Todo o sentimento de revolta pressupõe uma noção muito forte de injustiça. Quando alguém se revolta contra a vida, tem que acreditar que a existência dá na mesma medida do esforço que se investe nela, no esforço de fazer as coisas corretamente, de ser alguém íntegro, generoso, solidário, tolerante, isto tudo apesar dos interesses, das ambições, dos desejos e dos sonhos.
Eu não faço parte desse grupo, dos que acreditam na justiça divina ou cósmica, que paga em sorte e saúde as boas ações de cada um.
Por isso não compreendo a minha sensação de revolta, a que me acompanha há dias seguidos, me amarga o espírito e me faz estar em constante desespero. Não me percebo, sinceramente.
Ando há dias cheia de dores, é verdade. É também compreensível que uma pessoa, por mais tolerante à dor que seja, esteja exausta e mal-humorada, sem paciência e pouco sorridente, a passar pelo que eu estou a passar, e que não é novidade, sejamos honestos.
O que não é aceitável é que tudo isto me ande a consumir a alma com sentimentos de "não é justo, estou farta disto, não mereço estas coisas", como se o merecimento algo tivesse a ver com os nossos infortúnios. Não há nada, porém, que seja mais verdade, que o facto de esta revolta se estar a avolumar tipo bola de neve a contaminar todos os setores da minha existência.
Estou revoltada contra a saúde, a profissão e o amor, num tudo-em-um que me sufoca com dedos transparentes e implacáveis, permanentemente fechados à volta do pescoço.
Ia eu hoje para uma reunião na escola, mais ou menos bem disposta, apesar de tudo, quando ouço o Pedro Abrunhosa com o seu sotaque do demónio a cantar "não desistas de mim" e, num flash, os últimos dezoito meses desaparecem e levo um murro no estômago que me tira o ar e me traz lágrimas em cascata cara abaixo: a mesma dor, o mesmo desespero, a mesma solidão, a mesma mágoa; tudo igual, durante longos minutos que pareceram a eternidade inteira, e a vontade quase irresistível de atirar o carro contra um sobreiro. E o quase lixa tudo, porque a coragem é nenhuma e parece que continuar a viver é um dado adquirido pelos genes, embora seja uma opção inútil e masoquista.
Ontem dizia ao DOC que ainda vou ser a primeira paciente dele a descobrir em terapia que o melhor é matar-se, embora saiba que tal não vai acontecer. Mas, se calhar, é mesmo inevitável tornar-me uma pessoa revoltada e irascível, verdadeiramente de mal com a vida, como todos acham que eu sou e, na verdade, nunca fui: houve sempre uma enorme parte do meu coração salvaguardada por uma quantidade muito saudável de ternura e sentido de humor, uma parte que de repente desapareceu, não existe mais.
E o facto de me encontrar mais uma vez doente, sem o amor que julgava pertencer-me por direito divino e humano, numa escola em que jamais verei qualquer tipo de mérito reconhecido pelas chefias, e sem hipóteses de mudança em qualquer uma das áreas referidas, faz-me achar, sinceramente, que não há rumo, nem sentido, em nada do que faça.
