Há gente muito paciente. Eu sou tolerante o suficiente, o que não é o mesmo que dizer que sou paciente o suficiente. De facto, um dos meus defeitos é a impaciência. Um professor impaciente é, por norma, um professor incompetente. Ainda assim, contradição das contradições, não me considero incompetente. Isto porque sofro de impaciência selectiva: eu sou aquela que explica trezentas mil vezes a mesma regra a um aluno com a sensibilidade linguística de um calhau, mas dá um par de berros a um aluno que, por mais brilhante e dotado que seja, me pergunta pela terceira vez "que lição é hoje?", "é em que página?" ou "isso é para passar?"
Impaciência profissional selectiva.
E no que diz respeito à vida privada?
Aí, sou coerente. Com a selectividade, bem visto. Aturo tudo à família e amigos. Aturo muito a colegas e desconhecidos. Os meus níveis de atenção são elevados quando toca a ouvir histórias, historietas e desabafos, lamúrias, lamentações e conversas parvas, sérias ou desconversas divertidas. HOWEVER... não tenho pachorra nenhuma, repito, nenhuma, para gente má.
Hoje, na minha escola, havia uma acção de formação sobre "Educação Sexual". O tema é importante, não o nego. Até poderia lá ter estado, não fosse um conjunto de circunstâncias que desenhou um contexto específico no qual a minha presença seria um verdadeiro sacrifício. E eu evito, ao máximo, fazer fretes, porque não consigo disfarçar o desagrado, lá está, fico impaciente, sou como as crianças, mexo-me, bocejo, sopro, reviro os olhos. A acção de formação era um convite a todos os professores. Como ninguém se inscreveu, houve uma ameaça velada a que seria o convite transformado em convocatória. Ai, o que eu adoro ameaças, não vem nos livros. Diz-me a minha inteligência mediana que Formação Profissional, por enquanto, cada um ainda escolhe aquela de que mais precisa. Se sou uma expert em Educação Sexual? Claro que não sou. Precisarei de o ser a curto prazo? Não, de todo, não sou DT, não dou Área de Projecto, não estou em nenhuma equipa de Educação para a Saúde. Escolhi declinar o convite, o tal que nunca chegou a convocatória.
E hoje, à hora de almoço, vim-me embora, com colegas a vociferar nas minhas costas, então mas afinal não era obrigatório? E eu, desculpa, vês alguma coisa nas convocatórias? ai, e tal, não, mas disseram-me... Marimbei no que disseram. Parece que as estou a ouvir "A Jade tem a mania que é esperta, que é mais que os outros, ainda se lixa, vai ter falta, vamos lá nós, ovelhinhas, cumprir, mas no entretanto dizemos mal da acção, da formadora, dos que nos obrigam a ir e, claro, da Jade."
A Jade não tem a mania que é esperta, a Jade pensa por si própria e está-se nas tintas para o que pensam dela.
Aqueles idiotas que lá ficaram contra-vontade, em vez de me insultarem com toda a invejazinha que lhes enche as almas pequeninas, seriam mais saudáveis se fossem menos cobardes e dissessem, não vou porque não quero. Não vou porque não me interessa. Não vou porque não sou menos professor ou menos competente por isso. Mas são pessoas cheias de medo, de preconceitos, de chico-espertice, de maquiavelice, de comparação de estatutos, de análise pela rama que validam de absolutos.
E, para gente assim, não tenho mesmo paciência nenhuma.
E se, amanhã, gente assim me tiver valido uma falta, coisa que não me surpreende mesmo nada, pelo menos não me valeu um grande frete, e mais um prego para o caixão, que eu ando doente. E a paciência, que já é pouca, é inversamente proporcional às dores do corpo. Com as outras dores, as de cotovelo dos coleguinhas, posso eu bem.