Ontem, ao jantar, um amigo meu dizia que estou completamente diferente. E que tinha sido exatamente isso que um amigo nosso comum lhe dissera há uns dias atrás. E, pasme-se!, não se referia ao meu corte de cabelo boyish.
Há meses, quase meio ano, que sinto essa diferença, nos acordares mais leves, na aceitação própria mais fácil, e nos desesperos (muito) mais espaçados. No modo como caminho pela rua, olho nos olhos das pessoas e até consigo sorrir sinceramente. Num jeito de ser tão, mas tão, mais meigo do que aquele que me acompanhou durante mais de metade da vida e pareço ter conseguido resgatar da infância e adolescência perdidas.
Todavia, durante esses meses, poucos foram os que comentaram ou se aperceberam. Houve até quem não entendesse por que motivo sórdido deixava eu tanto dinheiro no consultório do meu terapêuta. "Ainda andas nisso?". Nunca desmoralizei. Quanto mais não fosse, chorava naquele gabinete o que não chorava em mais lado nenhum, e dizia lá dentro coisas que evitava, sequer, pensar. Continua a ser uma hora sagrada e, sim, ainda ando nisso, e não, não tenho pressa de alcançar objetivos. Agora acredito na possibilidade do equilíbrio.
Surpreendo-me a sonhar acordada com pessoas que não conheço e que possam estar a sonhar acordadas comigo. Continuo a achar que perdi alguém estupidamente, mas aceito e acarinho a ideia de que a estupidez, pelo menos nesta situação específica, não foi minha. Acredito que com ele é que era, que com ele é que poderia ter sido. Há momentos em que essa certeza me bate diretamente na alma como um raio, e a corta em dois como a uma árvore morta ainda de pé. Mas aprendi que as raízes debaixo da terra servem para alguma coisa, e essas são demasiado profundas para que seja possível arrancar-me àquilo a que me agarro, desde sempre. Dou comigo, finalmente, a tomar iniciativas, a adormecer quando me apetece sem culpas, a ligar para os meus amigos, a ir a espetáculos, a chatear a molécula aos meus colegas para organizarmos um jantar, a pegar no cão e fazer mais de duzentos quilómetros para ele ir ver a avó, a ler antes de adormecer, a dar aulas plenas de gritos e risos, sermões e regras de gramática, como gosto de fazer.
Dou comigo viva, e isso é animador.