quarta-feira, 24 de julho de 2013

A Mulher que Eu Quero Ser

O Face também tem uma espécie de blogues, e eu sigo os dos meus amigos. Hoje, no blogue Don't Play Games with a Girl who Can Play Better, foi partilhado um parágrafo muito bom da autoria de Rita Barata Silvério com o título deste post. E depois de muitos meses, deu-me vontade de escrever.
Hoje, por coincidência, foi um dia muito mau. E eu devia ter previsto isso mesmo quando, no passeio da manhã, o meu cão fez tal estrangeirinha com a trampa do peitoral que usa para eu não o estrafegar com coleiras, que tive que subir dois andares a bufar, com o grande mastodonte ao colo, todo contente, a trepar-me pelos ombros acima e a meter-me a língua nos olhos, nariz, cabelos e orelhas. O universo dá-nos sinais claros de que o dia vai correr mal, e é preciso coragem para os ignorar.
O que aconteceu depois não interessa a ninguém. O que interessa realmente é que este ano letivo que agora está a terminar parece querer morrer a estrebuchar em grande e eu, sinceramente, há muito que não estou para o aturar.
Não me lembro nunca de ter passado tantos meses em tão completo inferno. Uma lástima, a nível de saúde, um desastre, a nível de relações humanas. Tenho pedras suficientes colecionadas no caminho para construir a grande muralha ocidental, mas melhor fazia se tivesse feitio para as atirar ao focinho de algumas pessoas.
Infelizmente, e à semelhança de há uns anos atrás, aconteceram situações limite que me fizeram virar costas, em definitivo, a pessoas que tinha por próximas. A última vez que tal me aconteceu foi há quase uma década, e tenho por consolo de um saber de experiência feito que jamais me arrependi, e que a dor passou muito mais rápido que a angústia do antes.
A mulher que eu quero ser não compactua com mentiras, com facadas nas costas. Não compactua com hipocrisias, com politicamente corretos. Não compactua com aparências, com interesses, com lambe-botismos. Não compactua com burrice, com estupidez, com egoísmos.
A mulher que eu quero ser não se cala. A mulher que eu quero ser jamais perde uma noite de sono a pensar como ferir alguém, como lhe fazer mal, como se vingar. A mulher que eu quero ser brilha, incomoda e suscita ódios por brilhar e incomodar, sendo que jamais os compreenderá.
A mulher que eu quero ser tem amigos que fazem por ela o impossível e estão sempre lá, sempre. A mulher que eu quero ser continua a fazer amigos verdadeiros, já bem perto dos quarenta, e não precisa de fazer disso alarde. A mulher que eu quero ser não esfrega as suas melhores qualidades na cara de ninguém e, no entanto elas são notadas o suficiente para serem invejadas sem pejo nenhum.
A mulher que eu quero ser é de uma generosidade infinita, e de aversões absolutas e físicas, ao ponto da náusea.
A mulher que eu quero ser vive as suas emoções sem as controlar demasiado, porque sabe desde que nasceu que o que se leva desta vida são os afetos genuínos.
No dia de hoje, sobretudo no dia de hoje, sei, com uma sabedoria que me vem das entranhas do corpo e das profundezas do espírito, que sou exatamente a mulher que quero ser. E de cada vez que, como hoje, sentir que alguém sai da sua vidinha triste e vazia para me fazer mal por puro despeito, terei a confirmação absoluta que sou exatamente a mulher que quero ser.

domingo, 26 de maio de 2013

Sobre Saber

Quando me irrito a sério com os meus alunos, eles sabem que vem aí o sermão que começa por "Há tantos anos na escola e ainda não sabem como comportar-se numa sala de aula?". Se eles estivessem em pé de igualdade comigo, numa discussão taco-a-taco, poderiam atirar-me muito corretamente um "Há quatro décadas na vida e ainda não sabes comportar-te na maior parte das situações realmente importantes?"
E o meu problema é, exatamente, o problema deles: sei de cor a teoria, e não a ponho em prática.
Consigo papaguear todas as regras do saber viver. Não cumpro nem oitenta por cento.
Deitar cedo e cedo erguer. Comer a horas. Abusar nas frutas e legumes. Não fumar. Praticar exercício físico. Saber ficar calada. Mimar amigos. Ignorar os outros. Não correr atrás de prejuízos. Não chorar o leite derramado. Não procrastinar. Não ter pressa mas não perder tempo. Arranjar uma horita por dia para dedicar a mim mesma. Não abdicar de nenhum princípio mas não entrar em guerras por coisas que não valem a pena. Distinguir verdadeiros problemas de chatices quotidianas. Não me comparar a ninguém e, se tiver mesmo que ser, que seja a alguém melhor. Não esperar por respostas a mensagens, por telefonemas de retorno, por atitudes de arrependimento ou retratamento. Não ter esperança que as pessoas mudem. Ter esperança que eu sou capaz de mudanças em mim própria. Ver o copo meio cheio. Beber muita água. Conviver com quem me quer bem. Evitar quem me faz mal. Virar costas a quem me deixa cair repetidamente. Não olhar para trás. Não dar murros em ponta de faca. Poupar dinheiro para hospitais e viagens. Aceitar que a maioria das pessoas olha para mim sem me ver, e que, quem me , acaba sempre por ficar. Não guardar rancores e mágoas, mas praticar o desprendimento emocional.
Têm sido semanas tão, mas tão, duras, que o destino me tem obrigado a cumprir muitas destas regras por pura sobrevivência. Profissionalmente, houve aulas assistidas, houve inspeção geral de educação, houve testes para fazer e corrigir, houve reuniões para presidir e assistir, houve concurso de professores. Emocionalmente, houve amigos que dececionaram em grande. Houve gente a fazer apostas à custa da minha vida e como procederia nos concursos. Houve pessoas a dizer-me que sou ressabiada e competitiva, e que não admito que haja alguém a fazer sombra à minha posição de centro das atenções. Houve pessoas a passar por cima da minha generosidade e da minha preocupação que nem camiões-TIR. Houve desrespeito e falta de consideração. Houve de tudo.
Por isso, eu, que levo na tromba e ainda dou a outra face, eu, que sou resiliente e obstinada e cumpro sempre as minhas obrigações, mesmo que a segundos do final dos prazos, eu, que carrego, tipo Atlas, o mundo às costas, e assumo como minhas culpas que não tenho, eu... passei-me. Passei-me sem ruído nem espalhafato. Passei-me e interditei na minha vida muita gente que nem disso deu ainda conta. Passei-me e virei costas sem olhar para trás, o que é anti-natural em mim, sempre na dúvida, sempre insegura, sempre a achar que podia ou devia ter feito mais.
Respirei fundo, travei lágrimas, engoli em seco e estabeleci prioridades. Preparei aulas assistidas, preparei paineis inspetivos, fiz testes, mas não os corrigi. Sou só uma. Fui ao batizado dos meus sobrinhos, estive presente quando a minha mãe precisou de mim, não descurei do Chico, comprei presentes de aniversário, mas deixei de me dar a certas pessoas, deixei de mostrar-lhes as minhas vulnerabilidades, deixei de lutar contra a invisibilidade, deixei de tentar provar-lhes que sou diferente do que elas me julgam, ou melhor do que aquilo que parece.
Deixei de esperar por palavras, por atos, por sinais. Deixei de me incomodar com problemas alheios. Fingi acreditar em mentiras e não dar por omissões propositadas. Fiz-me de parva. Parti a loiça toda. Soltei todos os demónios da alma. Sinto-me vazia, sem demónios. Sei viver. Os meus alunos sabem as regras. Agora, temos todos que dar o passo entre a teoria e a prática. E lembrar-me que, se morrer amanhã, o importante é que o último dia tenha valido a pena. O que interessa é fazer com que cada possível último dia valha a pena, junto de quem está, porque quem não está, não faz verdadeiramente falta.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Não, não é loucura pura.

Falei na cena de ontem ao DOC. Ele explicou-me que o tal sexto sentido para a desgraça não se deve a males do cérebro - tipo, não, não estou demente, - nem a superstições - não, não atraio desgraças. Simplesmente, pessoas ansiosas e habituadas a que as coisas deem para o torto e corram mal, pessoas a quem as desgraças realmente acontecem, estão muito mais despertas para microexpressões faciais (alguém aqui vê "Lie to Me"?). Assim sendo, detetam e interpretam sinais que mais ninguém vê, e têm premonições de desgraça... sempre certas. Não sou um detetor de mentiras humano, mas o adágio "só me faz de parva quem eu deixo", aplica-se. E eu respiro fundo por não estar louca nem com a mania da perseguição. Mas sinto-me triste, por ser uma dessas pessoas que veem de longe o perigo. E, ainda assim, e estupida e infelizmente, continuam a esperar pela confirmação para chorar sozinhas as suas mágoas.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Pink Unicorns



Tenho disto, de quando em vez. Uma sensação de estranheza e superioridade em relação ao mundo em geral. Quase sempre quando me decepciono, o que não acontece frequentemente, convenhamos, que isso é coisa para gente dada a muitas ilusões, não para mim. Mas sinto-me completamente ludibriada, quando, por exemplo, se confirmam as minhas suspeitas ou piores expetativas em relação a pessoas ou situações. Sim, sinto-me enganada, traída pela verdade que adivinhei antecipadamente. É esta, a minha maldição: ter maus pressentimentos que se verificam corretos quando os bons nunca passam disso, ter um sexto sentido que só funciona para o que é desagradável. E aí, gelo, petrifico. É tão diferente deixar sair o ar de um balão até ele murchar, ridículo, e rebentá-lo, com pompa e circunstância, fazendo barulho e atirando bocados por todo o lado, superlativo, hiperbólico, assustador. De cada vez que me encontro de alma vazia e encolhida, desejo que ela tivesse explodido majestosa, rebentasse com estrondo e espalhasse bocados coloridos e peganhentos de si na cara do mundo. But fuck it, I'm a pink unicorn.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Alive, not kicking



Estes meses vão para a história como a fase mais estúpida da minha vida.
Um imenso espaço temporal em que não fiz nada, não construí pevide, não criei momentos para recordar, não agi, não li, não escrevi. Limitei-me a apagar os fogos que apareceram por ter de ir tantas vezes para Lisboa ao médico, deixando a escola, o trabalho e os alunos num mundo a girar apesar de mim ausente.
Ficou tudo imperfeito, inacabado, standing by.
As férias da Páscoa foram a ode final a esta inércia e incluiram cinco dias sem ligar o computador.
Mal me reconheço. Tenho que arranjar rapidamente dois ou três projetos que me façam vibrar, que este papel de Dama das Camélias não vai nada bem com o meu tom de pele. Que abril que agora começa seja o mês da revolução do meu espírito que, como está, não serve.
Que diabos, I'm Once in a Lifetime Kind of Woman, caneco!

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

2013



A minha mãe é uma mãe singular. Não a consigo descrever, por inúmeras razões que se prendem com o seu ser contraditório, cujos genes herdei. Há alturas em que me liberta das suas asas, me deixa esborrachar no chão sozinha e, se preciso for, ainda se ri. Há outras em que lhe chamar coruja ou mãe-galinha é pouco, e me carrega metaforicamente ao colo, ou me empurra violentamente para a frente.
Neste momento, está revoltada. Diz que, se encontrar o meu anjo da guarda, lhe dá uma coça.
Isto porque Janeiro tem sido difícil. Tem sido infernal.
Janeiro? Parece que a estou a ouvir, numa das suas gargalhadas de fúria. A minha mãe sabe rir-se de fúria. Há um ano que a nossa vida se virou de pernas para o ar! E é verdade.  Estivémos doentes. Ela mudou de emprego. Eu assumi novas responsabilidades no meu. Passámos ambas as férias de Verão à cabeceira de um ente querido e ainda jovem, a vê-lo definhar de cancro, e a abraçá-lo na sua morte.
Mas Janeiro... bolas. A minha vida em Janeiro: duas vezes por semana para Lisboa, entre cirurgiã plástica da mão e oncológico da mama. E se o fantasma do cancro não se consubstancializou, - até ver, tudo não passou de um susto, mas um daqueles sustos que nos abala os alicerces e nos faz andar nauseados muito depois do alívio, - a hipótese de perder um dedo da mão direita ainda é uma realidade. Uma realidade que, a não acontecer, não me poupa um mês e meio de dores atrozes.
Isto são os meus problemas genuínos. Dores daquelas que te fazem pairar meia maluca pelo quotidiano, e sustos de morte, para que não me queixe de monotonia.
Não contente com isso, Janeiro tem sido um mês de merdices. Eu sou muito dada a merdices, às chaves que ficam em casa quando a única pessoa que tem a sobresselente não está disponível, a avarias na autoestrada quando o telemóvel está sem bateria. Sou muito dada à lei de Murphy.
A par das dores e dos sustos, em Janeiro fiquei, a escasso tempo de uma consulta oncológica de urgência, metida numa área de serviço sem dinheiro para pagar o gasóleo. Com quem me podia valer a mais de cem quilómetros. Pois foi. E o meu cão destruíu o meu telemóvel e, com ele, todos os meus contatos e mensagens bonitas que guardava religiosamente, mesmo antes de mais uma longa viagem, desta feita à cirurgiã das mãos. Pois foi. E o meu carro chumbou na inspeção. Como não podia deixar de ser.
Há escolhas certas na vida, e eu relembro que, desde que fui preterida por outra mulher por uma pessoa que eu achava que não o iria fazer, o meu mundo emocional ruíu e costumo dizer que arrumei as botas. Mas não há dúvida de que, se o meu anjo da guarda anda a dormir, o dele está bem acordado porque, convenhamos, sou o verdadeiro corta-interesse seja para quem for. Feitas as contas, pelo menos sempre é menos um angustiado por minha causa. Não me admira mesmo nada que também tenham, entretanto, desaparecido da minha vida mais alguns seres que achava estarem perto.
Por tudo isso, ando de péssimo humor. Experimentem viver num esquema de dor nível seis ou sete permanentemente, seis semanas consecutivas, apanhar um cagaço de todo o tamanho, e ter milhões de coisas para resolver no entretanto, e venham depois falar-me de más caras. Experimentem continuar, apesar disso, a tentar funcionar, a não esquecer datas de testes, a inteirar-se de reuniões em que não puderam estar presentes, e a desenlear molhos de bróculos dos vossos alunos da direção de turma. Então venham ter comigo. E aí, vou tentar explicar-vos porque é que, se chegar a Fevereiro, vou entrar para a categoria dos heróis.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Adorable

Numa turma de gralhas meias-lecas, passo a vida a gritar que se calem. Hoje, já desesperada, rosno-lhes: "Vocês não têm vergonha de que todos os professores venham dar-vos aulas contrariados e não gostem nada da vossa turma?", ao que uma vozinha me responde, muito triste, "Isso não é verdade! A professora de TIC até nos chama periquitos!"
E eu tive vontade de abraçar aquele periquito indignado.

Pérolas da Jade

Não são só os alunos que são parvos. Hoje, um lia o seu parágrafo sobre a amizade e diz "My friends have to like football and be funny". E eu, logo... Futebol está bem, mas para que tem um amigo teu que gostar de bifanas?
Bonito serviço.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Da janela da sala de professores, olho a curva onde estacionaste o carro, com fé de que, por tanto olhar, ele lá se consubstancie, contigo parado à porta, a sorrir.
Ficarias admirado se me viesses ver e me perguntasses há quanto tempo não choro a tua ausência. Não a choro há vinte minutos, e já passaram quase dois anos.

domingo, 18 de novembro de 2012

Decorações de Natal

O Chico descobriu as potencialidades dos rolos de papel higiénico e só posso dizer que parece que nevou de repente na minha sala de estar. De repente, porque se me distraí vinte segundos foi muito, mas o suficiente para o raio do cão se deixar contagiar por um espírito natalício da tanga.

No Bairro dos Avós

Moro num enorme bairro antigo cuja média de idades da população residente deve rondar os 65 anos. Os velhotes têm caraterísticas muito especiais, como toda a gente sabe. São seres de grande experiência, pouco filtro, e um enorme orgulho a roçar a arrogância, com o paternalismo de quem acha qualquer pessoa abaixo dos cinquenta anos um pateta que não sabe nada da vida, e continua a ser alguém que precisa de críticas e conselhos gratuitos e não solicitados.
Neste bairro ninguém me trata pelo nome ou pela profissão, como sempre estive habituda a que fizessem, ora era Bom dia, Jade, ora Bom dia, professora. Aqui, ninguém se dá ao trabalho de saber como me chamo ou o que faço, e todos os dias sou cumprimentada como desconfio que são todos entre os três e os cinquenta anos: Bom dia, menina!
Mas, se por vezes me irrita, por outras dá-me imensa vontade de rir porque, se calha estar com o meu cão, a seguir ao "menina", e às vezes mesmo antes, tão fatal como o destino vem um "Olá Chico, estás bom? És muito lindo...."
O meu cão é o rei da cocada preta.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Pérolas da Província

Depois de um aluno ter dito uma palermice monumental, saio-me com o seguinte desabafo, numa turma, "Oh, please, shoot me now!"
No meio de um coro abismado de "é o quêiiiii????", uma das boas alunas, diz, como se os outros fossem todos atrasados mentais: "A professora disse para lhe darem chutos."
É assim, a minha vida: tão emocionante que só ao pontapé. 

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Escreveste algum post novo?

Sim, há dias em que me apetece fugir para longe mas não tenho com quem, e gostava que me agradecessem só para variar, e queria que me reconhecessem as qualidades e o esforço para além de um "como é que tu consegues ter tudo pronto a horas?", e agradava-me não ter responsabilidades reais a juntar àquelas que não são minhas mas assumo. Sim, há dias em que a vida pesa mais um grama que o suportável, a gota de água entorna o copo e o grito fica preso na garganta, apetece chorar, desistir, espernear e o corpo não obedece, imóvel e mudo. Sim, há dias em que as injustiças de que somos alvo superam as de outras vítimas, em que a falta de tempo para parar, espreguiçar e alongar os músculos e a paciência nos tortura, e a esperança se eclipsa totalmente sem que o espetáculo valha a pena. Sim, há dias em que saio à rua tipo serial killer, imaginando maneiras sádicas e atrozes de matar seres cuja existência no meu mundo não faz o menor sentido, ratos de esgoto e baratas ascorosas. Sim, há dias em que as vozes formam um coro indefinido de exigências e cobranças, e o desagradável se avoluma, e me doem mais as mãos do que o costume, levo tempos infinitos em guerras com atacadores e botoões de jeans exatamente quando estou atrasada e os ponteiros do relógio correm em vez de se arrastar. Sim, há dias em que engulo pior, e parece que todo o meu sistema está contra mim, e me olho ao espelho e o cabelo está de meter medo, não tenho roupa que me fique bem, os meus olhos mal se veem de inchados que estão, quando nem me lembro da última vez que chorei alguma coisa que se visse. Sim, há dias em que a ausência dele dói mais, como se tivesse sido ontem que o vi pela última vez sem saber que seria a última vez, e ainda achava que tinha ganho a sorte grande e tudo iria ficar bem. Sim, há dias em que me apetece desancar quem me admira por coisas parvas sem saber que se me conhecesse, então, me punha num pedestal, me lavava os pés com água de rosas e passava o resto da vida a idolatrar-me e a fazer-me feliz. Sim, há dias em que o sol, os cigarros à noite, o café depois de almoço, as palavras de incentivo, as aulas bem dadas, os abraços dos amigos e o meu cão a dormir com uma pata possessiva sobre o meu joelho não chegam para me aquecer o espírito. Sim, há dias em que trato mal toda a gente só para ter desculpa para me sentir ainda pior comigo própria, para sentir o remorso e a culpa de forma acutilante o suficiente para ter a certeza de que estou viva para além das rotinas funcionais em que teimo embrenhar-me para fugir ao descalabro. Sim, há dias em que gostava mesmo muito de ter uma folga desta estupidez toda que me rodeia, que me penetra, que me contagia, que me impede de ir a Nova Iorque e de regressar a Veneza, que me empurra para a frente apesar de adiante a linha ser sempre curva e o meu percurso um círculo permanente. Sim, há dias desses. E são sempre dias com muito mais horas que os restantes, aqueles em que me arrasto sem questionar nada, e tudo é maquinal e automático e muito mais suportável.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Riam-se!

Ando há uns tempos sem escrever porque estou numa fase de destilar veneno e só me ocorre insultar gente. Ou a vida em geral. Por isso, deambulando pelos blogues de que gosto, encontrei isto, e é o que vou publicar. Antes isto, com esta qualidade, e com esta verdade, que as coisas deprimentes que me apetece gritar, revoltada, ao mundo. E seus arredores.

http://theoatmeal.com/comics/dog_paradox

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Isto promete...

Passamos tanto tempo na escola que já houve quem arranjasse uma cafeteira elétrica, há pessoas que levaram, para um armário, canecas, e há sempre quem leve saquinhos de chá e pacotes de açúcar para abastecer a "dispensa". Maçãs e bolachas vão aparecendo diariamente e, quando há reuniões, alguém desenrasca sempre "umas cenas" para o lanche.
Hoje à tarde, entrei na sala de professores e estava um colega meu de canequinha fumegante na mão. Eu, gulosa, dirijo-me a ele, "então, V. a beber um cházito?" Resposta pronta e imediata: "Não havia whisky!"

sábado, 20 de outubro de 2012

Animador

Ontem, ao jantar, um amigo meu dizia que estou completamente diferente. E que tinha sido exatamente isso que um amigo nosso comum lhe dissera há uns dias atrás. E, pasme-se!, não se referia ao meu corte de cabelo boyish.
Há meses, quase meio ano, que sinto essa diferença, nos acordares mais leves, na aceitação própria mais fácil, e nos desesperos (muito) mais espaçados. No modo como caminho pela rua, olho nos olhos das pessoas e até consigo sorrir sinceramente. Num jeito de ser tão, mas tão, mais meigo do que aquele que me acompanhou durante mais de metade da vida e pareço ter conseguido resgatar da infância e adolescência perdidas.
Todavia, durante esses meses, poucos foram os que comentaram ou se aperceberam. Houve até quem não entendesse por que motivo sórdido deixava eu tanto dinheiro no consultório do meu terapêuta. "Ainda andas nisso?". Nunca desmoralizei. Quanto mais não fosse, chorava naquele gabinete o que não chorava em mais lado nenhum, e dizia lá dentro coisas que evitava, sequer, pensar. Continua a ser uma hora sagrada e, sim, ainda ando nisso, e não, não tenho pressa de alcançar objetivos. Agora acredito na possibilidade do equilíbrio. 
Surpreendo-me a sonhar acordada com pessoas que não conheço e que possam estar a sonhar acordadas comigo. Continuo a achar que perdi alguém estupidamente, mas aceito e acarinho a ideia de que a estupidez, pelo menos nesta situação específica, não foi minha. Acredito que com ele é que era, que com ele é que poderia ter sido. Há momentos em que essa certeza me bate diretamente na alma como um raio, e a corta em dois como a uma árvore morta ainda de pé. Mas aprendi que as raízes debaixo da terra servem para alguma coisa, e essas são demasiado profundas para que seja possível arrancar-me àquilo a que me agarro, desde sempre. Dou comigo, finalmente, a tomar iniciativas, a adormecer quando me apetece sem culpas, a ligar para os meus amigos, a ir a espetáculos, a chatear a molécula aos meus colegas para organizarmos um jantar, a pegar no cão e fazer mais de duzentos quilómetros para ele ir ver a avó, a ler antes de adormecer, a dar aulas plenas de gritos e risos, sermões e regras de gramática, como gosto de fazer.
Dou comigo viva, e isso é animador.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

E ainda digo mais

Eu, que sou mesmo pacífica a sério, começo a achar que em vez de bater tachos e panelas, deviam pegar nelas e fazer pontaria às fuças dos idiotas que estão no poleiro. Se, só uma que fosse, acertasse no alvo, já era lucro. Por isso, nem quero pensar no que passa pela cabeça da malta dada à violência.