quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Pérolas da Província

Depois de um aluno ter dito uma palermice monumental, saio-me com o seguinte desabafo, numa turma, "Oh, please, shoot me now!"
No meio de um coro abismado de "é o quêiiiii????", uma das boas alunas, diz, como se os outros fossem todos atrasados mentais: "A professora disse para lhe darem chutos."
É assim, a minha vida: tão emocionante que só ao pontapé. 

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Escreveste algum post novo?

Sim, há dias em que me apetece fugir para longe mas não tenho com quem, e gostava que me agradecessem só para variar, e queria que me reconhecessem as qualidades e o esforço para além de um "como é que tu consegues ter tudo pronto a horas?", e agradava-me não ter responsabilidades reais a juntar àquelas que não são minhas mas assumo. Sim, há dias em que a vida pesa mais um grama que o suportável, a gota de água entorna o copo e o grito fica preso na garganta, apetece chorar, desistir, espernear e o corpo não obedece, imóvel e mudo. Sim, há dias em que as injustiças de que somos alvo superam as de outras vítimas, em que a falta de tempo para parar, espreguiçar e alongar os músculos e a paciência nos tortura, e a esperança se eclipsa totalmente sem que o espetáculo valha a pena. Sim, há dias em que saio à rua tipo serial killer, imaginando maneiras sádicas e atrozes de matar seres cuja existência no meu mundo não faz o menor sentido, ratos de esgoto e baratas ascorosas. Sim, há dias em que as vozes formam um coro indefinido de exigências e cobranças, e o desagradável se avoluma, e me doem mais as mãos do que o costume, levo tempos infinitos em guerras com atacadores e botoões de jeans exatamente quando estou atrasada e os ponteiros do relógio correm em vez de se arrastar. Sim, há dias em que engulo pior, e parece que todo o meu sistema está contra mim, e me olho ao espelho e o cabelo está de meter medo, não tenho roupa que me fique bem, os meus olhos mal se veem de inchados que estão, quando nem me lembro da última vez que chorei alguma coisa que se visse. Sim, há dias em que a ausência dele dói mais, como se tivesse sido ontem que o vi pela última vez sem saber que seria a última vez, e ainda achava que tinha ganho a sorte grande e tudo iria ficar bem. Sim, há dias em que me apetece desancar quem me admira por coisas parvas sem saber que se me conhecesse, então, me punha num pedestal, me lavava os pés com água de rosas e passava o resto da vida a idolatrar-me e a fazer-me feliz. Sim, há dias em que o sol, os cigarros à noite, o café depois de almoço, as palavras de incentivo, as aulas bem dadas, os abraços dos amigos e o meu cão a dormir com uma pata possessiva sobre o meu joelho não chegam para me aquecer o espírito. Sim, há dias em que trato mal toda a gente só para ter desculpa para me sentir ainda pior comigo própria, para sentir o remorso e a culpa de forma acutilante o suficiente para ter a certeza de que estou viva para além das rotinas funcionais em que teimo embrenhar-me para fugir ao descalabro. Sim, há dias em que gostava mesmo muito de ter uma folga desta estupidez toda que me rodeia, que me penetra, que me contagia, que me impede de ir a Nova Iorque e de regressar a Veneza, que me empurra para a frente apesar de adiante a linha ser sempre curva e o meu percurso um círculo permanente. Sim, há dias desses. E são sempre dias com muito mais horas que os restantes, aqueles em que me arrasto sem questionar nada, e tudo é maquinal e automático e muito mais suportável.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Riam-se!

Ando há uns tempos sem escrever porque estou numa fase de destilar veneno e só me ocorre insultar gente. Ou a vida em geral. Por isso, deambulando pelos blogues de que gosto, encontrei isto, e é o que vou publicar. Antes isto, com esta qualidade, e com esta verdade, que as coisas deprimentes que me apetece gritar, revoltada, ao mundo. E seus arredores.

http://theoatmeal.com/comics/dog_paradox

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Isto promete...

Passamos tanto tempo na escola que já houve quem arranjasse uma cafeteira elétrica, há pessoas que levaram, para um armário, canecas, e há sempre quem leve saquinhos de chá e pacotes de açúcar para abastecer a "dispensa". Maçãs e bolachas vão aparecendo diariamente e, quando há reuniões, alguém desenrasca sempre "umas cenas" para o lanche.
Hoje à tarde, entrei na sala de professores e estava um colega meu de canequinha fumegante na mão. Eu, gulosa, dirijo-me a ele, "então, V. a beber um cházito?" Resposta pronta e imediata: "Não havia whisky!"

sábado, 20 de outubro de 2012

Animador

Ontem, ao jantar, um amigo meu dizia que estou completamente diferente. E que tinha sido exatamente isso que um amigo nosso comum lhe dissera há uns dias atrás. E, pasme-se!, não se referia ao meu corte de cabelo boyish.
Há meses, quase meio ano, que sinto essa diferença, nos acordares mais leves, na aceitação própria mais fácil, e nos desesperos (muito) mais espaçados. No modo como caminho pela rua, olho nos olhos das pessoas e até consigo sorrir sinceramente. Num jeito de ser tão, mas tão, mais meigo do que aquele que me acompanhou durante mais de metade da vida e pareço ter conseguido resgatar da infância e adolescência perdidas.
Todavia, durante esses meses, poucos foram os que comentaram ou se aperceberam. Houve até quem não entendesse por que motivo sórdido deixava eu tanto dinheiro no consultório do meu terapêuta. "Ainda andas nisso?". Nunca desmoralizei. Quanto mais não fosse, chorava naquele gabinete o que não chorava em mais lado nenhum, e dizia lá dentro coisas que evitava, sequer, pensar. Continua a ser uma hora sagrada e, sim, ainda ando nisso, e não, não tenho pressa de alcançar objetivos. Agora acredito na possibilidade do equilíbrio. 
Surpreendo-me a sonhar acordada com pessoas que não conheço e que possam estar a sonhar acordadas comigo. Continuo a achar que perdi alguém estupidamente, mas aceito e acarinho a ideia de que a estupidez, pelo menos nesta situação específica, não foi minha. Acredito que com ele é que era, que com ele é que poderia ter sido. Há momentos em que essa certeza me bate diretamente na alma como um raio, e a corta em dois como a uma árvore morta ainda de pé. Mas aprendi que as raízes debaixo da terra servem para alguma coisa, e essas são demasiado profundas para que seja possível arrancar-me àquilo a que me agarro, desde sempre. Dou comigo, finalmente, a tomar iniciativas, a adormecer quando me apetece sem culpas, a ligar para os meus amigos, a ir a espetáculos, a chatear a molécula aos meus colegas para organizarmos um jantar, a pegar no cão e fazer mais de duzentos quilómetros para ele ir ver a avó, a ler antes de adormecer, a dar aulas plenas de gritos e risos, sermões e regras de gramática, como gosto de fazer.
Dou comigo viva, e isso é animador.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

E ainda digo mais

Eu, que sou mesmo pacífica a sério, começo a achar que em vez de bater tachos e panelas, deviam pegar nelas e fazer pontaria às fuças dos idiotas que estão no poleiro. Se, só uma que fosse, acertasse no alvo, já era lucro. Por isso, nem quero pensar no que passa pela cabeça da malta dada à violência.

IRS

Não digo que vá fazer parte dos novos pobres, decididamente não vou. Muito se fala de pobreza, muito tenho visto na televisão, e dá-me asco saber que há representantes eleitos a dizer "agora querem que eu ande de Clio, não?". Esse devia ter sido imediatamente deitado num contentor de lixo e coberto de estrume à saída do Parlamento, grande imbecil.
Mas custa-me muito estarem a cobrar-me um disparate de impostos para pagar uma dívida que dizem pública, quando continua muita gente a roubar e a dar-se bem. Custa-me muito trabalhar para não me sobrar dinheiro ao fim do mês para absolutamente nada, e muitas vezes ter que ir levantar da poupança para pagar supermercado e contas fixas. Custa-me muito que se discutam aumentos para os parlamentares e se gastem milhares em carros topo de gama. Custa-me muito ser considerada pelos impostos quase rica, quando os meus jeans andam a ficar ruços e rasgados e não posso comprar outros porque foi mês de fazer mudança de óleo ao carro. Custou-me muito ouvir o ministro das finanças dizer que não há margem de manobra possível a não ser lixar, mais uma vez, os mesmos.

Cinco minutos

Hoje devia ter torcido um pé, ou marrado de cabeça contra uma parede, quando entrei na escola. Talvez assim não tivesse ido à Direção ter uma conversa de cinco minutos que deu cabo do meu bom humor para o resto da semana.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Ainda por cima...

... só me dá para reler coisas que me entristecem, e os bloggers de que mais gosto parecem meus pares em terapia de grupo para seres deprimidos. Todos por falta de amor, por secura cardíaca, por ceticismo crónico, já. 
E eu continuo na minha... um dia, hei de perceber, quando me der a epifania, por que razão a vida só me apresentou pessoas que não arriscam por amor. Mesmo quando as amarras não metem filhos à mistura, com que possam desculpar a cobardia de forma aceitável. E, principalmente, por que razão estou eu nos antípodas mentais dessas pessoas, e arrisco sempre tudo, para me espetar a grande velocidade num solo de betão armado e passar anos da minha vida em recuperação e gestão de danos.

Atropelada

Uma das minhas expressões favoritas quando me estão a chatear é "vai marrar com o comboio de Chelas!" Pois o comboio de Chelas decidiu vir marrar comigo. Ou assim parece. Que dia! Safou-se o jantar e o serão, com rojões e vinho tinto, "Herdade da Figueirinha", reserva de 2009. Mas se fosse vinho de mesa para temperar bifes também tinha marchado. Estou exausta.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Acentos gr´´aficos

Duas teclas do meu computador andam a gozar comigo. Carrego-lhes uma vez, e o resulltado ´´e a dobrar, como podem ver:`` ´´ ~~ ^^. Da´´i o t´´itulo est´´upido. Da´´i estas palavras est´´upidas. Ser´´a que andaram nos copos e eu ´´e que vejo a dobrar?
Assim n~~ao d´´a para escrever posts. E eu lamento. Tamb´´em n~~ao d´´a para trabalhar. Mas com isso posso eu bem.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Little big things

Hoje foi um dia bom porque alguém de quem gosto muito me disse que eu era valente. E que tinha perfil para ser diretora. Não tenho. Sei que não tenho e sei também que jamais terei, mas fiquei muito grata pela confiança. E vaidosa, também. Dado que a vaidade em mim é coisa rara, acabei por ter um dia muito sui generis, de uma leveza alegre a que não estou habituada e à qual, ainda assim, seria muito fácil habituar-me.
Ah, e fui jantar fora, comida chinesa. E não paguei o jantar, ofereceram-mo. 
Há dias muito pontuais em que sou alguém mesmo fácil de agradar.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Frio

Às vezes, aquilo que nos faz falta, torna-se o nosso Mundo inteiro.
Tenho alguma esperança que, no dia em que tenha que morrer, leve ao pescoço um enorme cachecol entretecido com os fios dos meus consolos. O cheiro da minha mãe, os sorrisos dos meus alunos, os abraços dos meus amigos, os olhos húmidos do meu cão, alguns beijos significativos. E que esse cachecol quentinho e macio me aqueça a alma na transição.
Porque hoje foi o primeiro dia, desde há muito, que tive frio ao sair da cama.
E porque tenho pena, e me faz falta, ter o amor da minha vida ao meu lado, e um filho parecido com ambos a fazer-me perguntas difíceis e birra por não querer comer legumes.
E porque, às vezes, aquilo que nos faz falta, se torna o nosso Mundo inteiro.  

domingo, 16 de setembro de 2012

Sobre a(s) manifestação(ões)

Hoje senti o peso de continuar lisboeta. Já estou no interior do país há mais de dez anos e, aos poucos, tenho-me transformado numa espécie de híbrido, com um alargado poder de encaixe aos costumes enraizados desta terra que me dá emprego.
Há muito que me desmarquei duma pseudoculpa inicial, em que tentava mudar as mentalidades de modo subtil ou tinha o cuidado extremo de não parecer arrogante aos olhos dos locais, na sua maioria, diga-se de passagem, sofredores de um orgulho no seu conservadorismo que tem mais de hipocrisia que de tradição. Deixei-me de andar sempre a pedir desculpa por ser diferente, por pensar de forma distinta, por agir de acordo com outros valores. E encontrei o meu lugar aqui, um pouco nas franjas, mas adaptada ao sítio e às gentes. Passo bem por conterrânea e já não é a primeira vez que surpreendo gente, que não me conhece, com um "sou de Lisboa".
Hoje, no entanto, sem companhia para a manifestação, via as notícias da minha terra pela televisão e resolvi dar um salto à daqui: já estava em pulgas com o meu espírito revolucionário em ebulição, e resolvi que queria que se lixasse a falta de alguém com quem partilhar a emoção dos gritos de protesto. Peguei no carro e em dois minutos estava no centro dos acontecimentos. Eu, e mais uma dúzia de gatos pingados! Ia-me dando uma coisa má. Telefonei a uma amiga, e passei o resto da tarde com ela, a resmungar contra o governo e a apatia desta terra. À noite, numa esplanada, soube que, afinal, a manifestação tinha estado muito composta, com centenas de pessoas na rua. E eu, quê? Então eu estive lá e só vi gente nas esplanadas! E ela, pois, eu estava na esplanada e vi-te, mas quando chegaste já tinha acabado há uns bons vinte minutos...
Ora eu cheguei às seis a uma manifestação que tinha sido agendada para as cinco. Fiquei de boca aberta. E ela então explicou-me que nesta terra "as pessoas são pontuais".
E eu calei-me, mas pensei "Na minha terra, uma manifestação que dure meia hora não é nada!".
Tenho saudades da luta contra a PGA, as propinas e a Avaliação Docente. A malta chegava a casa rouca e de rastos, depois de seis ou sete horas de pé e aos berros. Sou de Lisboa. Excuse Me.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Ahn?

É o segundo pedido, em coisa de um mês, para votar no trabalho de alguém para um concurso. Duas pessoas diferentes, dois trabalhos diferentes, dois concursos diferentes. Em comum: duas pessoas que eu ajudei, de quem fui amiga e que, se for preciso e dependendo da companhia com que estão, o mais provável é passarem por mim na rua e fingirem que não me veem. E eu penso... ahn?
Não foram certamente os dois trastes que se lembraram de me contactar a pedir o meu voto, qualquer um deles não tem espinha dorsal para se atrever a fazê-lo. Mas ainda assim, a minha vontade é sempre, mas sempre, votar no seu adversário mais direto.
Em tempos, teria votado na mesma, por achar que têm talento, que os trabalhos até são bons, ou porque gostei dos nossos tempos de convívio e gargalhadas e lhes admirei as qualidades. Houve tempos em que teria votado neles, anonimamente.
Hoje em dia, penso que, nesses tempos, era uma rematada idiota.
Não ajudo ninguém a pensar no que vou obter em troca. Mas aprendi a pagar na mesma moeda, se for possível, a desconsideração de quem me deixa na mão e entregue a mim mesma, quando preciso. É muito frequente isto acontecer, muito mais frequente do que lixarem-me a vida ostensivamente. Mas acho igualmente grave. Porque a atitude de quem olha para o lado quando se precisa de ajuda, no meu caso, vem sempre de alguém que, quando precisou de mim, contou comigo.
Posso afirmar, com toda a calma do Mundo, que não mexo uma palha para ajudar quem não merece. Também não prejudico... mas só porque me controlo, ainda me controlo, com a máxima de "nem esse trabalho mereces!"

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Sobre mulheres e palavras

Estou exausta. Parece que me passou um comboio por cima, fez marcha atrás (por acaso acho que os comboios não têm essa possibilidade, mas é para a imagem, permitam-me a liberdade (pouco) poética) e voltou a passar por cima de novo.
Dizem que as mulheres falam muito. Muito mais do que os homens. Algumas falam tanto que até as outras mulheres dizem "fulana não se cala um bocadinho, pá!".
Eu não sou normal. Tenho um colega de escola que diz que não percebe como sou solteira, já que sou uma benção de gaja que fala pouco, tem um timbre aceitável, um volume adequado e de manhã, então, nem abre o bico. É um facto. (Não que sou uma benção, mas que falo pouco, tenho zero de habilidade para conversas de circunstância e ice-breakers, e detesto que me façam perguntas de rajada, umas atrás das outras, que me chateiem logo pela manhã ou que entrem em monólogos intermináveis sobre assuntos que não me interessam nem levemente. O meu colega diz que é uma benção, o resto do mundo chama-lhe mau feitio.)
Como coordeno os diretores de turma da minha escola, e hoje reunimos pela primeira vez, tive que falar durante mais de uma hora. E parece que se me exauriu a paciência, e se me esgotou completamente a energia.
Cheguei a casa e disse à Mzinha "Não me leves a mal se falares comigo e não te responder". É que não me apetece ouvir ninguém, nem consigo concentrar-me num discurso com mais de três palavras. E muito menos falar. Estou com a minha interação verbal e social abaixo de zero. Devia ter nascido gajo.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Bom Ano, o camandro!

Hoje foi o dia em que a maior parte do corpo docente se apresentou ao serviço na minha escola. Corpo docente é uma hipérbole descarada. O corpo passou a ser esquelético, como o meu antes das dilatações. É um estafermo de um corpo reduzido a trinta tristes que vão ter que fazer o mesmo trabalho que antigamente era feito por quase cinquenta que, já assim, trabalhavam quase doze horas por dia na escola. E os escravos, ainda por cima, levam com a brilhante sentença "E muita sorte têm vocês por ter emprego", que justificará, em cabeças de inteligência reduzida e chico-espertice dilatada, tudo de mau que por aí venha.
Bom Ano, diziam as pessoas, com um sorriso, como se fosse dia de celebração, renovação de votos e listas de resoluções de ano novo, feitas por ingénuos ou atormentados por sentimentos de culpa de quem vive uma vida em que não se reconhece.
O meu dia de ano novo começou logo com o Chico às dez para as sete da manhã a chatear-me a corneta para, por volta das oito, me destruir em três segundos um par de havaianas que já duravam há uns seis ou sete anos. E como é que isso se faz? Perguntem ao meu cão, que em vez de se entreter a roer-lhes a sola (que a dona é abandalhada e andaria com elas assim mesmo) arrancou a uma delas -para quê ter trabalho? - o disco que suporta em baixo a ceninha de enfiar o dedo. Por falar em enfiar, quem lhe enfiou três ou quatro violentos chapadões no focinho satisfeito fui eu, que de manhã é que se começa o dia.
Furibunda que só visto, cheguei atrasada à boleia que tinha combinado para, fechada a porta do carro, me lembrar que a única coisa que deveria mesmo levar para a escola, a minha pen, ficara em casa. Azarecos. Não arrisquei voltar para trás e levar com uma mijadela ressabiada nas calças de ganga lavadinhas, já agora, para perder mais tempo a mudar de roupa e assassinar o cão.
E eu, que estive todas as santas férias sem dizer palavrões, coisa rara e nunca vista, já tinha dito e repetido toda a lista escabrosa dos que conheço quando cheguei à escola, onde toda a gente me desejou Bom Ano.
Primeiro pensamento instintivo da Jade: "Bom Ano, o caral*inho!"
Primeira reação ponderada pela Jade: Um chapadão nas trombas.
O que realmente aconteceu: Pausa. Sorriso. Pausa. "Bom Ano para ti também", rematando em silêncio "E vai p'ró caral*inho!"