Ando a ler um livro interessantíssimo de um filósofo francês, Bernard-Henri Lévi, chamado Vertigem Americana. É a visão francesa sobre a América Contemporânea, ou melhor, sobre os EUA da actualidade. Estou a adorar, claro.
Há uma frase deste livro que me anda a ecoar nas orelhas desde que a li: "A ditadura desse novo senhor, não menos feroz que o outro, que é "a maioria" ou a "opinião"... a "pressão" do espírito de todos sobre a inteligência de cada um".
Tenho sentido isto de forma avassaladora, em muitos domínios da minha vida, na idade adulta. Foram muitos os que me tentaram tutelar as atitudes e, pior que isso, os valores, as vontades, o percurso de vida.
Familiares tentaram fazê-lo no sentido das convenções, de um casamento que me proporcionasse o estilo de vida de classe média-alta a que sempre estive habituada. E foi por um triz. Nessa altura, a hipnose era de tal ordem que, se não fosse a providência divina de uma grande paixão politicamente incorrectíssima, poderia estar hoje casada e cheia de filhos. Mas profundamente infeliz, de certezinha. Depois, foram as amiguinhas a querer mandar na minha vida, a troco de favores antigos. Não durou muito, a cegueira. Em três tempos, mandei tudo ao ar e comecei novamente. Com menos amigos e menos família. Com menos maiorias de tolos a ditar as leis dentro da minha cabeça. Com menos fazedores de opinião a impor-me leis alheias de conduta.
Isto passou-se já lá vão mais de três anos. E foi uma fase traumatizante, como, dizem os neurologistas e os pedo-psiquiatras, traumatizante é nascer.
Desde aí, o que me entristece, confesso, é ver adultos ditos equilibrados agarrados às ideias dominantes, e incapazes de as questionar. Colegas de trabalho inteligentes que não usufruem do seu raciocínio, paralisados pela ideia "quem manda, manda assim, a gente desenrasca, a gente cumpre, a gente obedece". Às vezes, palavra de honra, pergunto-me se quem manda já se apercebeu disto. Porque eu acho que sim, e que tomam o pulso do absurdo a que a multidão de parvos chegará, até onde irá, até onde cumprirá. Porque há coisas mesmo idiotas a ser feitas nas escolas, e toda a gente parece estar de acordo com elas. E eu recuso-me a, por estar contra, ser etiquetada de imbecil. Recuso-me a que me chamem idiota por achar que não tenho bases para dar Contabilidade e Informática, quando sou Licenciada em Línguas e Literaturas. Sou eu que sou estúpida, ou são estúpidos os que me obrigam a formar pessoas sem ter eu formação para isso?
Recuso-me a que me chamem cretina, por exemplo, por achar que não devo votar num partido que me fez a vida negra quatro anos, enquanto representante de uma classe profissional que foi desacreditada, ignorada e enxovalhada. Um amigo meu disse-me "tu não podes falar porque não tens consciência política". E eu admito, não tenho. Ai, e tal, porque "ao meu partido deves a democracia". Será verdade. Mas até quando vai esta classe política viver à sombra de quem fez a revolução? Até onde irão, pondo e dispondo da vida e das carreiras das pessoas "sem consciência política", é certo, mas com um mínimo de perspicácia, a suficiente para verem os anos que empenharam numa Universidade a ir água abaixo, e a ser caladas com arrogância e manipuladas como robots?
De facto, não tenho consciência política. Sou ignorante. Sou apartidária. Mas ignorância não é burrice, e recuso palas nos olhos e cabresto nos dentes. Não me venha uma maioria qualquer dizer o que pensar. Não me venha uma maioria absoluta dizer que sou eu que estou mal, por achar que são todos uns imbecis, esses senhores dos gabinetes que acham que uma professora de Línguas deve ensinar adultos a preencher formulários do IRS, dar-lhes noções de gestão e linguagens informáticas e ainda se sentir muito satisfeita com o sistema, e consigo própria.
Ironicamente, o partido do meu amigo cheio de sabedoria e consciência política, e arrogância suficiente para achar que nós, os outros, "não podemos falar", perdeu as eleições. É que a malta não pode falar mas, por enquanto, ainda pode votar.
I'm a free thinker. Arrest me.