terça-feira, 29 de janeiro de 2013

2013



A minha mãe é uma mãe singular. Não a consigo descrever, por inúmeras razões que se prendem com o seu ser contraditório, cujos genes herdei. Há alturas em que me liberta das suas asas, me deixa esborrachar no chão sozinha e, se preciso for, ainda se ri. Há outras em que lhe chamar coruja ou mãe-galinha é pouco, e me carrega metaforicamente ao colo, ou me empurra violentamente para a frente.
Neste momento, está revoltada. Diz que, se encontrar o meu anjo da guarda, lhe dá uma coça.
Isto porque Janeiro tem sido difícil. Tem sido infernal.
Janeiro? Parece que a estou a ouvir, numa das suas gargalhadas de fúria. A minha mãe sabe rir-se de fúria. Há um ano que a nossa vida se virou de pernas para o ar! E é verdade.  Estivémos doentes. Ela mudou de emprego. Eu assumi novas responsabilidades no meu. Passámos ambas as férias de Verão à cabeceira de um ente querido e ainda jovem, a vê-lo definhar de cancro, e a abraçá-lo na sua morte.
Mas Janeiro... bolas. A minha vida em Janeiro: duas vezes por semana para Lisboa, entre cirurgiã plástica da mão e oncológico da mama. E se o fantasma do cancro não se consubstancializou, - até ver, tudo não passou de um susto, mas um daqueles sustos que nos abala os alicerces e nos faz andar nauseados muito depois do alívio, - a hipótese de perder um dedo da mão direita ainda é uma realidade. Uma realidade que, a não acontecer, não me poupa um mês e meio de dores atrozes.
Isto são os meus problemas genuínos. Dores daquelas que te fazem pairar meia maluca pelo quotidiano, e sustos de morte, para que não me queixe de monotonia.
Não contente com isso, Janeiro tem sido um mês de merdices. Eu sou muito dada a merdices, às chaves que ficam em casa quando a única pessoa que tem a sobresselente não está disponível, a avarias na autoestrada quando o telemóvel está sem bateria. Sou muito dada à lei de Murphy.
A par das dores e dos sustos, em Janeiro fiquei, a escasso tempo de uma consulta oncológica de urgência, metida numa área de serviço sem dinheiro para pagar o gasóleo. Com quem me podia valer a mais de cem quilómetros. Pois foi. E o meu cão destruíu o meu telemóvel e, com ele, todos os meus contatos e mensagens bonitas que guardava religiosamente, mesmo antes de mais uma longa viagem, desta feita à cirurgiã das mãos. Pois foi. E o meu carro chumbou na inspeção. Como não podia deixar de ser.
Há escolhas certas na vida, e eu relembro que, desde que fui preterida por outra mulher por uma pessoa que eu achava que não o iria fazer, o meu mundo emocional ruíu e costumo dizer que arrumei as botas. Mas não há dúvida de que, se o meu anjo da guarda anda a dormir, o dele está bem acordado porque, convenhamos, sou o verdadeiro corta-interesse seja para quem for. Feitas as contas, pelo menos sempre é menos um angustiado por minha causa. Não me admira mesmo nada que também tenham, entretanto, desaparecido da minha vida mais alguns seres que achava estarem perto.
Por tudo isso, ando de péssimo humor. Experimentem viver num esquema de dor nível seis ou sete permanentemente, seis semanas consecutivas, apanhar um cagaço de todo o tamanho, e ter milhões de coisas para resolver no entretanto, e venham depois falar-me de más caras. Experimentem continuar, apesar disso, a tentar funcionar, a não esquecer datas de testes, a inteirar-se de reuniões em que não puderam estar presentes, e a desenlear molhos de bróculos dos vossos alunos da direção de turma. Então venham ter comigo. E aí, vou tentar explicar-vos porque é que, se chegar a Fevereiro, vou entrar para a categoria dos heróis.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Adorable

Numa turma de gralhas meias-lecas, passo a vida a gritar que se calem. Hoje, já desesperada, rosno-lhes: "Vocês não têm vergonha de que todos os professores venham dar-vos aulas contrariados e não gostem nada da vossa turma?", ao que uma vozinha me responde, muito triste, "Isso não é verdade! A professora de TIC até nos chama periquitos!"
E eu tive vontade de abraçar aquele periquito indignado.

Pérolas da Jade

Não são só os alunos que são parvos. Hoje, um lia o seu parágrafo sobre a amizade e diz "My friends have to like football and be funny". E eu, logo... Futebol está bem, mas para que tem um amigo teu que gostar de bifanas?
Bonito serviço.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Da janela da sala de professores, olho a curva onde estacionaste o carro, com fé de que, por tanto olhar, ele lá se consubstancie, contigo parado à porta, a sorrir.
Ficarias admirado se me viesses ver e me perguntasses há quanto tempo não choro a tua ausência. Não a choro há vinte minutos, e já passaram quase dois anos.

domingo, 18 de novembro de 2012

Decorações de Natal

O Chico descobriu as potencialidades dos rolos de papel higiénico e só posso dizer que parece que nevou de repente na minha sala de estar. De repente, porque se me distraí vinte segundos foi muito, mas o suficiente para o raio do cão se deixar contagiar por um espírito natalício da tanga.

No Bairro dos Avós

Moro num enorme bairro antigo cuja média de idades da população residente deve rondar os 65 anos. Os velhotes têm caraterísticas muito especiais, como toda a gente sabe. São seres de grande experiência, pouco filtro, e um enorme orgulho a roçar a arrogância, com o paternalismo de quem acha qualquer pessoa abaixo dos cinquenta anos um pateta que não sabe nada da vida, e continua a ser alguém que precisa de críticas e conselhos gratuitos e não solicitados.
Neste bairro ninguém me trata pelo nome ou pela profissão, como sempre estive habituda a que fizessem, ora era Bom dia, Jade, ora Bom dia, professora. Aqui, ninguém se dá ao trabalho de saber como me chamo ou o que faço, e todos os dias sou cumprimentada como desconfio que são todos entre os três e os cinquenta anos: Bom dia, menina!
Mas, se por vezes me irrita, por outras dá-me imensa vontade de rir porque, se calha estar com o meu cão, a seguir ao "menina", e às vezes mesmo antes, tão fatal como o destino vem um "Olá Chico, estás bom? És muito lindo...."
O meu cão é o rei da cocada preta.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Pérolas da Província

Depois de um aluno ter dito uma palermice monumental, saio-me com o seguinte desabafo, numa turma, "Oh, please, shoot me now!"
No meio de um coro abismado de "é o quêiiiii????", uma das boas alunas, diz, como se os outros fossem todos atrasados mentais: "A professora disse para lhe darem chutos."
É assim, a minha vida: tão emocionante que só ao pontapé. 

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Escreveste algum post novo?

Sim, há dias em que me apetece fugir para longe mas não tenho com quem, e gostava que me agradecessem só para variar, e queria que me reconhecessem as qualidades e o esforço para além de um "como é que tu consegues ter tudo pronto a horas?", e agradava-me não ter responsabilidades reais a juntar àquelas que não são minhas mas assumo. Sim, há dias em que a vida pesa mais um grama que o suportável, a gota de água entorna o copo e o grito fica preso na garganta, apetece chorar, desistir, espernear e o corpo não obedece, imóvel e mudo. Sim, há dias em que as injustiças de que somos alvo superam as de outras vítimas, em que a falta de tempo para parar, espreguiçar e alongar os músculos e a paciência nos tortura, e a esperança se eclipsa totalmente sem que o espetáculo valha a pena. Sim, há dias em que saio à rua tipo serial killer, imaginando maneiras sádicas e atrozes de matar seres cuja existência no meu mundo não faz o menor sentido, ratos de esgoto e baratas ascorosas. Sim, há dias em que as vozes formam um coro indefinido de exigências e cobranças, e o desagradável se avoluma, e me doem mais as mãos do que o costume, levo tempos infinitos em guerras com atacadores e botoões de jeans exatamente quando estou atrasada e os ponteiros do relógio correm em vez de se arrastar. Sim, há dias em que engulo pior, e parece que todo o meu sistema está contra mim, e me olho ao espelho e o cabelo está de meter medo, não tenho roupa que me fique bem, os meus olhos mal se veem de inchados que estão, quando nem me lembro da última vez que chorei alguma coisa que se visse. Sim, há dias em que a ausência dele dói mais, como se tivesse sido ontem que o vi pela última vez sem saber que seria a última vez, e ainda achava que tinha ganho a sorte grande e tudo iria ficar bem. Sim, há dias em que me apetece desancar quem me admira por coisas parvas sem saber que se me conhecesse, então, me punha num pedestal, me lavava os pés com água de rosas e passava o resto da vida a idolatrar-me e a fazer-me feliz. Sim, há dias em que o sol, os cigarros à noite, o café depois de almoço, as palavras de incentivo, as aulas bem dadas, os abraços dos amigos e o meu cão a dormir com uma pata possessiva sobre o meu joelho não chegam para me aquecer o espírito. Sim, há dias em que trato mal toda a gente só para ter desculpa para me sentir ainda pior comigo própria, para sentir o remorso e a culpa de forma acutilante o suficiente para ter a certeza de que estou viva para além das rotinas funcionais em que teimo embrenhar-me para fugir ao descalabro. Sim, há dias em que gostava mesmo muito de ter uma folga desta estupidez toda que me rodeia, que me penetra, que me contagia, que me impede de ir a Nova Iorque e de regressar a Veneza, que me empurra para a frente apesar de adiante a linha ser sempre curva e o meu percurso um círculo permanente. Sim, há dias desses. E são sempre dias com muito mais horas que os restantes, aqueles em que me arrasto sem questionar nada, e tudo é maquinal e automático e muito mais suportável.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Riam-se!

Ando há uns tempos sem escrever porque estou numa fase de destilar veneno e só me ocorre insultar gente. Ou a vida em geral. Por isso, deambulando pelos blogues de que gosto, encontrei isto, e é o que vou publicar. Antes isto, com esta qualidade, e com esta verdade, que as coisas deprimentes que me apetece gritar, revoltada, ao mundo. E seus arredores.

http://theoatmeal.com/comics/dog_paradox

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Isto promete...

Passamos tanto tempo na escola que já houve quem arranjasse uma cafeteira elétrica, há pessoas que levaram, para um armário, canecas, e há sempre quem leve saquinhos de chá e pacotes de açúcar para abastecer a "dispensa". Maçãs e bolachas vão aparecendo diariamente e, quando há reuniões, alguém desenrasca sempre "umas cenas" para o lanche.
Hoje à tarde, entrei na sala de professores e estava um colega meu de canequinha fumegante na mão. Eu, gulosa, dirijo-me a ele, "então, V. a beber um cházito?" Resposta pronta e imediata: "Não havia whisky!"

sábado, 20 de outubro de 2012

Animador

Ontem, ao jantar, um amigo meu dizia que estou completamente diferente. E que tinha sido exatamente isso que um amigo nosso comum lhe dissera há uns dias atrás. E, pasme-se!, não se referia ao meu corte de cabelo boyish.
Há meses, quase meio ano, que sinto essa diferença, nos acordares mais leves, na aceitação própria mais fácil, e nos desesperos (muito) mais espaçados. No modo como caminho pela rua, olho nos olhos das pessoas e até consigo sorrir sinceramente. Num jeito de ser tão, mas tão, mais meigo do que aquele que me acompanhou durante mais de metade da vida e pareço ter conseguido resgatar da infância e adolescência perdidas.
Todavia, durante esses meses, poucos foram os que comentaram ou se aperceberam. Houve até quem não entendesse por que motivo sórdido deixava eu tanto dinheiro no consultório do meu terapêuta. "Ainda andas nisso?". Nunca desmoralizei. Quanto mais não fosse, chorava naquele gabinete o que não chorava em mais lado nenhum, e dizia lá dentro coisas que evitava, sequer, pensar. Continua a ser uma hora sagrada e, sim, ainda ando nisso, e não, não tenho pressa de alcançar objetivos. Agora acredito na possibilidade do equilíbrio. 
Surpreendo-me a sonhar acordada com pessoas que não conheço e que possam estar a sonhar acordadas comigo. Continuo a achar que perdi alguém estupidamente, mas aceito e acarinho a ideia de que a estupidez, pelo menos nesta situação específica, não foi minha. Acredito que com ele é que era, que com ele é que poderia ter sido. Há momentos em que essa certeza me bate diretamente na alma como um raio, e a corta em dois como a uma árvore morta ainda de pé. Mas aprendi que as raízes debaixo da terra servem para alguma coisa, e essas são demasiado profundas para que seja possível arrancar-me àquilo a que me agarro, desde sempre. Dou comigo, finalmente, a tomar iniciativas, a adormecer quando me apetece sem culpas, a ligar para os meus amigos, a ir a espetáculos, a chatear a molécula aos meus colegas para organizarmos um jantar, a pegar no cão e fazer mais de duzentos quilómetros para ele ir ver a avó, a ler antes de adormecer, a dar aulas plenas de gritos e risos, sermões e regras de gramática, como gosto de fazer.
Dou comigo viva, e isso é animador.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

E ainda digo mais

Eu, que sou mesmo pacífica a sério, começo a achar que em vez de bater tachos e panelas, deviam pegar nelas e fazer pontaria às fuças dos idiotas que estão no poleiro. Se, só uma que fosse, acertasse no alvo, já era lucro. Por isso, nem quero pensar no que passa pela cabeça da malta dada à violência.

IRS

Não digo que vá fazer parte dos novos pobres, decididamente não vou. Muito se fala de pobreza, muito tenho visto na televisão, e dá-me asco saber que há representantes eleitos a dizer "agora querem que eu ande de Clio, não?". Esse devia ter sido imediatamente deitado num contentor de lixo e coberto de estrume à saída do Parlamento, grande imbecil.
Mas custa-me muito estarem a cobrar-me um disparate de impostos para pagar uma dívida que dizem pública, quando continua muita gente a roubar e a dar-se bem. Custa-me muito trabalhar para não me sobrar dinheiro ao fim do mês para absolutamente nada, e muitas vezes ter que ir levantar da poupança para pagar supermercado e contas fixas. Custa-me muito que se discutam aumentos para os parlamentares e se gastem milhares em carros topo de gama. Custa-me muito ser considerada pelos impostos quase rica, quando os meus jeans andam a ficar ruços e rasgados e não posso comprar outros porque foi mês de fazer mudança de óleo ao carro. Custou-me muito ouvir o ministro das finanças dizer que não há margem de manobra possível a não ser lixar, mais uma vez, os mesmos.

Cinco minutos

Hoje devia ter torcido um pé, ou marrado de cabeça contra uma parede, quando entrei na escola. Talvez assim não tivesse ido à Direção ter uma conversa de cinco minutos que deu cabo do meu bom humor para o resto da semana.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Ainda por cima...

... só me dá para reler coisas que me entristecem, e os bloggers de que mais gosto parecem meus pares em terapia de grupo para seres deprimidos. Todos por falta de amor, por secura cardíaca, por ceticismo crónico, já. 
E eu continuo na minha... um dia, hei de perceber, quando me der a epifania, por que razão a vida só me apresentou pessoas que não arriscam por amor. Mesmo quando as amarras não metem filhos à mistura, com que possam desculpar a cobardia de forma aceitável. E, principalmente, por que razão estou eu nos antípodas mentais dessas pessoas, e arrisco sempre tudo, para me espetar a grande velocidade num solo de betão armado e passar anos da minha vida em recuperação e gestão de danos.

Atropelada

Uma das minhas expressões favoritas quando me estão a chatear é "vai marrar com o comboio de Chelas!" Pois o comboio de Chelas decidiu vir marrar comigo. Ou assim parece. Que dia! Safou-se o jantar e o serão, com rojões e vinho tinto, "Herdade da Figueirinha", reserva de 2009. Mas se fosse vinho de mesa para temperar bifes também tinha marchado. Estou exausta.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Acentos gr´´aficos

Duas teclas do meu computador andam a gozar comigo. Carrego-lhes uma vez, e o resulltado ´´e a dobrar, como podem ver:`` ´´ ~~ ^^. Da´´i o t´´itulo est´´upido. Da´´i estas palavras est´´upidas. Ser´´a que andaram nos copos e eu ´´e que vejo a dobrar?
Assim n~~ao d´´a para escrever posts. E eu lamento. Tamb´´em n~~ao d´´a para trabalhar. Mas com isso posso eu bem.