quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Ainda por cima...

... só me dá para reler coisas que me entristecem, e os bloggers de que mais gosto parecem meus pares em terapia de grupo para seres deprimidos. Todos por falta de amor, por secura cardíaca, por ceticismo crónico, já. 
E eu continuo na minha... um dia, hei de perceber, quando me der a epifania, por que razão a vida só me apresentou pessoas que não arriscam por amor. Mesmo quando as amarras não metem filhos à mistura, com que possam desculpar a cobardia de forma aceitável. E, principalmente, por que razão estou eu nos antípodas mentais dessas pessoas, e arrisco sempre tudo, para me espetar a grande velocidade num solo de betão armado e passar anos da minha vida em recuperação e gestão de danos.

Atropelada

Uma das minhas expressões favoritas quando me estão a chatear é "vai marrar com o comboio de Chelas!" Pois o comboio de Chelas decidiu vir marrar comigo. Ou assim parece. Que dia! Safou-se o jantar e o serão, com rojões e vinho tinto, "Herdade da Figueirinha", reserva de 2009. Mas se fosse vinho de mesa para temperar bifes também tinha marchado. Estou exausta.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Acentos gr´´aficos

Duas teclas do meu computador andam a gozar comigo. Carrego-lhes uma vez, e o resulltado ´´e a dobrar, como podem ver:`` ´´ ~~ ^^. Da´´i o t´´itulo est´´upido. Da´´i estas palavras est´´upidas. Ser´´a que andaram nos copos e eu ´´e que vejo a dobrar?
Assim n~~ao d´´a para escrever posts. E eu lamento. Tamb´´em n~~ao d´´a para trabalhar. Mas com isso posso eu bem.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Little big things

Hoje foi um dia bom porque alguém de quem gosto muito me disse que eu era valente. E que tinha perfil para ser diretora. Não tenho. Sei que não tenho e sei também que jamais terei, mas fiquei muito grata pela confiança. E vaidosa, também. Dado que a vaidade em mim é coisa rara, acabei por ter um dia muito sui generis, de uma leveza alegre a que não estou habituada e à qual, ainda assim, seria muito fácil habituar-me.
Ah, e fui jantar fora, comida chinesa. E não paguei o jantar, ofereceram-mo. 
Há dias muito pontuais em que sou alguém mesmo fácil de agradar.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Frio

Às vezes, aquilo que nos faz falta, torna-se o nosso Mundo inteiro.
Tenho alguma esperança que, no dia em que tenha que morrer, leve ao pescoço um enorme cachecol entretecido com os fios dos meus consolos. O cheiro da minha mãe, os sorrisos dos meus alunos, os abraços dos meus amigos, os olhos húmidos do meu cão, alguns beijos significativos. E que esse cachecol quentinho e macio me aqueça a alma na transição.
Porque hoje foi o primeiro dia, desde há muito, que tive frio ao sair da cama.
E porque tenho pena, e me faz falta, ter o amor da minha vida ao meu lado, e um filho parecido com ambos a fazer-me perguntas difíceis e birra por não querer comer legumes.
E porque, às vezes, aquilo que nos faz falta, se torna o nosso Mundo inteiro.  

domingo, 16 de setembro de 2012

Sobre a(s) manifestação(ões)

Hoje senti o peso de continuar lisboeta. Já estou no interior do país há mais de dez anos e, aos poucos, tenho-me transformado numa espécie de híbrido, com um alargado poder de encaixe aos costumes enraizados desta terra que me dá emprego.
Há muito que me desmarquei duma pseudoculpa inicial, em que tentava mudar as mentalidades de modo subtil ou tinha o cuidado extremo de não parecer arrogante aos olhos dos locais, na sua maioria, diga-se de passagem, sofredores de um orgulho no seu conservadorismo que tem mais de hipocrisia que de tradição. Deixei-me de andar sempre a pedir desculpa por ser diferente, por pensar de forma distinta, por agir de acordo com outros valores. E encontrei o meu lugar aqui, um pouco nas franjas, mas adaptada ao sítio e às gentes. Passo bem por conterrânea e já não é a primeira vez que surpreendo gente, que não me conhece, com um "sou de Lisboa".
Hoje, no entanto, sem companhia para a manifestação, via as notícias da minha terra pela televisão e resolvi dar um salto à daqui: já estava em pulgas com o meu espírito revolucionário em ebulição, e resolvi que queria que se lixasse a falta de alguém com quem partilhar a emoção dos gritos de protesto. Peguei no carro e em dois minutos estava no centro dos acontecimentos. Eu, e mais uma dúzia de gatos pingados! Ia-me dando uma coisa má. Telefonei a uma amiga, e passei o resto da tarde com ela, a resmungar contra o governo e a apatia desta terra. À noite, numa esplanada, soube que, afinal, a manifestação tinha estado muito composta, com centenas de pessoas na rua. E eu, quê? Então eu estive lá e só vi gente nas esplanadas! E ela, pois, eu estava na esplanada e vi-te, mas quando chegaste já tinha acabado há uns bons vinte minutos...
Ora eu cheguei às seis a uma manifestação que tinha sido agendada para as cinco. Fiquei de boca aberta. E ela então explicou-me que nesta terra "as pessoas são pontuais".
E eu calei-me, mas pensei "Na minha terra, uma manifestação que dure meia hora não é nada!".
Tenho saudades da luta contra a PGA, as propinas e a Avaliação Docente. A malta chegava a casa rouca e de rastos, depois de seis ou sete horas de pé e aos berros. Sou de Lisboa. Excuse Me.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Ahn?

É o segundo pedido, em coisa de um mês, para votar no trabalho de alguém para um concurso. Duas pessoas diferentes, dois trabalhos diferentes, dois concursos diferentes. Em comum: duas pessoas que eu ajudei, de quem fui amiga e que, se for preciso e dependendo da companhia com que estão, o mais provável é passarem por mim na rua e fingirem que não me veem. E eu penso... ahn?
Não foram certamente os dois trastes que se lembraram de me contactar a pedir o meu voto, qualquer um deles não tem espinha dorsal para se atrever a fazê-lo. Mas ainda assim, a minha vontade é sempre, mas sempre, votar no seu adversário mais direto.
Em tempos, teria votado na mesma, por achar que têm talento, que os trabalhos até são bons, ou porque gostei dos nossos tempos de convívio e gargalhadas e lhes admirei as qualidades. Houve tempos em que teria votado neles, anonimamente.
Hoje em dia, penso que, nesses tempos, era uma rematada idiota.
Não ajudo ninguém a pensar no que vou obter em troca. Mas aprendi a pagar na mesma moeda, se for possível, a desconsideração de quem me deixa na mão e entregue a mim mesma, quando preciso. É muito frequente isto acontecer, muito mais frequente do que lixarem-me a vida ostensivamente. Mas acho igualmente grave. Porque a atitude de quem olha para o lado quando se precisa de ajuda, no meu caso, vem sempre de alguém que, quando precisou de mim, contou comigo.
Posso afirmar, com toda a calma do Mundo, que não mexo uma palha para ajudar quem não merece. Também não prejudico... mas só porque me controlo, ainda me controlo, com a máxima de "nem esse trabalho mereces!"

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Sobre mulheres e palavras

Estou exausta. Parece que me passou um comboio por cima, fez marcha atrás (por acaso acho que os comboios não têm essa possibilidade, mas é para a imagem, permitam-me a liberdade (pouco) poética) e voltou a passar por cima de novo.
Dizem que as mulheres falam muito. Muito mais do que os homens. Algumas falam tanto que até as outras mulheres dizem "fulana não se cala um bocadinho, pá!".
Eu não sou normal. Tenho um colega de escola que diz que não percebe como sou solteira, já que sou uma benção de gaja que fala pouco, tem um timbre aceitável, um volume adequado e de manhã, então, nem abre o bico. É um facto. (Não que sou uma benção, mas que falo pouco, tenho zero de habilidade para conversas de circunstância e ice-breakers, e detesto que me façam perguntas de rajada, umas atrás das outras, que me chateiem logo pela manhã ou que entrem em monólogos intermináveis sobre assuntos que não me interessam nem levemente. O meu colega diz que é uma benção, o resto do mundo chama-lhe mau feitio.)
Como coordeno os diretores de turma da minha escola, e hoje reunimos pela primeira vez, tive que falar durante mais de uma hora. E parece que se me exauriu a paciência, e se me esgotou completamente a energia.
Cheguei a casa e disse à Mzinha "Não me leves a mal se falares comigo e não te responder". É que não me apetece ouvir ninguém, nem consigo concentrar-me num discurso com mais de três palavras. E muito menos falar. Estou com a minha interação verbal e social abaixo de zero. Devia ter nascido gajo.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Bom Ano, o camandro!

Hoje foi o dia em que a maior parte do corpo docente se apresentou ao serviço na minha escola. Corpo docente é uma hipérbole descarada. O corpo passou a ser esquelético, como o meu antes das dilatações. É um estafermo de um corpo reduzido a trinta tristes que vão ter que fazer o mesmo trabalho que antigamente era feito por quase cinquenta que, já assim, trabalhavam quase doze horas por dia na escola. E os escravos, ainda por cima, levam com a brilhante sentença "E muita sorte têm vocês por ter emprego", que justificará, em cabeças de inteligência reduzida e chico-espertice dilatada, tudo de mau que por aí venha.
Bom Ano, diziam as pessoas, com um sorriso, como se fosse dia de celebração, renovação de votos e listas de resoluções de ano novo, feitas por ingénuos ou atormentados por sentimentos de culpa de quem vive uma vida em que não se reconhece.
O meu dia de ano novo começou logo com o Chico às dez para as sete da manhã a chatear-me a corneta para, por volta das oito, me destruir em três segundos um par de havaianas que já duravam há uns seis ou sete anos. E como é que isso se faz? Perguntem ao meu cão, que em vez de se entreter a roer-lhes a sola (que a dona é abandalhada e andaria com elas assim mesmo) arrancou a uma delas -para quê ter trabalho? - o disco que suporta em baixo a ceninha de enfiar o dedo. Por falar em enfiar, quem lhe enfiou três ou quatro violentos chapadões no focinho satisfeito fui eu, que de manhã é que se começa o dia.
Furibunda que só visto, cheguei atrasada à boleia que tinha combinado para, fechada a porta do carro, me lembrar que a única coisa que deveria mesmo levar para a escola, a minha pen, ficara em casa. Azarecos. Não arrisquei voltar para trás e levar com uma mijadela ressabiada nas calças de ganga lavadinhas, já agora, para perder mais tempo a mudar de roupa e assassinar o cão.
E eu, que estive todas as santas férias sem dizer palavrões, coisa rara e nunca vista, já tinha dito e repetido toda a lista escabrosa dos que conheço quando cheguei à escola, onde toda a gente me desejou Bom Ano.
Primeiro pensamento instintivo da Jade: "Bom Ano, o caral*inho!"
Primeira reação ponderada pela Jade: Um chapadão nas trombas.
O que realmente aconteceu: Pausa. Sorriso. Pausa. "Bom Ano para ti também", rematando em silêncio "E vai p'ró caral*inho!"

domingo, 2 de setembro de 2012

Arrancar Palavras a Ferros

Esta coisa do escrever tem muito que se lhe diga, e quando alguém, a referir-se às artes, falou em 10% inspiration, 90% perspiration, teria alguma razão. É verdade que alguns de nós nascem com jeitinho para encontrar palavras próximas daquilo que querem exprimir, e durante a sua formação, por interesse ou por destino e às vezes por maldição, aprendem e aperfeiçoam técnicas de escrita, dominam regras e convenções e acabam por conseguir escrever textos que mobilizam os outros e os fazem sentir, reconhecer-se, pensar.
Sou, sem sombra de dúvidas, uma dessas pessoas, e estou grata por isso, mas a verdade é que tenho muita dificuldade em arranjar assunto, dado que eu própria me sinto um pouco cansada de escrever sempre sobre as mesmas coisas, e sempre no mesmo tom, intimista e confessional.
Sou muito exigente comigo própria. Leio mais de meia dúzia de blogues com regularidade, não me canso nada deles e, sejamos honestos, os autores não inovam em assunto por aí além. Uns são sobre moda, outros sobre educação, e um ou dois sobre a vida privada e quotidiana dos seus autores, como o meu.
Acontece que eu estou sempre convencida de que a vida dos outros é mais interessante de ler que a minha, e tenho fases em que se passam semanas que eu considero não serem dignas de posts, mesmo dos fraquinhos.
Ultimamente, durante as férias de Verão, houve várias coisas a acontecer, várias coisas que me marcaram, mas aí, em sobra de motivos importantes sobre os quais dissertar, faltaram as palavras. Mentalmente, e com frequência durante aquele limbo entre o adormecer e o estado de vigília absoluta, tentei construir frases, como se de um puzzle de palavras se tratasse, mas a verdade é que continuo sem o mínimo jeito e paciência para montar algo que faça sentido a partir de milhares de peças com infinitas combinações possíveis e desesperantes por pequenas, por desencontradas. Scattered.
Acontece que a escrita é uma das raras coisas que eu levo realmente muito a sério, que me completam e me satisfazem, me consolam e me seduzem. Por isso, hoje, resolvi que sem assunto nem imaginação, teria que escrever aqui qualquer coisa, para dar uso à técnica, praticar a linguagem e desenferrujar dedos e teclado. Dar descanso ao rato, que uso maquinalmente para me alienar em jogos enquanto viajo por outras paragens longínquas de estados de alma mais ou menos sombrios.
Então lembrei-me de uma conversa recente, em que uma amiga me dizia que quando está no fundo do poço, mesmo no fundo, o que não acontece assim com tanta frequência, apesar da tendência humana para sermos todos um bocadinho drama queens, faz listas de coisas que gostaria muito de fazer e começa a fazê-las. Coisas parvas, coisas úteis e life-changers.
Não vou fazer essa lista agora nem aqui, nem me encontro no fundo de um poço, nem me parece que, de momento, precise de listas de a-fazer, para além das que a partir de amanhã me vão inundar a agenda, o espírito, e as enzimas do stress.
Por isso, vou deixar umas palavras sobre o que seria uma lista de "feitos", se disso se tratasse, mas tirando à palavra a conotação de "grandes e importantes conquistas".
Experiências. Novas, renovadas, recuperadas, felizes, infelizes.
Subi, pela primeira vez, a um farol e não pude deixar de me lembrar d'As Aventuras dos Cinco, que o meu avô me lia baixinho para eu adormecer e tinham o efeito contrário. Comi pela primeira vez "Tripa" na praia da Bairra, e achei, pela primeira vez, que algo era doce demais para mim. Conduzi, pela primeira vez, um SAAB, uma banheira monstruosa de carro sem um risco e um grão de pó, numa aflição do arco da velha, e consegui não bater em nada, apesar de ser na Lisboa em hora de ponta. Vi, pela primeira vez, um bom amigo ir-se numa cama de hospital, com um cancro daqueles que nos habituamos a ver em personagens de filmes e julgamos, ou convencemo-nos, que não passam de ficção. Estive numa sala de quimioterapia e fiquei com a certeza absoluta de que o meu voluntariado de eleição seria junto de crianças a passar por este tratamento infame, mas tão importante. Dediquei muito mais tempo a estar com os meus amigos e família, e descobri uma primita chamada Joana, que bem poderia ser a minha Joana, de tão singular criatura que é. Cortei, pela primeira vez, o cabelo à rapaz por iniciativa própria, e a maturidade trouxe-me alguma satisfação pessoal com a imagem do espelho, que considero isenta de todo e qualquer sex-appeal, e ainda assim, agradável, talvez porque esteja mesmo convencida que os meus dias acompanhada por um homem que me faça sentir algo mais que uma bonita amizade, are over. Deixei-me comover e chorei no meio de um concerto com milhares de pessoas à volta, porque no fundo tenho pena de não ter sido talhada para ser feliz aos amores, e por ter perdido pessoas, física e metaforicamente, que sei que não vou recuperar. Conduzi centenas de quilómetros por achar que era mais útil noutro lugar, ou para acompanhar gente que precisava de mim. Tentei com todas as forças fazer os trabalhos de casa que o DOC me marcou, mas tive pouco sucesso, fruto das circunstâncias e de um feitio doentio que me cobra sempre muito mais do que posso pagar. Mexi-me do meu espaço para estar com pessoas que mereciam o esforço enorme para combater a inércia, e valeu sempre a pena. Vi o meu cão crescer e, embora nada fosse o que eu esperava, nem amor à primeira vista, nem à milésima, e muito menos mútuo, começo a ter uma relação com ele de alguma proximidade. Senti, por diversas vezes, crescer o respeito que tenho por mim própria e pelo que sou capaz de fazer. Senti, também, crescer os níveis de aceitação pelos meus limites, descobrindo que não são mais estreitos que os do resto do mundo, e que tenho mais resistência do que pensava ter, se encarar as vicissitudes da vida sem achar que o universo conspira contra mim.
Bem vistas as coisas, o saldo é positivo, e sempre consegui desencantar um texto de uma página em branco e uma alma cheia de nada.
 

domingo, 12 de agosto de 2012

Fujam do Hospital d'Os Lusíadas

Não há palavras para descrever os últimos dias. Tenho um amigo de longa data a morrer de cancro no Hospital d'Os Lusíadas, onde a família está a pagar pelo menos 250 euros por dia para lhe dar o máximo de conforto e cuidados, e alguma dignidade na hora da partida quando, de facto, está a ser tratado abaixo de cão, não é alimentado convenientemente porque "arranca os tubos", não é higienizado corretamente porque "tem muita força", não é medicado convenientemente porque "outra merda de desculpa qualquer", cai da cama três ou quatro vezes por noite porque "não pode ser amarrado, é muito novo e está muito lúcido" embora não reconheça a filha a maior parte do tempo.
No entanto, foram estes mesmos profissionais de saúde que esconderam à família que, em consultas ambulatórias era nítido que ele constituía um perigo para si mesmo e os outros e o deixaram ir para casa, a conduzir, com a locomoção muitíssimo comprometida, desidratado e cheio de metásteses no fígado. Foram estes profissionais de saúde que tiveram que ser obrigados aos gritos a interná-lo e agora dizem à família "Vá passear que está um lindo dia de sol, descanse, não era isso que queria?".
Podemos todos ser vítimas de azar. Mas estes azares não deviam existir num país democrático em pleno século XXI.

sábado, 21 de julho de 2012

Back to life, back to reality

Passou.
Foi muito triste, é sempre um pouco mais triste, de cada vez que me vejo reduzida a um corpo frágil transferido de uma maca para uma cama de hospital, onde as enfermeiras desfilam para me tirar a tensão, me picar as veias (a minha mãe horrorizada, prestes a bater na que me enfiou o cateter do soro, "eu vou-lhe ao focinho", rosnou quando a gaja virou costas, "tu és tão forte e estás com cara de quem está cheia de dores, eu juro que a esgano"), me perguntar pela enésima vez se estou bem, se tenho dores, se estou tonta.
Desta vez a minha mãe esteve comigo, e foi reconfortante, por um lado, e muito pior, por outro. Sei bem o que digo, quando teimo com toda a gente que quero passar por tudo sozinha, o inferno é a triplicar quando se vê quem nos ama a sofrer.
No ano passado, a coisa correu melhor, sem assistência. A solidão é avassaladora, mas eu sabia que estavam comigo, pelos telefonemas e as mensagens - houve até quem ligasse para o hospital a saber de mim... pessoa essa que, este ano, já não esteve: a minha vida tem destas ironias trágicas.Mas tem também coisas muito boas. Há amigos que, desde que o são, estão sempre.
Há um ser especial que conheci graças a este blogue, que está sempre.
Está.
Sempre.
E ainda assim, escreve,

"Hoje, como muitas vezes – bem sabes, não me fazes falta para estar. Faz-me sim, falta que esta distância toda não a fosse. Faz-me falta estar por perto. Passar no hospital a dar um abraço e desejar boa sorte antes da operação. E passar de novo mais logo a saber como correu, talvez não por ti, mas pelos teus. E deixar-te um ramo de flores, como fazem os melhores dos amigos.
Não estou. Não sei. Nem sei quem sabe. Mas lembrei-me de ti toda a tarde…. E de te ter dito certo dia que ninguém escolhe ser teu amigo. Se fosse escolha, jamais escolheria toda esta preocupação. Mas é algo tão natural… gostar de ti. Que nem a tua doença evita ou afasta. Por isso, hoje, diz ao médico que tenha cuidado contigo, avisa-o que a sorte te deu um corpo demasiado frágil para todos os amigos que carregas dentro dele. E que somos muitos os que ficam do lado de cá à tua espera. Hoje e sempre.
Quando à tua doença, diz-lhe que tirando estes 3 dias por ano nunca lhe vou dar confiança. This isn't everything you are."

A ti, a única coisa que posso responder, gratíssima pela tua amizade é "quem me dera que todos não estivessem como tu não estás."
Receber um ramo de flores em casa, no dia em que saí do hospital, foi de uma ternura que me custa a engolir, por mais dilatações que faça: não passa no nó na garganta. Beijos

terça-feira, 17 de julho de 2012

Vou ali já venho...

...de fim-de-semana prolongado. Num hotel  de cinco estrelas com tudo pago, incluindo anestesia geral.
(suspiro)
É a vida que temos, e temos pena.

sábado, 14 de julho de 2012

Sem Título

Hoje foi um dia mau.
Um dia mau com um bom momento, aquele em que soube que uma amiga minha me mandou os Magic Beans do Harry Potter, trazidos diretamente de Orlando e partilhados desinteressada e generosamente comigo. Sem ainda os ter provado, psicologicamente comi dois ou três de vómito e de cera das orelhas.
Vim de Lisboa muito cedo, para uma reunião de Departamento. Não vinha muito sossegada nem muito feliz, que as novidades do médico não foram animadoras, embora, diga-se a bem da verdade que, a partir do momento em que ponho um ponto final no meu mal-estar e resolvo agir e passar pelo pesadelo todo de novo, a indiferença abate-se sobre mim como uma couraça, e nenhuma novidade é levada com a marretada emocional que se esperaria.
Ontem chorei no médico, mais por cansaço que por desespero, e ele aconselhou-me a procurar um psiquiatra: o DOC vai rir-se com esta. Mas quando soube que eu ando em terapia há ano e meio, o meu médico de sempre não se riu. Fez um ar muito preocupado, e quase blasfemou contra a direção da minha escola e a minha falta de assertividade. "Mas porque te metes tu em tantos cargos?" Todos os médicos que me acompanham me tratam por tu, este, porque me conhece doente há mais anos dos que os que tinha quando o procurei pela primeira vez.
É difícil alguém que está fora do ensino, como ele está agora, entender. Lá lhe expliquei que não só não me metia como não os podia recusar. Disse-me que não sou deficiente mas também não sou normal, e que a minha doença exige tempo para descanso. Só me deu vontade de rir, entre lágrimas e no meio do pânico que é o atual sistema não deixar ninguém descansar, quanto mais eu, numa escola pequena, com uma direção que não me grama mesmo nada.
Ainda assim, lá vim eu, picar o ponto, passar a manhã na reunião de departamento e a tarde a organizar o que falta para a reunião de EFAs.
Na reunião de departamento, assisti a mais uma cena triste daquelas em que quando a bronca estoira, a culpa é deitada para cima do mexilhão. Fiquei pôdre. Mas será que é assim tão dificil assumir culpas, erros, dizer "epá, bolas, não sou perfeita e meti o pé na poça, sei que agora não há remédio, mas desculpem lá, sou humana". Perco o respeito todo pelos meus congéneres humanos, os cobardes, que atiram para cima dos do lado responsabilidades que lhe cabem, só porque sim, porque podem e porque o dizem com convicção suficiente para não serem contestados.
E depois veio a auto-avaliação do departamento e a coordenadora não quis que ninguém se pronunciasse sobre o que está mal, "não acredito em exorcismos", disse, numa ironia clara à diretora que pediu noutra reunião que exorcisássemos tudo o que correu mal num dado projeto de escola.
E eu, que raramente estou de acordo com a direção, desta vez tive pena. Porque para evitar discussões e palavras mais agrestes, recorreu à hipocrisisa de quem acha que, se os alunos avaliaram os professores do departamento com notas altas, é porque somos perfeitos. Não somos, não sou, e há tanto para dizer sobre o que poderíamos fazer melhor se não fôssemos uma cambada de hipócritas que só estão bem a roer os tornozelos uns dos outros, quando os apanham de costas...
E depois fui falar com a minha diretora, por causa do que o médico disse, e ela foi impecável. Disse-me taxativamente o que me esperava para o ano, e acrescentou que me gostava de ter na escola mas que se quisesse concorrer, a saúde vinha primeiro. Decidi quase imediatamente ficar.
Para acabar o dia em grande, um dos meus melhores amigos foi mandado a mobilidade por valores mais altos se levantarem. Não tenho muitos amigos e homens ainda menos. Depois de falar com ele ao telefone, fiquei a saber mais, e menos irritada mas, ainda assim, vai fazer-me uma falta imensa. Pelo menos sei que, a mudar, será sempre para melhor.
Fui à minha escola antiga procurar consolo e não o encontrei. Tudo tinha planos para hoje à noite e, aqui sozinha com o Chico, resolvi que, não duvidando da amizade de ninguém, o meu lugar é, sem dúvida, onde estou.
Feitas as contas, no dia de hoje, vi bem quem se preocupa, quem está, quem quer saber, quem tem tempo para uma palavra, um carinho e um conforto: venha ele de um telefonema de Aveiro, de uns doces que ainda não chegaram de Vila Real ou de uma mensagem privada no facebook à qual não respondi por nem saber o que dizer.
Ah, e hoje (ou terá sido ontem? já nem sei), escreveram-me uma frase que ficou tatuada no meu ventrículo esquerdo "tem cuidado contigo que a sorte deu-te um corpo demasiado frágil para todos os amigos que carregas dentro dele". Não são muitos, mas são irrepreensíveis. E, à medida que o ciclo se repete, poucos são os que se mantêm, uns deixam de estar e outros passam a estar, sendo o saldo sempre, mas sempre, positivo, porque só faz falta quem... isso.

sábado, 7 de julho de 2012

Therapy and Love

Numa troca de mensagens privadas no facebook, às tantas uma amiga pergunta-me como estou em relação a determinada pessoa do meu passado, visto andar em terapia há um tempo já razoável. Respondi: "continuo a gostar dele e a achar que era the one. sinto-lhe a falta todos os dias. a terapia só ajuda a cabeça, não faz muito pelo coração. aprendi a viver com isso. e a achar que a minha vida sentimental encerrou (...) e ainda assim achar que mesmo assim, a vida continua, com o resto das coisas boas que pode ter. anyway, ainda há muito mundo para ver, muitos amigos para beber café, muitas séries de culto para nos apaixonar, muitos livros por ler".
Há dias em que acredito mesmo nisto, há outros em que nem tanto. Mas o equilíbrio é saudável, e embora o DOC ache que este ceticismo só faz sentido numa suicidária, eu acho que, se a vida se resumisse a um grande amor, o problema da sobrepopulação mundial estaria resolvido e não haveria já muitas árvores sem pessoas penduradas pelo pescoço.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Para o Doc

Informação inter-sessões: já falei com o médico. Já fumei o meu último cigarro. Tenho um futuro próximo de exames muito desagradáveis para fazer. Vale a pena cuidar de mim? Ou seria melhor ficar passivamente à espera que alguém cuidasse e definhar assim? Fique sabendo que preferia esperar a estar na angústia que estou agora. E que detesto tomar sempre as decisões acertadas, ainda que tarde e a más horas. Detesto.

Por causa do comentário da Shadow

Acrescento que, à medida que no Facebook os meus amigos vão colocando fotos novas, me apercebo que ninguém me fotografa, nem eu me deixo fotografar, há muitos meses. Porque não tenho vida social ou momentos inesquecíveis. (os que tive também não foram fotografados, e lamento isso todos os dias). E porque, como dizia alguém que ficou enterrado num passado bem distante, não há fotografias que nos favoreçam mais que aquelas que são tiradas por quem nos ama.