segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Identidade Nacional

Há coisas que nos identificam, queiramos ou não, gostemos ou nem por isso, como Portugueses que somos. Não vou falar do Fado, porque não gosto, do Futebol, porque só me dá preocupações e decepções, nem de Fátima, porque não acredito. Não vou falar do bacalhau, que abomino, nem dos coentros, que detesto, nem das touradas, porque sou contra.
Então qual é a verdadeira identidade nacional? A forma como um Português prefere tudo, mas tudo, a ter que trabalhar. E com isso identifico-me eu bem.
Se não, vejamos esta pérola de diálogo que tiveram hoje comigo:
-Jade, vais a Lisboa no próximo fim-de-semana?
-Vou, porquê?
-Vais a algum shopping?
-De certeza, que queres que te traga?
-Um saquinho de gripe A.
No meio de uma histeria colectiva a nível mundial, por entre o pânico e o terror ao vírus, o tuga mostra toda a sua coragem: há que agarrar o H1N1 pelos cornos... desde que isso signifique sete dias a coçar a micose.
Vou ali já venho, beijar o primeiro ser que se atravesse à minha frente a espirrar...

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Hábitos e Costumes



Previsibilidade.
Sou uma pessoa previsível. Na maior parte do tempo, cada ser que me rodeia, conheça-me bem ou nem tanto, sabe com o que pode contar, sabe o que esperar, e sabe, principalmente, que não pode esperar muito ou contar comigo por aí além. Não sou dada a passar a mão pelo pêlo, não tenho feitio para grandes lamechices e sou um zero à esquerda quando se trata de exprimir sentimentos nobres. Também os sinto, também os tenho, mas sou pouco efusiva nos afectos, salvo raríssimas excepções.
Claro que há o reverso da medalha. As pessoas de quem gosto sabem que não se passa muito tempo sem que eu lhes telefone a dar ou pedir sinais de vida. Sabem que as procuro, que lhes mando mails, nem que sejam apenas forwards com uma frase “das minhas”, como diz a Mzinha. Que tento não deixar passar em branco os dias dos seus aniversários. Que retribuo chamadas perdidas. Que não me desleixo nas amizades.
É costume. É costume alimentar amizades a quilómetros de distância, é costume ir a casa das pessoas, é costume parar para ouvir a resposta a um “como estás, está tudo bem?”. É costume ter tempo para deitar conversa fora ao telefone, e paciência para estar horas a ouvir alguém desabafar. A ouvir mesmo, e não a fingir que oiço, enquanto penso noutras coisas. Há muita gente que se admira, tempos depois “eu disse-te isso? Eu contei-te isso? Ainda te lembras disso?” Sou assim. Sou previsível. Estou atenta.
Novembro não é um mês agradável. Começa o frio, chove, não há feriados, o tempo aperta, o trabalho cresce exponencialmente e, não sei porquê, há sempre problemas, chatices e surpresas desagradáveis. Há sempre rotinas a descarrilar, merdices a correr mal, cansaço acumulado, pormenores sem fim a anotar na moleskine. É o ponto mais negro da noite, que antecede a madrugada das coisas boas que vêm de seguida, em Dezembro. As férias, o descanso, os mimos, os presentes, as festas, o tempo para ter tempo.
Este Novembro não foi excepção, e a rotina foi a perda do que em mim era rotina e costume, a perda da previsibilidade. Abandonei blogue. Quase abandonei e-mail e telefone. Pus amigos em stand-by. Vivi para o trabalho. Dormi nos intervalos. Não foi nem fácil, nem simpático. Nem sei se foi, sequer, útil. Mas era necessário. Tive que me organizar, que parar, sem de facto o fazer. Tive que recomeçar. Tive que me ambientar a muita coisa nova, e em algo de novo em mim, cá dentro. Uma novidade que se prendeu num olhar em frente, num soltar de amarras, numa recusa em vivências nostálgicas. Fiz um grande esforço. Vivi de forma minimalista, reduzi o meu mundo ao essencial: trabalho, horas de sono e alimentação disciplinada, pouquíssimos ou nenhuns cigarros por dia. Poucas chamadas telefónicas, só à progenitora e ao cumprimento dos aniversários dos amigos. Pouca vida social. Pouca gente à volta. Ninguém a quem prestar contas ou dar justificações. Só a Mzinha e o H., porque uma vive comigo e é como se fosse minha irmã, por isso posso estar em silêncio, ou falar sem parar horas a fio, que não há cobranças nem intromissões, nem desconfortos nem juízos de valor; o outro porque me conhece quase desde sempre, lê nas entrelinhas e me oferece riso e chocolates, me empresta livros e me pergunta por eles, obrigando-me a ler e a evoluir, esteja eu dentro do poço lá no fundo, ou com o melhor dos humores.
E no fim de um Novembro com uma rotina sempre igual, mas tão diferente das rotinas dos últimos anos, sinto-me quase, quase em forma, para regressar à base, voltar a procurar outras pessoas, voltar a conversar e a deitar conversa fora. Sinto-me quase, quase pronta, para sossegar os que me ligaram “que se passa contigo?”, “preocupa-me que não escrevas”, “estás bem?”, “não é nada teu costume”…
Estou quase, quase pronta. O que se passou comigo, não sei. Se estou bem, acho que se não estou, para lá caminho. Sinto-me centrada, ou concentrada. Sinto-me em paz. Tenho andado em stress, mas sem ansiedade. Pouco efusiva, como sou por natureza, mas sem dramas interiores, o que também era costume. Pouco palavrosa, mas com a dose de parvoeira natural e suficiente para ainda me reconhecer. E, na escola onde toda a gente me trata pelo diminuitivo e os putos estão, finalmente, a começar a entender-se com a profe de Inglês, tal como na vida privada, e anormalmente recatada, que tenho levado, a minha pele, aos poucos, começa a servir-me à medida. Começo a sentir-me realmente confortável com ela. E, se Novembro raramente traz algo de bom, este, pelo menos trouxe-me isso: uma pele feita à medida das minhas necessidades.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Caíu a ficha

Andava quase há um mês com uma sensação de estranheza. Qualquer coisa não batia certo e eu não conseguia perceber o quê. Era, isso eu sabia, um sentimento peculiar e indistinto e prendia-se com a escola, com o ambiente, uma espécie de comichão de fonte indefinida. Hoje caíu a ficha:
Somos poucos. Almoçamos juntos muitíssimas vezes. Saímos frequentemente depois do sol se pôr. Entramos de manhã cedo. Tratamo-nos pelos nomes próprios. A mim, toda a gente me trata pelo diminuitivo, até a Directora. Por tu, todos e sempre. Comunicamos por mail e sms. Falamos aos fins-de-semana. Sabemos moradas e telefones, nomes de maridos, mulheres, namorados, namoradas, filhos, filhas, netos, netas e animais de estimação de toda a gente. Vamos ao supermercado da vila em excursão, porque não há tempo de fazer compras onde residimos. Assaltamos os cacifos uns dos outros, que estão sempre abertos, em busca de pastilhas e chocolates, agrafadores e tubos de cola. Às vezes passamos o tempo a rir. Outras insultamo-nos de tudo. Há alturas em que já nem nos podemos ver. Outras, temos a sensação que dormimos todos juntos.
Caíu a ficha. O que eu estranho é que aquilo tem a dinâmica de uma grande família. Da grande família que eu nunca tive: pessoas que não são escolhidas por nós, mas que temos que gramar. Pessoas que mesmo que nada nos digam, conhecemos, e conhecemos melhor que muita gente com quem convivemos há anos. Pessoas com quem é impossível mantermos grandes ódios, porque vamos levar com elas durante muito, muito tempo, e isso pesa nas nossas atitudes e nas nossas predisposições inconscientes.
É diferente do que se passava no ano passado. No ano passado era possível darmo-nos apenas com meia-dúzia de escolhidos. Era possível fazermos amigos, ter confidentes, arranjar namorados, criar grupos. Aqui, não. Qualquer relação íntima dá ideia de incesto. O grupo é geral, uma cambada de primos e primas e tios e tias, e mães e pais e irmãos e irmãs. Uma amálgama de gente virada para o trabalho e para as boleias, para os horários dos filhos e dos ginásios, a reunir e a comer bolachas, a esvaziar pacotes de sumo e leite com chocolate à medida que se controla a própria agenda e a dos outros, e se diz, não está na hora de ires buscar o teu filho? ou, hoje vou eu buscar a tua filha e depois aproveitas e jantas lá em casa quando saíres da reunião, ou ainda, e no meu caso, a deixa da semana, o xpto do teu médico já te ligou ou temos que fazer uma excursão a Lisboa para lhe partir as trombas? Enquanto não liga, toma lá um chocolate, que és linda...
E isto, para mim, é do reino do incrível. Mas não deixa de ser um grande consolo. E de me dar alguma paz interior. Uma paz que nunca tive, descontextualizada e desenraizada como sempre estive ao longo de tantos anos nesta terra.
Agora, só tenho que ter cuidado e não ir para a escola de pijama e roupão, já que vou, muitas vezes, dar aulas de chávena de café ainda em punho.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

PQP...

... este calor de Verão de dia e frio de rachar à noite, mais as mangas curtas quase em Novembro. Se o tempo, que é o tempo, anda desgovernado e doentio, como é que eu, que sou só e simplesmente eu, hei-de andar melhor?
P*ta-que-pariu!

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Metafísica de Domingo

Ele houve tempos em que o maior pesadelo do mundo era chegar a sexta-feira e encarar o fim-de-semana. Literalmente quarenta e oito horas a dar com a cabeça na parede, sem apetecer fazer nadinha, desde ir ao supermercado a limpar o pó à casa, passando pelas obrigações escolares e a dissertação de mestrado.
Ele houve tempos em que passava dois dias deitada, entre a cama e o sofá, tendo como amigos íntimos de cabeceira o comando da TV,e o trio maço de cigarros, isqueiro e cinzeiro.
Ele houve tempos em que passava muitas dessas horas de solidão a chorar, que é o que faz quem não tem força para fazer o que quer que seja, e acredita que, se a tivesse, não haveria sentido para tal.
Esses tempos, felizmente, são parte de um passado que, apesar de recente num percurso de quase trinta e quatro anos, parece estar a milhares de anos-luz de distância.
E, embora me sinta, finalmente, equilibrada racional e emocionalmente, e considere que faço parte agora da grande maioria de gente funcional, é sem dúvida outro grande busílis chegar a domingo à noite desertinha que chegue a próxima sexta-feira à tarde.
Haja normalidade. E alegria no trabalho, onde quer que essa gaja ande.

sábado, 24 de outubro de 2009

Alma presa por uma corda a um pé da mesa

Em dias como o de hoje, sinto-me uma autêntica prisioneira. Detesto sentir-me assim, num calabouço de obrigações, de tarefas por cumprir, de coisas para fazer, de deadlines a respeitar. Detesto. Sou, desde sempre, um espírito livre. Gosto de fazer o que bem me apetece. Tenho uma vida muito privilegiada, no que toca a opções, a decisões, a venetas. Tenho até, aquilo a que chamo muitas vezes, a maldição da independência quase total.
Às vezes penso que se tivesse mais âncoras, que não a do trabalho e a preocupação constante com a única pessoa do meu sangue que existe no meu mundo, que é a minha mãe, se tivesse mais âncoras, dizia, talvez me sentisse mais equilibrada, mais normal. Mas a verdade é que não tenho, e já há muito aceitei a minha alienação do mundo adulto convencional.
E em dias como o de hoje, em que esse mundo adulto me cai em cima da cabeça como um piano de cauda, acabo por me sentir completamente sufocada.
Está sol e eu estou cheia de maus sentimentos.
Tenho coisas para fazer durante todo o fim-de-semana, coisas que me tiram tempo para as minhas sestas e os meus livros, e a minha internet e os meus jogos, e a minha preguiça e os meus amigos.
Talvez por isso, hoje tentei ligar a duas ou três das minhas amigas do núcleo duro da escola anterior. E nenhuma me atendeu o telefone. E com isto, pensei que as mudanças, mesmo que para melhor, trazem sempre com elas perdas irrecuperáveis, que em certos momentos, como agora, nos angustiam. Porque tenho que trabalhar e me apetecia queixar-me disso a quem estivesse na mesma situação. Porque me apetecia regressar a um mundo, não físico, mas emocional, em que o meu local de trabalho fosse também o espaço das minhas amizades femininas. E isso, de facto, já não é.
Nesta escola, as mulheres são simpáticas, são divertidas, são boa-onda, são inteligentes e agradáveis, não me posso queixar, não. Simplesmente, não vejo em nenhuma delas sementes de cumplicidade. Não me parece que lá vá encontrar pessoas que me digam tanto como a Mzinha, a MissCovilhã, a PêloRusso, a Li ou a T. A cumplicidade feminina em nada está relacionada com a empatia. É uma fórmula equilibrada de interesses partilhados e formas de estar na vida. É, sobretudo, uma elo inquebrável que nasce de modos de rejeição idênticos. Nada aproxima tanto as mulheres como um objecto que ambas detestam. E nesta escola é tudo muito morno, muito politicamente correcto, muito superficial.
Sinto falta das minhas meninas, da má-língua, do corte e costura, do modo tão catártico que tínhamos de desabafar irritações e venenos, à mesa de uma esplanada, ou numa sala de professores de sofás dispostos em U. Sinto falta de ter com quem partir a loiça toda, e depois rir-me. Sinto mesmo falta de fazer uma chamada para me queixar da merda das planificações e ter alguém que me atenda na hora, por estar em frente a um computador, a fazer a mesmíssima coisa.
Sinto falta, nestes dias em que a minha alma está presa por uma corda a um canto da mesa, de ouvir alguém resmungar, do outro lado do telefone, contra o mesmo tipo de cárcere.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Des.ilusão

Tenho para mim, tipo mantra, que devo manter baixas expectativas em relação a tudo. A tudo o que mexa, por um lado, a tudo o que está por vir, por outro.
Tenho para mim que castelos construídos no ar, à espera de milagres, resultam apenas para aqueles, que os há, que neles, milagres, acreditam.
Tenho para mim que todos os seres humanos são falíveis, por um lado, e não são espelhos que devolvem a nossa imagem, por outro. Não devolvem absolutamente nada, melhor dizendo. Nem o nosso afecto, nem os nossos sonhos, nem as nossas esperanças, nem a nossa boa-vontade. Não devolvem. Podem dar-nos isso tudo, mas sempre independentemente dos nossos quereres. Independentemente de nós.
Por isso, des.iludo-me pouco, e cada vez menos, nesta vida.
Porque tenho para mim que quem muito se desilude, no fundo, tem um problema sério, isso sim, consigo próprio. Quando nos desiludimos, em última instância, somos sempre nós quem não está à altura, não o outro, seja ele de carne e osso, pele e cor, ou uma mera fantasia de um futuro risonho, ancorado na areia movediça da inércia.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Eu tentei...

... mas não sou capaz.
Enquanto toda a gente normal está a começar a ver a 5ª temporada da Grey na 2, gente menos normal já a viu na FoxLife. E, depois, há os perfeitos anormais, como eu, graças aos CTT e a uma amiga sempre em cima do acontecimento, que vão acompanhando a 6ª temporada quase em directo, semana a semana, à medida que cada episódio vai saindo nos States.
E o meu amigo Pan, que viu a estreia da 5a temporada na 2, resmunga que aquilo está "fraquinho". E eu, que vi a temporada toda de enfiada num CD recebido na caixa de correio, aconselho-o a não desistir, a morder-me toda de impaciência para não lhe dizer o que se vai passar, do género "Don't be an ass-hole!!!".
Mas confesso que isto de esperar pelo episódio da próxima semana, depois de estar habituada a ver tudo sem respirar, comer e dormir, me está a tirar do sério. É que a nova temporada, por mais que alguns digam que "O House, o House é que está a bombar!...", a mim, está a enervar sobremaneira.
Eu tentei, juro, mas não consegui: My name is Jade and I'm an addict.
Estou doidinha para ver no que isto vai dar. E deserta por vos contar... mas não posso, apre!

Um dia, inesperadamente, compensa.

É como aquela ideia brilhante dos pacotes de açúcar de uma marca de cafés conhecida: Um dia...Este é o dia. Ou Hoje é o dia.
Um dia vou sair mesmo feliz de uma aula de Inglês de nono ano. Hoje foi o dia.
Estou a dar uma unidade temática que se prende com Music and Cinema. Só por si, é motivante para eles e para mim. A escola obriga a uma data de projectos ditos transversais e comemorações das festividades mais absurdas. O Halloween não poderia faltar, claro. Então pus-me a pensar num modo de juntar tudo, perder pouco tempo com palhaçadas e não repetir o que aqueles desgraçados adolescentes fazem todos os anos. Nada de concursos de abóboras, nada de trick or treating.
Filmes, música e Halloween? Levaram com o espectacular "Nightmare Before Christmas", do Tim Burton, na versão original e sem legendas em Português. Passei-lhes vezes sem conta a canção inicial. Propus-lhes um duplo trabalho, cada um escolhe uma personagem e faz-lhe a caracterização escrita em Inglês. Para além disso, faz também a sua interpretação artística, como quiser. Surgiram ideias do arco-da-velha. Um vai montar, em cartolina, uma cena do filme em 3D. Outra vai fazer a Sally. Vai fazê-la mesmo, a boneca do vudu, à mão, cosida com a ajuda da avó. Outros vão fazer o boogie-man em plasticina, com direito às minhocas a sair lá de dentro e tudo. Há uma proposta de apresentação do Jack Skellington em tela pintada a óleo. Um grupinho ficou de redigir, em Inglês, o plot do filme, para contextualizar o que será, no caso de haver trabalhos de qualidade, uma exposição na biblioteca.
Os resultados, não sei. Mas não serão decepcionantes, porque já valeu, e de muito, o entusiasmo, os olhos brilhantes, os grandes sorrisos, e as vozes em coro a cantar "This is Halloween, this is Halloween". Surrealista, por tudo. Por serem adolescentes e, ainda assim, cantarem em coro sem vergonha, e sem eu lhes pedir, num Inglês quase perfeito. Por interromperem o filme para perguntar "o que é que ele disse, stôra?", por me responderem em coro, quando eu lhes perguntava, "o que é que ele disse agora, meninos?", por repetirem frases conhecidas, à medida que elas iam surgindo "What is this?", "This seems fun!", "Trick or treat!" Quem diria? Do reino do incrível...
E o meu sorriso aberto? Pespegou-se-me no rosto quando uma das minhas alunas, que não percebe nadinha de Inglês, me diz no fim da aula, ó stôra, afinal percebi o filme, percebi muitas frases... temos que fazer isto mais vezes!
Haja imaginação da minha parte, que a deles está boa e recomenda-se! E hoje fingiram que sabiam muito mais Inglês do que à partida parecia. E fingiram tão bem que eu resolvi, só hoje, só desta vez, acreditar neles.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Sobre a Paciência

Há gente muito paciente. Eu sou tolerante o suficiente, o que não é o mesmo que dizer que sou paciente o suficiente. De facto, um dos meus defeitos é a impaciência. Um professor impaciente é, por norma, um professor incompetente. Ainda assim, contradição das contradições, não me considero incompetente. Isto porque sofro de impaciência selectiva: eu sou aquela que explica trezentas mil vezes a mesma regra a um aluno com a sensibilidade linguística de um calhau, mas dá um par de berros a um aluno que, por mais brilhante e dotado que seja, me pergunta pela terceira vez "que lição é hoje?", "é em que página?" ou "isso é para passar?"
Impaciência profissional selectiva.
E no que diz respeito à vida privada?
Aí, sou coerente. Com a selectividade, bem visto. Aturo tudo à família e amigos. Aturo muito a colegas e desconhecidos. Os meus níveis de atenção são elevados quando toca a ouvir histórias, historietas e desabafos, lamúrias, lamentações e conversas parvas, sérias ou desconversas divertidas. HOWEVER... não tenho pachorra nenhuma, repito, nenhuma, para gente má.
Hoje, na minha escola, havia uma acção de formação sobre "Educação Sexual". O tema é importante, não o nego. Até poderia lá ter estado, não fosse um conjunto de circunstâncias que desenhou um contexto específico no qual a minha presença seria um verdadeiro sacrifício. E eu evito, ao máximo, fazer fretes, porque não consigo disfarçar o desagrado, lá está, fico impaciente, sou como as crianças, mexo-me, bocejo, sopro, reviro os olhos. A acção de formação era um convite a todos os professores. Como ninguém se inscreveu, houve uma ameaça velada a que seria o convite transformado em convocatória. Ai, o que eu adoro ameaças, não vem nos livros. Diz-me a minha inteligência mediana que Formação Profissional, por enquanto, cada um ainda escolhe aquela de que mais precisa. Se sou uma expert em Educação Sexual? Claro que não sou. Precisarei de o ser a curto prazo? Não, de todo, não sou DT, não dou Área de Projecto, não estou em nenhuma equipa de Educação para a Saúde. Escolhi declinar o convite, o tal que nunca chegou a convocatória.
E hoje, à hora de almoço, vim-me embora, com colegas a vociferar nas minhas costas, então mas afinal não era obrigatório? E eu, desculpa, vês alguma coisa nas convocatórias? ai, e tal, não, mas disseram-me... Marimbei no que disseram. Parece que as estou a ouvir "A Jade tem a mania que é esperta, que é mais que os outros, ainda se lixa, vai ter falta, vamos lá nós, ovelhinhas, cumprir, mas no entretanto dizemos mal da acção, da formadora, dos que nos obrigam a ir e, claro, da Jade."
A Jade não tem a mania que é esperta, a Jade pensa por si própria e está-se nas tintas para o que pensam dela.
Aqueles idiotas que lá ficaram contra-vontade, em vez de me insultarem com toda a invejazinha que lhes enche as almas pequeninas, seriam mais saudáveis se fossem menos cobardes e dissessem, não vou porque não quero. Não vou porque não me interessa. Não vou porque não sou menos professor ou menos competente por isso. Mas são pessoas cheias de medo, de preconceitos, de chico-espertice, de maquiavelice, de comparação de estatutos, de análise pela rama que validam de absolutos.
E, para gente assim, não tenho mesmo paciência nenhuma.
E se, amanhã, gente assim me tiver valido uma falta, coisa que não me surpreende mesmo nada, pelo menos não me valeu um grande frete, e mais um prego para o caixão, que eu ando doente. E a paciência, que já é pouca, é inversamente proporcional às dores do corpo. Com as outras dores, as de cotovelo dos coleguinhas, posso eu bem.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Engole já o que disseste!

Passo a vida a azucrinar os meus colegas de informática que, de cada vez que há chatice com algum computador, dizem, com um ar muito entendido, desliga e volta a ligar...
Passo a vida a insultá-los de tudo, a resmungar que ninguém precisa de quatro ou cinco anos numa universidade para aprender duas frases, "desliga e volta a ligar" e "o equipamento tem sempre razão".
Passo a vida a olhar para eles de cima, do alto do meu metro e quase setenta, com um ar arrogante e intelectual, de quem estudou coisas importantes e muito úteis, como Literatura, que toda a gente sabe que é fundamental, dá dinheiro com'ó caraças e desenrasca tudo no dia-a-dia, desde mudar uma lâmpada a alardear soluções práticas para qualquer problema existencial e material.
Passo a vida nisto, nesta atitude simpática e solidária, com aqueles a quem chamo "licenciados de terceira categoria", "engenheiros da tanga" ou "geeks do teclado".
Hoje, um deles acabou por me poupar mais de mil euros num computador novo. Ou, a duas amigas minhas, a chatice de sairem das suas vidinhas para tentar fazer o mesmo.
Por isso, a partir de hoje, quem percebe de informática passou a constar da minha lista de heróis.
E engulo tudo o que disse. A seco. E em silêncio, que é como eu devia estar muito mais vezes, para não dizer asneiras.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Cavalo de Tróia

O meu computador andou a ameaçar algum tempo. A queixar-se. A gemer. A destemperar-se. A perder a pachorra. A fechar a meio de trabalhos. A mandar-me à outra parte. A dizer que estava doente, que tinha vírus, que não podia lavar as mãos e precisava de descanso.
Hoje foi o dia. Finalmente, desisitu. Recusou-se a arrancar.


Eu ando a ameaçar há algum tempo. A queixar-me. A gemer. A destemperar-me. A perder a pachorra. A fechar a meio de raciocínios e frases. A mandar meio mundo à outra parte. A dizer que estou doente, apesar de lavar as mãos 2834 vezes ao dia, e preciso de descanso.
Amanhã será o dia. Considero seriamente desistir e recusar-me a arrancar e ligar para a escola a dizer que estou de cama com um Trojan Horse. E é favor de não fazer piadas porcas.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Acho um bocadinho ridículo...

... chamar "Estadunidenses" aos Americanos. Sim, eu sei que os Canadianos, os Argentinos, os Mexicanos e os Chilenos, mais os Brasileiros e os Cubanos, e os restantes povos todos desse Continente, também são Americanos. Eu sei, e alguém tem dúvidas disso? Mas acho pedante, a do estadunidense. E sintoma de complexo de inferioridade, trauma de infância, dor de cotovelo, ressabiamento, e antiamericanismo (Antiestadunidensismo????), tudo junto, e já démodé, na era Obama. Acho pseudo-intelectual. Acho poucochinho, o preciosismo politicamente correcto. Além de tal ideia ter que vir da cabeça de um tuga, como raio é que isso se diz em Inglês? United Statese? United Statish? E, pela mesma ordem de ideias, não se deveriam rebelar depois os Brasileiros, nacionais de outra confederação de Estados Unidos? Pronto, eu calo-me. Mas não sem antes acrescentar que...
...acho um bocadinho ridículo, vá.

Ok, ok, nem tudo é mau...

Enquanto espero pelos meus adultos, e vou escrevendo uns posts e soltando um veneno, resolvo fumar um cigarro ao portão da escola semi-assombrada, que não está cá ninguém.
Passa por mim, durante a meia-dúzia de minutos que a cena leva, meia-dúzia de pessoas que não conheço de lado nenhum. Todas me dizem, boa tarde, professora.
E eu acho isto simpático. Embora um pouco constrangedor.

E um beijo na boca, não?

Estive três horas numa reunião de Conselho de Turma. Às tantas, passei-me e disse que me ia embora, que estava mais que farta daquilo. Que estava na escola desde as oito e meia da manhã. Responderam-me "Jade, estamos todos na mesma situação". Pedi o direito a três interpelações à geral. "Levante o braço quem ontem esteve mais de dez horas na escola". Nada. "Levante o braço quem esteve, entre ontem e hoje, menos de doze horas em casa" Nada. "Levante o braço quem vai estar, hoje, treze horas na escola" Nada. "I rest my case. Todos na mesma situação? Não me parece". E a reunião acabou ali.
Não acrescentei que no bloco de noventa minutos das dez e meia da manhã, que era suposto estar em co-docência à conta de um projecto "mais sucesso", a minha coleguinha se pirou num "vou ali já venho" muito astuto, e me deixou a hora e meia pendurada sozinha com a turma. Uma atitude muito simpática e muito profissional, como é óbvio.
Só não tive direito ao beijo na boca. É que quando me f*dem, gosto que me beijem na boca.

Pois, não sei.

Não faço a mais pequena ideia do que me faz mais comichão: se a Maitê Proença armada em parva num vídeo que anda no youtube e nas caixas de e-mail de todo o país, a dizer mal de Portugal e dos Portugueses; se os comentários xenófobos de muitos Portugueses ao dito, numa alarmante onda anti-Maitê alargada e confundida com uma onda anti-Brasil/eiros; se uma alergia que tenho no pulso por causa sabe-se lá bem do quê.
As três hipóteses são fenómenos aos quais, julgo eu, o melhor é dar pouca importância. Coisas pequeninas e desinteressantes facilmente se tornam graves quando se lhes dá confiança. Faz comichão, faz... mas não coce, ou faz ferida.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Seja lá isso onde for...

Hoje, como já deu para notar, estou piursa.
Por isso, e depois de dez horas na escola, non-stop, mais as treze que me esperam amanhã, mais o trabalho que ainda trouxe para acabar ao serão, que é como quem diz, boa piada, chamar serão ao tempo entre as dez e as onze e meia, sem sequer jantar decentemente, depois de tudo isto, tenho duas coisas a dizer, ou melhor, a BERRAR...
1- Vou-me deitar, e como dizia agora numa sms à Shadow, fazer força para sonhar que sou a Rainha do Sába (ou Sábá? epá, não sei, não sei quem é o gajo ou, se é lugar, onde é que essa trampa fica, só sei que a essa rainha toda a malta é obrigada a prestar vassalagem, que a fulana não faz um chavelho...) e que tenho trezentos gajos bons a abanar-me com plumas, a meter-me uvas na boca e a mudar-me os canais da TV Cabo, enquanto são insultados por não ser suficientemente competentes... ai que está aqui demasiado vento, ai que as uvas são amargas, ai que não me apetece o CSI Miami mais o cenoura de cara à banda, SEUS IMBECIS!...
2- O PRIMEIRO CRETINO QUE SE ATREVER A DIZER-ME QUE SE GANHAR O EUROMILHÕES CONTINUA A TRABALHAR, MORRERÁ ÀS MINHAS MÃOS DE MORTE MATADA LENTA E DOLOROSA. Muahahahah!!!...
Pronto, já disse.