quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

A Lista da Mzinha

Pedi ajuda à Mzinha, que o post anterior deixou-me desconfortável: "O que é que aconteceu de bom este ano?" E ela, (que parece que anda sempre com uns óculos de lentes cor de rosa, mar, estrelas cadentes e arco-íris... e girassóis, bolas de sabão e algodão doce) então, olha, mudou a ministra, eu vim cá parar outra vez (é modesta, a minha amiga), efectivaste, fomos colocadas em escolas com bom ambiente... E eu, um bocado envergonhada, ah...pois foi.

Arrivederci!

Bye bye, Idade de Cristo.
Feitas as contas, o saldo é positivo: todos nós temos uma cruz para carregar e, pelo menos, não me espetaram lá mãos e pés. E quando isto é a única coisa optimista que me ocorre dizer sobre o ano que passou... estou apresentada!

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Podem insultar-me

Eu devo ser a única portuguesa - alien, absurda, marginal, elitista, armada ao pingarelho, - que detesta concursos que metam cantorias à mistura.
Acreditem se quiserem (eu acredito que as pessoas achem que estou a mentir, tal a febre tuga por concursos de talentos) mas não suporto estes programas. Detesto. Desde pequenina. Já aos três ou quatro anos odiava os festivais da canção. Depois era a eurovisão, com os júris dos outros países a nem sequer votar na canção de Portugal: uma noite inteira naquilo para um enxovalho final de todo o tamanho... que graça é que aquilo tinha? E quando metia miúdos da minha idade? Ainda gostava menos. Havia uma cena chamada... como é que era? Sequino d'Oro? Bem, era um programa italiano e já não me lembro bem do nome, só sei que morria de pena de uma desgraçada de uma miúda, a Maria Armanda, que passava a vida a cantar que via um sapo. Milhares de vezes. E o sapo não se ia embora, e a infeliz criança até com o sapo sonhava, certamente... bom, estes festivais ainda tinha eu que papar porque, quando eu era pequena, quem mandava na televisão (e em tudo o resto) eram os adultos lá de casa (e era igual em todas as casas, pelo menos nas que eu conhecia). Actualmente, quando vou a casas em que vivam crianças pequenas, só se vê o Canal Panda e o Disney Channel, mas isso, adiante, que os tempos mudaram muito e agora os putos traumatizam-se se respirares para cima deles, que dirá se tomares conta do comando.
Isto para chegar ao facto de que, felizmente, hoje em dia já ninguém me obriga a levar com os programas de que não gosto. E sinto-me um bocado estúpida, quando ando pelos blogues, ou entro na sala de professores, ou vou jantar com amigos, e não percebo patavina das conversas sobre os Ídolos, e as Canções-Não-Sei-Para-Quem, mais os Não-Sei-Quantos-em-Patins-no-Gelo. Sinto-me estúpida, é verdade, calo-me bem caladinha e finjo-me de transparente, para ninguém me fazer perguntas... epá, mas ver, ver, só para me manter informada... não, a isso não me convencem, nem me obrigam.
Prefiro vê-los depois, em concerto, se cantarem mesmo bem e singrarem, como a Sara Tavares, que "diz que" veio de um desses programas que eu nunca vi, nem tenho pena.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Lonesome, not lonely

Dos trinta e tal professores da minha escola pequenina, cerca de um terço mora na cidade onde eu vivo, a vinte e tal quilómetros da vila. Isto faz com que se combinem boleias diárias, para poupar gasóleo, pôr a conversa em dia e preservar o ambiente.
Acontece, porém, que eu levo sempre o meu carro. Porque sou do turno da noite, metade da semana, e é óbvio que ninguém fica especado à minha espera até às dez da noite; e saio cedo, nos restantes dias, já deito escola pelos poros e não também fico especada à espera de ninguém. A sexta-feira seria o único dia em que eu poderia partilhar carro. Acontece que às sextas nunca sei como o meu dia vai acabar, e sou uma moça de venetas. Pode dar-me para vir directamente para casa, mas também pode acontecer que me dê para a vadiagem, ou para ir directa a Lisboa, sei lá, gosto de ter a minha independência ao bater do primeiro segundo do fim-de-semana.
Tenho um colega que é muito bom moço, mas ao qual a emancipação feminina faz um bocado de espécie. Meteu na cabeça que às sextas tinha, porque tinha, que partilhar boleias comigo, apesar da restante dezena de seres que se desloca nas mesmas direcções às mesmas horas, e ficou muito vexado porque eu lhe disse categoricamente que não e, ultraje!, não me justifiquei sequer...
Andou a berrar aos sete ventos que eu tinha mau feitio e, como ninguém lhe ligou pevide, a novidade agora é insinuar que eu tenho uma vida dupla facto que, confesso, me lisonjeia sobremaneira. Por isso, apressei-me a dizer que não era dupla, era tripla como as tomadas. E que ninguém tinha que se meter em nenhuma das três.
Já em desespero, o rapaz perguntou a uma colega "que raio se passava com a Jade"... ao que ela respondeu: "A Jade é o lobo solitário da matilha. Não deixa de ser da matilha, contribui, está presente. Simplesmente só faz o que lhe dá na telha, e não presta contas da vida dela a ninguém."
Sorri. De facto é isso. Sou até muito sociável. Simplesmente escolho a quem contar o quê sobre a minha vida. Não sou um livro aberto, nem tenho que o ser. Uns acham que tenho coisas sórdidas a esconder. Eu chamo-lhe privacidade e independência.
Eu estou convencida de que tenho uma vida. Há quem ache que, no fim das contas, tenho duas. Nesse caso, faço alarde de que são três. E é deixá-los especular. Porque se há coisa que tira do sério as ovelhas de um rebanho, é haver uma que é preta.

... ad aeternum

E podia continuar a postar textos idiotas noite fora, sabem porquê? Por um pequeno e muito útil e simpático pormenor do meu fantástico metabolismo: o sono é directamente proporcional ao trabalho que tenho para fazer para ontem. Como tenho tudo organizado para amanhã, e entro de madrugada, é óbvio que estou com uma espertina filha-da-mãe, e só me apetece ir para a night bombar. Há-de dar-me o sono meia-hora antes de ter que me arrastar para o duche.
Se tivesse alguma coisa muito importante para fazer para a escola, já tinha adormecido em cima do teclado.
Awesome.

É já a seguir

Agora que o governo vai dar 5000 euros de incentivo a quem comprar um carro eléctrico, pensaria nisso muito seriamente... não fosse a sorte que tenho com tudo o que me cai nas mãos e tem baterias recarregáveis:
  • Se for tipo o meu telemóvel, estou a ver-me ao volante de uma máquina infernal que vai parar a meio da auto-estrada e... o carregador? ficou em Lisboa... olha, liga-se ali a ficha a um chaparro!
  • Se for tipo o meu portátil, há um dia que pára à entrada de uma rotunda e diz, quer reiniciar em modo windows? (aconselhado). E eu fico até anoitecer a carregar em todos os botões, tipo mentecapta, desligo e volto a ligar, que o equipamento tem sempre razão... e sou tirada do carro com uma camisa-de-forças, enquanto um qualquer informático me diz que o arranja em troca de dez mil euros e eu grito "VENDIDO!"
  • Se for tipo a minha máquina fotográfica, vai-se abaixo no melhor da festa. Seja lá isso o que for, tratando-se de um carro... e estão a passar-me muitas imagens idiotas pela cabeça.

Espera aí que eu já compro um carro eléctrico.

What else?

Que tal um par de chifres, Mr. Clooney?
Parece que o solteiro mais cobiçado do Mundo afinal já não casa num iate ao largo de Portugal.
Parece que o solteiro mais cobiçado do Mundo levou com um valente par de chavelhos.
E eu não consigo ter pena. E não é por o tipo continuar available. É mesmo para perder um bocado a pose do ai-que-eu-sou-tão-bom-e-as-mulheres-andam-todas-atrás-de-mim-e-eu faço-delas-o-que-me-apetece...
Toma lá.
(pode ser que a tipa que lhe enfeitou a testa não seja lá muito boa da cabeça, a probabilidade disso é alta... mas não deixa de ser irónico, e eu cá gosto de ironias. Há muito Clooney por aí que anda mesmo a pedi-las...)

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Filha de Peixe...

A minha mãe é um fenómeno. Não conheço ninguém que faça dos seus desastres pessoais comédias hilariantes com tanta facilidade, chega a ser de bradar aos céus.
Há uns tempos, resolveu mudar a instalação eléctrica lé de casa. Coisinha simples, achava ela. Eu, na altura, pensei seriamente em emigrar, já imaginando uma capricorniana que, mal a senhora que limpa a casa vira costas, se dedica a empurrar dois milímetros para o lado todos os objectos da sala, "porque não estão no sítio, que chatice", com dois homens a furar paredes e a esticar fios pela casa inteira.
Para ela, foi um pesadelo que durou tempo demais, fez barulho demais e custou muito mais do que estava previsto. Durante mais de uma semana, vociferou impropérios ao telefone e armou-se de esfregona e pano do pó para, no dia seguinte, estar tudo no caos anterior. Pensei que seria o fim da sua sanidade mental, ou o fim da vida dos incautos electricistas, das duas uma.
Trabalho feito, a minha progenitora andaria como se nada fosse... não fossem as piadinhas em que transformou uma semana de agruras: quando a chateiam, agora, diz que ignora e faz a sua cara de "curto-circuito". Genial! Como se não bastasse, no outro dia dizia-lhe que precisava de roupa, que estava frio aqui, e se ela não seria senhora de me oferecer umas camisolas felpudas no aniversário. Respondeu-me:"Para isso não há dinheiro, depois das obras. Mas, se quiseres, dispenso-te umas quantas tomadas das antigas, para lá enfiares os dedos ou a língua, e garanto-te que aqueces num instante!"
De onde é que vem o meu sentido de humor canino? Pois. Eu sabia que, se não emigrasse, qualquer coisa daquelas obras ia sobrar para mim...

A Foot in My Mouth

Há uns dias, gozava um amigo meu, muito dado às culturas, por este se atrever a dizer que se tinha rido imenso com um dos filmes da saga "Onde é que pára a polícia". Arqueei uma das minhas sobrancelhas, com o meu ar mais atónito, e disse "Não posso crer que gostes dessa treta. É que é mesmo muito mau, muito fraquinho...", e ele, "'tás parva? Tem piadas da primeira divisão! Tu, que és tão instruída no pós-modernismo, deves reconhecer as colagens, os pastiches, as citações...." e eu, "reconheço, reconheço, só não lhes acho é piadinha nenhuma... é tudo tão idiota!", e ele, "Isso tem muita graça, vindo de uma gaja que adora as comédias românticas de Hollywood..."
A esta altura do campeonato, achei por bem engolir o que tinha para dizer e mudar de assunto, antes que fizesse mesmo como "as gajas" e deixasse de lhe falar pelo próximo milénio... era só o que me faltava, ouvir dizer mal da minha Julia Roberts, do meu Richard Gere e do meu Hugh Grant, da minha Meg Ryan e do meu Billy Cristal, and so on and so on, tão fofinhos, todos! Como se se pudessem comparar à parva da Priscilla Presley com aquela vozinha de sonsa irritante, tipo namorada do Dexter que só apetece partir-lhe a cara, mais o outro parolo com cara de energúmeno e cabelo branco, não-sei-quantos-Nielsen... é que nem de longe, nem com pastiches nem com pós-modernismos!

Cojones

Não há muito que me relaxe numa segunda à noite, porque é o primeiro dia da semana, e porque chego a casa tardíssimo e pelos cabelos.
Mas uma coisa que nunca falha é a visita aos meus blogues favoritos. Hoje, dois registos: um post da Paddy, que anda a estudar na faculdade e diz "Fuck this, I'm going to Hogwarts", que eu achei absolutamente brilhante; e o post da Teia, que desafia os leitores a fazer-lhe uma pergunta, uma qualquer, que ela responde...
Fónix, Teia, é preciso ter cojones... nunca, nunquinha nesta vida, hei-de aceitar esse desafio. Era o fim da picada (e imagino que de muito mais coisas. A minha vida dava um diário secreto, daqueles que se guardam nos confins do Vaticano. Espera, o Vaticano foi um péssimo exemplo, que isto de santidade tem muito pouco...)
E agora, adeus, que vou ali cumprir o último ritual da noite: Investigação Criminal seguida de Mentes Criminosas. Como é que alguém relaxa a ver crimes e assassinos em série? Pois é, é também por causa desta mente pecaminosa que jamais vos direi para me perguntarem o que quiserem. Muahahah!

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Identidade Nacional

Há coisas que nos identificam, queiramos ou não, gostemos ou nem por isso, como Portugueses que somos. Não vou falar do Fado, porque não gosto, do Futebol, porque só me dá preocupações e decepções, nem de Fátima, porque não acredito. Não vou falar do bacalhau, que abomino, nem dos coentros, que detesto, nem das touradas, porque sou contra.
Então qual é a verdadeira identidade nacional? A forma como um Português prefere tudo, mas tudo, a ter que trabalhar. E com isso identifico-me eu bem.
Se não, vejamos esta pérola de diálogo que tiveram hoje comigo:
-Jade, vais a Lisboa no próximo fim-de-semana?
-Vou, porquê?
-Vais a algum shopping?
-De certeza, que queres que te traga?
-Um saquinho de gripe A.
No meio de uma histeria colectiva a nível mundial, por entre o pânico e o terror ao vírus, o tuga mostra toda a sua coragem: há que agarrar o H1N1 pelos cornos... desde que isso signifique sete dias a coçar a micose.
Vou ali já venho, beijar o primeiro ser que se atravesse à minha frente a espirrar...

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Hábitos e Costumes



Previsibilidade.
Sou uma pessoa previsível. Na maior parte do tempo, cada ser que me rodeia, conheça-me bem ou nem tanto, sabe com o que pode contar, sabe o que esperar, e sabe, principalmente, que não pode esperar muito ou contar comigo por aí além. Não sou dada a passar a mão pelo pêlo, não tenho feitio para grandes lamechices e sou um zero à esquerda quando se trata de exprimir sentimentos nobres. Também os sinto, também os tenho, mas sou pouco efusiva nos afectos, salvo raríssimas excepções.
Claro que há o reverso da medalha. As pessoas de quem gosto sabem que não se passa muito tempo sem que eu lhes telefone a dar ou pedir sinais de vida. Sabem que as procuro, que lhes mando mails, nem que sejam apenas forwards com uma frase “das minhas”, como diz a Mzinha. Que tento não deixar passar em branco os dias dos seus aniversários. Que retribuo chamadas perdidas. Que não me desleixo nas amizades.
É costume. É costume alimentar amizades a quilómetros de distância, é costume ir a casa das pessoas, é costume parar para ouvir a resposta a um “como estás, está tudo bem?”. É costume ter tempo para deitar conversa fora ao telefone, e paciência para estar horas a ouvir alguém desabafar. A ouvir mesmo, e não a fingir que oiço, enquanto penso noutras coisas. Há muita gente que se admira, tempos depois “eu disse-te isso? Eu contei-te isso? Ainda te lembras disso?” Sou assim. Sou previsível. Estou atenta.
Novembro não é um mês agradável. Começa o frio, chove, não há feriados, o tempo aperta, o trabalho cresce exponencialmente e, não sei porquê, há sempre problemas, chatices e surpresas desagradáveis. Há sempre rotinas a descarrilar, merdices a correr mal, cansaço acumulado, pormenores sem fim a anotar na moleskine. É o ponto mais negro da noite, que antecede a madrugada das coisas boas que vêm de seguida, em Dezembro. As férias, o descanso, os mimos, os presentes, as festas, o tempo para ter tempo.
Este Novembro não foi excepção, e a rotina foi a perda do que em mim era rotina e costume, a perda da previsibilidade. Abandonei blogue. Quase abandonei e-mail e telefone. Pus amigos em stand-by. Vivi para o trabalho. Dormi nos intervalos. Não foi nem fácil, nem simpático. Nem sei se foi, sequer, útil. Mas era necessário. Tive que me organizar, que parar, sem de facto o fazer. Tive que recomeçar. Tive que me ambientar a muita coisa nova, e em algo de novo em mim, cá dentro. Uma novidade que se prendeu num olhar em frente, num soltar de amarras, numa recusa em vivências nostálgicas. Fiz um grande esforço. Vivi de forma minimalista, reduzi o meu mundo ao essencial: trabalho, horas de sono e alimentação disciplinada, pouquíssimos ou nenhuns cigarros por dia. Poucas chamadas telefónicas, só à progenitora e ao cumprimento dos aniversários dos amigos. Pouca vida social. Pouca gente à volta. Ninguém a quem prestar contas ou dar justificações. Só a Mzinha e o H., porque uma vive comigo e é como se fosse minha irmã, por isso posso estar em silêncio, ou falar sem parar horas a fio, que não há cobranças nem intromissões, nem desconfortos nem juízos de valor; o outro porque me conhece quase desde sempre, lê nas entrelinhas e me oferece riso e chocolates, me empresta livros e me pergunta por eles, obrigando-me a ler e a evoluir, esteja eu dentro do poço lá no fundo, ou com o melhor dos humores.
E no fim de um Novembro com uma rotina sempre igual, mas tão diferente das rotinas dos últimos anos, sinto-me quase, quase em forma, para regressar à base, voltar a procurar outras pessoas, voltar a conversar e a deitar conversa fora. Sinto-me quase, quase pronta, para sossegar os que me ligaram “que se passa contigo?”, “preocupa-me que não escrevas”, “estás bem?”, “não é nada teu costume”…
Estou quase, quase pronta. O que se passou comigo, não sei. Se estou bem, acho que se não estou, para lá caminho. Sinto-me centrada, ou concentrada. Sinto-me em paz. Tenho andado em stress, mas sem ansiedade. Pouco efusiva, como sou por natureza, mas sem dramas interiores, o que também era costume. Pouco palavrosa, mas com a dose de parvoeira natural e suficiente para ainda me reconhecer. E, na escola onde toda a gente me trata pelo diminuitivo e os putos estão, finalmente, a começar a entender-se com a profe de Inglês, tal como na vida privada, e anormalmente recatada, que tenho levado, a minha pele, aos poucos, começa a servir-me à medida. Começo a sentir-me realmente confortável com ela. E, se Novembro raramente traz algo de bom, este, pelo menos trouxe-me isso: uma pele feita à medida das minhas necessidades.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Caíu a ficha

Andava quase há um mês com uma sensação de estranheza. Qualquer coisa não batia certo e eu não conseguia perceber o quê. Era, isso eu sabia, um sentimento peculiar e indistinto e prendia-se com a escola, com o ambiente, uma espécie de comichão de fonte indefinida. Hoje caíu a ficha:
Somos poucos. Almoçamos juntos muitíssimas vezes. Saímos frequentemente depois do sol se pôr. Entramos de manhã cedo. Tratamo-nos pelos nomes próprios. A mim, toda a gente me trata pelo diminuitivo, até a Directora. Por tu, todos e sempre. Comunicamos por mail e sms. Falamos aos fins-de-semana. Sabemos moradas e telefones, nomes de maridos, mulheres, namorados, namoradas, filhos, filhas, netos, netas e animais de estimação de toda a gente. Vamos ao supermercado da vila em excursão, porque não há tempo de fazer compras onde residimos. Assaltamos os cacifos uns dos outros, que estão sempre abertos, em busca de pastilhas e chocolates, agrafadores e tubos de cola. Às vezes passamos o tempo a rir. Outras insultamo-nos de tudo. Há alturas em que já nem nos podemos ver. Outras, temos a sensação que dormimos todos juntos.
Caíu a ficha. O que eu estranho é que aquilo tem a dinâmica de uma grande família. Da grande família que eu nunca tive: pessoas que não são escolhidas por nós, mas que temos que gramar. Pessoas que mesmo que nada nos digam, conhecemos, e conhecemos melhor que muita gente com quem convivemos há anos. Pessoas com quem é impossível mantermos grandes ódios, porque vamos levar com elas durante muito, muito tempo, e isso pesa nas nossas atitudes e nas nossas predisposições inconscientes.
É diferente do que se passava no ano passado. No ano passado era possível darmo-nos apenas com meia-dúzia de escolhidos. Era possível fazermos amigos, ter confidentes, arranjar namorados, criar grupos. Aqui, não. Qualquer relação íntima dá ideia de incesto. O grupo é geral, uma cambada de primos e primas e tios e tias, e mães e pais e irmãos e irmãs. Uma amálgama de gente virada para o trabalho e para as boleias, para os horários dos filhos e dos ginásios, a reunir e a comer bolachas, a esvaziar pacotes de sumo e leite com chocolate à medida que se controla a própria agenda e a dos outros, e se diz, não está na hora de ires buscar o teu filho? ou, hoje vou eu buscar a tua filha e depois aproveitas e jantas lá em casa quando saíres da reunião, ou ainda, e no meu caso, a deixa da semana, o xpto do teu médico já te ligou ou temos que fazer uma excursão a Lisboa para lhe partir as trombas? Enquanto não liga, toma lá um chocolate, que és linda...
E isto, para mim, é do reino do incrível. Mas não deixa de ser um grande consolo. E de me dar alguma paz interior. Uma paz que nunca tive, descontextualizada e desenraizada como sempre estive ao longo de tantos anos nesta terra.
Agora, só tenho que ter cuidado e não ir para a escola de pijama e roupão, já que vou, muitas vezes, dar aulas de chávena de café ainda em punho.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

PQP...

... este calor de Verão de dia e frio de rachar à noite, mais as mangas curtas quase em Novembro. Se o tempo, que é o tempo, anda desgovernado e doentio, como é que eu, que sou só e simplesmente eu, hei-de andar melhor?
P*ta-que-pariu!

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Metafísica de Domingo

Ele houve tempos em que o maior pesadelo do mundo era chegar a sexta-feira e encarar o fim-de-semana. Literalmente quarenta e oito horas a dar com a cabeça na parede, sem apetecer fazer nadinha, desde ir ao supermercado a limpar o pó à casa, passando pelas obrigações escolares e a dissertação de mestrado.
Ele houve tempos em que passava dois dias deitada, entre a cama e o sofá, tendo como amigos íntimos de cabeceira o comando da TV,e o trio maço de cigarros, isqueiro e cinzeiro.
Ele houve tempos em que passava muitas dessas horas de solidão a chorar, que é o que faz quem não tem força para fazer o que quer que seja, e acredita que, se a tivesse, não haveria sentido para tal.
Esses tempos, felizmente, são parte de um passado que, apesar de recente num percurso de quase trinta e quatro anos, parece estar a milhares de anos-luz de distância.
E, embora me sinta, finalmente, equilibrada racional e emocionalmente, e considere que faço parte agora da grande maioria de gente funcional, é sem dúvida outro grande busílis chegar a domingo à noite desertinha que chegue a próxima sexta-feira à tarde.
Haja normalidade. E alegria no trabalho, onde quer que essa gaja ande.

sábado, 24 de outubro de 2009

Alma presa por uma corda a um pé da mesa

Em dias como o de hoje, sinto-me uma autêntica prisioneira. Detesto sentir-me assim, num calabouço de obrigações, de tarefas por cumprir, de coisas para fazer, de deadlines a respeitar. Detesto. Sou, desde sempre, um espírito livre. Gosto de fazer o que bem me apetece. Tenho uma vida muito privilegiada, no que toca a opções, a decisões, a venetas. Tenho até, aquilo a que chamo muitas vezes, a maldição da independência quase total.
Às vezes penso que se tivesse mais âncoras, que não a do trabalho e a preocupação constante com a única pessoa do meu sangue que existe no meu mundo, que é a minha mãe, se tivesse mais âncoras, dizia, talvez me sentisse mais equilibrada, mais normal. Mas a verdade é que não tenho, e já há muito aceitei a minha alienação do mundo adulto convencional.
E em dias como o de hoje, em que esse mundo adulto me cai em cima da cabeça como um piano de cauda, acabo por me sentir completamente sufocada.
Está sol e eu estou cheia de maus sentimentos.
Tenho coisas para fazer durante todo o fim-de-semana, coisas que me tiram tempo para as minhas sestas e os meus livros, e a minha internet e os meus jogos, e a minha preguiça e os meus amigos.
Talvez por isso, hoje tentei ligar a duas ou três das minhas amigas do núcleo duro da escola anterior. E nenhuma me atendeu o telefone. E com isto, pensei que as mudanças, mesmo que para melhor, trazem sempre com elas perdas irrecuperáveis, que em certos momentos, como agora, nos angustiam. Porque tenho que trabalhar e me apetecia queixar-me disso a quem estivesse na mesma situação. Porque me apetecia regressar a um mundo, não físico, mas emocional, em que o meu local de trabalho fosse também o espaço das minhas amizades femininas. E isso, de facto, já não é.
Nesta escola, as mulheres são simpáticas, são divertidas, são boa-onda, são inteligentes e agradáveis, não me posso queixar, não. Simplesmente, não vejo em nenhuma delas sementes de cumplicidade. Não me parece que lá vá encontrar pessoas que me digam tanto como a Mzinha, a MissCovilhã, a PêloRusso, a Li ou a T. A cumplicidade feminina em nada está relacionada com a empatia. É uma fórmula equilibrada de interesses partilhados e formas de estar na vida. É, sobretudo, uma elo inquebrável que nasce de modos de rejeição idênticos. Nada aproxima tanto as mulheres como um objecto que ambas detestam. E nesta escola é tudo muito morno, muito politicamente correcto, muito superficial.
Sinto falta das minhas meninas, da má-língua, do corte e costura, do modo tão catártico que tínhamos de desabafar irritações e venenos, à mesa de uma esplanada, ou numa sala de professores de sofás dispostos em U. Sinto falta de ter com quem partir a loiça toda, e depois rir-me. Sinto mesmo falta de fazer uma chamada para me queixar da merda das planificações e ter alguém que me atenda na hora, por estar em frente a um computador, a fazer a mesmíssima coisa.
Sinto falta, nestes dias em que a minha alma está presa por uma corda a um canto da mesa, de ouvir alguém resmungar, do outro lado do telefone, contra o mesmo tipo de cárcere.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Des.ilusão

Tenho para mim, tipo mantra, que devo manter baixas expectativas em relação a tudo. A tudo o que mexa, por um lado, a tudo o que está por vir, por outro.
Tenho para mim que castelos construídos no ar, à espera de milagres, resultam apenas para aqueles, que os há, que neles, milagres, acreditam.
Tenho para mim que todos os seres humanos são falíveis, por um lado, e não são espelhos que devolvem a nossa imagem, por outro. Não devolvem absolutamente nada, melhor dizendo. Nem o nosso afecto, nem os nossos sonhos, nem as nossas esperanças, nem a nossa boa-vontade. Não devolvem. Podem dar-nos isso tudo, mas sempre independentemente dos nossos quereres. Independentemente de nós.
Por isso, des.iludo-me pouco, e cada vez menos, nesta vida.
Porque tenho para mim que quem muito se desilude, no fundo, tem um problema sério, isso sim, consigo próprio. Quando nos desiludimos, em última instância, somos sempre nós quem não está à altura, não o outro, seja ele de carne e osso, pele e cor, ou uma mera fantasia de um futuro risonho, ancorado na areia movediça da inércia.