rondar os 65 anos. Os velhotes têm caraterísticas muito especiais, como toda a gente sabe. São seres de grande experiência, pouco filtro, e um enorme orgulho a roçar a arrogância, com o paternalismo de quem acha qualquer pessoa abaixo dos cinquenta anos um pateta que não sabe nada da vida, e continua a ser alguém que precisa de críticas e conselhos gratuitos e não solicitados.
Neste bairro ninguém me trata pelo nome ou pela profissão, como sempre estive habituda a que fizessem, ora era Bom dia, Jade, ora Bom dia, professora. Aqui, ninguém se dá ao trabalho de saber como me chamo ou o que faço, e todos os dias sou cumprimentada como desconfio que são todos entre os três e os cinquenta anos: Bom dia, menina!
Mas, se por vezes me irrita, por outras dá-me imensa vontade de rir porque, se calha estar com o meu cão, a seguir ao "menina", e às vezes mesmo antes, tão fatal como o destino vem um "Olá Chico, estás bom? És muito lindo...."
O meu cão é o rei da cocada preta.