quarta-feira, 23 de maio de 2012

Status do Gmail

"Feeling So Stupid"
In fact.
Ando numa daquelas semanas em que só sinto coisas parvas, só digo coisas parvas e só penso em parvoeiras.
E ando numa daquelas semanas em que toda a gente me cobra os atrasos no trabalho que não consigo ter pronto a tempo, porque não me consigo concentrar nem produzir durante um período de tempo razoável, que dirá suficiente.
E ando numa daquelas semanas em que me sinto um vulcão a entrar em erupção, e a minha consciênciia despeja baldes de água infinitos sobre os demónios das brasas e das chamas.
E ando numa daquelas semanas em que a minha cara é de fugir, mas só sou verdadeiramente insuportável comigo mesma.
Estou tão farta de cometer sempre os mesmos erros, por mais que tente cometer uns diferentes. Estou tão farta de ter que ir para a escola quando tudo o que me apetece é enfiar-me num buraco escuro e dormir, descansar, esperar que passe.


terça-feira, 15 de maio de 2012

Também os há assim

Dias em que te levantas inexplicavelmente bem disposta.
Toda a gente se queixou que os putos hoje estiveram impossíveis mas eu, caladinha, que não o confessei a ninguém, senti na pele que, vá lá saber-se porquê, também me andou, todo o santo dia, a fugir o espírito para a asneira. Tivesse eu tido uma tentação do demónio e tinha sido menina para passar a tarde em dolce fare niente, numa esplanada a beber uns belos copázios de algo fresco e, de preferência, alcoólico: é que me estava mesmo, mesmo, a apetecer uma companhia divertida e uns momentos de relax e disparate.
Como Deus protege os audazes, não houve tentação, e em vez disso tive uma reunião de Pedagógico e vim direta para casa, onde considero seriamente ir dormir uma sestinha antes de me agarrar à correção de testes. Antes assim, que hoje estou em modo de pura da loucura, o que costuma ter resultados tão agradáveis quanto catastróficos...

domingo, 13 de maio de 2012

Where the stories come from

Infelizmente para o meu cão e todos os serial killers desta cidade, não sou bicho de rotinas. Sou bicho de impulsos. Gosto de rotinas, é verdade, mas não consigo manter nenhuma, com grande pena minha: não como a horas, não me levanto nem deito a horas, não trabalho a horas, enfim, sou uma grande desorganizada e, ainda assim, o meu DOC diz que me organizo muito bem, dado o meu feitio e as minhas circunstâncias. No entanto, continuo a achar que sou um caos, especialmente quando se trata de combinar coisas, nem que seja para essa mesma tarde, desse mesmo dia. Nunca sei qual a veneta que me vai dar, ou o fogo que terei que apagar.
Hoje tinha planeado ir ao supermercado pela fresca da manhã, e já só fui pela fresca da tarde. Gosto de ir ao supermercado quando está quase vazio, porque há lá perto um café onde aprecio sentar-me sozinha a beber a minha meia de leite, rodeada de velhas cuscas por todos os lados. As tipas, que me olharam desconfiadas das primeiras vezes que lá me viram entrar, já se habituaram à minha presença domingueira. Devem lá passar o dia, que as vejo lá sempre, seja a que horas me dê na cartola dar às caras.
A Alice Vieira disse, há pouco tempo, no Câmara Clara, que quando escrevia crónicas semanais e lhe dava uma branca, ia ao café e dizia "vou à rua buscar uma história". Posso enganar todos os serial killers desta cidade, mas jamais trocarei as voltas às velhas cuscas. E trago sempre histórias. Da vida dos outros, claro está. E de adultério, de preferência. Hoje soube de uma determinada senhora a quem pagam a renda e dão vinte euros ao dia. Isto apesar da dita ter um emprego, e de quem paga as contas ter uma mulher. Por enquanto. Ao que parece a legítima descobriu, está armada a escandaleira, o tipo foi corrido de casa com uma mão à frente e outra atrás e... a outra, agora, sem renda e sem vinte euros, ainda tem que o gramar lá em casa. Isto há coisas mesmo injustas!

Apontamento

Não sei o que se passou, e ao que parece ninguém sabe. A notícia já me chegou tarde, via blogger amiga, e recebi-a com incredulidade: tive, mesmo, que ir ler notícias de há uns dias atrás para que me descesse a crueza da realidade. Soube ontem, e fiquei com uma sensação desconfortável, de perda triste. Não como se o conhecesse, mas como se lhe devesse alguma coisa que nunca poderia retribuir, mesmo que ele vivesse ainda, e por muito tempo. Obrigada, Sassetti, por teres sido dos poucos artistas que me fizeram sair de casa para um espetáculo, quando tudo eram sombras na minha vida, e ficar feliz por tê-lo feito, em vez de me arrepender, como tantas outras vezes aconteceu.

Sunday sem Sundaes

Como sou muito procrastinadora, vai para anos que os domingos são, para mim, dias de trabalho. De há umas semanas para cá são dias de trabalho muito rentável, que a criança acorda-me às seis e meia da manhã e só sossega quando me passa o sono de vez, por volta das onze. Por esta hora, hoje, já tenho uma turma de testes vista, roupa a secar e loiça lavadinha, para além de dois passeios e muita brincadeira no lombo.
Apesar de me custar muito, os passeios antes das sete da manhã são os meus favoritos. Disfruto do fresco e do silêncio. O último passeio da noite, por vezes, deprime-me: vocês não fazem ideia do que é passear num bairro vazio e ouvir gente a discutir dentro de casa, crianças a chorar, adultos a resmungar. Parece que a noite acorda todos os fantasmas e desperta todas as tensões. Pergunto-me se este país não estará, mesmo, à beira de um ataque de nervos.
Esperei muito pelo homem que julgava ser para mim. Muito mais do que era suposto, esperei muito tempo após ele se ter ido de vez, e muito tempo depois de me convencer disso, o que só por si não foi de um dia para o outro. Depois, esperei mais tempo por um homem indefinido, sem face. Não por um qualquer, mas por um que me fosse suficiente. O suficiente não é, nunca, o bastante.
Agora, ao deambular pelas ruas à luz da lua, ouvindo sem querer as vozes exaltadas dentro de tantas casas, o bastante existe para mim. Sempre disse que quero é paz e sossego e, finalmente, acredito nas minhas próprias palavras. Há muito tempo que não me sinto só. E isso, para mim, é muito mais que suficiente, por isso, basta-me.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Trouble Maker, Trouble Solver

Sou um prodígio a meter-me em encrencas, nas chamadas fases Murphy. Fases em que tudo o que há para correr mal, corre mesmo. Sempre coisas sem gravidade, mas encadeadas umas nas outras, como as cerejas, e que, ao fim de um dia de trabalho, levam uma pessoa como eu ao desespero.
Hoje comemorava mentalmente o facto do meu horário marcado ter sido cumprido, e conseguir estar em casa a horas normais. Ainda bem que não gastei dinheiro em foguetes: depois de passear com o Chico, ia sentar-me ao computador e... tinha deixado o cabo do dito na escola. Ora a bateria já morreu vai para dois anos. Para ajudar à festa, o meu telemóvel está sem saldo, logo não havia hipotese de pedir a alguém que ainda lá estivesse para mo trazer.
Conformada com o facto de ter que fazer mais 40Km estupidamente, mal fecho a porta de casa, dou pela falta da chave da mesma. Tal não seria grave se a Mzinha não desse aulas hoje à noite. Bendito Facebook. Lá a consegui contactar de um dos computadores da escola e, felizmente, uma das colegas dela que mora na mesma cidade que nós ainda lá estava e trouxe-ma. Nisto se foi uma hora e meia da minha vida e toda a restante paciência que ainda sobrava. Isto porque, apesar de até nem ter corrido mal, e para ajudar à festa que já era de arromba, nos entretantos ainda levei com uma daquelas pessoas que não se tocam (toda a gente conhece alguém assim, e eu conheço várias, e normalmente aturo-as com delicadeza e paciência de Job), e aproveitam qualquer coisa que alguém diga para estarem tempos infinitos em monólogos infindáveis sobre a sua própria vida e as suas próprias experiências, que são sempre piores ou mais interessantes que as do resto do mundo. Se não fosse uma alma caridosa oferecer-me um cigarro, acho que desta vez teria sido mesmo desagradável. Com o cigarro, em vez de me dar a travadinha, entrei em modo passivo-agressivo e desliguei.  Quando houve uma pausa no discurso, pirei-me da escola, recuperei a chave e agora, já em casa, considero a hipótese de ir respirar para dentro de um saco de papel.
Não há dúvida, contudo, que "practice makes perfect", e estou cada vez melhor e mais prática na resolução de problemas. Embora depois continue a precisar de me lamentar e de resmungar. Mesmo que seja por este meio e, cada vez menos, ao vivo e a cores.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Dois curtos apontamentos

... sobre o dia de hoje.
1 - À escala a que o Chico está a desenvolver um ódio visceral por todos os seres alados, no dia em que o meu Anjo da Guarda resolver, finalmente, aparecer para trabalhar, vai apanhar o cagaço de uma vida.

2- Depois da semana infernal que foi a última, hoje passei uma tarde que seria "livre" na escola, a trabalhar. Percebo agora o ar desanimado dos alunos quando eu insisto em escolher os membros dos grupos de trabalho, a fim de os equilibrar: é muito, mas muito, melhor trabalhar com pessoas de quem se gosta. A tarde passou-se razoavelmente bem graças aos meus dois companheiros de equipas que, convenhamos, o trabalho em si era daqueles tão aborrecidos quanto inúteis.

Adenda: O Chico ficou dez horas sozinho. Ainda está a recuperar do choque que foi ver-me entrar em casa. Não sei se de alegria ou de profunda revolta desapontada, esteve uns dez minutos a saltar-me ao pescoço (mmmm... à jugular?). Fomos à rua tomar duche, depois sequei-nos a secador e à vez, e agora, enquanto bebo um galãozinho quente, ele está aqui aos meus pés, a fingir-se de morto. (sim, que eu vejo-lhe o esterno peludo a mexer: pensam que não fui verificar?)

sábado, 5 de maio de 2012

A frio

Agora, quase uma semana passada sobre o assunto, vou finalmente pronunciar-me sobre ele, não porque lhe tenha dado mais importância do que merece, mas porque gerou certas considerações filosóficas da minha parte, umas sobre mim, outras sobre a condição humana.
Determinado "senhor", por motivos que são alheios ao caso, insultou-me e conseguiu mesmo ofender-me, quer oral e pessoalmente, quer por escrito. É pessoa que está excluidíssima do meu mundo, se excetuarmos a vertente profissional havendo, também aí, várias opções de diálogo.
Entre outros mimos, disse-me duas coisas que eu acho serem espelho de uma idiotia que anteriormente não lhe atribuía. E têm ambas a ver com a minha forma de estar e a minha forma de comunicar, a nível formal e informal.
Formalmente, em contexto profissional, diz que eu sou "uma boca aberta", que digo tudo o que me vem à cabeça, que isso só me prejudica, que ainda "não aprendi a calar-me". Diz isto porque é um cobarde e acha que dizer o que se pensa e ser contra as chefias, mesmo quando as chefias estão erradas e os nossos argumentos são válidós é "não saber estar calada". Temos pena, mas temos o complexo de Joana D'Arc. Lá na escola, toda a gente sabe que este senhor deixa os tintins à porta da escola e à porta de casa. Toda a gente sabe, e toda a gente comenta. Nas costas dele, bem visto. Quem nasceu para ser capacho acha que a honestidade é falha de caráter e de boas maneiras. Nasceu para ser subserviente. Tenho imenso respeito pelas hierarquias e enorme lealdade às chefias, o meu próprio terapêuta acha que são caraterísticas quase excessivas da minha personalidade. Mas tenho muito mais respeito e lealdade aos meus princípios e, no caso de ter opiniões formadas sobre determinado assunto, exponho-as, doa a quem doer. E quando dói, é comum que o povo ache que são fruto de impulsividade, simplesmente porque ninguém no seu juízo perfeito discorda abertamente de ditadores vingativos. Posso não estar no meu juízo perfeito, mas considero que não tenho nada que aprender, neste domínio. Os outros é que têm que deixar de ser hipócritas e fazer crescer uma espinha dorsal.
Informalmente, em contexto familiar, disse-me que o meu vocabulário não é "próprio de uma senhora". De facto, não é. Felizmente, há características bem mais importantes que definem uma senhora do que o seu vocabulário. Esse senhor, por exemplo, resolveu dissertar sobre a relação que ele julga existir entre o meu mau feitio e o facto de eu não ter companheiro. Isso parece-me de mau gosto e fraca educação, mais a mais quando os seus telhados não são de vidro, mas de cristal. Porque, assim de repente, prefiro ter mau feitio a um companheiro invertebrado, ou a um que me torne a mim sua criada. Logo aí, estou em clara vantagem.
E, finalmente, há uma coisa que, quem tem pedigree, educação, valores e atitude sabe fazer: assumir culpas. Um cobarde, para mim, digo sempre isto, é o pior dos escroques: passa por inocente, morde pela calada e atira as suas culpas para quem tem mais perto. Sai sempre bem visto, mas não tem qualquer valor. Por isso, é de consciência limpa, e toda a minha educação de princesa, que digo aqui, abertamente, e a frio, depois de pensar, ponderar e analisar, que quero que ele se vá foder.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Mudanças no ritmo

Fez ontem uma semana que trouxe o Chico cá para casa e pareço um zombie. Começo a compreender aqueles pais que desabafam com os diretores de turma "eu já não sei que lhe hei-de fazer", a referir-se aos filhos. Condescendentemente, os professores dão-lhes avisados conselhos e, depois, nas reuniões, julgam-nos e condenam-nos: "não os sabem educar e depois a gente que os ature". Pois. Mas se tiverem filhos tão teimosos e intratáveis como o Chico, que só se porta bem quando quer alguma coisa ou está podre de sono, e no restante tempo é teimoso que nem uma mula e só faz o que lhe dá na veneta, quer a gente se zangue, tenha pachorra para teimar com ele ou lhe dê umas valentes palmadas... que lhes resta? A mim não me restam muitas opções, a não ser esganá-lo, pegar-lhe fogo ou lhe dar uns valentes pontapés na cabeça até ele cair desmaiado com um fio de sangue a escorrer-lhe pelo focinho desafiador.
Hoje, depois de uma semana de gritos e puxões na coleira, e chapadas no lombo e no focinho, e esfregonas e castigos... a minha paciência está de tal modo por um fio que, depois de  perguntar a um aluno o que significava determinada sigla que estava explícita no parágrafo anterior do texto que estávamos a analisar, à resposta dele de "não sei", lhe respondi, de imediato, num tom de voz imperturbável: "Olha, D., espero sinceramente que limpes o rabo melhor do que lês textos".
A turma toda, incluindo o D., que é adorável, desatou a rir incontrolavelmente, enquanto eu pensava que, felizmente, era a última aula da semana, que a coisa estava mesmo a descambar para o lado da minha sanidade mental, e que a minha sorte era dar aulas a um grupo de miúdos impecáveis que me conhece bem o suficiente para saber que nada do que eu digo é com intenção verdadeiramente insultuosa.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Ainda não parei de me rir

Acho imensa piada àquelas pessoas que me criticam porque eu sou independente e porque pedir ajuda é o meu último recurso, para depois NUNCA estarem disponíveis quando se precisa delas. Normalmente, são as mesmas que se disponibilizam logo para ajudar, quando já alguém o fez, ou sabem que não são necessárias. À mera sugestão de que talvez se precise delas, surgem logo os contratempos, as dificuldades, o "deixa ver como está a minha agenda". Acho mesmo imensa piada.

sábado, 21 de abril de 2012

Rendida

Na última sessão, o meu DOC perguntou-me se eu também "era daquelas" que escreviam listas de qualidades que um homem precisa de ter para estar ao seu lado. Instintivamente respondi que não, e um nanosegundo depois, disse-lhe que sim, que claro que sim. Não me ocorreu, na altura, no entanto, dizer-lhe que a cantiga do bandido que me levaria a tratar um homem como se fosse um Deus já existe. Parece escrita de propósito para mim (não conheço ninguém que queira tanto conhecer a "América" como eu, por exemplo), e seríamos felizes para sempre. (Right, Doc?... até parece que o estou a ver a abanar a cabeça e a rir-se, pensando na trabalheira que ainda tem pela frente antes que me passem todos os resquícios de doideira).


sexta-feira, 20 de abril de 2012

Dois Dias

E lá se passaram dois dias em Lisboa com trinta e seis alunos, metade dos quais portugueses, e a outra metade espanhóis.
Só posso dizer que, entre um programa que foi cumprido à risca, - e se ele era ambicioso!- muitos quilómetros percorridos de autocarro e a pé, cafés que lhes perdi a conta, poucas horas de sono e muito - céus, tanto! - chinfrim... continuo adepta de visitas de estudo.
Adoro estar em ambiente informal com os alunos, divirto-me sempre que nem uma macaquinha, apesar da estafa, do stress, das correrias e das preocupações. Não me lembro da última vez em que me ri tanto num tão curto espaço de tempo. No meio dos pastéis de Belém, dos muffins de chocolate branco e morango do Starbucks, dos cupcakes da Merry Cupcake e dos bifes da Portugália, da exposição Berardo - não, não é Bernardo, troll! - com peças originais do Dali e do Picasso, dum fabuloso ensaio da orquestra filarmónica no divino S. Carlos, duma visita à RTP com a Ana Galvão a fazer programa na Antena 3, e com direito a ver nas ruas de Lisboa o Chefe de Estado Polaco e a sua comitiva, atores dos Morangos com Açúcar, o Pedro Granger e o Zé Carlos Pereira... há uma cambada de alunos das berças muito mais cosmopolitas, muito mais abertos e tolerantes a raças e credos, e a falar muy bien espanhol.
"Eeeech, ó professora, a sua mãe mora ali? Foi naquele colégio que estudou? Eeeech, ó professora... e agora dá-nos aulas a nós?"
Very impressive, indeed. Embora eles devam achar isso o cúmulo da decadência, e olhem para mim como se eu fosse um bicho raro, por trocar um sítio por outro.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Vinte e Quatro

Se ontem o meu dia tivesse sido uma temporada do vinte e quatro misturada com a Ally McBeal, o vocabulário seria inapropriado para pessoas sensíveis e toda a gente teria pena da triste protagonista. Foi daqueles dias para esquecer, cheio de imprevistos desagradáveis e trabalho inesperado. Daqueles dias de chatices pequeninas a fazer efeito de bola de neve. Daqueles dias em que apetece mesmo deitar tudo para o espaço.
Hoje foi o contrário, tudo fluiu facilmente. É bom ter uma bolha de oxigénio, já que amanhã vai ser uma correria doida, e quinta e sexta vou com os meus meninos da direção de turma, mais outros tantos espanhóis, para Lisboa, no âmbito de um intercâmbio cultural. Haja energia e paciência. E haja, sobretudo, juízo, que é coisa que eu não tenho, para estar metida em tudo o que é treta na escola.
Na minha antiga escola, a Diretora gostava que eu regressasse. Eu acho que só se muda para melhor, e disse-lhe que a única coisa que ela tem para me aliciar é um horário que não meta noite. Ela diz para eu pensar nisso, que há lugar para mim. E eu tenho pensado. Em dias como o de ontem, iria a concurso sem pensar duas vezes: fizeram-me falta amigos, sobretudo gajas para destilar má-língua. Nesta escola, uma das grandes vantagens foi ontem um enorme problema: não há conversa venenosa em que não esteja presente alguém sensato a meter água na fervura. Ontem, eu queria SANGUE. Queria dizer mata e ter mais três ou quatro muchachas a dizer esfola. Senti muita falta do grupinho de Divas: da Pêlo Russo, da T., Da Mzinha, da Li e da Miss Covilhã. Dos bolos de chocolate que me traziam a casa quando eu estava triste e das tostas de frango que comíamos na esplanada ao entardecer, a dizer mal, sem maldade, de tudo o que mexia.
Hoje, já foi diferente. Há dias bons em que sinto que tenho a camisola da minha escola vestida, e que ela me parece feita à minha medida numa lã angorá muito confortável. Nestes dias, sinto que estou no sítio certo, que os meus alunos são impecáveis, que os meus colegas são família e que é sempre melhor um sítio em que conhecemos toda a gente e sabemos o que podemos esperar de cada um, do que outro em que só falamos com meia-dúzia de pessoas e em que as restantes se dão ao luxo de falar de ti e da tua vida privada como se vivessem na tua casa e soubessem tudo a teu respeito.
Prefiro um sítio em que não me inventem namorados a cada quinze dias, e em que os fatores que me fazem não me apetecer levantar de manhã sejam profissionais e não emocionais. Prefiro um sítio em que o stress advenha de listas de a-fazer, e não de conflitos com este ou aquele.
Por outro lado, esta escola, a minha, deixa-me pouco tempo para viver, para ver pessoas, e pouco espaço mental para que isso me apeteça. Resta saber se, quando vierem os concursos, vou preferir ter uma vida ou ter paz de espírito. A opção não é fácil.

domingo, 8 de abril de 2012

Manifestações do Divino

Não sou religiosa, nem sequer dada a grandes espiritualidades: já passei por ambas as fases e ultrapassei-as, em seu tempo. É bastante difícil, mesmo para quem segue o blogue, fazer uma pequena ideia do que é lidar comigo, se não me conhecer pessoalmente: como toda a gente, sou cheia de idiossincrasias, e como muito pouca gente que eu conheça, de contradições. Uma das mais óbvias, é falar como um carroceiro tendo a educação de uma princesa arrogante.
Digo palavrões cabeludos, do piorio. Mas tenho aversão a pessoas que dão calinadas e pontapés na gramática, ou que não têm maneiras à mesa, ou que são indelicadas com velhotes ou não dão o seu lugar a grávidas, mesmo que não estejam sentadas em bancos especiais, ou à espera em filas próprias nos supermercados. Sou assim, muito incoerente, e já estou habituada a que me julguem por isso.
Isto para chegar onde? Hoje fui jantar com um amigo meu, crente e religioso, porque ele fez anos esta semana e queria pagar-lhe um jantar. Acabámos pr ir beber um copo com um casal amigo nosso, e um dos temas de conversa foi o jejum e abstinência quaresmal. Ora eu, que sou completamente contra fantochadas, disse logo que havia de ser bonito um Deus andar preocupado com o que as pessoas comem a determinados dias da semana, mas não quis ser demasiado indelicada, dado que já há muito deixei de tentar entender a cegueira a que levam política, clubes e religião. Não vale a pena discutir certos assuntos, muito menos quando são levados com uma seriedade que nos faz espécie.
Engraçado ter sido logo a mim que as coisas aconteceram, nem uma hora depois. Saímos do bar e pedi ao meu amigo que parasse numa bomba para ir comprar tabaco. A mais próxima estava fechada, e fomos àquela a que, antes de mudar de casa, eu ia muitas vezes, e já conheço o empregado, em senhor de idade que sofre de gota e é simpático até certo ponto, só até certo ponto, com caras conhecidas, como a minha. Ora chegamos à tal bomba e o meu amigo oferece-se para sair ele do carro e ir buscar-me o maço, ao que eu digo que não, que vou eu. Ele insiste, talvez por causa das horas, talvez por eu estar com um vestidinho curto; mas eu tenho os meus brios, e saio do carro. Ao pé do guichet, um senhor dos seus cinquenta anos, com peso a mais, óculos, e bem bebido. Digo um sonoro boa noite com um sorriso (como, aliás, sempre faço nas lojas: lá está, um fenómeno ilustrativo da tal boa educação que me corre no sangue azul), e peço o tabaco. O outro homem começa, de imediato, com um relambório do arco-da-velha: que eu era muito alegre, que "contaminava" toda a gente com a minha simpatia, que era bem "apalavrada", que como as coisas estavam, a pagar "oitocentos paus" por um maço de tabaco, era preciso pessoas como eu para alegrar as outras, enfim, um sem fim de elogios a que eu ia agradecendo como podia. Despedi-me e entrei no carro em que o meu amigo esperava, em pulgas para saber que raio o outro me tinha dito.
Não foi preciso contar-lhe: em menos de um nada, o homem estava da parte de fora da minha janela. Baixei o vidro e, sem mais nem o quê, ele começou com um discurso de que "estava bêbedo" mas não era "nenhum parvo" e que tinha que dizer ao meu amigo "não sei se o senhor é marido ou amante" (eu fiquei logo perdida de riso) "mas esta senhora, o boa noite desta senhora, é muito especial. Eu nasci no dia de Nossa Senhora de Fátima e sou abençoado por ela, que todo o meu corpo tem placas de metal mas ainda não morri." Antes que eu pudesse abrir o bico, o homem não é de modas: faz-me o sinal da cruz na testa enquanto diz umas palavras que metiam a Virgem ao barulho, e diz que, se eu for a Fátima e comprar uma imagem, serei abençoada para o resto da vida. E que se o vir, de hoje em diante, para fingir que não o conheço.
E eu só pensava, pronto, bonito serviço, vou ser agora gozada até ser velhinha, com este emplastro aqui ao lado a gozar o pratinho.
Pior: o meu amigo ficou impressionado com aquilo, diz que eu tive uma "manifestação do divino". Claro que, comigo, a manifestação do divino tinha que vir de um anjo pinguço. E agora tenho um caramelo a chatear-me que tenho que ir a Fátima comprar uma imagem.
Tendo em conta que amanhã vou almoçar a casa de uns amigos, e que toda a minha família na Páscoa está em parte incerta, pouco se lixando se eu estou viva ou morta no Domingo da Ressurreição, era mesmo só o que me faltava agora, baixar em mim o milagre da Virgem. Isto só a mim, na Cidade de Deus.

terça-feira, 13 de março de 2012

Taxonomia do Amor, by Jade

Começo por sublinhar que qualquer taxonomia é redutora, dado que, no meu entender, se trata de uma forma pseudo-científica de rotular estágios de comportamento, e de fazer generalizações que se impingem como absolutas verdades, quais pedra filosofal ou ovo de Colombo. Todos os rótulos são comuns a uma imensidão de sujeitos e marginalizam outros, que têm a sua importância fundamental enquanto indivíduos, e todas as generalizações, assim, coxeiam. Será uma forma simplista de abordagem, mas dado que resultam para um conjunto razoável de exemplos, para esses são eficazes.
A minha taxonomia do amor compreende quatro estágios fundamentais. Nenhum totalmente isento de racionalidade, o que afasta de imediato o conjunto de seres impulsivos que raramente a usam, quando se trata de sentimentos. Eu não me incluo nesse grupo: amo com a cabeça e penso com o coração.
O primeiro estágio é a atração. Não confundir com atração física, porque cada um é como cada qual, e um homem bonito, para mim, não é necessariamente atraente, embora ajude. A atração é algo independente, e considero-a apenas parte da taxonomia porque é aí que tudo começa. Contudo, a maior parte das pessoas passa a sua vida a sentir-se atraída por outras pelas quais não desenvolve qualquer tipo de relação emocional. Sentimo-nos atraídos por pessoas sejamos solteiros, casados, amancebados, céticos, distantes, mal-amados, felizes, infelizes, enfim. A atração é algo que aprendemos a aceitar como natural, e isenta de culpas. Assumimos todos sem pruridos a nossa atração por modelos fotográficos, atores, cantores, escritores, artistas. Com mais pruridos e alguma vergonha quando os mitos são de carne e osso e são nossos vizinhos, colegas de trabalho, professores ou empregados no café que frequentamos. É a hipocrisia vigente, e não me choca que assim seja.
Depois da atração, vem o desejo. O desejo não é tão inocente, já que mexe com a imaginação e rapidamente se transforma em flirt. Por seu lado, o flirt é, na grande maioria dos casos, arriscaria, inócuo. Um jogo um tanto animalesco de conquista, sobretudo, de auto-estima, e algo que se fica pela brincadeira. Um estágio que é satisfatório para ambos os lados e poderá não passar nunca disso, quando as pessoas não pensam sequer no assunto ou, quando pensam nas coisas, como eu, e as relativizam. Eu faço-o de forma castradora, 9 em cada 10 vezes, com belas frases de tipo "Estás parva?", "Não sejas ridícula!", "Pára de pensar em parvoíces e corrige mas é os testes...". A fantasia é uma cena tramada, mas eu, que tenho alma de contadora de histórias, gosto muito de as inventar, neste estágio, o do desejo, mantendo sempre a noção de que ficção é ficção e não passa disso.
As coisas complicam-se no terceiro estágio, a paixão. É o estágio mais perigoso, aquuele em que a razão quase se cala. É nesta fase que a tendência para o impulso e a asneira é latente, e o sujeito se encontra no limbo entre o "que se lixe" e o "que se dane". Ui, as paixões... ou são não-correspondidas e o triste ser sofre em silêncio e bate com a cabeça com força nas paredes, que mais vale uma enxaqueca que uma dor de alma, ou são correspondidas, e é tudo borboletas e passarinhos, arco-íris e bolas de sabão... a não ser que haja terceiros. Aí começa a gestão de danos, os colaterais, e entra, ou não, em ação o raciocínio. Costumo dizer, a meu respeito, que os homens nunca deixam as mulheres (as legítimas, bem entendido, sejam elas esposas, namoradas, uniões de facto ou afins) por outras, a não ser que as legítimas sejamos nós. Eu já fui largada por outras mulheres duas vezes, e jamais um homem deixou a sua relação estável por mim. C'est l(m)a vie. Por outro lado, eu, ser pensante e estupidamente racional, em alturas de grande paixão por homens com algum tipo de compromisso, sou aquela que não consegue dizer "larga-a". Freud explica, e eu acho que isso é a minha profunda convicção de que, se o fizesse, mais cedo ou mais tarde viria o arrependimento, e eu gosto pouco de cobranças e de levar na marmita. Por outro lado, a única vez que deixei um namorado por uma grande paixão, não me arrependi minimamente. Mas tive a sorte de essa grande paixão se transformar num grande amor, coisa que compensa sempre. Foi um ciclo que se fechou, que eu cá não acredito em eternidades a não ser que, como diz Vinicius, a eternidade seja o tempo que dura. Dizem os cientistas que uma grande paixão dura no máximo um ano e meio, o que é triste, porque todas as minhas dores de corno duraram mais do que isso. Se estivermos preparados para essa inevitabilidade, e acharmos que compensa o mal que faz pelo bem que sabe, estamos fadados a ser deuses num curto espaço de tempo, e indigentes o resto da vida. Cada qual fará a sua opção.
Do amor, tenho pouca experiência. Digo que não é eterno nem incondicional. Não sou mãe, mas sou filha, e alguém sábio já me disse algumas vezes que há pessoas que, por mais que queiramos, não se deixam amar, que é impossível amar. Porque não há cá essa coisa de amores não correspondidos. O amor, quando é amor, é uma troca natural sem listas de deve-e-haver. Não há dívida, nem cobrança. É uma relação leve e suave, instintiva e fácil, baseada na confiança e no respeito, no sentimento quentinho de pertença, sem o veneno da posse. Amar é oferecermo-nos de bandeja a alguém que já é nosso. É escolhermos alguém para fazer parte da família que nos é imposta à nascença, e cristalizar esse ser numa teia de relações que não escolhemos como se ele sempre tivesse feito parte dela. Na maioria dos casos, e comigo foi assim, amar significa aceitar o outro como aceitamos pais e filhos: com uma grande dose de compreensão e tolerância, e a certeza de que os seus defeitos, fragilidades e sombras não põem em causa os laços. A mesma certeza, contudo, de que o imperdoável pode, a qualquer momento acontecer, e de que a vida não faz sentido quando é partilhada com alguém que já não nos aquece o espírito nem completa a peça desgarrada do puzzle que somos todos nós. Aí, voltamos ao início. Quero dizer, eu volto. Muitos há que se sentam no sofá da grande sala vazia que são as suas emoções, e se deixam ficar hipnotizados a fazer zapping em frente a um triste qualquer modelo de plasma de última geração.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Inchadíssima

Hoje foi um dia bom.
Hoje foi um dia muito bom.
Às quatro e meia da tarde, em pleno pátio, ouço assim: Boa tarde, Senhora Professora! Quando olho, e retribuo o cumprimento a um aluno meu do nono ano, este diz, aos coleguinhas do grupo, e à frente dos funcionários presentes: Aqui vai a professora MAIS BONITA da escola!

E pronto, fez-se o meu dia.
E sim, eu sei que nas últimas semanas de aulas os alunos desenvolvem o seu espírito mais graxista.
E sim, eu tenho noção de que só a minha vida decadente explique que, horas depois do piropo, eu ainda esteja inchada como uma pavoa. Ou pavã. Ou pavona.
(se bem que o inchaço também possa ser fruto da neura, por estar a trabalhar exatamente há doze horas, com mais duas pela frente... mas isso também confirma a teoria da vida decadente, pois.)

quinta-feira, 8 de março de 2012

Karma

Depois de uma semana de doidos, em vez de atropelar a tal cabra, sinto-me atropelada por dois ou três rebanhos delas.
O Karma é tramado, apre!