sábado, 5 de maio de 2012

A frio

Agora, quase uma semana passada sobre o assunto, vou finalmente pronunciar-me sobre ele, não porque lhe tenha dado mais importância do que merece, mas porque gerou certas considerações filosóficas da minha parte, umas sobre mim, outras sobre a condição humana.
Determinado "senhor", por motivos que são alheios ao caso, insultou-me e conseguiu mesmo ofender-me, quer oral e pessoalmente, quer por escrito. É pessoa que está excluidíssima do meu mundo, se excetuarmos a vertente profissional havendo, também aí, várias opções de diálogo.
Entre outros mimos, disse-me duas coisas que eu acho serem espelho de uma idiotia que anteriormente não lhe atribuía. E têm ambas a ver com a minha forma de estar e a minha forma de comunicar, a nível formal e informal.
Formalmente, em contexto profissional, diz que eu sou "uma boca aberta", que digo tudo o que me vem à cabeça, que isso só me prejudica, que ainda "não aprendi a calar-me". Diz isto porque é um cobarde e acha que dizer o que se pensa e ser contra as chefias, mesmo quando as chefias estão erradas e os nossos argumentos são válidós é "não saber estar calada". Temos pena, mas temos o complexo de Joana D'Arc. Lá na escola, toda a gente sabe que este senhor deixa os tintins à porta da escola e à porta de casa. Toda a gente sabe, e toda a gente comenta. Nas costas dele, bem visto. Quem nasceu para ser capacho acha que a honestidade é falha de caráter e de boas maneiras. Nasceu para ser subserviente. Tenho imenso respeito pelas hierarquias e enorme lealdade às chefias, o meu próprio terapêuta acha que são caraterísticas quase excessivas da minha personalidade. Mas tenho muito mais respeito e lealdade aos meus princípios e, no caso de ter opiniões formadas sobre determinado assunto, exponho-as, doa a quem doer. E quando dói, é comum que o povo ache que são fruto de impulsividade, simplesmente porque ninguém no seu juízo perfeito discorda abertamente de ditadores vingativos. Posso não estar no meu juízo perfeito, mas considero que não tenho nada que aprender, neste domínio. Os outros é que têm que deixar de ser hipócritas e fazer crescer uma espinha dorsal.
Informalmente, em contexto familiar, disse-me que o meu vocabulário não é "próprio de uma senhora". De facto, não é. Felizmente, há características bem mais importantes que definem uma senhora do que o seu vocabulário. Esse senhor, por exemplo, resolveu dissertar sobre a relação que ele julga existir entre o meu mau feitio e o facto de eu não ter companheiro. Isso parece-me de mau gosto e fraca educação, mais a mais quando os seus telhados não são de vidro, mas de cristal. Porque, assim de repente, prefiro ter mau feitio a um companheiro invertebrado, ou a um que me torne a mim sua criada. Logo aí, estou em clara vantagem.
E, finalmente, há uma coisa que, quem tem pedigree, educação, valores e atitude sabe fazer: assumir culpas. Um cobarde, para mim, digo sempre isto, é o pior dos escroques: passa por inocente, morde pela calada e atira as suas culpas para quem tem mais perto. Sai sempre bem visto, mas não tem qualquer valor. Por isso, é de consciência limpa, e toda a minha educação de princesa, que digo aqui, abertamente, e a frio, depois de pensar, ponderar e analisar, que quero que ele se vá foder.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Mudanças no ritmo

Fez ontem uma semana que trouxe o Chico cá para casa e pareço um zombie. Começo a compreender aqueles pais que desabafam com os diretores de turma "eu já não sei que lhe hei-de fazer", a referir-se aos filhos. Condescendentemente, os professores dão-lhes avisados conselhos e, depois, nas reuniões, julgam-nos e condenam-nos: "não os sabem educar e depois a gente que os ature". Pois. Mas se tiverem filhos tão teimosos e intratáveis como o Chico, que só se porta bem quando quer alguma coisa ou está podre de sono, e no restante tempo é teimoso que nem uma mula e só faz o que lhe dá na veneta, quer a gente se zangue, tenha pachorra para teimar com ele ou lhe dê umas valentes palmadas... que lhes resta? A mim não me restam muitas opções, a não ser esganá-lo, pegar-lhe fogo ou lhe dar uns valentes pontapés na cabeça até ele cair desmaiado com um fio de sangue a escorrer-lhe pelo focinho desafiador.
Hoje, depois de uma semana de gritos e puxões na coleira, e chapadas no lombo e no focinho, e esfregonas e castigos... a minha paciência está de tal modo por um fio que, depois de  perguntar a um aluno o que significava determinada sigla que estava explícita no parágrafo anterior do texto que estávamos a analisar, à resposta dele de "não sei", lhe respondi, de imediato, num tom de voz imperturbável: "Olha, D., espero sinceramente que limpes o rabo melhor do que lês textos".
A turma toda, incluindo o D., que é adorável, desatou a rir incontrolavelmente, enquanto eu pensava que, felizmente, era a última aula da semana, que a coisa estava mesmo a descambar para o lado da minha sanidade mental, e que a minha sorte era dar aulas a um grupo de miúdos impecáveis que me conhece bem o suficiente para saber que nada do que eu digo é com intenção verdadeiramente insultuosa.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Ainda não parei de me rir

Acho imensa piada àquelas pessoas que me criticam porque eu sou independente e porque pedir ajuda é o meu último recurso, para depois NUNCA estarem disponíveis quando se precisa delas. Normalmente, são as mesmas que se disponibilizam logo para ajudar, quando já alguém o fez, ou sabem que não são necessárias. À mera sugestão de que talvez se precise delas, surgem logo os contratempos, as dificuldades, o "deixa ver como está a minha agenda". Acho mesmo imensa piada.

sábado, 21 de abril de 2012

Rendida

Na última sessão, o meu DOC perguntou-me se eu também "era daquelas" que escreviam listas de qualidades que um homem precisa de ter para estar ao seu lado. Instintivamente respondi que não, e um nanosegundo depois, disse-lhe que sim, que claro que sim. Não me ocorreu, na altura, no entanto, dizer-lhe que a cantiga do bandido que me levaria a tratar um homem como se fosse um Deus já existe. Parece escrita de propósito para mim (não conheço ninguém que queira tanto conhecer a "América" como eu, por exemplo), e seríamos felizes para sempre. (Right, Doc?... até parece que o estou a ver a abanar a cabeça e a rir-se, pensando na trabalheira que ainda tem pela frente antes que me passem todos os resquícios de doideira).


sexta-feira, 20 de abril de 2012

Dois Dias

E lá se passaram dois dias em Lisboa com trinta e seis alunos, metade dos quais portugueses, e a outra metade espanhóis.
Só posso dizer que, entre um programa que foi cumprido à risca, - e se ele era ambicioso!- muitos quilómetros percorridos de autocarro e a pé, cafés que lhes perdi a conta, poucas horas de sono e muito - céus, tanto! - chinfrim... continuo adepta de visitas de estudo.
Adoro estar em ambiente informal com os alunos, divirto-me sempre que nem uma macaquinha, apesar da estafa, do stress, das correrias e das preocupações. Não me lembro da última vez em que me ri tanto num tão curto espaço de tempo. No meio dos pastéis de Belém, dos muffins de chocolate branco e morango do Starbucks, dos cupcakes da Merry Cupcake e dos bifes da Portugália, da exposição Berardo - não, não é Bernardo, troll! - com peças originais do Dali e do Picasso, dum fabuloso ensaio da orquestra filarmónica no divino S. Carlos, duma visita à RTP com a Ana Galvão a fazer programa na Antena 3, e com direito a ver nas ruas de Lisboa o Chefe de Estado Polaco e a sua comitiva, atores dos Morangos com Açúcar, o Pedro Granger e o Zé Carlos Pereira... há uma cambada de alunos das berças muito mais cosmopolitas, muito mais abertos e tolerantes a raças e credos, e a falar muy bien espanhol.
"Eeeech, ó professora, a sua mãe mora ali? Foi naquele colégio que estudou? Eeeech, ó professora... e agora dá-nos aulas a nós?"
Very impressive, indeed. Embora eles devam achar isso o cúmulo da decadência, e olhem para mim como se eu fosse um bicho raro, por trocar um sítio por outro.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Vinte e Quatro

Se ontem o meu dia tivesse sido uma temporada do vinte e quatro misturada com a Ally McBeal, o vocabulário seria inapropriado para pessoas sensíveis e toda a gente teria pena da triste protagonista. Foi daqueles dias para esquecer, cheio de imprevistos desagradáveis e trabalho inesperado. Daqueles dias de chatices pequeninas a fazer efeito de bola de neve. Daqueles dias em que apetece mesmo deitar tudo para o espaço.
Hoje foi o contrário, tudo fluiu facilmente. É bom ter uma bolha de oxigénio, já que amanhã vai ser uma correria doida, e quinta e sexta vou com os meus meninos da direção de turma, mais outros tantos espanhóis, para Lisboa, no âmbito de um intercâmbio cultural. Haja energia e paciência. E haja, sobretudo, juízo, que é coisa que eu não tenho, para estar metida em tudo o que é treta na escola.
Na minha antiga escola, a Diretora gostava que eu regressasse. Eu acho que só se muda para melhor, e disse-lhe que a única coisa que ela tem para me aliciar é um horário que não meta noite. Ela diz para eu pensar nisso, que há lugar para mim. E eu tenho pensado. Em dias como o de ontem, iria a concurso sem pensar duas vezes: fizeram-me falta amigos, sobretudo gajas para destilar má-língua. Nesta escola, uma das grandes vantagens foi ontem um enorme problema: não há conversa venenosa em que não esteja presente alguém sensato a meter água na fervura. Ontem, eu queria SANGUE. Queria dizer mata e ter mais três ou quatro muchachas a dizer esfola. Senti muita falta do grupinho de Divas: da Pêlo Russo, da T., Da Mzinha, da Li e da Miss Covilhã. Dos bolos de chocolate que me traziam a casa quando eu estava triste e das tostas de frango que comíamos na esplanada ao entardecer, a dizer mal, sem maldade, de tudo o que mexia.
Hoje, já foi diferente. Há dias bons em que sinto que tenho a camisola da minha escola vestida, e que ela me parece feita à minha medida numa lã angorá muito confortável. Nestes dias, sinto que estou no sítio certo, que os meus alunos são impecáveis, que os meus colegas são família e que é sempre melhor um sítio em que conhecemos toda a gente e sabemos o que podemos esperar de cada um, do que outro em que só falamos com meia-dúzia de pessoas e em que as restantes se dão ao luxo de falar de ti e da tua vida privada como se vivessem na tua casa e soubessem tudo a teu respeito.
Prefiro um sítio em que não me inventem namorados a cada quinze dias, e em que os fatores que me fazem não me apetecer levantar de manhã sejam profissionais e não emocionais. Prefiro um sítio em que o stress advenha de listas de a-fazer, e não de conflitos com este ou aquele.
Por outro lado, esta escola, a minha, deixa-me pouco tempo para viver, para ver pessoas, e pouco espaço mental para que isso me apeteça. Resta saber se, quando vierem os concursos, vou preferir ter uma vida ou ter paz de espírito. A opção não é fácil.

domingo, 8 de abril de 2012

Manifestações do Divino

Não sou religiosa, nem sequer dada a grandes espiritualidades: já passei por ambas as fases e ultrapassei-as, em seu tempo. É bastante difícil, mesmo para quem segue o blogue, fazer uma pequena ideia do que é lidar comigo, se não me conhecer pessoalmente: como toda a gente, sou cheia de idiossincrasias, e como muito pouca gente que eu conheça, de contradições. Uma das mais óbvias, é falar como um carroceiro tendo a educação de uma princesa arrogante.
Digo palavrões cabeludos, do piorio. Mas tenho aversão a pessoas que dão calinadas e pontapés na gramática, ou que não têm maneiras à mesa, ou que são indelicadas com velhotes ou não dão o seu lugar a grávidas, mesmo que não estejam sentadas em bancos especiais, ou à espera em filas próprias nos supermercados. Sou assim, muito incoerente, e já estou habituada a que me julguem por isso.
Isto para chegar onde? Hoje fui jantar com um amigo meu, crente e religioso, porque ele fez anos esta semana e queria pagar-lhe um jantar. Acabámos pr ir beber um copo com um casal amigo nosso, e um dos temas de conversa foi o jejum e abstinência quaresmal. Ora eu, que sou completamente contra fantochadas, disse logo que havia de ser bonito um Deus andar preocupado com o que as pessoas comem a determinados dias da semana, mas não quis ser demasiado indelicada, dado que já há muito deixei de tentar entender a cegueira a que levam política, clubes e religião. Não vale a pena discutir certos assuntos, muito menos quando são levados com uma seriedade que nos faz espécie.
Engraçado ter sido logo a mim que as coisas aconteceram, nem uma hora depois. Saímos do bar e pedi ao meu amigo que parasse numa bomba para ir comprar tabaco. A mais próxima estava fechada, e fomos àquela a que, antes de mudar de casa, eu ia muitas vezes, e já conheço o empregado, em senhor de idade que sofre de gota e é simpático até certo ponto, só até certo ponto, com caras conhecidas, como a minha. Ora chegamos à tal bomba e o meu amigo oferece-se para sair ele do carro e ir buscar-me o maço, ao que eu digo que não, que vou eu. Ele insiste, talvez por causa das horas, talvez por eu estar com um vestidinho curto; mas eu tenho os meus brios, e saio do carro. Ao pé do guichet, um senhor dos seus cinquenta anos, com peso a mais, óculos, e bem bebido. Digo um sonoro boa noite com um sorriso (como, aliás, sempre faço nas lojas: lá está, um fenómeno ilustrativo da tal boa educação que me corre no sangue azul), e peço o tabaco. O outro homem começa, de imediato, com um relambório do arco-da-velha: que eu era muito alegre, que "contaminava" toda a gente com a minha simpatia, que era bem "apalavrada", que como as coisas estavam, a pagar "oitocentos paus" por um maço de tabaco, era preciso pessoas como eu para alegrar as outras, enfim, um sem fim de elogios a que eu ia agradecendo como podia. Despedi-me e entrei no carro em que o meu amigo esperava, em pulgas para saber que raio o outro me tinha dito.
Não foi preciso contar-lhe: em menos de um nada, o homem estava da parte de fora da minha janela. Baixei o vidro e, sem mais nem o quê, ele começou com um discurso de que "estava bêbedo" mas não era "nenhum parvo" e que tinha que dizer ao meu amigo "não sei se o senhor é marido ou amante" (eu fiquei logo perdida de riso) "mas esta senhora, o boa noite desta senhora, é muito especial. Eu nasci no dia de Nossa Senhora de Fátima e sou abençoado por ela, que todo o meu corpo tem placas de metal mas ainda não morri." Antes que eu pudesse abrir o bico, o homem não é de modas: faz-me o sinal da cruz na testa enquanto diz umas palavras que metiam a Virgem ao barulho, e diz que, se eu for a Fátima e comprar uma imagem, serei abençoada para o resto da vida. E que se o vir, de hoje em diante, para fingir que não o conheço.
E eu só pensava, pronto, bonito serviço, vou ser agora gozada até ser velhinha, com este emplastro aqui ao lado a gozar o pratinho.
Pior: o meu amigo ficou impressionado com aquilo, diz que eu tive uma "manifestação do divino". Claro que, comigo, a manifestação do divino tinha que vir de um anjo pinguço. E agora tenho um caramelo a chatear-me que tenho que ir a Fátima comprar uma imagem.
Tendo em conta que amanhã vou almoçar a casa de uns amigos, e que toda a minha família na Páscoa está em parte incerta, pouco se lixando se eu estou viva ou morta no Domingo da Ressurreição, era mesmo só o que me faltava agora, baixar em mim o milagre da Virgem. Isto só a mim, na Cidade de Deus.

terça-feira, 13 de março de 2012

Taxonomia do Amor, by Jade

Começo por sublinhar que qualquer taxonomia é redutora, dado que, no meu entender, se trata de uma forma pseudo-científica de rotular estágios de comportamento, e de fazer generalizações que se impingem como absolutas verdades, quais pedra filosofal ou ovo de Colombo. Todos os rótulos são comuns a uma imensidão de sujeitos e marginalizam outros, que têm a sua importância fundamental enquanto indivíduos, e todas as generalizações, assim, coxeiam. Será uma forma simplista de abordagem, mas dado que resultam para um conjunto razoável de exemplos, para esses são eficazes.
A minha taxonomia do amor compreende quatro estágios fundamentais. Nenhum totalmente isento de racionalidade, o que afasta de imediato o conjunto de seres impulsivos que raramente a usam, quando se trata de sentimentos. Eu não me incluo nesse grupo: amo com a cabeça e penso com o coração.
O primeiro estágio é a atração. Não confundir com atração física, porque cada um é como cada qual, e um homem bonito, para mim, não é necessariamente atraente, embora ajude. A atração é algo independente, e considero-a apenas parte da taxonomia porque é aí que tudo começa. Contudo, a maior parte das pessoas passa a sua vida a sentir-se atraída por outras pelas quais não desenvolve qualquer tipo de relação emocional. Sentimo-nos atraídos por pessoas sejamos solteiros, casados, amancebados, céticos, distantes, mal-amados, felizes, infelizes, enfim. A atração é algo que aprendemos a aceitar como natural, e isenta de culpas. Assumimos todos sem pruridos a nossa atração por modelos fotográficos, atores, cantores, escritores, artistas. Com mais pruridos e alguma vergonha quando os mitos são de carne e osso e são nossos vizinhos, colegas de trabalho, professores ou empregados no café que frequentamos. É a hipocrisia vigente, e não me choca que assim seja.
Depois da atração, vem o desejo. O desejo não é tão inocente, já que mexe com a imaginação e rapidamente se transforma em flirt. Por seu lado, o flirt é, na grande maioria dos casos, arriscaria, inócuo. Um jogo um tanto animalesco de conquista, sobretudo, de auto-estima, e algo que se fica pela brincadeira. Um estágio que é satisfatório para ambos os lados e poderá não passar nunca disso, quando as pessoas não pensam sequer no assunto ou, quando pensam nas coisas, como eu, e as relativizam. Eu faço-o de forma castradora, 9 em cada 10 vezes, com belas frases de tipo "Estás parva?", "Não sejas ridícula!", "Pára de pensar em parvoíces e corrige mas é os testes...". A fantasia é uma cena tramada, mas eu, que tenho alma de contadora de histórias, gosto muito de as inventar, neste estágio, o do desejo, mantendo sempre a noção de que ficção é ficção e não passa disso.
As coisas complicam-se no terceiro estágio, a paixão. É o estágio mais perigoso, aquuele em que a razão quase se cala. É nesta fase que a tendência para o impulso e a asneira é latente, e o sujeito se encontra no limbo entre o "que se lixe" e o "que se dane". Ui, as paixões... ou são não-correspondidas e o triste ser sofre em silêncio e bate com a cabeça com força nas paredes, que mais vale uma enxaqueca que uma dor de alma, ou são correspondidas, e é tudo borboletas e passarinhos, arco-íris e bolas de sabão... a não ser que haja terceiros. Aí começa a gestão de danos, os colaterais, e entra, ou não, em ação o raciocínio. Costumo dizer, a meu respeito, que os homens nunca deixam as mulheres (as legítimas, bem entendido, sejam elas esposas, namoradas, uniões de facto ou afins) por outras, a não ser que as legítimas sejamos nós. Eu já fui largada por outras mulheres duas vezes, e jamais um homem deixou a sua relação estável por mim. C'est l(m)a vie. Por outro lado, eu, ser pensante e estupidamente racional, em alturas de grande paixão por homens com algum tipo de compromisso, sou aquela que não consegue dizer "larga-a". Freud explica, e eu acho que isso é a minha profunda convicção de que, se o fizesse, mais cedo ou mais tarde viria o arrependimento, e eu gosto pouco de cobranças e de levar na marmita. Por outro lado, a única vez que deixei um namorado por uma grande paixão, não me arrependi minimamente. Mas tive a sorte de essa grande paixão se transformar num grande amor, coisa que compensa sempre. Foi um ciclo que se fechou, que eu cá não acredito em eternidades a não ser que, como diz Vinicius, a eternidade seja o tempo que dura. Dizem os cientistas que uma grande paixão dura no máximo um ano e meio, o que é triste, porque todas as minhas dores de corno duraram mais do que isso. Se estivermos preparados para essa inevitabilidade, e acharmos que compensa o mal que faz pelo bem que sabe, estamos fadados a ser deuses num curto espaço de tempo, e indigentes o resto da vida. Cada qual fará a sua opção.
Do amor, tenho pouca experiência. Digo que não é eterno nem incondicional. Não sou mãe, mas sou filha, e alguém sábio já me disse algumas vezes que há pessoas que, por mais que queiramos, não se deixam amar, que é impossível amar. Porque não há cá essa coisa de amores não correspondidos. O amor, quando é amor, é uma troca natural sem listas de deve-e-haver. Não há dívida, nem cobrança. É uma relação leve e suave, instintiva e fácil, baseada na confiança e no respeito, no sentimento quentinho de pertença, sem o veneno da posse. Amar é oferecermo-nos de bandeja a alguém que já é nosso. É escolhermos alguém para fazer parte da família que nos é imposta à nascença, e cristalizar esse ser numa teia de relações que não escolhemos como se ele sempre tivesse feito parte dela. Na maioria dos casos, e comigo foi assim, amar significa aceitar o outro como aceitamos pais e filhos: com uma grande dose de compreensão e tolerância, e a certeza de que os seus defeitos, fragilidades e sombras não põem em causa os laços. A mesma certeza, contudo, de que o imperdoável pode, a qualquer momento acontecer, e de que a vida não faz sentido quando é partilhada com alguém que já não nos aquece o espírito nem completa a peça desgarrada do puzzle que somos todos nós. Aí, voltamos ao início. Quero dizer, eu volto. Muitos há que se sentam no sofá da grande sala vazia que são as suas emoções, e se deixam ficar hipnotizados a fazer zapping em frente a um triste qualquer modelo de plasma de última geração.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Inchadíssima

Hoje foi um dia bom.
Hoje foi um dia muito bom.
Às quatro e meia da tarde, em pleno pátio, ouço assim: Boa tarde, Senhora Professora! Quando olho, e retribuo o cumprimento a um aluno meu do nono ano, este diz, aos coleguinhas do grupo, e à frente dos funcionários presentes: Aqui vai a professora MAIS BONITA da escola!

E pronto, fez-se o meu dia.
E sim, eu sei que nas últimas semanas de aulas os alunos desenvolvem o seu espírito mais graxista.
E sim, eu tenho noção de que só a minha vida decadente explique que, horas depois do piropo, eu ainda esteja inchada como uma pavoa. Ou pavã. Ou pavona.
(se bem que o inchaço também possa ser fruto da neura, por estar a trabalhar exatamente há doze horas, com mais duas pela frente... mas isso também confirma a teoria da vida decadente, pois.)

quinta-feira, 8 de março de 2012

Karma

Depois de uma semana de doidos, em vez de atropelar a tal cabra, sinto-me atropelada por dois ou três rebanhos delas.
O Karma é tramado, apre!

segunda-feira, 5 de março de 2012

Insólitos Jade

Poderia ser uma campanha publicitária a uma nove rede móvel, mas é a minha vida.
Como se já não bastasse que, por falta de tempo, a minha banda sonora enquanto trabalho sejam os episódios d'O Mentalista, (facto que já é suficientemente estranho se considerarmos que as pessoas normais ouvem música, veem séries e corrigem testes em três tempos distintos e eu faço tudo em simultâneo) hoje, à vinda para casa, com o JadeMobile em piloto automático e o cérebro em stand-by, vejo um velhote de boina e vestido normalmente a correr, e penso, (sublinho que o cérebro estava em stand-by), bolas, pá, até a terceira idade já faz desporto e tu, minha bimba, não mexes o traseiro para nada!... Depois, reparo que o homem leva um pau na mão, e o pensamento seguinte é (volto a sublinhar que o cérebro estava em stand-by), fónix, tu queres ver que assaltaram o velhote? E com esta epifania brilhante, ponho a pata ao travão, que eu sou uma pessoa solidária e generosa, já preparada para parar e perguntar ao senhor se ele precisava de alguma coisa. Isto, reconheço, também é fruto de passar o fim de semana a ouvir séries de crimes e detetives, está visto.
Pois. Valeram-me os meus bons valores e os bons travões da minha máquina infernal, ou teria ficado, literalmente, com uma cabra (de quatro patas, entenda-se) ao colo... o homem era pastor e dois ou três bichos preparavam-se para atravessar a estrada, como se nada fosse!
Isto só a mim, e só às portas desta Cidade de Deus. É bem feita, para olhar para a estrada, em vez de andar a cuscar no que as pessoas fazem nas bermas, armada em boa samaritana, e com a cabeça cheia de séries da tanga: qualquer dia dou uma boleia involuntária a um ser peludo e improvável, e ainda apanho um cagaço de morte, para ver se abro a pestana e me concentro num mundo real, que mais parece a quinta dimensão.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Ai, a-normalidade!

Assim que acordei hoje, percebi que o Carnaval tinha passado e, com ele, a minha máscara de normalidade. Basta um bocadinho de stress, que no meu caso se resume a ter que acordar cedo e andar a contra-relógio até entrar na sala de aula, para fazer tudo aquilo que não é suposto alguém normal fazer.
Já no princípio da noite, telefonei a uma amiga lá da escola para lhe dar uma informação da coordenação e, depois de meter os pés pelas mãos e lhe pregar um cagaço do camandro,  a conversa evoluíu e ela disse-me que quase não me tem visto, e que ando na escola a tentar passar pelos pingos de chuva. Lá lhe expliquei que a minha vida anda tão, mas tão, complicada, que me ponho a andar da escola sempre que posso para prevenir acidentes. E por acidentes leia-se "respostas tortas", "gritaria", mandar calar toda a gente, mandar alguém pastar e, tudo isto, sem razão aparente ou qualquer culpa dos envolvidos.
Ando com vários assuntos a fervilhar na cabeça em simultâneo: avaliações, problemas familiares, mudança de casa e trabalho burocrático amontoado e urgente, só para falar dos mais complicados. Estou habituada a obcecar com um problema de cada vez e estou a sentir-me completamente afogada num turbilhão de ideias sucessivas, de alertas vermelhos e luzes a piscar dentro da minha cabeça, o tempo todo.
O resultado foi que perdi completamente a máscara da normalidade: esqueci-me de ir pôr o meu carro ao mecânico quando tinha marcado hora há dois dias, não dei uma para a caixa nas aulas, troquei o nome dos alunos todos, só fiz cagada todo o santo dia. Vá lá, que a reunião que tinha convocada com os pais correu sem incidentes e consegui chegar a casa sem me espetar contra um chaparro, apesar das três horas mal dormidas, mas estou com uma crise de ansiedade daquelas bem grandes.
O Carnaval são três dias e estou de volta à costumeira (a)normalidade.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Para a posteridade

Para além dos meus amigos, não faço ideia de quem são os meus leitores. Alguns leitores tornaram-se amigos, e são lucros inestimáveis deste blogue que, de início, era para ser uma catarse e um desabafo. A vaidade é uma daquelas tendências que tenho muito raramente, mas gosto sinceramente de algumas coisas que escrevo e fui divulgando o estaminé. A verdade é que, passados uns anos disto, já não é a veia poético-literária e confessional que perdura. A maior parte dos meus textos, agora, são banais, mas a vertente catártica deste espaço continua a satisfazer-me. E sei que o meu estilo de vida angustiado acaba por encontrar espelho em alguns leitores. A minha esperança é que os ajude, pelo menos a perceber que, como diz uma amiga minha, há muita gente sozinha em barcos semelhantes. (adorei esta variante sobre o cliché: há muita gente no mesmo barco. A variante faz toda a diferença, aqui).
Isto porque quero deixar aqui escrito, para a posteridade, uma experiência que tive hoje e que foi da maior importância para mim. E que poderá ajudar pessoas com abertura mental suficiente a dar passos importantes nas suas vidas.
Quem me segue, ainda que só por aqui e anonimamente, sabe que um problema pessoal atirou comigo para o divã de um psiquiatra. Isto, assim dito, faz de mim alguém digno de pena, ou de medo: dos maluquinhos quer-se distância, porque nos mostram a decadência das nossas capacidades mentais, e a impotência que todos temos para evitar sermos a próxima vítima. O preconceito é tramado, mas ainda assim optei conscientemente por não fazer segredo disso, e descobri que, para muita gente, a depressão não carrega o estigma de uma bipolaridade ou de uma esquizofrenia, chegando até a ser fashion, pasme-se.
Para mim, todavia, não é motivo de orgulho nem vergonha, é mais uma das minhas doenças, outra que não sei se terá cura mas tem tratamento, outra que me provoca dores e mal-estar e que preciso de fármacos para tratar. Estou habituada a médicos desde os dezoito anos e para aí desde os vinte e quatro aceitei ser uma doente crónica, portanto não é novidade. É só mais uma doença tratável e controlável, se for permanente, temos pena, mas o que não mata, engorda, e eu bem preciso de uns quilinhos extra.
Começava a incomodar-me haver certas coisas que, após um ano de terapia em que jamais duvidei das competências do terapêuta, por um lado, e do bem que aquilo me fazia, por outro, haver certas coisas importantes na minha vida, dizia, de que ainda não conseguia falar. Havia uma parte escura e densa que não conseguia vomitar naquele gabinete, sem que tal tivesse a ver com falta de confiança ou mentira deliberada. Uma daquelas omissões talvez porque, no meio de tantas perguntas que o Doc me faz semanalmente, nunca tenha feito aquela que me poria contra a parede e me obrigaria a mentir conscientemente ou a deitar tudo cá para fora.
Hoje abri essa porta, embora não tenha sido necessário pergunta alguma. Resolvi que, para evoluir no tratamento, teria que fazer sacrifícios e cedências: por muito que me custasse, estava num processo irreversível e havia sintomas que, por mais embaraçosos que fossem, teria que expor, porque sabia perfeitamente que influenciariam diagnóstico e tratamento.
Correu lindamente, tenho a dizer a quem me lê. Quem como eu, um dia pensou que psicólogos, psiquiatras e astrólogos estavam todos no mesmo saco duvidoso, dentro de um profundo ceticismo, desengane-se: se alguma vez experimentei algo parecido com a verdadeira fé, que é acreditar em algo que não se percebe ou não se vê, foi hoje. Não sei em que é que é diferente dos desabafos que fazemos na intimidade às pessoas em quem mais confiamos, mas está a milhões de anos-luz. Depois de um ano disto, hoje senti um patamar muito importante ser ultrapassado. Aconselho todos os desesperados a procurar ajuda, e a insistir, se não encontrarem à primeira um médico que sintam ser apropriado. É que quando for a pessoa certa (um pouco como as pessoas que encontraram um grande amor costumam dizer), o doente sabe. Eu soube. Senti que aquela pessoa que tinha à frente era de confiança e me podia indicar caminhos importantes. Eu, que sou hipercrítica, hipercética e hiperinerte, não falho uma sessão e acredito piamente, sem conseguir explicar os comos e os porquês, que este tratamento me está a fazer um bem enorme.
Mas desde já aviso: terapia não é para meninos, nem para mariquinhas. Há que ter algum estofo para aquilo, mesmo que esse estofo seja muito irónico, já que parece sempre, mas sempre, que somos uns pieguinhas dependentes de Kleenexes e, falo por mim, completamente incapazes de sair de uma hora de conversa sem parecer um pargo congelado há três meses, tão inchados e esbugalhados estão os nossos olhos.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Ainda sobre o mesmo tema

Uma das coisas que aqui a ignorante mais inveja são aquilo a que chama idilicamente "as vidas normais". Tenho a mania de me sair com pérolas como ai, quem me dera ser uma pessoa normal, com uma família normal, e ter uma casinha, um carrinho e um cão, e festejar o Natal com muita gente à mesa e ir de férias todos os anos para o mesmo sítio do Algarve, e ter uma série de meses seguidos de monotonia normal. Esta sou eu, e há muita gente com vontade de me bater agora, e se calhar alguns são, exatamente, seres presos no inferno das suas vidinhas normais.
De Sábado para Domingo, decidi que me ia deixar de merdas e que, durante esta pausa letiva, ia fingir que era uma mulher normal. No Domingo, correu relativamente bem. Levantei-me cedo, como as pessoas normais, fiz tarefas domésticas, fui jantar com uma amiga e beber um licor beirão com ela depois disso. Não fossem as pausas para jogar viciadamente Castleville, teria sido perfeito, mas o meu reino não entra no disfarce, nem as plantações deixam de apodrecer, nem as missões se completam sozinhas, convenhamos.
Hoje a coisa correu muito pior, mas ainda assim, considero que o esforço que fiz valeu a pena. Levantei-me às duas da tarde porque me esqueci de pôr despertador. Logo aí, tudo estragado, ninguém normal se levanta da parte da tarde, não toma pequeno-almoço nem almoça, enfia um galão boca abaixo e sai de casa. Shame on you, Jade-Marie! Mas durante a tarde fui resolver montes de coisas que tinha adiadas, desde ir falar com as moças do ginásio a ir à farmácia, ao supermercado e ao banco, enfim... coisas normais. E, por enquanto, estas preocupações normais estão a ganhar aos pontos a todos os males do Mundo que carrego, invariavelmente, às costas desde o dia em que nasci.

Sobre a inveja

Tenho para mim que a inveja é sempre, mas sempre, produto da ignorância.
O tuga inveja, sobretudo, o sucesso e os bens materiais do próximo. É um povo que eu considero muito invejoso, embora não tenha termo de comparação porque não conheço a fundo outro povo de outra nacionalidade. Estou muito próxima dos ingleses e dos americanos, dos japoneses e dos brasileiros, mas toda a gente sabe que o que se lê nos livros, se vê nos filmes e se filtra em música, noticiários e arte não dá a dimensão correta das coisas. É preciso conviver, conhecer, trabalhar com as pessoas para se deliberar do seu grau de humanidade, no bom e no mau.
A inveja advém da ignorância. Pode ser inocente e incólume. Eu sou uma invejosa ingénua e não faço mal a uma mosca. Invejo a vida amorosa de algumas pessoas que conheço, e todas são minhas grandes amigas e exemplos a seguir. Não é por invejá-las que alguma vez tentaria estragar a sua felicidade, envenenando as suas relações: invejo-as, gostaria de ter um pouco da sua felicidade pacífica, mas fico feliz por elas.
Invejo a cultura de uns, a força de vontade de outros, a energia de muitos, o bom humor que conheço em pessoas que parecem nunca estar zangadas ou tristes. Tudo isto eu gostaria de ter em doses industriais, e não tenho. Não é por isso, contudo, que me esforço por acabar ou prejudicar o que de bom vejo nos outros, por achar injusto que não o tenha eu, também, na mesma proporção. Isso já vai para além da inveja. Isso, digo eu, é maldade, e eu detesto gente má, mesquinha. E ignorante, sublinhe-se.
Quando me ponho a pensar, é com um suspiro e sem qualquer modéstia que concluo que sou, e sempre fui, uma pessoa muito invejada. Atrás do suspiro vem, sempre, uma gargalhada ou uma profunda raiva. Gentinha estúpida e ignorante. Invejam-me a vida independente que tenho, a falta de responsabilidades familiares, o dinheiro que gasto no que me apetece, o facto de me relacionar bem com o sexo masculino. Tudo ignorância e estupidez. Não vou aqui dissertar na forma como, cada uma destas verdades, é uma cruz que tenho que carregar. Está bem, são verdades, invejem-me por isso, no worries.
Invejam-me também a magreza, o que é ridículo e muito mais grave, porque muita dessa gente que suspira por um corpo igual ao meu sabe perfeitamente que luto, diariamente e sem sucesso, contra uma doença autoimune que me faz ter peso de bailarina, sim, mas também me faz conviver com dores crónicas, feridas que não saram, intervenções cirúrgicas anuais e risco eminente de colapsos em órgãos como o coração e os pulmões. Sejam bem vindos à minha agradável e invejável vida, se quiserem trocar, aceito um corpinho com barriguinha e celulite, anytime.
E depois invejam-me as capacidades e a inteligência: muito obrigada, fico muitíssimo envaidecida. O pior é que esta gente, de todos os que me invejam, são os mais perigosos. Porque estes, sim, fazem muitas vezes parte daquele grupo que não se limita a invejar, age para prejudicar. Desde miúda que lido com esta gentalha de perto: os que garantem que as minhas classificações escolares são fruto de graxa; os que comentam que eu tenho a mania que sou boa, uma arrogante; os que adoram atirar-me à cara com os meus falhanços, esqucendo que todos os temos; os que dizem e repetem que eu "tenho a sorte" de os alunos irem com a minha cara e gostarem de mim. Isso é ignorância e é maldade. É ignorância, porque só gente estúpida acha, por exemplo, que o facto de eu me dar bem com os alunos "é sorte". Será sorte a mais, então, já que não há, em doze (serão mais?) anos de ensino, exemplo de um aluno com quem me tenha incompatibilizado. (O que não quer dizer que não venha a acontecer: será então "azar" ou dirão logo que a culpa é minha?) Temos pena, mas não é sorte: eu não tenho a sorte de eles tenderem a dar-se bem comigo, tenho qualidades humanas, muito específicas e muito raras, que abrem caminho a isso. Eu tenho sentido de humor, e sou destemida o suficiente para o usar nas minhas aulas. Sou generosa e preocupada, e tenho abertura suficiente para oferecer tudo de mim aos meus alunos. Tenho duas orelhas que não servem para enfeitar, e estão sempre ao serviço de todos. E sofri horrores na adolescência, não me vou esquecer disso nunca, e ponho a minha experiência à disposição dos que agora estão a passar por ela. Tenho imensa ternura para dar, e eles são um objeto privilegiado de escoamento. Sou um exemplo profissional e alguém que acredita no poder da formação, dos livros e do intelecto para a construção de uma vida melhor, e estou sempre a incentivá-los a prosseguir estudos e a lutar pelos seus sonhos. Lamento, mas isso não é sorte. Se eu fosse uma pessoa de sorte, já tinha ganho o euromilhões.
Ignorância. Disso é feita a inveja. Quando eu digo, a alguém, que digo muitas vezes, porque sou uma pessoa transparente: invejo-te tanto por xpto, a maior parte das vezes a resposta é: se soubesses da missa a metade... as minhas invejas não são diferentes das dos outros, também assentam no que vejo e nem sempre o que vejo existe tal qual o interpreto. Mas, pelo menos, são invejas que jamais prejudicarão seja quem for. Porque sou invejosa, mas nunca fui mesquinha e, com esta idade, suponho que já seja tarde para me dar para isso.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Alunos

Esta tem sido uma fase má e longa. Já dura há um ano, e durante este ano houve, primeiramente, uns meses de reabilitação lenta mas constante. Depois, de repente, novo afundanço. Muito diferente do primeiro, a começar pelos motivos mas, uma vez mais, a vida puxou-me o tapete numa altura muito agreste de trabalho e mudanças súbitas e inevitáveis. Posso dizer que estou no fim de três semanas infernais, paralelamente ao trabalho que, se fosse uma pessoa normal, que não sou, daria para três. Com a minha inépcia para produzir quando estou preocupada, triste ou adoentada, mais a exigência das minhas chefias, tenho sarna para me coçar que daria para dez iguais a mim.
Há, contudo, alguns factos que me fazem sorrir, ou dar uma grande gargalhada. E todos se prendem com os meus alunos.
O diabo russo do quinto ano é um fedelho vivaço que só pensa em namoradas, gajas giras e bikinis. Não mede mais de meio metro e não se podia estar a marimbar mais para os estudos. Passo a vida a tentar convencer aquela cabeça loura que tem que decorar palavras durante dois anos para, no terceiro, as poder usar como deve ser. Passei horas da minha vida a explicar aos fulaninhos os numerais cardinais e ordinais, e que nas datas se usava o ordinal. Ensinei-os a abreviar, em Inglês, primeiro, segundo e terceiro, mas aquelas almas de nabo todos os santos dias me perguntam "é com th, nd, st???" com o ar mais inocente do Mundo de quem nunca ouviu falar em números, que dirá em abreviaturas, e fazem tudo em regime-totoloto. O diabo russo aprendeu, por martelanço, que a abreviatura de primeiro é st. E escreveu-me esta pérola no teste: 1st, por extenso, "umst"... e eu ia morrendo. Gozei-o tanto que os colegas de turma agora repetem, para o chatear: umst, umst, umst: IBIZA!!!
Por outro lado, a minha direção de turma está cheia de rapazes. Todos, mas todos, parvos e preguiçosos que dá dó. Sempre achei que o mais fraco, além de sorna e com semelhanças incríveis com o Joker do Batman, porque está sempre com o sorriso Nickolson na cara, que só dá vontade de lhe encher as fuças de estalos, era mesmo de curto entendimento. Hoje, virei-me para outro e disse-lhe, ironicamente e furibunda "Não ouças, Gonçalo, que não vale a pena: logo tu que não pescas nada disto!!!" Resposta imediata do Joker, a quem nunca tinha ouvido uma piada, quanto mais inteligente, "Gonçalo, pá, tens que mudar de barragem!"... e tive um ataque de riso.
Outra das que me aquece o coração, mas agora de orgulho, foi a resposta que me deram a uma pergunta minha. Quis eu saber como estava a ser o percurso escolar de determinada miúda transferida da escola. E a resposta, de alguém que nem vai muito com a minha cara, foi "um caos. Só teve excelente a Inglês. Podem dizer o que quiserem de ti, mas há que reconhecer que és uma professora das boas."
E pronto, a minha vida é decadente, mas ainda vou animando, aqui e ali. Ainda bem que, da minha vida, continuam a constar esses seres insuportáveis que eu aturo, aos grupos barulhentos, todos os santos dias.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Já agora...

Doc, péssimo timing para não fazer sessões. Péssimo. Ainda que acrescente que, enquanto me reconhecer como ser de identidade própria, jamais aceitarei os seus contatos pessoais... isso, para mim, é descer muito baixo na escala da loucura, ou da dependência. Bom trabalho.