Sempre fui uma pessoa de palavra(s). Gosto da verdade e da sinceridade e tento, por todos os meios, agir em coerência com as minhas convicções. Estou a ler uns livros de um terapêuta clínico que, entre outras coisas, falam da dificuldade que o ser humano tem em seguir os seus princípios. No vasto campo do que é a realidade, a moda agora é proclamar altos valores morais e éticos e agir optando pelos caminhos mais simples. A dificuldade, então, não é obedecer aos seus valores mais íntimos, mas fingir que eles são outros, os expectáveis, e disfarçar com arte e manha suficientes para convencer o resto do mundo de que somos, de facto, seres guiados por valores de bem.
No cerne de educações mais ou menos religiosas, o bem e o mal estão claramente definidos. Uma boa educação, sendo ela autoritária ou permissiva, quer-se bem consolidada no que diz respeito ao branco e preto. Os católicos, que conheço melhor, têm os famosos dez mandamentos. Outras religiões terão as suas regras, os seus pecados, as suas responsabilidades e obrigações perante o Ser Superior. Os descrentes deverão reger-se, quanto mais não seja, pelas leis do seu país, as regras da sua escola, a sua ética profissional, e a sua consciência cívica.
A vida, ao contrário da teoria, não é a preto e branco e está cheia de dilemas, que nos obrigam, muitas vezes, a proceder contra as nossas convicções em favor de um bem maior, quer este seja não ofender o próximo, manter o emprego ou um casamento, ou lutar pela pátria.
Isto eu entendo.
O que eu não entendo são nuances de cinzento nas coisas mesquinhas. Não percebo a manipulação, a mentira dita para se levar alguém a agir conforme os nossos desejos, a mentira dita para não assumir os erros já cometidos e identificados, a mentira dita a nós próprios e aos outros. E essas são as mentiras mais frequentes. As que são utilizadas para parecermos melhores do que somos quando só nos envergonham, porque acabam sempre por ser desmascaradas.
Nos tais livros, o terapêuta aconselha as pessoas a identificar atitudes e a não ouvir palavras. Esta é uma das grandes lições que dá a quem quer ser feliz, rodeando-se das pessoas mais parecidas consigo, em vez de fazer más escolhas vezes sem conta, sem aprender com os seus erros.
Eu, como sou uma pessoa de palavra(s), tenho muita dificuldade em separar águas, e deambular por um mundo em que as pessoas não são o que dizem ser. Mais do que reconhecer as fronteiras da minha auto-estima, percebo agora porque muita gente me identifica com uma pessoa que a tem fraca: é que eu assumo as minhas falhas bem mais facilmente, até, que as minhas qualidades. Eu sou quem digo ser, ou disso estou convencida. A diferença é que, num universo em que muita gente se acha mais do que é, eu tenho a tendência para achar que sou menos. Não por modéstia, mas por insegurança. E, depois, as minhas atitudes acabam por me definir um patamar acima. Por isso, acho tão triste que as atitudes da maioria das pessoas as acabe por definir vários patamares abaixo. Por isso, a partir de agora, vou mesmo tentar seguir o avisado conselho e fazer como os maridos fazem com as suas esposas de uma vida inteira: não ouvir 90% do que é dito, e olhar para os pormenores do que é feito.